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O que é o início?
Para quem está chegando:
Os problemas para se conseguir
moradia
COSEAS
AMORCRUSP
BOLSA-MORADIA: A CONDIÇÃO DE MORADOR
OFICIAL
O CANDIDATO A HÓSPEDE
O ALOJAMENTO
Moradia Externa: A Vida em Pensão,
Quarto Alugado ou República
CADOPÔ
A hospedagem
A hospedagem do ponto de vista do morador.
Os Prédios
Sobre os tipos de apartamento e organização:
Organização
Os Burocráticos:
Os Desencanados:
Sobre a Escala de Limpeza e Reunião de Moradores do apartamento
A Lista
de Schindler - Será que consegui entrar?
O sorteio
A questão da Afinidade:
Genealogia de um apartamento
Últimas Alternativas: Invasões
e outros galhos
Lado Social da Vida Cruspiana
Amizades
Costumes
Pontualidade
A Primeira Vez
Piolho do CRUSP:
Como entrar
pelo lado de fora do apartamento:
Teto dos prédios:
Comida:
Depressão e Loucura:
Drogas
Brigas
Religião
Gays, Lésbicas
e Simpatizantes
Festas:
Esquerdofrenia
Piscina
Trabalho
Casamento e filhos
Mulher
Política Interna
A Invasão/Ocupação do Bloco D.
AMORCRUSP
- Associação de MORadores do CRUSP
Assembléia:
Formação
de Comissões e outras dores de cabeça:
Eleições:
Durante a Gestão:
Autoridade, Abuso
e outros grilos:
Duração da Gestão:
Minhas histórias:
Conclusão:
ANEXO:
Página do CRUSP
Planfeto de propostas da Gestão AMORCRUSP “Não somos
Síndicos” Estrangeiros (adicionado 28/10/2000)
Estrangeiros (ou pessoas oriundas
de outros estados brasileiros) no CRUSP
Visão do Brasil lá fora
Sobre a visão que o brasileiro tem do próprio Brasil
Se adaptando a cidade
Observações sobre esta versão:
Devido ao fato de que poucos estavam lendo a versão em PDF, decidi
colocar uma versão HTML compilada. Se o leitor sentir falta
de fotos, sinto muito. Não aconselho a impressão desta versão.
Algumas informações porém:
O texto está registrado na Biblioteca Nacional, Registro 177.841
livro 300 folha 491. Se alguma editora se interessar, pode me contatar
no email [email protected]
Está proibida a cópia para revenda e/ou xerox (não
que eu vá sair processando, mas quem sabe). A edição
em formato eletrônico pode ser distribuída a vontade, mas
rode o antivírus antes de passar adiante.
Prefácio
[ ..]
Aqueles que tiverem alguma história, estória
ou fofoca para contar sobre esse conjunto residencial (ou quiserem contribuir
financeiramente com qualquer dinheiro, eu aceito), podem acessar a página
http://www.crusp.cjb.net ou enviar para [email protected]
Sumário:
(OBS: Vários tópicos foram editados
para encurtar a versão, quem tiver interesse, consulte ou imprima
a versão em PDF)
"Em todo Caos, existe um Cosmo
Em toda desordem, uma secreta ordem
Em todo capricho, uma lei fixa
Porque tudo que trabalha se fundamenta no seu oposto".
(JUNG, Karl C – Obras Completas Volume IX pag. 41)
Bloco A antes da reforma. Obs: O “D” (de Derneval)
se encontra na posição exata do apartamento onde primeiro
morei como hóspede. De certa forma, há uma espécie
de saudade.. mesmo lembrando que foi por aí que precisei entrar
pelo lado de fora (vide mais adiante) do apê, em uma ou duas ocasiões.

[.. ]
O conceito de normalidade se altera, uma vez morando
nessa comunidade. Existem homossexuais morando com crentes, malufistas
com stalinistas, ex-favelados com boyzinhos, todo tipo de mistura. Como
entender e analisar tudo isso? E pior, descrever esse universo. Por isso
optei por primeiro dar uma descrição genérica, seguida
por alguns depoimentos. Vários deles são de memória,
pode-se perceber que foram escritos por mim. O que não quer dizer
que aconteceram comigo. Alguns desses não são exatamente
eventos cruspianos per si, mas aconteceram na USP e são aspectos
que tem algo da comunidade ou ajudam a entender um aspecto da vivência
na comunidade. Algumas das coisas relatadas provavelmente é falsa
em gênero, número e grau. Mas o que é a mentira senão
uma verdade que deixou de acontecer?
[.. ] <--- Entenda-se que um material foi editado
Os problemas para se conseguir moradia
Todo ano é igual, a mesma bateção. Calouro procurando lugar para morar. Na época que eu entrei havia uma escassez enorme de moradias para estudantes. Continua a mesma coisa, tenta alugar qualquer coisa um dia ou dois após a liberação da lista de aprovados no vestibular. Caminhões de pessoas estão atrás de vagas, quartos, sofás para morar. Literalmente. Já soube de uma dona de pensão que ia dormir na sala para poder alugar a cama de casal para dois calouros. Existe o Serviço de Residência Externa do COSEAS, que dá uma ajuda, mantendo uma listinha de pensões, credenciadas pela Universidade. Poupa o sujeito de ir num lugar e descobrir que não há vagas.
Quem pode e encontra, aluga um espaço. Muitos não tem essa sorte. Fazem uma via crúcis todo santo dia, trocentas conduções, mas felizes da vida, isso é o mais incrível. Porque passaram no vestibular.. Ficam mais felizes ainda quando descobrem que existe a possibilidade de moradia estudantil gratuita. O CRUSP. E qual o caminho para morar lá? Ir no COSEAS e requerer aquilo que se chama de Bolsa Moradia. Mais fácil falar do que fazer. Entregar pilhas de documentos que você nem sabia que existiam. Preencher formulários e sofrer uma entrevista onde falta só te perguntar qual papel higiênico que você usa. Isso é passar pela é uma avaliação sócio-psicológica que é uma seleção sócio-econômica. A idéia é ver quem precisa mais da vaga e quem pode muito bem se virar sem ela.
O que que conta? Se a pessoa está morando com os pais em São Paulo, ela tem menos necessidade do que alguém que veio do interior e mal sabe como vir até a USP de ônibus. Se sua família tem dinheiro, fica meio problemático. Há uma crença que o indivíduo que for hóspede em algum apartamento já tem meio caminho andado. Porque pode comprovar que está na pior. Essa que é a bateção nas portas. O ritual de iniciação. A pessoa várias vezes nunca morou longe dos pais. Não teve nenhum amigo a não ser os colegas do bairro. E agora, tem que ir batendo na porta de gente que nem conhece atrás de um lugar onde cair morto. (Estrangeiros e pessoas de outros estados podem consultar lá embaixo, perto da conclusão, meu texto sobre os estrangeiros no CRUSP).
Seria o responsável pela administração dos blocos. Também é responsável pela seleção dos moradores, serviços de manutenção nos elevadores, encanamentos, etc.. Eles tem uma página oficial na Internet. A única coisa que vou mencionar é que não é muito fácil o serviço deles. Se fazem o que é certo, ninguém aplaude. Se fazem errado, arriscam-se a um monte de dores de cabeça.
Associação de Moradores. Em teoria, está do lado do morador. Tudo depende da gestão e do morador. Há muito tempo atrás, ele tinha umas funções bem precisas. Quando começou, era tudo para os estudantes, uma mistura de partido político, tribuna livre, etc. Perdeu muitos poderes. Mais tarde entro em detalhes sobre o assunto.
Bolsa-moradia: a condição de morador oficial
A pessoa não é dona do lugar onde mora. Ela precisa passar por um processo de seleção para o que se chama Bolsa-Moradia. Passando, torna-se o que é chamado MORADOR OFICIAL, e tem o direito a uma vaga no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo. Para manter esse direito, que tem uma duração máxima. Que SERIA 1 vez e meia o tempo mínimo para conclusão do curso. No caso da Letras-FFLCH, 4 anos de curso, 6 anos de moradia. Mas é necessário fazer um número de matérias contabilizando X créditos por semestre para se manter o privilégio. Só o morador oficial tem realmente o direito a vaga. Passou para a Pós-graduação ou não cumpriu com o número de créditos/matérias necessárias, perde. Algumas vezes se consegue por vias burocráticas, justificar uma extensão, o chamado recurso. Se não consegue, a vaga no apartamento fica livre e um espaço em branco aparece na lista de moradores a disposição do público, na portaria de cada prédio. O processo que reavalia se o desempenho do aluno permite que continue na sua vaguinha chama-se re-seleção e é quase automático.
Normalmente se passa primeiro pela condição de hóspede. São 3 moradores OFICIAIS por apartamento, embora seja possível 4 pessoas morando, contando o hóspede (Que não é exatamente nem morador nem pessoa, vide mais adiante). É preciso chamar de ser, realmente. É quase igual a ser calouro. Não tem uma identidade. Você vai num apartamento, de preferência, algum que tenha vaga para novo morador. Como descobrir? Existe um mapa de moradores, afixado na portaria. Bate na porta de cada apê. SE encontrar o(s) moradores, pode até defini-los em três tipos, pela resposta que dá:
O Vigilante: Aquele que fala que tem alguém em vista para a vaga.
"Estou esperando um sujeito que ficou de dar a resposta semana que vem, está tudo acertadinho com ele, se não der certo e você ainda estiver afim eu deixo um recado".
O "Tudo bem": É um desencanado.
Você pode ficar aqui, só que tem que agüentar o mal humor daquele cara, a sujeira de ciclano, a bebedeira de beltrano ou fazer a limpeza em troca do privilégio da hospedagem. Por falar nisso, você não pode ser contra o cigarro, né? De vez em quando nos finais de semana tem uma festinha mas ninguém vai te incomodar.
O "Ocupado":
Essa vaga que está lá no mapa de moradores já foi
preenchida. Na verdade é um erro do COSEAS, o sujeito ainda está
entrando com recurso e vai continuar no apartamento.
"Aquele que vive entre feras, aprende a também ser fera". (Cismas do Destino, Augusto dos Anjos)
Claro que existe outra alternativa. Algumas vezes, depende do COSEAS, existe um dormitório que é reservado para esse pessoal que não tem mesmo onde ficar.. Quem passa por ele, dificilmente conserva qualquer tipo de frescura. Coisa parecida com o exército. A tendência é o cara virar um animal. Alguns já são, então pioram. Um monte de caras, homens e mulheres, morando num quarto, sem lugar para colocar as roupas, sem privacidade. Não é tão ruim quanto parece. Basta não se preocupar com sono, falta de privacidade e outros desconfortos. Se se têm sono pesado, não é tão ruim. Caso contrário, dá uns problemas. Sempre tem alguém que não consegue dormir e fica conversando com outra pessoa ou alguém procurando algo que esqueceu no fundo da mala. As vezes tem gente que joga truco. Isso vai até mais ou menos 2 horas da manhã.
Quando não tem ninguém roncando é uma beleza..
Mas de manhã, começa a sinfonia de despertadores. Primeiro
o sujeito que acorda as 5:30. Depois, aquele que só vai para o emprego
as 6:00. E depois tem a fila para ir no banheiro, fazer o primeiro pipi
do dia, a barba, tomar banho, procurar se vestir e comer algum lanche,
já que café não tem. E assim por diante. Mas o chato
é aquele sono acumulado. E o tédio de todo mundo ali, todo
dia aquela puta cara de animal. Não é a toa que calouro é
chamado de "Bicho". Principalmente o calouro cruspiano. Esse cotidiano
tem seu lado bom. Dá também um estímulo adicional
para o cara sair dali tão rápido quanto possível.
E prepara para o que vai enfrentar como hóspede num apartamento.
OBS: Atualmente (10/2000) as condições de habitação
do alojamento tiveram uma melhora sensível. Mas o pessoal ainda
dorme depois de determinada hora e acorda nos horários mencionados
acima.
A Vida em Pensão, Quarto Alugado ou República:
"Aquele que aqui entrai, deixai para trás toda a esperança" (Divina Comédia, Dante)
A moradia externa é um fator que detona muito, para um estudante
que precisa também trabalhar. O sujeito pode querer mudar do lugar
onde está e demorar dias ou semanas para achar outro. Adiciona uma
situação de prova ou trabalho para entregar e se tem uma
amostra do inferno.
É preciso comentar alguma coisa sobre isso, a grande maioria
do pessoal que vem de fora de São Paulo acaba encarando uma. Encaro
quarto alugado como pensão também, embora exista alguma diferença.
