MARCEL DUCHAMP

 

Marcel Duchamp é, antes de tudo, um iconoclasta. Durante todo o tempo dedicou-se a destruir conceitos e a negar o estabelecido, às vezes com ações espalhafatosas. Tendo iniciado a sua carreira de artista como pintor, aos poucos se transformou em um renovador da arte, no criador de novas formas de pensar. Por isso, foi muitas vezes considerado um excêntrico meio amalucado. Grosseiro engano: o homem foi um gênio e um inovador. Quando tirava uma peça de seu ambiente natural - como fez com uma roda de bicicleta e um banquinho de madeira ou até com uma louça de sanitário masculino - e dava aos objetos a envergadura de um objeto de arte, o que desejava era instigar o pensamento, provocar um raciocínio, destruir a quietude das coisas aceitas e estabelecidas.

Banco, roda de bicicleta - questionando conceitos


O que desejava dizer com isso? Não desejava, decerto, estabelecer novas verdades e conceitos; desejava exatamente questionar a validade dos conceitos e colocar a possibilidade de haver arte em qualquer objeto, desde que assim seja considerado. ...Difícil estabelecer um limite a partir do qual chega-se ao exagero, até porque parece haver a aceitação do exagero. O fato é que Duchamp contribuiu para o infindável debate entre o que é e o que não é arte. Quando pintou bigodes na Monalisa, de da Vince, como faria qualquer moleque pichador de paredes, colocava nitidamente o seu desprezo pela arte clássica. Colocar a Monalisa e um urinol no mesmo patamar é uma provocação, e independente da razoabilidade dessa idéia o objetivo é atingido: provocar! Marcel Duchamp foi um provocador.

 

Bigode e cavanhaque na Monalisa - negação da arte tradicional


Quando a tecnologia possibilitou a manipulação do vidro para uso nas construções e o tornou suficientemente barato, houve uma revolução na arquitetura. O uso do vidro na construção de paredes criou um novo senso de espaço, alterou profundamente a emoção de quem olha ou vivencia o espaço arquitetônico. Difícil imaginar algo mais revolucionário na arquitetura do que o vidro e o aço. Baseado exatamente nessa nova conceituação de visibilidade espacial e de profundidade, Marcel Duchamp partiu para a pintura de um grande painel tendo uma chapa de vidro como suporte, talvez a sua obra principal ao longo da vida. Explorando a ambigüidade de que a pintura poderia ser olhada ou olhar-se através dela, vista de diferentes ângulos, incluindo uma visão pela parte posterior, o artista conseguiu mais uma vez colocar o público diante de novos questionamentos. Duchamp fez-se fotografar durante os estudos em diversas posições, diante da pintura às vezes e outras vezes atrás dela. Muito próprio da personalidade do artista.

 

O Noivo Desnudando a Noiva, trabalho em chapa de vidro - olhando-se o objeto ou através dele


Claro que levar uma peça de banheiro para uma exposição de arte atrai adversários. Um mictório não é uma peça bonita por si só, embora isso possa ser discutido. Por outro lado, a arte não significa apenas a apreciação do bonito e mesmo o conceito de bonito é algo muito subjetivo. Com o seu posicionamento, Duchamp não buscava o belo e nem a aprovação do público; ele procurava o âmago das emoções humanas, as reações instintivas. Essa essência era a sua busca automática, conforme ele mesmo se expressa: "... transformar todas as pequenas manifestações externas de energia, em excesso ou desperdiçadas, como por exemplo... o crescimento dos cabelos ou das unhas, a queda da urina ou das fezes, os movimentos impulsivos do medo, do assombro, do riso, a queda da lágrima, os gestos da mãos, o olhar frio, o ronco ao se dormir, a ejaculação, o vômito, o desmaio, etc". Compreende-se através dessas preocupações, um pouco sobre a maneira como Marcel Duchamp olhava o mundo.

