Shushogi
O significado da
prática e da iluminação (Eihei Dogen)[1]
I. Introdução geral
1.
O completo
esclarecimento do significado do nascimento e da morte é a questão mais
importante para aqueles que percorrem o caminho de Buda.[2]
Se Buda reside no
nascimento e na morte, então não há nascimento e morte.
Simplesmente compreenda
que nascimento e morte são a iluminação em si mesmos, não havendo
nascimento-morte a ser odiado, nem iluminação a ser desejada.
Assim, pela
primeira vez, você estará livre do nascimento e da morte.
Compreender este
problema é de suprema importância.
2.
É difícil nascer
como ser humano, e ainda mais difícil encontrar os ensinamentos de Buda.
Contudo, graças às
virtudes acumuladas no passado, não apenas pudemos nascer como humanos como
também encontrar os ensinamentos de Buda.
Dentro do campo do
nascimento-morte, nossa vida atual é a melhor de todas; não desperdicemos
futilmente nossos corpos, abandonando-os aos ventos da impermanência.
3.
Não podemos nos
deixar levar pela impermanência, pois não sabemos quando ou onde esta nossa
vida passageira terminará. Este corpo já está além de nosso controle; e a vida,
à mercê do tempo, move-se sem parar ao menos um instante. Uma vez que o rosto
corado da juventude desaparece, não podemos encontrar nem seus vestígios.
Quando pensamos cuidadosamente sobre o tempo, percebemos que, uma vez perdido,
ele nunca retorna. Encarando repentinamente a perspectiva da morte, de nada
vale a ajuda de reis, ministros de estado, parentes, servos, esposas, filhos ou
riquezas. Nós devemos entrar no campo da morte sozinhos, acompanhados apenas de
nosso bom ou mau carma.[3]
4.
Evite se associar a
pessoas iludidas, ignorantes sobre a lei da causalidade e da retribuição
cármica. Elas não estão conscientes dos três estágios do tempo e são incapazes de
distinguir o bem do mal. Porém a lei da causalidade é ao mesmo tempo clara e
impessoal; inevitavelmente aqueles que fazem o mal caem e aqueles que fazem o
bem ascendem. Se não houvesse a causalidade, os budas[4]
não teriam aparecido neste mundo, nem Bodhidharma[5]
teria ido à China.
5.
As conseqüências do
bem e do mal ocorrem em três períodos do tempo: retribuição experimentada na
vida presente, retribuição experimentada na vida seguinte a esta e retribuição
experimentada nas vidas subseqüentes. Este é primeiro ponto que deve ser
estudado e esclarecido quando se pratica o caminho dos budas e dos ancestrais.[6]
Caso contrário,
muitos de vocês cometerão erros e desenvolverão falsos pontos de vista. Não
apenas isso, mas cairão em maus mundos, passando por longos períodos de
sofrimento.
6.
Entenda que nessa
existência você só tem uma vida, não duas ou três. Quão lamentável será se,
futilmente, adotando falsos pontos de vista, você agir erradamente, pensando
não estar fazendo o mal. Você não pode evitar a retribuição cármica de suas más
ações mesmo que, erradamente, pense que, por desconhecer sua existência, não
está sujeito a ela.
II. O
arrependimento e a extinção do mau carma
7. Os budas e os
ancestrais, devido à sua ilimitada compaixão, abriram os portais do caminho
para que todos os seres, humanos e celestiais, possam realizar a iluminação.
Apesar de a
retribuição cármica por más ações aparecer em um dos três períodos de tempo, o
arrependimento diminui seus efeitos e elimina o mau carma, trazendo purificação.
8. Portanto,
devemos nos arrepender, com toda sinceridade, diante de Buda. O poder do mérito
que resulta de arrepender-se dessa forma diante de Buda nos salva e nos
purifica. Esse mérito encoraja o livre crescimento da fé e do pleno esforço.
Quando a fé surge, ela transforma a nós e a todos, e seus benefícios se
estendem a todos os seres, animados e inanimados.
9. A essência do
arrependimento é expressa desta forma: “Apesar de termos acumulado muitos maus
carmas no passado, produzindo causas e condições que obstruem nossa prática do
caminho, que os budas e os ancestrais que alcançaram o Caminho de Buda sejam
compassivos, nos libertando da retribuição cármica, removendo os obstáculos à
prática do caminho e dividindo conosco sua compaixão, pois é por meio dela que
seus méritos e ensinamentos preenchem todo o universo”. Buda e os ancestrais já
foram como nós; no futuro, seremos como eles.