A pensão mesmo, precisa até de alvará para funcionar,
acredito. Tende a ser maior, ter mais quartos, gente para fazer a limpeza,
é específica para isto. No entanto, qualquer locatário
de apartamento de São Paulo pode alugar um quarto para ajudar a
pagar o aluguel. Sem oferecer café da manhã ou qualquer outro
benefício. República é quando alguém consegue
alugar um apê e enfiar um monte de gente lá dentro para dividir
os custos. Pode-se alugar um quarto, dividir uma vaga ou beliche.
Quarto individual é a mesma coisa em quase qualquer
lugar. É um espaço para si. Dividir um quarto ou beliche
já significa uma ausência de privacidade maior. Pinta discussões
dos mais variados tipos, as vezes só para espantar o tédio.
A pior parte é o dia do pagamento. No tempo da inflação
existia muito dos locadores reajustarem bem acima da média. O chato
é que não existe nenhuma forma de contrato. Você paga
por mês e não existe nenhuma garantia que não será
colocado na rua no mês ou na semana seguinte. Claro, pode-se ir na
delegacia reclamar, mas e daí? A tranqüilidade da pessoa não
está garantida. Pode sumir coisa também. E alguns donos de
pensão são nojentos a ponto de controlar a hora de saída
e de chegada e aumentar o preço de acordo com a procura. Normalmente
não se tem liberdade de se trazer visitas ou hospedar alguém.
Muito menos ficar sozinho com a namorada numa boa.
Numa república, as pessoas teoricamente se cotizam
para pagar todas as despesas. Na prática, acontece muito de alguém
atrasar porque está duro ou inclusive até sair só
porque não gostou do ambiente. Mas existe o fato que se pode trazer
quem quiser, para visitar ou até hospedar por uma noite ou mais.
O lance da privacidade algumas vezes gera briga e com o tempo deixa de
ser importante. Pode-se fazer arranjos do gênero: todo mundo vai
dar uma volta quando o cara quer ficar sozinho com a namorada, todo mundo
faz vaquinha para consertar ou comprar um eletrodoméstico, faxina
coletiva, etc. Também rola baixarias dos mais variados tipos e o
chato é que os problemas tem que ser resolvidos sem uma força
superior. Pode dar certo e não dar certo. Há gente que gosta
e há gente que detesta.
A pensão tipo estabelecimento tem uma grande vantagem
sobre o quarto alugado ou a república. É que se o cara pode
comprovar alguma idoneidade (vai entender lá o que é isso),
a discriminação é menor. A personalidade do sujeito
não interessa tanto quanto a capacidade de pagar o aluguel. Já
o quarto ou vaga em algum apartamento demanda uma boa conversa com o senhorio.
Qualquer dúvidazinha, não acontece. Já dividir o apartamento
ou montar uma república, não só é algo mais
difícil de se encontrar anúncio no jornal como o ritual de
aceitação é algo bem mais complicado.
Uma vez aceito, a coisa pode ser boa, ruim ou tolerável em vários
graus. Dependendo do grau, a pessoa fica com uma cara que mistura stress
e olheiras, algo chato de se ver. Lentamente o sorriso desaparece e o assunto
de conversa passa a ser uma mistura de sadismo com fatalismo. A pessoa
fica fã de notícias populares (qualquer desgraça anima
o papo). Muito tempo nessa condição também torna a
pessoa meio que difícil de ser aceita em ambientes melhores. Não
é algo que se explique com facilidade, mas o visual da pessoa espanta
a vontade de convivência. Fica difícil arrumar quarto alugado
em casa de família, por exemplo. Pode demorar algum tempo para esses
efeitos desaparecerem.
Claro que tem o dia em que a pessoa finalmente se acostuma
e fica até indiferente ao lugar onde mora. Tem gente que consegue
conciliar estudo, trabalho e desconforto na hora de dormir. Cada caso é
um caso.
Durante o tempo do vestibular, morava numa república,
que acabou se dissolvendo, por conta de vários problemas. Fui para
uma pensão no Paraíso. Que não era lá um paraíso,
mas pelo tinha um quarto dividindo só com uma pessoa.
No início, tudo bem. Até que a inflação
comeu o pouco dinheiro que eu tinha dando aulas e outros trabalhos. Com
o tempo, fiquei sabendo que havia uma pilha de queixas contra aquele lugar,
que tinha gente que derrubou um muro com um martelo de construção,
só de vingança. Não demorou muito para sentir na pele.
A dona reajustou acima da inflação e como tantos outros,
usou um expediente para me tirar do quarto, falou que ia reformar. Era
para ir para um quarto que tinha 5 pessoas. Ainda dei alguma sorte. Pude
escolher que se ficava com a parte de cima do beliche. Quem fica com a
de baixo é acordado com qualquer movimento da cama. Mas foi um inferno
que durou meses, até achar outro lugar. Chegava 23:30 da USP e acordava
as 5:30. Não porque queria, mas por causa da sinfonia de despertadores.
Como era inverno, também acordava, esvaziava a bexiga e escalava
o beliche, para ver se dormia mais um pouco. Com o tempo isso ficou automático.
Tão automático que dois anos depois, um ex-colega de pensão
me lembrou essa história e fiquei o mês inteiro acordando
as 5:30 para ir no banheiro urinar. Era um tempo em que era muito difícil
achar outro lugar, ainda mais (tentando) estudar o meu primeiro semestre.
Acabei conseguindo um quarto um pouco em cima da minha
capacidade financeira, mas um alívio. Pena que a dona da pensão
era uma megera quase pior do que a outra. Do tipo que reclamava se o sujeito
gastava muita água lavando roupa ou tomando banho. Chegava a fechar
o registro. Eu aguentei lá um tempo, apesar da grana ser curta.
Ia tomar banho no CEPÊ de vez enquando, só para não
estragar meu dia brigando por conta de água. Como em outros lugares,
ela também reajustava acima da inflação, quando podia.
Tinha uma época que estava fácil eu sair, mas acabei ficando.
E mifu. Chegou a época de matrícula da calourada na USP e
o preço da vaga subiu lá em cima. O pessoal tinha me falado
que nessa época, alugava até a cama de casal do quarto dela
para os "bichos" e ia dormir no sofá. Ela queria me despejar de
qualquer jeito, quando fui discutir o preço absurdo que pedia. Como
tinha sido o Serviço de Residência Externa do COSEAS que me
aconselhou, fui atrás para avisar das sacanagens da mulher. E me
preparer para o pior, iniciando uma mudança das minhas coisas. Um
amigo cruspiano concordou em guardar algumas caixas de livros.
Terminou o dia, saí da casa do meu colega aliviado.
As minhas coisas iriam estar bem guardadas por um tempo. Tinha passado
o dia inteiro carregando as caixas para lá e para cá. Fui
numa padaria na esquina, para tomar um refrigerante. O dia inteiro passado
sem nada no estômago. Foi quando cheguei em casa que aconteceu o
pesadelo. Bilhete na porta. A mulher, me avisando que tinha de sair na
mesma noite. Uma imagem de mim mesmo caindo de sono veio à cabeça.
Sair naquele mesmo dia, quando parecia que meus braços iam se destacar
do corpo e correr para debaixo dos lençois. Ao entrar no quarto,
percebi a falta da escrivaninha. Depois notei que minha mochila, as caixas
de livros restantes também tinham desaparecido. Minha faca de acampamento,
minha desde a viagem à São Tomé das Letras, já
era. As botas militares.
Comecei a sentar para raciocinar. Tô morto de
cansado. Releio o bilhete. Passo os olhos pelo quarto para descobrir sinal
de algo que ela possa ter esquecido. Reparo num som de alguém falando
alto. É ela no telefone. Está se queixando com alguém.
Deve ser o aquecimento, para quando eu for correndo atrás dela.
Está gritando tanto que dá para ouvir daqui. E está
sabendo que já cheguei. Apesar do fone, da conversa, sei que ela
só está de bote, está aguardando. E exercitanto a
voz.
Não tenho que esperar muito. Ela nem bate na
porta. Já começa a gritar. Chingando, antes de me ver, para
ver se me descontrolo. Mas não entro no jogo. Deixo ela falar. Quando
ela perde o fôlego, começo a falar com segurança, de
que nåo vou sacanea-la, sumindo com umas chaves que ela quer de volta,
porque o outro cara saiu com elas, porque tem que ter as chaves, porque
o mundo está contra ela, por isso de agora em diante ela vai ter
que bancar a mandona, que sei lá oquê. Começo a falar
que morei um tempão no quarto dela sem sacanear e não é
agora que iria começar. Vaca. Começa a repetir que não
interessa, que ela só quer as chaves, que não ia devolver
minhas coisas sem as chaves..e que queria o pagamento de mais um dia. Comecei
a falar para ela se acalmar, vai ver ela tinha um coração
fraco e podia ter um ataque cardíaco. Aí eu vou ficar com
a morte dela na consciência. Ela se acalmou e parou de falar.
Falei que ia embora já. Disse que não
iria pagar mais um dia. E que não ia devolver chave nenhuma sem
minhas coisas de volta. Enfrentei ela nos olhos. Era mais fácil
do que desviar o olhar para o corpo, envolvido por um peinhoar quase transparente.
Talvez por causa do calor, ela estava nua por baixo, uma coisa nojenta,
quando é uma senhora, com mais de 60 anos. Falei: "Vou trocar uma
coisa por outra que é minha e foi pega pelas minhas costas? Vou
é dar queixa na delegacia, por furto".
Venci.
Ela começou a tirar minhas coisas de onde estavam
e jogou na sala. Repetia que queria as chaves, como um disco furado. E
eu repetia que quando saísse entregava. Resolvi perguntar o porquê
dessa atitude. Ela mostrou um bilhete onde chamava o quarto de "joça".
Porquê um bilhete desses e não um bilhete de agradecimento,
logo ela que tinha feito tanta coisa boa para mim...Quase ri. Continuou
dizendo que ia telefonar para aquele cara, para sicrano, para beltrano,
para o amigo do beltrano, que era amigo dela, que nunca mais ia alugar
quarto, que ia mostrar o bilhete, blá, blá, blá, blá,
bláblá, blábláblá, blá. Interrompi
e comecei a aprontar minhas coisas para ir embora. E comecei a aprontar
os bagulhos.
Ela foi na frente e insistiu em tirar tudo do quarto,
pessoalmente, dizendo para eu dormir na salinha. E ia começar a
varrer, depois de tirar uma estante, a que mamãe tinha comprado
para mim. Menti que o armário estava vendido e que era para ela
ter cuidado e que o dono viria buscar. Aí começou a usar
a vassoura. No início até deixei, mas depois falei para ela
parar que eu fazia, sozinho. E fui fazendo, mas com a velocidade de uma
lesma com uma perna quebrada. Talvez assim ela fosse dormir logo e eu podia
preparar minha saída. Mas continuou lá. Fingindo que estava
cansada e continuando acordada. O bobo aqui, morrendo de calor e cansaço.
Depois de uns dez minutos, começou a reclamar que todo mundo estava
contra ela, que não sei o quê e tentou limpar o quarto de
novo. Falei que as coisas não eram assim, que ela estava muito nervosa,
olha o coração... a vida não é assim, a senhora
tá enganada. Fui falando coisas para ver se distraía a atenção
dela, etc. Uma hora, ela largou a roupa que estava passando e foi tornar
a limpar o quarto. Peguei a vassoura das mãos dela e coloquei a
cama que tinha tirado do quarto de volta no lugar. Sua voz parecia a de
uma criança que havia perdido seu brinquedo. Repetiu que "tinha
sido enganada". Falei que ela é que tinha me mandado embora. Ela
começou a falar que não tinha.
Até que comecei a compreender que por alguma razão,
ela tinha voltado atrás. Fiquei em dúvida. De um lado, a
idéia era boa, porquê falando em ficar, ela fechava a porta
e assunto encerrado. Agora, ficar depois de todo o trabalho, o sacrifício
para sair era muito besta. Não se perdoa uma discussão destas.
Nunca. Mas fui eu que...Não, não dá para suportar.
Ela brincou comigo "fingindo que me mandava embora".
Acabei falando que ficava. Aí ela aproveitou para
satisfazer a curiosidade dela: porquê trancar, porquê isso,
porquê aquilo? Umas coisas eu respondi, outras deixei calado ou inventei.
Depois me perguntou um endereço para me alcançar durante
o dia. Só ficava pensando: "Meu Deus do Céu, tanta terra
e tanto chão e essa mulher ainda pensa que é minha mãe
e pode me perguntar tudo da minha vida"?
Uns dias mais tarde, minha assistente social (eu tinha
tentado moradia no CRUSP) apareceu lá para dar uma olhada no lugar.