 

Marcel Duchamp - o importante é a idéia


O trabalho do artista seria menos revolucionário nos dias de hoje, mas é bom levar em conta que ele nasceu em 1887, ainda portanto no século XIX. Na época, a França era o centro cultural do mundo e foi lá que iniciou a sua vida e o seu trabalho como pintor. O seu quadro "Nu descendo uma escada" já veio para revolucionar. O quadro mostra um conceito de movimento através do tempo. A fragmentação da figura, como no cubismo, não pareceu bastante e então Duchamp procurou dar a idéia do movimento através do tempo. Foi, por isso, confundido com os cubistas, mas apresentou-se melhor com o movimento do futurismo, com uma forte dinamicidade e usando fartamente os elementos geométricos e mecânicos. Essas classificações são comumente imprecisas, mas o fato é que o artista já mostrava o desejo de colocar um conceito filosófico em seu trabalho. Mesmo sem ter conseguido uma ampla aceitação, quando morreu em 1968 já era um dos mais influentes artistas do século XX.
 

Nu descendo uma escada - movimento futurista


Desde o futurismo até as performances e as instalações atuais, tudo foi um caminho percorrido a partir da vontade de Duchamp de destruir conceitos. A idéia de arrancar objetos de um contexto onde se encaixavam e colocá-los em um museu ou galeria onde não se qualificavam em nenhum tipo de arte foi uma provocação da antiarte e ganhou o nome de "ready-made". Foi assim com "Fonte", um mictório de porcelana que enviou para a exposição na Sociedade de Artistas Independentes de Nova York, usando o nome falso de Richard Mutt. Para isso, pagou a taxa de inscrição de US$ 6,00 e preparou-se para as reações. Quando o objeto chegou diante da comissão, provocou um escândalo imediato e foi rejeitado sem que houvesse a mínima preocupação em se justificar a atitude da rejeição ao tal Sr. Mutt. Acontece que Duchamp era não só jurado como sócio fundador de sociedade e estava lá para sentir a reação e deleitar-se, talvez, com ela. Era tudo o que queria.

 


Marcel Duchamp - instalações no início do século XX

 

Homem sensível, preocupado com o sofrimento humano e com a miséria do homem, Duchamp deve ter sido um desses caras com quem vale a pena conversar. Seus dois irmãos eram também artistas - um pintor e outro escultor - mas Marcel Duchamp decidiu ser esse homem de contestação, muito mais filósofo do que artista, muito mais inovador do que pintor. Com ele fortalece-se o conceito de que a missão da arte não é o belo, mas a mudança do mundo, a instigação ao pensamento e ao encontro do homem consigo mesmo e com o seu mundo.
 


Arte conceitual - nem sempre é possível entender sem alguma ajuda


Como seria esse artista se estivesse nascendo agora? Influenciado pelo modernismo e apregoando as características de um mundo que rompia barreiras de velocidade e de possibilidades tecnológicas com as quais convivemos hoje cotidianamente, talvez não tivesse mais o que contestar. É errado pensar assim. O rompimento de conceitos cria novos conceitos que serão sempre contestados no futuro e provavelmente o artista estaria hoje espicaçando a nossa inteligência com novas afrontas que a sua criatividade possibilitaria. Certamente estaria de alguma forma nos obrigando a pensar, pois essa é a missão verdadeira e atual da arte. Não se busca mais o belo ou o registro dos feitos de reis e imperadores. Não se busca mais a realização física dos conceitos espirituais ou religiosos. A arte procura mudar o mundo. A arte obriga a pensar, ou pelo menos deveria ser assim na concepção de Marcel Duchamp. Será?

Em um dado momento de sua carreira de pintor, disse uma frase que demonstra bem o seu interesse e a sua concepção dos objetivos: "Até aqui cheguei e já não pinto mais. Não é por rebeldia e sim por algo muito mais difícil de reconhecer: já não tenho idéias" Isso define bem a importância que Duchamp dava a cada coisa. O importante não era pintar. O importante era inovar. Se entendermos isso compreenderemos que foi um homem do mais absoluto sucesso. Sem ele seria mais difícil o surgimento de pessoas como Andy Warhol, John Cage ou a dupla Ursus (Urs Wehrli) e Nadeschkin (Nadia Sieger) com sua arte rearrumada.
 

 

 

 

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