10. “De todo nosso mau carma do passado, nascido
do apego, raiva e ignorância inerentes a nosso corpo, fala e mente, nos
arrependemos.” Se nos arrependermos dessa forma, certamente receberemos a ajuda
invisível dos Budas e ancestrais. Mantendo isso em mente e agindo da maneira
correta, devemos nos arrepender sinceramente diante de Buda. O poder desse
arrependimento cortará pelas raízes o mau carma.
III. Recebendo os
preceitos e a ordenação
11. Em seguida,
devemos venerar profundamente os três tesouros, o Buda, o Dharma[7]
e a Sangha.[8] Devemos
fazer o voto de venerar os três tesouros igualmente em nossas vidas e corpos
futuros. Essa respeitosa veneração ao Buda, ao Dharma e à Sangha é o
ensinamento que os budas e os ancestrais da Índia e da China corretamente nos
transmitiram.
12. Pessoas
desafortunadas e de poucas virtudes são incapazes de ouvir o nome dos três
tesouros, quanto mais de tomar refúgio neles. Não busque amparo, compelido pelo
medo, inutilmente, em espíritos das montanhas ou fantasmas ou santuários não
budistas. Esse tipo de ajuda não nos liberta do sofrimento. Tomemos rapidamente
refúgio nos três tesouros, o Buda o Dharma e a Sangha, não apenas nos
libertando do sofrimento como nos dirigindo à realização da iluminação.
13. Ao tomar
refúgio nos três tesouros, nós devemos ter uma fé pura. Tanto durante como
depois da vida do Tathagata,[9]
devemos juntar as palmas em gasshô, abaixar a cabeça e recitar: “Tomamos
refúgio em Buda, tomamos refúgio no Dharma, tomamos refúgio na Sangha”. Tomamos
refúgio em Buda porque é um grande mestre. Tomamos refúgio no Dharma porque é
um bom remédio. Tomamos refúgio na Sangha porque são bons amigos. Somente
quando tomamos refúgio nos três tesouros é que nos tornamos discípulos de Buda.
Quaisquer preceitos que recebermos deverão vir após tomarmos esses três
refúgios. Assim, para recebermos os preceitos, devemos antes tomar os três
refúgios.
14. O mérito de
tomar refúgio em Buda, no Dharma e na Sangha inevitavelmente surgirá quando
houver uma comunicação espiritual entre o praticante e o caminho. Quando há uma
comunicação espiritual entre o praticante e o caminho, todos os seres, sejam
eles celestiais, humanos, infernais, demônios famintos ou animais, também tomam
refúgio. Aqueles que tomam refúgio, vida após vida, tempo após tempo,
existência após existência, lugar após lugar, estarão sempre avançando e
seguramente acumulando méritos, atingindo a completa e perfeita iluminação.
Devemos perceber que o mérito dos três refúgios é o mais honrado, o mais
elevado e o mais profundo que se pode conceber.
15. Em seguida,
devemos receber os três preceitos puros: não praticar más ações, praticar boas
ações e beneficiar todos os seres vivos.
Então devemos receber as dez graves proibições: não tirar a vida de
nenhum ser vivo, não tomar o que não lhe pertence, não ter conduta sexual
imprópria, não mentir, não se intoxicar, não criticar os outros, não se elogiar
e não difamar os outros, não ser mesquinho com suas posses e com os
ensinamentos de Buda, não permitir a raiva, não maldizer os três tesouros.
Todos os budas recebem e observam os três refúgios, os três preceitos puros e
as dez graves proibições.
16. Aqueles que
recebem os preceitos realizam a insuperável, completa e perfeita iluminação
experimentada por todos os budas dos três tempos, o indestrutível e diamantino
ensinamento de Buda. Há alguma pessoa que não queira buscar esse objetivo? O
Honrado mostrou claramente a todos seres vivos que, quando eles recebem seus
preceitos, unem-se à ordem de Buda, igualmente realizando a iluminação e
tornando-se seus filhos.
17. É por esse
campo que transitam os budas, não dedicando seu pensamento às diversas
aparências, e, praticando longamente assim, as aparências não se manifestam em
seus diversos pensamentos. Neste momento, a terra, a grama e as árvores, as
cercas e as paredes, os tijolos e as pedras, tudo que se encontra nas dez
direções realiza o caminho da iluminação. Assim, todos os seres que se
beneficiam do vento e da água dessa forma são misteriosamente ajudados pela
inconcebível força transformadora de Buda, iluminando-se. Esse é o mérito da
não intenção, esse é o mérito da não força. Isso é o despertar da mente da
iluminação.