A megera ficou um tempão enchendo a cabeça dela. Sei disso
porque um tempo depois, quando fui lá no Serviço de Assistência
para uma entrevista, ela me perguntou se eu mexia com drogas. Fiquei muito
ofendido. Inclusive mudei, pedi para tratar com outra pessoa ao invés
dela. E acabei me arrumando em outro lugar, um mês depois. Um tempinho
mais tarde encontrei um dos moradores, que tinha inclusive, me ajudado
na mudança. Me falou que foi no COSEAS em caravana, junto com mais
duas pessoas acabar com a moral da velha perante o serviço de residência
externa. Disseram que eu não era traficante, que a mulher pintava
e bordava. A minha ex-assistente garantiu que ia tirar fora o endereço
dela da lista da USP. Nunca mais soube notícias disso. Meses mais
tarde, conseguia minha hospedagem no CRUSP e iniciava os passos para me
tornar morador.
A Casa do Estudante Politécnico já foi uma alternativa para a moradia para quem entra na USP. Fica do lado da estação de Metrô Tiradentes. Mais antiga do que alguns cursos, era só para estudantes de engenharia. Até por volta de 1979, quando o perfil dos caras que faziam Escola Politécnica mudou. Começou a entrar muito estudante de alto poder aquisitivo e estes não precisavam de bolsa-moradia. O diretor do Grêmio Politécnico deixou de ser o responsável pela administração da casa. Por volta de 86 o que pagava as contas de luz, água, etc eram umas festinhas promovidas pelos moradores. Depois a coisa degringolou ainda mais. Houve varios papos de expulsar todo mundo e vender o prédio, depois entrou gente que nem era estudante e.. virou um cortiço. Esse era o estado em que fui lá, em 89. As luzes estavam apagadas na maioria. Ou roubadas por algum estudante sem grana pra substituir a do quarto. Um único orelhão para receber chamadas, que a Telesp acabou tirando. O mais incrível é que de vez em quando alguém atendia. Sem exagero, quando vi as fotos do interior da Detenção no Carandiru me lembrei de lá.. O pessoal as vezes era meio desunido. Houve o caso de um morador que morreu e só foi descoberto semanas depois, já em estado avançado de decomposição.
"É muito fácil ser humilde quando não se tem imaginação e muito problemático ser arrogante quando não se tem grana" (do autor)
A grande maioria dos que tentam não conseguem mais que um "não". Isso varia de apartamento para apartamento. Em alguns é tratado como gente. Um ou outro dá a vaga em troca de serviços, como se responsabilizar pela limpeza. Há casos de hóspedes que conseguem porque tem geladeira, televisão, físico de top model, até mesmo por serem do mesmo estado ou cidade. Existe também aqueles moradores que dão hospedagem exatamento porque já receberam.
Uma vez dentro do apartamento, vem a rotina. Generalizando, hóspede não tem direitos humanos. Dorme onde deixarem ele dormir. Direito a propriedade é relativo porque quase sempre sua vaga está por um fio. Se um cara pegar algo seu emprestado não está roubando. Basta um dos três moradores se encanarem para a vida complicar. Os três assinam para entrar, mas para sair basta um para a vida se tornar um inferno. Tranquilidade para dormir é uma dádiva. É mais fácil de tolerar do que o dormitório já que se trata de menos gente. Mas não é muito legal fazer cara feia.
O apelido do meu hóspede é Leio. Sei lá porque.
Recém saído de casa, família do interior de São
Paulo. Quando chegou, precisou perguntar para sei lá quantos, onde
era a USP. Sentado na cama do 509, me contou algumas experiências
e desencontros que teve, na metrópole que nunca para. Onde ninguém
tem tempo para ajudar ninguém.
- Meu caro, você que vai morar aqui, é calouro, então
vou te falar uma coisa que você tem que saber".
- Sei. Pode falar".
- A USP é a USP porque é a USP".
Ele não podia dormir sem ouvir essa. Um conhecimento vital
para o desenvolvimento da inteligência no planeta Terra. Nietsche
sonegou esse dado quando escreveu Assim Falou Zaratustra. Mas é
por aí. Hóspede tem que ouvir muita coisa. Já conseguiu
a vaga. O resto vem junto.
A hospedagem do ponto de vista do morador.
Ele já passou por tudo isso. Está cheio de problemas na faculdade. Tem esta ou aquela matéria que está com dependência. E na sua frente aparece um indivíduo que nem sabe lavar direito o rosto quando acorda de manhã cedo. Esse indivíduo vai morar com você. Vocês não se conhecem mas vão se ver todo ou quase todo dia. Ele vai te pedir indicações já que não conhece nada. Sempre com aquela cara de quem vai te pedir dinheiro emprestado. É alguém que vai querer conversar, ouvir som, bagunçar, arrumar. E algumas vezes atrapalhar uma sala que parecia tão organizada.. A pior parte é ensinar para o cara coisas o sujeito nunca aprendeu em casa. Lá a mamãezinha é que fazia coisas como lavar roupa, banheiro, jogar o lixo, etc. As vezes o cara vém de família humilde e não entende muito porque essa preocupação burguesa com a arrumação. Chama você de facista. E se é alguém do NE, ou outra cultura completamente diferente do nosso "Sul-Maravilha". Tem cara que acha, melhor, tem certeza que as pessoas tem obrigação de ser solidárias. Que se você tem grana, pode muito bem esquecer uma dívidazinha a toa. E você lá, morador, conhecendo essa história de cor, sabendo que pedir emprestado é hábito que pode virar vício. Uma grande maioria é coitado até conseguir sua condição de morador. Depois, os outros é que se explodam.
Para entrar no 509, eu tive que aceitar manter a hospedagem do Fuinha, um cara da Física que tinha perdido a moradia (condição de morador oficial) por besteira. O apartamento tava uma desordem. O "hóspede" muito esperto, desapareceu e só retornou quando viu que eu tinha botado ordem na casa. Nunca falei nada. Botei minha antiga cama de hóspede na sala, ele ficou dormindo lá. Participava da limpeza como todo mundo. Mas depois que conseguiu o diploma, ainda faltava fazer licenciatura e ele ia tentar a Pós-graduação. Ficou folgado. Um dia eu descobri que ele limpava a sola da botina no tapete do banheiro, que tinha cor de argila. Além de beber de vez em quando, começou a relaxar muito na limpeza. Enchi o saco e comecei a vigiar. A última vez que fez limpeza, mostrei a porcaria que estava e dei uns dias para ele achar outro lugar. O cara tentou argumentar que, como eu tinha assinado a hospedagem até a próxima seleção, ia ter que engolir a presença dele no apê. Me informei e descobri que a condição dele de Pós invalidava o documento de hospedagem. Poderia manda-lo embora no dia seguinte. Em 3 dias ele empacotou tudo e saiu. Só precisava mesmo do quarto para dormir um ou dois dias por semana, mas era muito confortável, ter onde deixar as coisas.
Incrível era o tipo de gente que vinha pedir
hospedagem. Um dos moradores do meu apartamento era ex-bloco D (vide mais
adiante). E devido a vários fatores, como o sufoco que sofreu no
D, era meio fã de dar hospedagem. Para qualquer um independente
de raça, credo ou origem. Era comum eu entrar na sala e vir 3 ou
4 caras que nunca tinha conhecido na vida, dormindo no chão. A vez
mais incrível foi quando bateu um sujeito na porta as 2 da manhã.
Bêbado. Mais ou menos bem vestido. Com um celular
na cintura. Falou que perdeu o horário do ônibus, tava conversando
com um rapaz, muito bem apessoado, que lhe ofereceu hospedagem.
- Qual o nome dele?
- Puuuxa, ssqueciii, mas era um cara muito bem apessoado,
gente fina..
Não deixei.
O pior é quando você escuta alguém falando alhos e bugalhos sobre a falta de solidariedade no Crusp. Ela existe, tanto que alguns conseguem. Eu mesmo entrei desse jeito. Um ano de hóspede em dois apartamentos diferentes. Só que foi mais de um ano para me enturmar e só assinaram o documento de hóspede 7 ou 8 meses depois. Tinha que entrar pela escada de incêndio para o porteiro não me ver, em algumas ocasiões. Não foi fácil. Aí, um belo dia, alguém da Bahia chega no seu apartamento e faz o maior escarcéu porque você está negando amparo para uma pessoa que será um futuro historiador desse país.
Os blocos do Crusp foram construídos para alojar os atletas dos jogos panamericanos. Na primeira geração de moradores, havia uma divisão entre blocos masculinos e femininos. Mais tarde essa divisão foi abolida, alguns prédios foram demolidos, outros foram usados como administração da USP e recepção de hóspedes estrangeiros. Hoje, existem os blocos A, B, D e F, disponíveis para os moradores da graduação e os da Pós, G e E. Tirando o bloco E, todos tém divisórias de alvenaria e principalmente apartamentos do tipo ap1 e ap2.
Para fins de narrativa, alguns eventos são do tempo em que apenas o F e o G eram de alvenaria. O resto eram divisórias de madeira, vide mais abaixo.
Durante o período da chamada 3a ocupação do CRUSP (os prédios foram esvaziados de seus moradores 2 vezes na sua história), o bloco F era objeto de cobiça por todo aquele que desejava se dedicar mais aos estudos e escapar da bagunça e agitação dos outros blocos.
Sobre os tipos de apartamento e organização:
Como uma parte das histórias tém a ver com locais específicos, é preciso descrever alguns tipos de apartamento. Antes da reforma, as divisórias em alguns prédios eram de madeira. Uma organização típica eram:
¨ um quarto grande que servia de dormitório.
(Em alguns casos, abrigava mais do que os três moradores permitidos.
Já me falaram de apartamentos contendo 18 pessoas morando em beliches
e sei mais lá como.)
¨ um quarto pequeno que servia de sala de estudos
e refeições
¨ um banheiro com pia e privada
¨ box para tomar banho
¨ pequeno corredor
No Bloco F, durante muitos anos considerado o "Sheraton" do Crusp,
as divisórias foram reformadas com alvenaria, o que trouxe dois
tipos de divisões, um de 3 quartos (ap1) e outro apartamento de
dois quartos (ap2) e , ambos com box de chuveiro e toilete. A área
dos dois é a mesma, o desenho é que saiu errado. Claro que
alguns moradores fizeram modificações e tem uma parede divisória
entre a sala e o conjunto box/banheiro que não está delineada.

ap1 ap2
Planta de apart. típico do bloco D após
a reforma em 1995(Jornal do Campus – 4 a 10/12/1995 – pag 3 –
“Coseas transfere alunos para bloco D” – autor: Rodolfo Mengel)
Observação: Enquanto não começaram as
reformas dos outros prédios, que seguiram o exemplo, o modelo de
moradia do F era criticado como burguês e pouco intimista. Os moradores
do F eram tidos como mais reservados e menos hospitaleiros. O mesmo tipo
de crítica acontecia um pouco com o G. Já os moradores do
F consideravam os outros blocos como favelas em potencial.
Adendo (16/10/2000): Os prédios já foram reformados.
O prédio mais novo é o bloco C da Pós. Interessante
é que o título de bloco mais “caidaço” , “podre” ou
bagunceiro, agora é do bloco F.
Organização
Num trio de moradores, o voto de minerva controla. O morador mais
antigo tem uma certa ascendência sobre os demais.
(Existe o caso da formação de uma trinca
de moradores poder assumir um apartamento vazio, mas é muito raro).
Pode ser jogo de cintura ou livre e espontânea pressão. De
qualquer forma, acaba-se organizando uma forma de governo. Vale lembrar
que a maioria são dois moradores em acordo. O incomodado que se
retire.
A maioria dos apartamentos fica entre esses dois extremos.
quarto no Bloco F (1992)
Os Burocráticos:
São uma gracinha. Tudo tem lugar e tem lugar para tudo. Menos para a bagunça. Quase sempre os moradores são do tipo comportado, silencioso, ordeiro. Existe uma escala de limpeza semanal ou bimensal e se brincar, fazem uma vaquinha e contratam uma faxineira. Quem usa o vaso sanitário dá descarga ou incorre na ira dos demais. As vezes há o que se chama de uma reunião para decidir coisas como quem está fazendo o quê ou deixando de fazer, quanto cada um morre nas despesas do apartamento (artigos de limpeza, lâmpada, etc), a possibilidade ou não de um hóspede, etc. Qualquer desentendimento é resolvido com uma regra a ser respeitada. Privacidade acima de tudo. Nada de barulho depois das 22 horas. Vai hospedar alguém, tem que notificar os moradores, ninguém quer uma surpresa.
Os Desencanados:
É aquele apartamento onde você bate na porta,
atende uma menina loira, com um sorriso meio sapeca e um cigarro (as vezes
de tabaco) aceso. Trilha sonora da Janis Joplin. Seria super legal se fosse
também bonita. Para ela, tudo bem. Sem problema.
