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- A DENÚNCIA POLÍTICA DE COSTA-GAVRAS
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por Junior Portella
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"Censurado". Certamente, durante muitos
anos, essa foi a palavra que melhor qualificou ao redor do mundo o cinema produzido por
Constantin Costa-Gavras, cuja liberdade de expressão raramente foi respeitada por Estados
que se diziam democráticos. Isso porque nunca deixou de buscar em sua filmografia um
objetivo que vai além da mera expressão artística, a denúncia política. Para
Costa-Gavras, o cinema deveria vir primordialmente a serviço do povo e da Justiça.
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Um dos maiores expoentes do cinema-engajado, Costa-Gavras encontrou no cinema um veículo
poderoso para alcançar as massas com o seu grito de revolta e sua vontade política. Com
ele, o cinema abandonou o entretenimento perfunctório e a banalidade, acrescentando na
sua essência o dever moral e ético de explorar e discutir as questões políticas de uma
sociedade. É claro que a sua intenção não agradou a muitos. Suas criações foram
vistas como sublevadoras tanto pelos adeptos do alvitante cinema comercial americano,
quanto por aqueles que foram alvo de suas denúncias: ditadores, políticos
inescrupulosos, tiranos covardes e carrascos de uma História controvertida.
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Embora fosse execrado pela classe burguesa reacionária e por governantes que temiam o
teor das acusações de seus filmes, Costa-Gavras não desistiu de sua missão e obteve
reconhecimento internacional, mesmo que restrito às esferas intelectuais, capazes de
compreender as terríveis conseqüências decorrentes de atos atentatórios à vida e à
dignidade de qualquer cidadão, quanto mais, se praticados pelo próprio Estado. Enfim,
Gavras estampou em seus filmes o desrespeito aos Direitos Humanos cometido por regimes
totalitários ao longo da História Universal. São filmes audaciosos como Z,
cuja exibição no Brasil fora proibida durante os "anos de chumbo" da ditadura
militar, ou ainda Seção Especial de Justiça, um dos muitos de seus filmes
censurados por países sem tradição democrática.
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O mal-estar causado por filmes como Muito Mais Que um Crime e Missing,
um libelo contra a ditadura de Pinochet e o autoritarismo, é um registro da
seriedade e da pungência de suas críticas à desordem estabelecida, como se
referia Emmanuel Mournier à violência na qual "ficam sem trabalho, morrem e se
desumanizam, sem barricadas, na mais perfeita ordem, milhões de seres humanos".
Costa-Gavras sempre soube que sem democracia não há justiça e sem justiça não há
vida digna.
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Independentemente da corrente ideológica seguida por Costa-Gavras - já que tal
discussão é irrelevante quando se trata de vida humana e Justiça - seu humanismo e seu
ativismo político são um exemplo a ser seguido por gerações. Suas obras são
documentos de tantas atrocidades já cometidas em nome de interesses individuais de
dirigentes de Estado, em prejuízo do bem-estar social e dos direitos garantidos aos
cidadãos. Ao retratar essas bárbaries, Costa-Gavras adverte o espectador, para que tais
fatos não voltem mais a acontecer, e apresenta um lenitivo: o importante é reagir aos
regimes anti-democráticos para que as arbitrariedades dêem lugar à Igualdade e à
Justiça. Constantin Costa-Gavras é mais que um cineasta, é um arauto da
democracia.
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