IV. Fazendo o voto
de beneficiar todos os seres
18. Despertar para
a mente da iluminação é realizar o voto de salvar todos os seres antes de
salvar a si próprio. Leigo ou monge, ser celestial ou humano, sofrendo ou em
paz, devemos rapidamente desenvolver a intenção de salvar os outros antes de
salvar a nós mesmos.
19. Ainda que de
aparência humilde, aquele que tem essa intenção já é o mestre de todos os seres
vivos. Mesmo uma menina de sete anos pode ser mestre da assembléia das quatro
classes e mãe compassiva de todos os seres, pois homens e mulheres são iguais.
Este é o princípio mais elevado do ensinamento de Buda.
20. Após despertar
para a mente da iluminação, ainda que perambulemos pelas seis existências e
pelas quatro formas de nascimento, as circunstâncias desses ciclos são elas
mesmas a oportunidade para a prática do voto de beneficiar todos os seres.
Assim, apesar de até agora nós termos desperdiçado inutilmente nosso tempo,
devemos urgentemente fazer esse voto antes que a vida presente se passe. Ainda
que obtenhamos grandes méritos, suficientes para que nos tornemos Buda, nós os
devolveremos, dedicando-os a todos seres vivos, para que possam se tornar Buda
e alcançar o caminho. Há alguns que praticam por incontáveis kalpas,[10]
salvando seres vivos sem se tornarem budas; eles sacrificam sua própria
iluminação para salvar e beneficiar todos os seres.
21. Há quatro tipos
de sabedoria que beneficiam os seres vivos: doações, palavras amáveis, ações
que beneficiam e cooperação. Essas são as práticas do voto do bodhisatva.[11]
Realizar doações significa não cobiçar. A princípio, apesar de nada ser
realmente propriedade de alguém, isso não nos impede de praticar a doação. Não
despreze nem mesmo uma pequena oferenda; sua dádiva certamente dará frutos.
Portanto, devemos doar até mesmo uma linha ou um verso do Dharma, semeando o
bem para estas e outras vidas. Nós
devemos doar qualquer tesouro, mesmo que uma moeda ou uma simples folha de
grama, criando boas raízes para este e outros mundos. O Dharma é um tesouro e o
tesouro é o Dharma. Sem esperar agradecimento ou recompensas dos outros, nós
simplesmente compartilhamos nosso esforço com todos. Fornecer um barco ou
construir pontes são também uma doação perfeita. Ganhar a vida e produzir são
fundamentalmente nada mais que doar.
22. Usar palavras
amáveis significa pensar com carinho nos outros seres vivos e, ao encontrá-los,
oferecer-lhes palavras gentis. Falar com um sentimento de afeto pelos seres
vivos como se fossem todos nossos filhos é o que se entende por usar palavras
amáveis. Devemos louvar o virtuoso e ter compaixão dos que não possuem virtude.
As palavras amáveis são fundamentais para abrandar um inimigo e trazer harmonia
entre amigos. Ouvir um discurso gentil de alguém ilumina o rosto e agrada o
coração. Além disso, as palavras amáveis sempre deixam uma profunda impressão.
Devemos compreender que as palavras amáveis são capazes de mudar os céus.
23. Praticar ações
benéficas significa sempre buscar boas maneiras de beneficiar todos os seres,
sejam nobres ou humildes. Os que ajudam uma tartaruga aprisionada ou um pássaro
ferido simplesmente praticam ações benéficas, sem esperar reconhecimento ou
agradecimento. O tolo crê que seus próprios interesses serão prejudicados se
ele primeiramente beneficiar os outros. Isso não é assim. Ações benéficas se
estendem sempre, universalmente, para si mesmo e para os outros.
24. Praticar a
cooperação significa não diferenciar, não fazer distinção entre si mesmo e os
outros. É, por exemplo, a vida humana do Tathagata, que é igual à de todos os
seres humanos. Ao se compreender isso profundamente passamos a identificar os
outros conosco e nós com os outros. Então não há fronteiras entre nós mesmos e
os outros. O oceano não rejeita nenhuma água; isso é cooperação. É devido a
isso que a água se junta e forma um oceano.
25. Em resumo,
devemos calmamente refletir sobre o fato de que a prática do voto de acordar
para a mente da iluminação compreende esses princípios; não devemos ser precipitados.
Ao trabalhar, salvando a todos, devemos venerar e respeitar esses méritos, que
permitem a todo ser vivo receber orientação.