Quer ser hóspede, pode trazer suas coisas, tem
um cara que tá quase de saída. Ou já foi? Aí
você entra, já sente o cheiro. Aqui, sujou, lavou. O problema
é fazer o cara que sujou admitir, porque ele ainda está dormindo
e perde a memória depois da farra de ontem. Mas não tem problema,
você lava e da próxima vez, lava ele no seu lugar. A lâmpada
da sala ainda não foi trocada, uma porque o pessoal acha vela legal.
Outra é que ninguém quer saber de ir comprar ou quando vai,
esquece...
Hóspede não só é gente como
pode trazer hóspede, se for gente fina. Festa de vez em quando é
bom.. Você não se incomoda se a gente fumar, né?
Sobre a Escala de Limpeza e Reunião de Moradores do apartamento
Coisa que as vezes dá muita briga. Uma porque nem todo mundo se preocupa com isso. Alguns moradores não tem tempo. Outros acabam deixando para o colega que realmente arranca os cabelos se ver bagunça. O que é a limpeza:
¨ Lavar os pratos e talheres quando usar
¨ Esvaziar o lixo quando está cheio
¨ Dar uma limpada no vaso de vez em quando
¨ Dar descarga
¨ Limpar e varrer a sala (e o seu quarto)
¨ Trocar o rolo de papel higiênico
¨ Em alguns casos, passar um pano para tirar a poeira
da parede
Há outros serviços típicos de apartamento, como:
¨ Trocar a lâmpada (quando queima)
¨ Ir no Supermercado comprar produtos de limpeza
(e comida)
¨ Trocar o segredo da fechadura (muito bom quando
morador foi expulso do apartamento)
¨ Chamar a manutenção para consertar
o chuveiro, a privada ou desentupir alguma coisa
A
Lista de Schindler - Será que consegui entrar?
(ou resultado da Seleção Sócio-Econômica)
"A fila é a sublimação da morte" (do autor)
O resultado da seleção é sempre algo
que não satisfaz a todo mundo. A seleção é
para por o cara dentro. Um ano depois, é a reseleção,
como já falei anteriormente. A lista dos escolhidos, entre 200 e
300 todo ano, é o resultado da pontuação obtida pelas
perguntas e discussões das assistentes sociais. Muito se comenta
sobre o processo já que existe pouca informação sobre
como acontece.
Em teoria, pessoas de fora tém mais chance do
que naturais de São Paulo. Ninguém tém a verdade escrita
na testa em fonte Times Roman. Não é muito fácil definir
quem precisa mais de tal vaga. Ouvi falar que a seleção da
Pós-graduação tira fora de cara os que tem bolsa de
mestrado ou doutorado. É possível entrar com um recurso contra
a classificação. A resposta demora tanto tempo que acontecem
mudanças financeiras com o indivíduo. Comprovando, é
possível conseguir reverter.
Junto com a "lista de Schindler" existe uma lista classificatória,
detalhando o quão perto o elemento esteve de conseguir a vaga. Dependendo,
é possível esperar outras classificações secundárias
ou listas de 2a e 3a chamada (tém gente que larga a vaga depois
da seleção então outros são chamados). Os que
não são chamados podem ser hóspedes até a próxima
seleção, uma inovação recente. Antes, se o
indivíduo desse sorte de conseguir um apartamento onde os habitantes
fossem "legais" o bastante, virava realmente um quarto morador com uma
grande vantagem adicional: não tinha que estudar para cumprir os
créditos.
Conseguida a vaga na seleção, existe outra
etapa, fácil para alguns, difícil para outros, que é
definir qual apartamento irá acolher o "bicho" (calouro). São
duas opções: sorteio ou por afinidade.
Para alguns moradores, é o tipo de coisa mais difícil
de suportar. Acontece quando não houve afinidade com ninguém
e/ou os dois moradores não chegam a um acordo sobre quem ocupa a
vaga que está disponível. As vezes, o quadro de moradores
está completo, não tem vaga no apartamento. Pode acontecer
também que existe briga entre os moradores e um dos 3 resolve (só
para sacanear) mudar para outro apartamento na última hora do último
dia. O resultado é o mesmo. A vaga vai para sorteio entre os indivíduos
(agora promovidos a condição de novos moradores) que por
uma razão ou outra não arrumaram apartamento para ficar.
Aí não tém jeito mesmo. Os moradores odeiam mas são
obrigados a aceitar aquele carinha que antes batia na sua porta e com o
qual nem queriam conversar. Independente de ser travesti, se fuma, ouve
música alto ou não toma banho todo dia. E claro, o hóspede
atual precisa da assinatura do novo morador, que pode inclusive não
quebrar esse galho.
O sorteio só acontece depois de esgotado o prazo
de entrada por afinidade.
Sentimento que se perde com o tempo. As pessoas se casam
e vão morar juntas porque tém alguma afinidade. E depois
se divorciam porque descobrem que isso não é o bastante.
Claro que três (ou quatro, cinco, oito) marmanjos morando juntos
não estão casados. Mas se ferram uns aos outros do mesmo
jeito (depois comento sobre brigas internas). O que é então
esse critério de entrada num apartamento? É o pessoal se
sentar, conversar e definir se tém os mesmos tipos de hábitos.
Um cara pode querer só gente da terra dele. Outro pode querer gente
só da mesma faculdade. Mulheres, se tiverem escolha, preferem morar
com mulheres (90% dos casos). Um gaúcho pode se sentir meio mal
morando com homossexuais (ou vice-versa). Pernambucanos podem não
gostar de morar com baianos. Peruanos podem detestar morar com gente do
seu próprio país.
Etc, etc..
Claro que isso não impede que ocorram enganos.
E como ocorrem. O cara pode adorar limpeza e ambiente arrumado. Mas ter
uma preguiça desgraçada para fazer isso. E o pior é
que as pessoas em busca de uma vaga vão dizer qualquer coisa para
entrar num apartamento que não cause nojo a primeira vista. E ..
os moradores com a vaga sabem disso. Então ficam se segurando e
perguntando para todo mundo que conhecem se não tém ninguém
para recomendar. Existe até mesmo a figura de morador "virtual",
o cara que passou na seleção mas vai usar a vaga só
de vez em quando. O morador "calouro" que bate na porta do apartamento
procurando afinidade é último recurso. Se esse calouro ficar
batendo em todas as portas, conseguir encontrar os moradores de todos apartamentos
que tem vaga disponível, (coisa bem difícil, normalmente
não consegue), ele só tém cerca de 10% de chances
de ser aceito em algum lugar. Que pode não ser o que ele quer.
Algumas vezes, a afinidade é construída
em cima de coisas que o "bicho" tém, como televisão, geladeira,
etc.. Outras vezes é o físico da pessoa. O(s) moradores ficam
doidinhos para ter uma mulher bonita morando. Ou mesmo uma mulher qualquer
mesmo, "mulher sempre sabe organizar e limpar melhor as coisas". Também
acontece o cara ser aceito mas ter que aceitar "aquele hóspede que
perdeu a vaga, mas só precisa de um mês ou dois para se formar"
(as vezes uma mentira só para o cara assinar o termo de hospedagem).
Em teoria, o prazo para o "bicho" entrar por afinidade começa desde
que pleiteou vaga de hospedagem. Na prática, muitos só começam
a procurar mesmo depois que sai o resultado da lista. É mais ou
menos uma semana que a pessoa tém para ir batendo na porta dos apartamentos,
encontrar os moradores e conversar. Uma semana que pode mudar muita coisa
na vida de alguém.
(as gravuras acima são a frente e o verso do termo
de hospedagem usado por volta de 1992)
Quando começou o apartamento 10? , só
havia a Mirona (apelido), uma geóloga que estava há anos
sob mira de expulsão do CRUSP. E era só hóspede, tem
essa. Vivia numa pobreza incrível. Apesar de estar até formada
não fazia quase nenhuma grana. Tinha um monte de pedras e plantas
que ninguém podia mexer tocar, uma bagunça de livros que
era triste. Que que ela podia fazer para tentar ficar mais um tempo? Era
um daqueles anos em que os estudantes estavam alojados no CEPÊ (anos
mais tarde a COSEAS providenciou alojamentos no térreo de um dos
blocos). As condições, meio que chatas, com certeza. Ela
chegou lá, como se fosse uma tiazinha bondosa e caridosa:
- Vocês querem ser hóspedes lá
no meu apartamento?
Ô, sem dúvida. Claro que era uma troca.
Mais tarde ela seria hospedada pelo pessoal que passasse na seleção.
Foram então uns seis marmanjos pra lá. Um ficou no quarto
dela, mas não dá pra dizer se houve sexo. De acordo com o
depoimento, o cara acordou as 3hs da manhã e viu a Mirona, sentada
numa cadeira como se fosse a estátua do pensador de Rodin. De óculos
e babando. Se mudou na manhã seguinte para o outro quarto.
Com o tempo, o pessoal foi conseguindo hospedagem
em outros quartos, desistiu, etc.. Ela e uns outros foram ficando. Atéque
Windsor (apelido) entrou como morador oficial. Apesar que só de
vez em quando dormia lá. Vários hóspedes vieram e
saíram. Um deles era o homem que veio do Norte. Só ficava
na janela, o dia inteiro, tentando ver se estavam perseguindo ele.Uma história
estranha de gangsters da Bahia. Mais um tempo se passou e os dois moradores
que entraram, chegaram a um acordo e iam expulsar a Mirona (que no final
das contas, ia perder o direito à hospedagem).
Um dia o tal aviso chegou e era para a menina sair.
Dia tal, hora tal. Out. Rua. Quem viu disse que foi comovente. Ela tinha
arrumado um barraco para morar. Mas até esse dia tal, hora tal,
ficou no apartamento. Faltavam cinco, dez minutos e ela lá, um pé
dentro e outro pé fora do apartamento.
O pessoal que ficou acabou tendo um probleminha, porque
entraram mais moradores oficiais. Um deles morador oficial já com
data pra sair por conta da formatura, com a noiva e mais dois outros. A
coisa foi se resolvendo com o tempo, mas ninguém mais aguentava
morar junto. Para piorar, tinha gente que estava faltando com a limpeza,
não contribui para comprar nada. E ainda assim discutia a boca pequena,
um falando mal do outro pelas costas. Windsor quase saiu fora para não
ter que agüentar o stress. Sentiu que, contra a sua vontade, ia ficar
com voto de minerva. Os dois outros moradores haviam confessado para ele
mais ou menos a coisa:
- Rapaz, com você tudo bem, mas não aguento
mais aquele cara.
Resolveram decidir isso numa reunião. O que
fazer? Ninguém queria discutir o assunto. Ao invés de discutir,
ficavam falando de assuntos da aula de ontem. Ambos os moradores falaram
que iam aceitar a decisão do 3o. O Windsor, de saco cheio com aquela
enrolação, falou:
- Tá legal. Então tchau você.
O cara que foi escolhido só faltou cair o queixo.
Finalmente no dia seguinte fez uma limpeza. Foi a feira e comprou um estoque
de produtos para o apartamento que durou meses. Mas nada de sair. Inquerido,
deixou claro o lance:
- Vocês não podem me tirar daqui a não
ser que eu queira. Não tô afim de ir atrás de outro
apartamento. Mas vocês fiquem a vontade.
Como ninguém queria sair, acabaram ficando.
Ninguém se fala, mas sobrevivem trocando farpas através de
terceiros. Que bancam os intermediários, transmitindo as concordãncias
e discordãncias entre os moradores.
Últimas Alternativas:
Invasões e outros galhos
Tudo começou com a invasão do Bloco D, que
era um museu de arqueologia e ciências naturais. Havia uma quantidade
muito grande de calouros no alojamento que não tinha mesmo para
onde ir. Foi uma ocupação e não invasão, na
verdade. O prédio era mesmo do Crusp e já estava sendo planejada
a mudança do museu, só que estava sendo adiada. Os estudantes
acabaram ficando no último andar do museu, onde ficavam os escritórios,
enquanto o material era empacotado e transferido para outro local. Não
houve vandalismo de qualquer espécie, uma exceção
foi quando o pessoal enfiou um dos moradores dentro de um sarcófago
pouco antes de uma inspeção de museólogos. Mas não
houve danos.
A ocupação aumentou o número de
vagas, embora não fosse exatamente uma forma muito legal de se morar.
As condições era apenas um pouco melhores do que no dormitório.
Cada um podia ter seu próprio ambiente, mas privacidade muito pequena.
