
Paraty
Cristina Pilan Oliveira
A cidade surgiu entre névoas, o coração
indicou-me uma igreja refletida no mar.
A escuna deslizava rumo ao altar.
Espumas na areia bordando o véu, as ondas nas
pedras tocavam a Ave Maria das águas, melodia
constante nas conchas de minha alma.
Atirei-me ao mar para afogar minha sede de amor.
Levando todos os temporais de meu espírito, segui
para uma praia deserta, proibida na época da chuva,
ali poderia ficar isolada por dias, caminhando entre pedras,
caindo e levantando, como sempre fiz em toda minha vida.
Não me inportava, não tinha mais nada a perder.
Quando uma onda gigantesca ameçou apossar-se da praia
e de minha alma, fechei os olhos e dexei-me levar,
ouvi o barulho, senti sua força... Meu pesadelo maior
foi ver que nada aconteceu. A dor de reencarar
meus problemas foi dilacerante.
Outra onda surgiu, de seu tubo um surfista,
senti que ele também queria desafiar a vida.
De repente sumiu, apareceu desacordado na areia, parti a
seu encontro, não sabia o que fazer. A respiração
boca a boca transformou-se em um beijo.
Viu o céu no meu olhar, disse que estava no paraíso,
explorou minhas costas à procura de asas. Asas ?
Contou-me que havia desafiado a vida e afrontado o Criador.
Há tempos estava em busca de um grande amor,
a solidão era seu maior castigo. Estava no mar para se render.
Nossas vidas cruzadas por momentos de dor,
na busca de um grande sentimento, viver para amar.
Agora com um amor, amar viver...