V. Praticando o
Caminho de Buda e retribuindo benefícios
26. Buscar a mente da
iluminação é algo que todos neste mundo deveriam fazer, prioritariamente. Por
que não sermos felizes se tivemos a oportunidade de nascer nesse mundo de Buda
Shakyamuni e de tê-lo encontrado?
27. Devemos
calmamente considerar que, se o verdadeiro Dharma ainda não tivesse sido
espalhado pelo mundo, não poderíamos tê-lo encontrado, mesmo que tivéssemos
devotado nossas vidas a isso. Nós, que agora pudemos encontrar o verdadeiro
Dharma, devemos fazer esse voto. Sabemos que Buda disse: “quando encontrarem mestres
de suprema iluminação, não levem em conta seu passado familiar, não se importem
com sua aparência, não se aborreçam com suas faltas e não julguem sua conduta.
Simplesmente, em respeito à sua sabedoria, curvem-se diante deles três vezes ao
dia, os honrem e não lhes causem nenhuma mágoa”.
28. Poder conhecer
Buda e ouvir seus ensinamentos é resultado dos benefícios que chegaram até nós
por meio da prática de cada buda e ancestral. Se os budas e os ancestrais não
tivessem corretamente transmitido o Dharma, como hoje ele poderia ter chegado
até nós? Devemos ser gratos pelos benefícios de uma simples frase; devemos ser
gratos pelos benefícios de um simples ensinamento. Devemos ser gratos, com todo
nosso esforço, pelos imensos benefícios do tesouro do olho do verdadeiro
Dharma, o Dharma supremo. O pássaro ferido não se esqueceu de que recebeu ajuda
e a agradeceu com quatro anéis brancos. A tartaruga aprisionada não se esqueceu
dos benefícios que recebeu e demonstrou sua gratidão aparecendo no brasão de
seu benfeitor. Se até os animais demonstram gratidão, como podem os seres
humanos ignorá-la?
29. A expressão de
nosso agradecimento não deve consistir em outras práticas; seu verdadeiro
caminho está exclusivamente assentado na prática diária dos ensinamentos de Buda.
Isso significa que devemos praticar sem negligenciar nossas vidas diárias e sem
nos perdermos em nós mesmos.
30. O tempo voa
mais veloz que uma flecha, e a vida é mais impermanente que o orvalho. Nenhuma
habilidade ou recurso pode trazer de volta um dia que passou. Centenas de anos vividos sem propósito são
dias e meses a se lamentar. Não se foi mais que um miserável saco de ossos.
Mesmo que vivamos em abandono, escravos dos sentidos, por dias, meses e centenas
de anos, se praticarmos dessa maneira por um único dia, não apenas será apenas
como se tivéssemos praticado cem anos nessa vida, mas significará a salvação
para cem anos de outra vida. A vida desse dia é a vida que deveria ser
estimada, a de um saco de ossos que pode ser respeitado. Devemos amar e
respeitar nossos corpos e mentes, que nos possibilitam essa prática. De acordo
com nossa prática, a prática dos budas se manifesta, e o grande caminho dos
budas penetra em todo lugar. Portanto, a prática de um único dia é a semente
dos budas, da prática dos budas.
31. Esses budas são
o Buda Shakyamuni.[12]
O Buda Shakyamuni é “a própria mente em si ser Buda”. Quando os budas do
passado, do presente e do futuro atingem a iluminação, todos se tornam Buda
Shakyamuni. É isso que significa “a mente em si ser Buda”. Devemos investigar
cuidadosamente a quem nos referimos quando dizemos “a mente é Buda”. É assim
que demonstramos gratidão a Buda.
[1] Traduzido por Koun, para o Templo Busshinji, no inverno de 2004.
[2] Desperto, iluminado; aquele que alcançou a iluminação.
[3] Ação; causa e efeito.
[4] Desperto, iluminado; aquele que alcançou a iluminação (bodhi), um dos três tesouros.
[5] Um dos ancestrais do Zen (séculos V-VI), que introduziu esta escola na China.
[6] Patriarca, fundador de uma escola ou um de seus sucessores na linhagem de transmissão de ensinamentos.
[7] O ensinamento de Buda, um dos Três Tesouros; com letra minúscula, dharma geralmente se refere a um fenômeno ou manifestação da realidade.
[8] Comunidade budista, formada pelos monges, monjas, noviços, noviças, leigos e leigas; um dos Três Tesouros.
[9] O Perfeito.
[10] Período de tempo correspondente a 4.320.000 anos.
[11] Ser da iluminação; no budismo mahayana, ser de grande compaixão que procura ajudar a todos os seres, praticando as seis perfeições (paramitas) e realizando a mente da iluminação.
[12] O Buda histórico.