Houve outras tentativas de se fazer invasões ou
ocupações como a última, feita por uma gestão
meio radical da Amorcrusp. Era de ocupar o bloco C que ia passar por uma
reforma. Quem participou dessa se ferrou, foi punido. Depois, durante a
reforma, o prédio foi novamente invadido, coisa que atrasou a obra
e de certa forma acabou prejudicando ao invés de ajudando. Para
tirar os "bichos" da construção, a USP resolveu pagar alojamento
fora. Talvez para alguns, tenha valido a pena. Só os veteranos que
ajudaram tiveram suspensões ou advertências.
O Lado Social da Vida Cruspiana
Amizades
"A gente precisa ter amigos. De todos os tipos, não importa que seja louco ou normal. Um tipo serve de companhia quando você pira. O outro, quando está pirado. A vida é assim". (do autor)
Algo muito fácil de fazer e de perder. Primeiro, é necessário que a pessoa seja de alguma forma ligada a comunidade, como ser hóspede ou morador. Outra forma é ser amigo de um. Frequentar o Bandejão ajuda. O básico é estar sempre num local onde seu rosto será visto todo dia, como uma fila qualquer ou sala de aula. O resto é só começar com aqueles assuntos bem vazios, típicos da USP:
como está a comida do Bandejão hoje?
você frequenta a aula do professor tal?
não é você que é amiga do beltrnao?
etc, etc
Um ponto em comum de conversa ajuda. De resto, todo mundo acaba tropeçando
em todo mundo, cedo ou tarde. Guardou o rosto da pessoa, ela será
vista nos mesmos pontos de ônibus, nos mesmos cinemas, etc..
O passo seguinte é a visita no apartamento/quarto. Pode-se não
avançar daí como pode-se chegar no próximo ponto,
que é o esgotamento de assunto, com o tempo. Um último passo
é o "eu nunca mais quero ver você", coisa simplesmente estúpida,
quando a Universidade é o ponto em comum. Esse lance ocorre muito
porque pode acontecer a chamada "traição" da amizade, que
é quando o sujeito abusa do relacionamento de alguma forma, como:
¨ Repetir um segredo da pessoa para outra (por pura
falta de assunto, as vezes por fofoca mesmo)
¨ Encosto (quando a pessoa "gruda" ou aluga a atenção
"ad nauseaum")
¨ Traição afetiva (sujeito paquera
a namorada do outro)
¨ Negação de empréstimo de:
dinheiro
material de estudo
apoio moral, político
etc..
O reatamento também é fácil de acontecer.. depende de pessoa pra pessoa.
"Todo mundo dormia na aula daquele professor. Mas só aquele sujeito é que roncava. Por isso é que foi reprovado. O barulho atrapalhava". (um papo que ouvi)
No cotidiano, há algumas variáveis que são
mais ou menos observadas pelos moradores. É de bom tom cumprimentar
as pessoas com quem se tem uma maior familiaridade. Todo mundo se vê
todos os dias ou quase. Como se cumprimentam uns aos outros? Em vários
casos, a pessoa que era seu chapa há um ano atrás pode não
merecer mais do que um aceno de cabeça. Não se pode porém
passar pelo corredor entre os prédios sem pelo menos dar a entender
que se viu a outra pessoa. Hoje, pode não se ter nada com ela. Mas
amanhã pode ser aquele cara que vai te salvar de uma fria.
O mais básico nessa tarefa de não ignorar
a pessoa com quem você falou ontem, é o cumprimento formal,
vulgo "oi". Ele não precisa ser realmente um "oi" falado. Pode estar
implícito num outro gesto qualquer, como levantar de sombrancelhas,
aceno de mão ou de cabeça, um polegar "tudo bem", esse tipo
de linguagem não-verbal. Alguns usam o artifício de olhar
o relógio ou para outra direção, para evitar o contato
visual com os olhos do colega. Antes de se sentar a mesa, é legal
falar um "com licença", mesmo que não se conheça ninguém.
O mesmo vale para a hora de se levantar e ir embora. Essa última
depende muito de pessoa para pessoa.
Na conversa de corredores, portaria ou na cozinha, tudo
depende de quem você é amigo ou inimigo. Se se está
na cozinha, o que conta é o tempo que se leva para descobrir o assunto
e o "gancho" que vai permitir a intervenção. Daí para
diante, tudo bem. Em anos, só uma única vez uma pessoa me
falou algo do tipo "isso não é da sua conta", o que não
quer dizer que se pode entrar no meio de qualquer bochicho sem temer esse
tipo de colocação. Algumas conversas são formas de
dizer as coisa indiretamente. A pessoa ouviu algo sobre você e quer
te tacar uma pedra ou te elogiar. Aí começa a conversar com
outro sobre o "alguém que fez isso ou aquilo".
Fila de bandejão é algo que também
tem seus hábitos. É feio pura e simplesmente furar a fila.
Mas é válido encontrar um colega que você não
vê tipo dois anos e falar: "Rapaz, como é que vai?" e entrar
junto com ele. O pessoal chia menos. Aí é que se começa
a entender o porque de "cumprimentar" sempre as pessoas. Outra é
quando se precisa de um ticket de refeição (para o bandejão)
e a venda já foi fechada. A alternativa é sair procurando
alguém, na multidão de usuários que tenha um ticket
sobrando e, mais importante, confesse que tem e queira vende-lo (muitos
só vendem para os amigos e olhe lá). Nessa hora, aquele cara
que você conhece e cumprimenta todo dia pode te salvar da inanição.
São as pequenas coisas que contam no dia-a-dia..
"Há dois lugares que, quando você tem que ir, você vai mesmo: banheiro e cemitério". (Gerárd Depardieu no filme Le Dernier Metrô)
O cruspiano, dependendo da pessoa pode ter alguns problemas com essa questão.
Um belo dia, faz bastante, o Giácomo me procurou
para bater papo. Figura carimbada, tinha certeza que pelo jeito queria
alguma coisa. Simples. Precisava aprender informática. Não
sabia nada. Precisava do mínimo para operar um micro, o MSDOS, LOTUS
e DBASE III plus. Na hora, pensei bem. Esse cara vai me ferrar com um monte
de gente se eu não topar. Então topei. Combinei na semana
seguinte das 10hs em diante. Na sala de informática do Crusp, que
na época, funcionava. Na segunda, fiz uma coisa muito simples. Saí
as 9:30 e deixei um bilhete do tipo "Fui no dentista".
Quando voltei, o bilhete continuava lá. Perguntei
para o porteiro, não, ninguém me procurou. Na quarta feira
já parei de colocar o bilhete. Sexta-feira, saindo as 10hs, vi a
figura do Giácomo lá longe, parecia que estava falando com
um amigo. Se me viu, nem acenou. Um mês depois, me falou que não
conseguia acordar para ir aprender a usar o micro.
Odiava a coisa.
"Virgindade é que nem carteira de motorista, serve para toda vida" (Ponto Final: Katmandu - livro)
Muita gente realmente tem a primeira vez dentro do Conjunto Residencial. Tanto homens como mulheres como homossexuais. Tem muita coisa que facilita. Pra começar, o espaço físico. Quem é que tem grana para ir no motel, quando se é estudante? Depois, fica fácil saber qual menina dá e qual que é fresca. Da mesma forma, a menina pode, se quiser, pedir para alguma amiga apresentar alguém. Dessa parte não sei muito (a maioria das que namorei eram de fora do CRUSP). Sei que várias meninas perderam a virgindade lá.
[Parte foi editada, quem estiver afim tente ler a versão em PDF]
"Fome é um hábito. Mas pode se tornar vício". (do autor)
A maior parte do pessoal come no Bandejão direto. Apesar dos
pesares, trata-se de uma comida balanceada. Correm algumas lendas, como
a da inclusão de salitre (que daria uma sensação de
estufamento e satisfação), coisa sempre negada. Outras vezes,
pode-se encontrar vários tipos estranhos de aditivos, como pedrinhas.
Algumas pessoas, por conta do ritimo de vida ou outros problemas, desenvolvem
gastrite. Mas o grande problema do cruspiano em relação ao
bandejão são os fins de semana e feriados prolongados. Antigamente,
quando se podia entrar duas vezes, o cara guardava num recipiente e punha
na geladeira no dia seguinte. Do contrário, só cozinhando.
[..]
"Na minha adolescência, ouvir Frank Sinatra era argumento em favor da lobotomia". (do autor)
A imagem que o povão de fora tem da moradia estudantil é essa. Primeiro, infelizmente a depressão existe. E no meu tempo (quando tinha contato com esses dados de forma direta) chegava a mais da metade das razões apontadas para o não cumprimento de créditos (essencial para se manter como morador). O stress da vida estudantil contribui para a depressão e até alguns casos de esquizofrenia são conhecidos. Mas como dizia o Caetano, de perto ninguém é normal. Quem tem mais sanidade mental? O sujeito que não fuma, não bebe, não cheira, não se diverte de forma alguma ou cara que não consegue produzir porque tem problemas como:
Adaptação:
¨ à cidade de São Paulo
¨ à vida universitária
¨ aos colegas de apartamento (ver fritura)
¨ ao rítimo de estudo (principalmente Póli)
Saudade:
¨ da terra natal
¨ da família
¨ amores,
¨ amizades
¨ mudança radical no cotidiano (mudou de apartamento
várias vezes)
Falta de:
¨ dinheiro
¨ amizades
¨ namorada(o)
¨ perspectiva (descobriu que será mais um
desempregado no fim do curso)
¨ jogo de cintura
A vida não é fácil. Existe um serviço
de aconselhamento psicológico gratuito, disponível na psicologia,
mas é necessário entrar numa fila de espera. Claro que a
depressão convida ao uso de drogas. O que pode piorar o quadro.
[...]
Outro caso caso foi o do sujeito do 1o andar do D,
muito depois da reforma. Ninguém aguentava morar com o sujeito.
Um cara que tinha perdido o direito a moradia e estava de hóspede,
conseguiu ficar com ele um tempo. O cara era muito pinel. Se alguém
batia na porta fora de hora, ele pulava a janela do primeiro andar e corria
em direção ao CEPÊ. Depois de umas horas, chegava na
portaria e perguntava se alguém tinha perguntado por ele. Até
o dia em que brigou com o porteiro por conta de uma pretensa invasão
da privacidade. Tinham outras histórias do indivíduo, mas
só soube dessas. Mais tarde, mesma noite, conversei com os porteiros
que estavam ali discutindo o caso.
- Aqui o conceito de normalidade é diferente
de lá fora. Isso aqui que aconteceu hoje é normal. Será
que quando sair daqui vão me achar louco?
Outro porteiro ouviu falou qualquer coisa e um terceiro
falou uma besteira sobre o Color que não tinha nada a ver com o
assunto.
- Tá vendo, gente? Olha a prova viva de que
realmente essa moradia brinca com a cabeça da gente.
Todo mundo concordou e achou graça.
Um caso de loucura que achei interessante foi o de
um sujeito chamado Colombus (apelido). Foi inclusive meu colega na Letras.
Tinha um jeitão de policial, cabelo curto, bem apessoado. Era fanático
pelo Rio de Janeiro e dizia que gostava muito de conversar. Conseguiu status
de morador logo no primeiro ano. Por alguma razão, pirou também.
Eu percebi no dia em que sugeriu um emprego de traveco
numa boite gay. Falou sério. Donde tirou isso, faço a menor
idéia, nem conhecia o cara direito. Na hora quase bati no cara,
a sorte dele é que foi durante uma aula. Seria expulso se fizesse
isso. Depois da aula desencanei e cortei o papo de vez. Soube do resto
depois, uma menina que namorei por 2 ou 3 noites e que de vez em quando
ficava no CRUSP, tipo meio ou final de semana. Disse que o Columbus tinha
oferecido hospedagem para ela. Ele dormindo no chão para emprestar
a cama. Nem tinha pensado em sexo, o que deixou a mulher ouriçada.
Uma vez ficou semi-nua na frente dele ("acidente", saindo do banheiro)
e ele não esboçou nada. O sujeito não se interessava.
Usava todo santo dia, o mesmo jeans e a mesma camisa. Sem lavar. Mesmo
assim, a mulherada tentava se aproximar dele, por conta do cabelo loiro
e os olhos verdes, profundos. Ele começou a parar de escovar os
dentes e cortou o banho. Soube através de fontes, que ele era um
dos únicos casos constatados de Esquizofrenia no Conjunto. Com atestado
e tudo. Tava em processo de expulsão, bastava chegar alguém
da família e levar. Nunca mais soube notícia.
"O problema das drogas no Brasil é a má distribuição". Espécie de ditado popular
Primeiro tem a questão de definir o que é
droga. Café, Coca-cola, bebida. Tudo isso acontece. Ouvi falar que
o consumo de estimulantes em algumas matérias da matemática,
é alto. O sujeito tem que ralar para conseguir passar. Na Póli,
mesma coisa. Em Cálculo Numérico, o sujeito estuda pacas
achando que vai tirar pelo menos cinco, acaba com 2.3 ou menos. Um amigo
que veio do ITA, a família contou que internou ele como toxicômano,
porque não podia entender como ele podia ter dias e noites de 20
horas. O sangue dele estava ficando pastoso. E no Crusp? Bom, um tipo de
drogado mais chato e mais conhecido são uns bêbados bem notórios
mesmo. Ninguém aguenta morar com eles. Nem os porteiros gostam muito.
Bebem dia sim e no outro dia também. Só não perdem
a moradia por um motivo simples. Passam com nota 10 em todas as matérias
da Engenharia. É muito difícil expulsar um cara aplicado
quando outros passam com nota cinco e continuam moradores. É inacreditável,
mas acontece. Conheci dois desse jeito.
Mas o pessoal associa a figura de drogado mais a maconha,
cocaína, crack, etc.. maconha é mais ou menos aceito entre
os estudantes. Há até um dito popular entre os boyzinhos
para só experimentar isso depois que passar no vestibular. O cara
segura a vontade de provar até chegar na faculdade. Depois, detona.
O mais incrível é que para alguns isso não afeta os
estudos. Uma vez ouvi no corredor:
- Ô meu, me fala quem te vendeu aquele fumo que você usou
para passar na prova da Pós da Federal.
"Os animais sempre brigam entre si. Brigar é uma coisa da natureza. Normal". (dito por um membro da Associação de Moradores)
As brigas no CRUSP são mais ou menos comuns, mas
o normal é um bate-boca, sem grandes consequências. Existe
também é o bater, sem dar chance ao adversário de
revidar, diferente de briga, que se entende como sendo uma disputa. É
a emboscada, quando se pega a pessoa de surpresa e a transforma em saco
de pancadas. Claro, quem faz isso fala que brigou e quem é que vai
contradizer? As pessoas que vêem o cara brigar o chamam de monstro
e é essa fama que o cara pega, a não ser que tenha uma quantidade
de amigos que o apoiem. Difícil uma coisa dessas chegar na polícia.
Pouca gente topa uma espera que pode chegar a 16 horas na delegacia, como
aconteceu comigo, uma vez. Quando chega, algumas vezes o processo é
arquivado por falta de testemunhas ou porque o cara fez as pazes com o
adversário, coisa possível com a nova lei 99 qualquer coisa.
O modus operandi da coisa, para quem não sabe ou se esqueceu
de quando era criança, é simples. Não pode deixar
o cara ficar falando um monte. Tem que falar um monte também e fazer
cara de nervoso, ameaçando mesmo. Se deixar o cara "peitar", quer
dizer, ir chegando perto, encostar o peito, a coisa tá perdida.
Porque a partir daí o cara tem a iniciativa e sabe disso. Quem deixa
o cara chegar perto é porque está com medo ou não
quer agredir. Se o cara já chegou ali, sabe que o primeiro soco
do adversário tem que ser na cabeça, sabe que pode agarrar
o sujeito, derrubar no chão e fazer o diabo. Sabe até que
tem que esperar o soco, porque ele só aparece quando a pessoa perdeu
o controle mental que caracteriza um combate ferrado. Claro, eu perdi várias
brigas (depois de velho), antes de perceber isso.
[..]
"Eu acredito que Deus existe. Não só existe como me odeia". (Miguel Angel Zárate)
Um aviso que dão para os calouros na USP é a existência
dos "Jesusps". São estudantes, bem vestidos, que se aproximam e
falam o famoso "OI!" e depois perguntam seu nome, que faculdade você
faz. E enrola um papo. Homens abordam homens e mulheres abordam mulheres.
Qualquer pessoa que está meio triste, sozinha, se arrisca a ser
abordada por eles. E o que acontece? A maior parte das vezes pinta um convite
para um bate-papo evangélico. Que, se a pessoa aceita, é
cobrado. Não pode aceitar só por delicadeza. Se você
mora no CRUSP (eles perguntam ou descobrem seu endereço) vai aparecer,
no sábado de manhã um homem (ou mulher, se você for
mulher) te chamando para ir e vai te encher o saco até que você
apareça lá. É uma tática que pode até
fazer sucesso. Algumas vezes, tem mulheres bonitas nos bate-papos. E todo
mundo é atencioso com todo mundo. Para alguns estudantes, vindos
do interior, sem nenhuma amizade, confusos diante de uma metrópole
como São Paulo, pode parecer uma forma de escapar da solidão.
No início, não é grande problema. Depois, começa
a sabatina em cima e o sujeito começa a ficar com medo até
de se masturbar. Estuda direto uma bíblia fornecida pelo grupo e
sai por aí, em busca de gente para trazer para o caminho do senhor.
Sair é mais fácil falar do que fazer. As amizades são
um ponto que segura muito e a lavagem cerebral é algo muito forte.
Há seitas evangélicas que são liberais e não
interferem no desejo do indivíduo sair. O problema é que
algumas vezes o cara até consegue sair, mas não consegue
achar graça em mais nada. Por muito tempo. Que graça ou esperança
pode fornecer o mundo para um ex-religioso. O normal é o cara mudar
de seita, não parar com o fanatismo. Nos EUA e na Europa existem
centros específicos para indivíduos que saíram e até
especialistas para "limpar" um pouco o trabalho de doutrinação.
No Brasil, nada. Há medo até de colocar tal matéria
na imprensa.
Existem as seitas não-jesusp, ou seja, orientais, como Hare-Krishna
e Oshô. Falar o quê? No Brasil existe a liberdade de religião.
O indivíduo é livre para orar nesse ou naquele culto. É
bem difícil interferir nisso. Não se pode falar muito mal,
porque as seitas religiosas, sejam elas quais forem tem o seu lado positivo.
Muitas vezes é a única alternativa para um indivíduo
que não consegue controlar um vício, como a bebida ou arrumar
razão para não cometer um suicídio, coisa tão
comum no Stress de cidade grande. Uma ou outra pessoa estaria na mais absoluta
miséria mental e material se não tivesse aceitado este convite.
Há exemplos de indivíduos que se "consertaram" depois que
se converteram. Vai saber..
No início, é alguém que começa
a conversar contigo sem que você saiba a razão. Se o assunto
vai para o bate-papo religioso, a pessoa pode falar pura e simplesmente
não. Mas nem sempre funciona, tem que ser bem enfático e
eles não te pegam quando você está de mal humor. Te
abordam quando o dia está lindo e não se tem vontade de brigar.
O que fazer, então? Boa pergunta. Uma alternativa era falar que
é judeu. Funcionava, porque judeu é quase sempre fanático.
Mas hoje, convidam para o bate-papo religioso mesmo assim. Falar que é
umbandista dá certo, mas nunca tentei. O que realmente usei foi
falar que era devoto de Tantra. Essa foi a coisa mais legal que pensei.
Porque todos eles escutam com paciência quando o papo é religião.
Aí é só explicar que Tantra é o uso do sexo
para se chegar a Deus. Você faz um clima com incenso e depois transa
com sua namorada, mas sempre retardando o orgasmo.
Ejaculação é pecado. Não
pode. Teve uma vez que eu descrevi a cena com tantos detalhes quanto possível
e fui vendo o sujeito mudar de cor. Aí perguntei se ele tinha namorada,
porque isso é essencial para alguém praticar tantrismo. Ele
não tinha. Que peeena. Outra coisa foi o lance da Opus Night. Que
é o contrário da Opus Dei. É um pessoal que fica nos
botecos, batendo papo, curtindo um uísque e discutindo a salvação
do mundo. Tem que consumir álcool? Tem.
Para se discutir a salvação do mundo
é necessário enxergar além da realidade. Ora, a realidade
é apenas um sintoma da ausência crônica de álcool
na corrente sanguínea, dizem os irlandeses.
Depois de um tempo com esse papo, a notícia
se espalhou, nunca mais fui abordado por ninguém.
Gays, Lésbicas e Simpatizantes
"Quem gosta de pau é bicha. Mulher gosta é de grana". (Sérgio Armando)
É um assunto que poderia dar um livro. São vários tipos diferentes e quando escrevo essas linhas, deixo bem claro que estou comentando pós-conceito e não pré-conceito. Tanto o gay quanto a lésbica podem ser generalizados em várias categorias:
Assumido (não esconde a condição)
X Enrustido (ninguém sabe que é, até ele)
Resolvido (está nem aí pro que pensam)
X Problemático (quer que todo mundo o aceite)
Compromissado (tem alguém) X Carente (topa qualquer
um que aparecer, para tirar o atraso)
Discreto (não conta pra ninguém que é)
X Esfuziante (precisa falar?)
etc, etc, etc
A maior preocupação em relação ao gênero, é do tipo homofóbica, pode ser resumida nestas frases:
será que o indivíduo vai tentar me comer?
meus amigos vão me respeitar se me virem com um?
É complicado, porque o índice de medo de homossexuais, vulgo homophobia, aumenta diretamente em proporção com o tempo que o heterossexual está a perigo. O pior é que os dois podem estar a perigo. Fica algo parecido com a situação de ser amigo da Suzana Alves, a Tiazinha.
As pessoas tém uns preconceitos em relação ao assunto. Até onde descobri (não pesquisei profundamente, tudo é convivência ou ouvir falar), gays, só porque são gays, não são necessariamente:
¨ Covardes
¨ bons cozinheiros
¨ mente aberta
¨ consumidor de drogas
¨ afeminados
¨ prestativos
¨ traiçoeiros
¨ soropositivos
¨ bem-humorados
¨ amigos de todo mundo
¨ ordeiros
¨ educados
¨ aluno da ECA (conheço vários que
são e que não são)
¨ possuidores de bom gosto
etc
O cara pode ter uma ou mais de uma dessas características. Ou nenhuma delas, sei lá.
CUPIDO de GAY: Havia um tempo em minha vida que minha
namorada, Tetê (apelido) foi morar num apartamento com um casal formado
por um gay (apelido Vavá) e uma lésbica (apelido de Diesel,
vulgo Didi), ao mesmo tempo. Vavá era um cara que fazia uns bicos
tipo programação e a faculdade não sei se era matemática
ou física. Já Didi era algo de artes plásticas. Tinha
tudo para ser um macho, até cara feia, quando tava afim. Tinha sido
baterista de 2 bandas de rock, na terra dela. Subia nas favelas sem o menor
problema.
Os caras curtiam vida noturna pacas. Um dia, o Vavá
arrumou um namorado. Lindo, maravilhoso, com casa de praia, carro importado,
pais que já tinham mandado ele pra Londres, Paris, enfim, o tipo
de situação financeira que podia fazer um hetero pensar no
que estava perdendo. Lógico que o Vavá entregou tudo de mão
beijada pro cara. Mergulhou na relação como se fosse durar
para sempre. Aí aconteceu o inevitável. O cara foi embora.
Coisa que eu já previa, mas não ia falar, afinal, que que
eu tinha ver com isso. Do meu ponto de vista de macho, qualquer cara com
muita grana não ia gastar tudo com uma mulher só. Gay ou
não, o RG do cara dizia sexo masculino e toda mãe avisa a
filha que homem nenhum presta. Aí, tudo bem, Tetê me contou
essa história, eu ouvi e falei o óbvio:
- Vamos sair hoje a noite?
- Não posso.
- Porquê? A gente combinou faz tempo, você
tá com a semana lotada. Tem que ser hoje.
- O Vavá tá passando mal. Ficou com
disenteria a noite inteira, eu preciso levar ele no HU para tratar, quem
sabe
colocar um soro.
- Deixa ele, é problema amoroso, isso passa..
- Não.
E por aí foi. Depois da segunda vez que a "nossa"
noite foi prejudicada por conta do problema amoroso do cara, não
aguentei. Tava pensando em trocar de namorada, quando tive a idéia,
a grande idéia. A salvação da Pátria.
Nos tempos de secura, quando nenhuma mulher olha pra
gente, uma coisa as vezes acontece. Os gays que ficam olhando parecem que
incomodam mais. Naqueles dias, aconteceu d'eu dividir um grupo de trabalho
na Pedagogia com um sujeito assumidamente assumido, apelido Ícone.
Ele não deu em cima de mim porque eu tinha dado a entender que não
era minha praia, etc, etc. Mas um dia tomei coragem e perguntei pra ele
se ele tinha namorado. O cara me olhou com uma cara de "é hoje que
eu tiro o atraso". Expliquei o problema.
- Você topa conhecer o sujeito? Quem sabe você
se arruma?
- Tudo bem. Taquí o meu telefone.
Resolvido o primeiro passo, fomos para o segundo:
como passar o telefone para o madaleno arrependido?
- Táqui, você que mora com o cara. Se
vira, Tetê.
Ela ficou com aquilo na mão quase uma semana.
Aí entregou para a Didi e contou mais ou menos o lance. A Didi ouviu,
olhou para a Tetê e soltou aquela risada. Chamou o Vavá, contou
tudo e os dois ficaram olhando um pro outro, morrendo de rir. Dois dias
depois, Vavá ligou, combinou e se encontrou com Ícone. E
finalmente pude sair com minha namorada numa boa, para tirar meu atraso.
"O que chamam de sociedade hoje é pouco mais do que individualismo grupal. Mas você tem que achar seu grupo de indivíduos" (do autor)
São das mais variadas possíveis. As que ninguém sabe direito como é, onde tem que se ser convidado para entrar (além de levar uma bebida) como a festa do cabide, passando por bailes e festas de aniversários, que qualquer um entra. Algumas tem que levar bebida, outras o aniversariante banca.
Uma que marcou época mas nunca me falaram muito, foi no bloco D, bem depois da reforma. Ou foi no C? O fato é que em teoria, era só mais uma festa do cabide. Mas a coisa foi noite adentro. De manhã seguinte, a música e o som não haviam parado. Teve gente que saiu só para abastar a festa de bebida. Chegou a tarde, até o COSEAS tava preocupado. Não conseguiam parar a festa. O interfone tava fora do gancho. A segurança foi chamada. Não podiam invadir. Cortaram a luz. O pessoal tinha som movido a pilha. Acabaram conseguindo parar a festa, lá pelo final da tarde. Não deixando mais ninguém entrar. Um estooouro!
"Eu tenho dúvidas sobre a implantação do Socialismo
no Brasil. Acho que não vai sobrar Carla Perez para todo mundo".
(do autor)
A dissolução do chamado Bloco Socialista
trouxe uma espécie de vácuo na esquerda brasileira. Vi amigos
meus cairem numa espécie de depressão quando viram a bandeira
comunista sendo baixada no Kremlin. E caíram em uma depressão
muito maior quando uma onda de refugiados albaneses resolveu afundar o
navio dentro do porto, na Itália, para dificultar a deportação.
Chamar o que existe hoje de a "Esquerda" é meio
que miopia. O que existe, se olhar de perto, é uma miríade
de caminhos que o pessoal denomina de "oposição". Todo mundo,
até no governo tem gente contra o governo. Todo mundo é do
contra, mas acaba criando uma dissidência. Ninguém quer se
unir num só bloco. Quer criar um bloco e os outros que venham atrás.
Citam o MST, mas e o resto? Será que o camponês, com terra,
depois de comprar sua TV a cores com video-cassete vai querer ficar só
nisso, lavrar a terra para subsistência e criar os filhos? Ou vai
entrar num consórcio para comprar um carro, uma máquina de
lavar, forno de microondas, virar consumidor? Não sei mais no que
acreditar. De interessante da minha experiência no CRUSP, são
as histórias e estórias do tempo em que se acreditava na
revolução.
[ ..]
Foi num ônibus que ouvi o termo esquerdofrenia.
Um rapaz que tinha o discurso de movimento estudantil mais ou menos assim:
O problema do movimento estudantil atual é
que ninguém se mobiliza. Os que vão nas passeatas estão
divididos em dois tipos: os que ouvem que a universidade está sendo
sucateada e ficam nisso e os que estão afim é de botar pra
quebrar para que isso não aconteça. Aí vem aquelas
piadinhas: Até que ponto você é de esquerda?
- Eu sou canhoto. Mais esquerda, impossível.
- Eu sou de esquerda, mas na hora de bate sou de direita.
Sabe, eu perguntei pra minha mãe qual a linha
política dela, ela falou que é marxista. Porque? Porque para
ela, ser humanista é ser marxista.
Então, o que dizer dos grandes líderes?
Que foram grandes e só isso? Não. Fizeram grandes erros como
o que matou Trótski. Ou Stálin, que matou muita gente. Eles
seguiram um caminho que hoje nós não achamos correto mas
que na época talvez não tivesse escolha. E qual seria o caminho
correto? O do centralismo democrático. Que idéia é
essa? As decisões vão migrando das bordas para o centro.
Para não haver divisões. É cruel, mas é a única
forma de conservar a força, através da União. O indivíduo
tem que se sujeitar as decisões do comitê. Senão nada
acontece.
Dentro do conjunto residencial, define-se como casamento o ato de
duas pessoas começarem a morar juntas. Há quem defina que
um namoro sério já é um casamento. O povo se vê
todo dia, as vezes até assiste aula junto. Passam mais tempo em
comum que muitos casais. O grande problema é quando falta camisinha.
Aí, das duas, uma. Ou deixa nascer ou aborto. Há moradores
que tem lista de clínicas, mas o problema é grana. Aborto
você paga a vista, mas uma criança é algo que consome
dinheiro a prazo e no início, pode não ser tanto dinheiro
assim. Já vi 3 ou 4 amigas desse jeito. As mães do Crusp
são uma coisa meio complicada. Do ponto de vista acadêmico,
não se preve tal coisa. Dividir o apartamento com alguém
que deu a luz pode ser o inferno na terra, quando se tem prova para estudar.
Algumas casam para fins de regularizar situação perante os
pais. Outros ficam nisso. Já vi mulheres que deram o chute nos "maridos".
Ninguém tem coragem de chegar e falar abertamente "fora as
mães do Crusp". Principalmente as mulheres. Afinal, pode acontecer
com você.
"Não era um dos caras por quem eu mais me apaixonei. Sabia que não ia durar muito. Mas ele estava afim.." (contado por uma mãe do CRUSP)
Toda mulher vira, cedo ou tarde, uma agência de marketing de si mesma. (do autor)
É muito legal a falta de atenção da mulher com o lance dos papéis tradicionais, dentro do CRUSP. Abre a porta do elevador para você e nem se toca que podia ser o contrário. Mas agradece quando abrimos para ela. Homem nem sempre, óbvio. Mas algumas ainda fazem umas coisas meio que chatas, típicas. E algumas são enigmáticas.
Mironela (apelido) era uma menina que se dizia do interior.
Mas quando chegava nas festas, se esfregava com uma gata no cio em três
ou quatro caras diferentes. Para todos prometia a mesma coisa. Que não
entregava. Se ela fosse bonita, o pessoal achava normal. Mas era feia.
O pessoal dava atenção porque acreditava estar vendo uma
DPD (doida pra dar) e ficava a ver navios. Caiu na boca do povo. Um dia,
o pessoal formou uma rodinha, perto do apartamento onde ela morava, começou
a comentar o jeito dela. A menina ficou vermelha e começou a gritar
a partir da janela:
- Seus safados! Sou apenas uma menina humilde, que
veio do interior, que tenta se manter inocente, vocês estão
acabando com minha reputação, salafrários, vigaristas,
sem vergonhas, se meu pai estivesse aqui dava uma surra, sem vergonhas
..
Mas não saía do apartamento para por
um fim na conversa.
Foi nessa que também conheci uma menina fantástica,
super gente fina, vinda do interior de Minas. Ainda somos amigos até
hoje. Me impressionava muito, porque não achava ela especialmente
bonita, não era nem particularmente esbelta. Mas nunca a vi triste
e sempre tinha namorado. Um dia comentei com ela e a resposta é
que de vez em quando, ainda tinha que escolher um dos que estava afim.
E o visual dos caras com quem andava não era de tranqueira não.
Deve ser o sorriso e a simpatia. Pura beleza interior. A última
vez que a vi estava casada e fazendo concurso para dar aulas pra rede de
ensino do estado.
Política Interna
AMORCRUSP - Associação de MORadores do CRUSP
(Observação: refere-se ao período até 1995 e trata-se principalmente da descrição das regras empregadas durante o tempo em que tive alguma participação. Quando há descrição de fatos, esteja claro usei apelidos inventados no lugar do nome )
A Associação de Moradores do Crusp, assim como sua companheira da Pós-graduação, é responsável por uma boa parte da agitação que acontece no pedaço. Em quase todos os sentidos. Por várias razões, não vou comentar os mandos e desmandos da atual, mas sim a Associação cuja gestão tive uma participação. É uma experiência que te ensina muito sobre a vida e as pessoas. O preço é alto. No popular: você entra cajá e sai cajú. Mas o que que é a AMORCRUSP? Basicamente é um grupo, eleito exclusivamente pelos moradores oficiais, que coordena assembléias, organiza festas, decide sobre o uso da antiga sala 51 (que já foi nas Colmeias, depois mudou para o térreo do C e agora está no F), promove passeatas. Atualmente faz um quebra-pau, de vez em quando. Tinha, antes da última e odiada administração do COSEAS, o trabalho de julgar os recursos dos moradores ou dizendo de outra forma, julgar se a explicação em papel do fracasso do ano letivo do morador era válida.
Em tese, não havia poder maior que a reunião de todos
os alunos numa sala, votando uma questão. Nos áureos tempos
do CRUSP, havia enorme participação. Já na época
onde participei, tudo dependia do assunto em questão. Se o assunto
era polêmico, como "o que fazer com os gatos no crusp" ou "a expulsão
sumária de moradores", havia uma quantidade enorme de gente. Se
fosse algo como "discussão da limpeza nos blocos" ou "eleição
do regime interno da AMORCRUSP", o comparecimento era quase zero. Algumas
vezes, a participação foi forçada, como a que regia
a comissão de informática do CRUSP. Foi fechada a sala e
um cartaz avisava que na assembléia ia ser decidida a reabertura.
Outras vezes, membros da associação foram de porta em porta,
chamando os moradores.
Podia ser um exércício de cidadania, já que
as assembléias tinham gente coordenando, proposta, defesa de proposta
e direito de resposta, além de outras práticas comuns a plenários.
Cada um tinha o direito de falar e de ser ouvido enquanto falava, salvo
exceções. Depois da defesa da proposta, contra-defesa, segue-se
a votação. Os resultados são chamados de deliberações.
Um exemplo negativo de assembléia: O problema dos Gatos
A questão dos gatos no Crusp era algo que se arrastava há
talvez uma década. Sei lá. Mas o fato é que algumas
estudantes de veterinária começaram a cuidar dos gatinhos
abandonados que passavam por alí. Todo mundo cuja gata tinha tido
uma ninhagem trazia os "indesejados" para o Campus. O local pegou fama
como viveiro de gatos. Era possível encontrar até gatos de
raça, embora fossem adotados bem rápido. As estudantes formaram
uma espécie de organização que não chegou a
ser ONG para coletar comida que sobrava do bandejão e alimentar
os bichinhos. E .. isso começou a dividir os moradores entre os
que adoravam um bichano (para acariciar depois das refeições)
e os que inventavam mil e uma maneiras de dar fim aos bichos. Dava nojo,
algumas vezes. Todo dia, em algum lugar, havia um gato morto. Uns, jogados
do alto dos prédios. Outros, no poço do elevador, chutados,
arremessados, torturados, sei lá.
Virou um problema velho. Uma assembléia anterior, bem anterior,
feita numa cozinha do bloco A (bem antes da nossa gestão), não
tinha como objetivo principal resolver essa questão. Os caras tinham
outras prioridades. Cujo trabalho de votação estava dando
muita polêmica. Resolveram botar primeiro questões "fáceis"
para ganhar tempo. Começaram com a dos gatos. Ficaram até
as 4 horas da manhã. Não houve nenhuma outra votação
além dessa. Durante um ou dois anos, ninguém mais foi em
assembléia. A coisa tinha perdido toda a credibilidade como processo
político.
Até aí, tudo bem. Nada havia sido feito. Os anos passaram,
quem gostava dos gastos separava sua comidinha, dava para os bichinhos
depois das refeições. Não era algo que eu considerava
que fosse trazer muita gente, mesmo porque não sabia da história
anterior. Faltei então na sexta-feira que era para acontecer a tal
reunião de moradores do bloco F para resolver o problema dos gatos.
Resolver o problema não no Crusp inteiro, só no F.
A sala lotou. Não cabia, teve gente que ficou no corredor.
Esperaram minha presença como representante, depois começaram.
Ninguém ouvia ninguém. Durante duas horas as pessoas ficaram
se esguelando, cada uma com uma proposta diferente. Ninguém votava
nada porque todo mundo atrapalhava a fala de todo mundo. Até que
se decidiu por fazer uma lista de gente que fosse falar suas propostas.
Um falava uma proposta contra, depois outro chegava e falava a sua, a favor.
Tá legal. Veio o primeiro, 3 minutos sem interrupção
para apresentar sua proposta, heim?
- Eu proponho que nós façamos uma fábrica de churrasquinho de gato e outra de tamborins. A gente vai selecionando, usamos a cozinha do...
Foi o CAOS!
E por aí vai. Lá pelas 3, 4 horas da manhã propôs-se, para que todo mundo fosse dormir, votar uma comissão, que seria decidida em assembléia posterior, para arrumar uma nova área para colocar os bichanos. E .. conseguiram votar. Nunca mais fizeram tal assembléia nem se decidiu tal comissão. A área para um gatil saiu, vários anos depois. Muito tempo mais tarde, o gatil, já meio abandonado, foi fechado e os gatos recolhidos para a carrocinha.
[..]
Comissão de Informática: Um exemplo positivo:
Tudo começou com o Josué, um cara da FFLCH-História, que inclusive tinha mania de fazer uma oposição ferrada contra a minha gestão (dessa forma, alguns membros emprestavam a chave do escritório da Associação, só porque não aguentavam gente falando mal pelas costas - aí ele e sua turminha podiam usar o micro para fazer seus trabalhos no final de semana). Comunista linha bem stalinista, tava de saco cheio do horário das salas de computação da USP, que estavam abertas principalmente em horários que coincidiam com aulas. Ele foi até o Calegari, na época, diretor do COSEAS e apresentou a seguinte dúvida (claro que com os ânimos bem carregados):
- Será que às vésperas do novo milênio, o aluno da USP vai ter que entregar sempre o trabalhinho dele manuscrito a caneta ou lápis?
O Calegari, ou por que estava afim de melhorar a imagem dele com
o pessoal (ia ter eleição para reitor no ano seguinte) ou
porque achou boa a idéia, topou, mas colocou o seguinte lance: O
Josué teria que arrumar um número de assinaturas para que
ele, Calegari, apresentasse ao Reitor, como reinvidicação.
Dito e feito. O cara saiu colocando xerox da proposta em todas as portarias.
Todo mundo assinou. Mais tarde ele veio até nós para que
fossemos representantes da Associação durante a conversa
, agora oficial, de requerimento da sala.
A conversa ia bastante bem, acho que foi legal eu estar junto, era
o único que entendia de computação o bastante. Aí
surgiu a grande dúvida: Quem ia administrar a sala? A idéia
era uma sala que funcionasse 24 horas. Seria necessário um número
proibitivo de monitores para tomar conta do pedaço. Tinha que ser
uma coisa dos próprios moradores. Propus um sistema de auto-gestão
baseado numa experiência minha como monitor na Estatística
Aplicada. Sempre tinha alguém que ficava altas horas da noite. Era
só dar uns privilégios para estes ratos de laboratório
de computação e pronto. O Calegari topou na hora. Quem não
topou foi o Kacken (apelido do cara), um cara que já tinha sido
da Associação em outra gestão. Outro comunista convicto,
achava um absurdo essa coisa de "dar privilégios". Coisa de burguês
imperialista. Todos são iguais perante a constituição.
Falou um monte, mas acabou engolindo a proposta depois, quando teve sua
vez na conversa. E ninguém quis me dar o crédito.
Acabei entrando para a Comissão de Informática, junto
com esse imbecil, a mullher dele e o Josué. Esse último é
que merece todo o crédito. Foi até o fim. Só estava
interessado em poder usufruir de uma sala de computadores no CRUSP. Eu,
como membro da Associação, tinha outras tarefas, mas delineei
o que seria um número de computadores, coisas como número
de impressoras, disposição, etc. Tínhamos que fazer
uma assembléia para explicar o pessoal e dar uma espécie
de "representação legal" para a comissão, o que foi
feita. A pós também se interessou pelo projeto e deu uma
ajuda, para que pudesse mais tarde fazer sua própria sala de micros
(apesar de já terem uma). Mais tarde, ficou convencionado que a
Pós também usaria a mesma sala.
As coisas a princípio iam muito bem. Eu estava sem tempo
para nada, mas feliz da vida de estar conseguindo experiência de
sala de informática. Aí, um belo dia, vem uma colega de gestão
me falar que o Kacken e a mulher dele foram visita-la e tacaram um monte
de acusações contra mim, falou que eu era um burguês,
que ia dar privilégios para uns poucos de uma coisa que nem era
minha, em suma. Foi falar mal de mim para os meus conterrâneos. Fomos
eu e a colega conversarmos com a mulher do cara, por um acaso estava andando
próximo dali. Ouviu um monte. Quase bati no cara, quando o encontrei.
Meu colega de comissão e falando mal de mim para os meus colegas
da associação. Ele pediu desculpas, falou que não
ia mais fazer isso (da boca pra fora, porque continuou fazendo isso em
qualquer oportunidade que pintasse, gratuitamente, sem que nem fosse problema
dele). Faltava só a gente fazer um documento, para distribuir no
apartamento dos cruspianos. Gastei uma noite, poderia dizer, atrapalhei
um semestre fazendo esse documento. Só que o Kacken e esposa tinham
feito o deles. Que ocupava menos espaco, apesar de cheio de erros ortográficos.
A dupla Kacken e Esposa saíram fora da comissão.
Eu bati palmas. Até que vi o folheto que acabou sendo xerocado
e entregue. Não aguentei. Não tinha digerido muito bem ainda
alguém falar mal de mim pelas costas, tinha ferrado com uma prova
de recuperação pra fazer esse papel e agora via que não
tinha sido usado. Fui até o Josué e pedi desligamento da
comissão. Ele, muito gente fina, foi atrás da dupla Kacken
e Esposa, que concordou em finalizar os trabalhos. Um tempo depois, já
todo o trabalho burocrático terminado (a Reitoria já tinha
concluído pela necessidade e autorizado o início da construção)
faltando apenas uma assembléia para decidir o local (acabou sendo
o térreo do bloco A), eles ainda falaram que eu continuava dentro
da comissão. O Kacken foi muito esperto. Arrumou um jogo com minha
namorada para que fizesse eu faltar nessa Assembléia, assim não
podia espalhar para todo mundo nossas picuinhas. Meus colegas porém
comentaram o lance. Depois disso, nenhum membro da Associação
participou de comissões de qualquer espécie. No máximo
como elemento de ligação. Qualquer iniciativa dos moradores
seria feita por eles.
A sala de informática do Bloco A foi inaugurada quase um
ano depois. Houve alguma pompa e circunstância, com a presença
do Reitor, que tirou uma foto do lado de um Josué de camiseta e
shorts. Tava sorrindo todo sem jeito. Nunca pensou que teria alguma forma
de homenagem desse tipo. Ainda converso com ele, apesar dos radicalismos
que teve adotou, anos mais tarde.
A comissão de informática que tomou posse depois que
a sala ficou pronta, aguentou um ano. Fizeram a renovação
de uma forma muito simples. todo o CRUSP já havia se acostumado
com a sala Pró-aluno. Que que eles fizeram? Fecharam a sala por
uma semana e marcaram uma assembléia. Como esperado, a assembléia
lotou. Eles colocaram o problema: "gente, nessa assembléia tem que
sair uma nova comissão, senão fechamos e entregamos a chave
da sala para o primeiro que aparecer". Deu certo. Eu não ia, mas
acabei entrando, com mais algumas pessoas (que foram saindo). Eu e outro
cara ficamos dois anos e meio, até que caímos na besteira
de tentar uma eleição para a Associação de
Moradores. Verdade seja dita, nesse período, a sala funcionou 24
horas por dia, muitas vezes sem monitor. E ao contrário de outras
salas de computação da USP, nenhum micro ou peça de
equipamento foi roubada.
[.. ]
Autoridade,
Abuso e outros grilos:
"Qualquer pessoa que acha politicamente correto bater em alguém, pode achar que não dar chance de defesa tem tudo a ver" (do autor)
Quem participa da diretoria, normalmente fica em uma posição privilegiada para vários tópicos. Por exemplo:
Como Ciclano da Silva, a pessoa jamais é recebida
pelo Reitor de forma fácil e rápida. Porém, como parte
da diretoria da Associação de Moradores, a coisa muda. Isso
abre algumas portas. Muita gente faz uma chance e entra nessa porque tem
lance de fazer carreira política. Dentro do movimento estudantil,
você pode calar todo mundo numa assembléia qualquer dizendo
que você foi eleito pra alguma coisa como essa. É uma forma
muito boa de botar banca, ninguém questiona.
Já houve gente que tentou obter uma graninha por
fora. E se ferrou legal, porque fizeram um impeachment na mesma hora.
Antigamente, quando se julgavam os recursos, a pessoa
encarregada tinha a vida de um monte de gente na mão.
Algumas vezes quem tem problemas são mulheres
bonitas.(Obs: Não é legal misturar “trabalho” e lazer, há
possibilidade de ser encrenca ou armação da oposição).
Você pode entrar para a história fazendo
parte de algum evento cruspiano. Pena que poucos cruspianos tem memória.
É ligeiramente mais difícil o COSEAS te
pedir para você ir embora. É bem pouco ético e sempre
se pode convocar uma assembléia para isso.
É uma grande chance de se conhecer um monte de
gente. O difícil é ser conhecido e não ficar queimado.
O pessoal da oposição faz a sua caveira mesmo, aos poucos.
Um big abuso é o uso de gente da própria chapa para intimidar
e bater em (possíveis) opositores.
Exemplo de abuso de autoridade: O caso do 401-F
Este aconteceu em 97, bem depois da gestão em que participei, numa festa da ECA (se não me engano). Um ex-membro de uma gestão anterior do DCE (cuja diretoria não se dava com a associação de moradores) foi brutalmente espancado (junto com a namorada) por três membros da diretoria da Associação de Moradores. Sem falar que o mesmo cara já tinha havido uma invasão do apartamento por gente ligada a mesma Associação. Que que aconteceu? Deu-se queixa na polícia e tanto o C.A. da Letras como o morador agredido colocaram cartazes comentando a covardia da agressão. Que houve réplica por parte do agressor, assumindo e falando mal do cara. Uma coisa que podia até ser pessoal, mas que foi respondida em nome da Associação. Houve até processo interno, teve gente que foi suspensa. Mas como o clima estava muito ruim, fez-se uma assembléia para o pessoal saber o que houve. Eu não participei, só ouvi falar que houve momentos lindos. Com a palavra, um dos membros da associação, comentando o caso:
- A violência não é boa nem má,
depende das circunstãncias.
- Se o sujeito não batesse nele, eu batia porque
ele merece (essa frase foi uma menina também da associação,
comentando o caso).
Final das contas: Formou-se uma comissão para avaliar quaisquer futuros casos de agressão que acontecessem na moradia. Esssa gestão que tinha mania de cantar de galo, baixou a cabeça um pouco e alguns dos membros sumiram do mapa durante uns tempos.
Outro exemplo: o Caso da Propina
Esse aconteceu numa gestão posterior. O sujeito
(vou apelidar de fala-muito) era da diretoria e naquele ano, foi conseguido
um alojamento para os "bichos" (calouros do crusp) no térreo do
bloco C. Calouro é bicho burro, diz o ditado. Então não
estranhou que houvesse uma taxa, acho que de 25 Reais, na época,
para que pudesse arrumar um canto para dormir até o final da seleção
para moradia (a vaga fora da Universidade estava por volta de 300 reais).
Todos pagaram. Só que o Fala-muito não
contou nada disso para o resto da diretoria. Na verdade, ele não
poderia ter nem cogitado cobrar essa taxa, porque é um bem público.
Como se não bastasse, fez isso sem informar o resto da diretoria.
No serviço público, acho que isso seria concussão,
exigir dinheiro para fornecimento de serviço. Quando o barulho começou,
acabou devolvendo o dinheiro para o pessoal, mas não adiantou. Foi
feita uma assembléia de Impeachment e no final, a gestão
continuou, mas o Fala-muito teve que pedir desligamento.
[..]
Este texto não tem conclusão. Cada pessoa antes tinha uma idéia, como eu, antes de vir para a USP. Vida é apenas um sonho dentro de um sonho aos olhos dos deuses, diz um provérbio oriental. Não acaba quando saímos da Universidade, sonho de muitos que fazem o vestibular. Mas o que importa nos sonhos é como eles ajudam a gente a entender nossa realidade. Se esse texto ajudou alguma coisa, então esse é o fim..
[.. ]
BIBLIOGRAFIA:
Entenda-se “do autor” como frases ou citações de minha autoria.
Algumas frases com certeza já foram ditas antes e estão com a autoria incorreta. Lamento qualquer irregularidade, gostaria que me enviassem a referência para correção.
A maior parte do material ou são de histórias vividas
por mim. Algumas são versões minhas de boatos que escutei
no CRUSP. Outras são ficções de minha autoria. Atesto
para os devidos fins que as histórias descrevendo eventos passados
na Associação de Moradores, embora até certo ponto
possam ser comprovadas por documentos (registros que podem ou não
ainda existir) representam uma visão pessoal dos fatos. Os apelidos
utilizados não são apelidos que foram usados pelos personagens
durante os acontecimentos.