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Nuno Craveiro Lopes 

Director do Serviço de Ortopedia e Traumatologia
Hospital Garcia de Orta, Almada - Portugal

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COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA

Doença de Legg-Calvé-Perthes após postura da anca em extensão e rotação interna repetida, seguida de micro-traumatismo. Estudo experimental no coelho em crescimento. (1993)

 

Vários autores induziram experimentalmente em cachorros e coelhos em fase de crescimento, lesões semelhantes às descritas na doença de Legg-Calvé-Perthes (DLCP), utilizando métodos invasivos e cirúrgicos para provocar uma interrupção repetida da circulação intra-capsular da epífise femoral superior, confirmando a hipótese de que os episódios isquémicos repetidos são de importância fundamental para a génese da doença.

Neste trabalho experimental num modelo não invasivo, estudámos o efeito da postura em extensão e rotação interna prolongada seguida de um micro-traumatismo sobre a anca, repetida de dois em dois dias.

 

Desencadeando um episódio isquémico com a postura em extensão e rotação interna.

Produção de micro-traumatismo sobre a anca, por transmissão de vibração mecânica sobre o joelho flectido com um motor vibratório.

 

O posicionamento em extensão e rotação interna prolongada e repetida induz um aumento de pressão intra-capsular suficiente para provocar uma isquémia e necrose do núcleo epifisário da cabeça femoral. 

Após esta necrose, observa-se um processo de reconstrução rápida, com repermeabilização da vascularização original e reabilitação primária das estruturas necrosadas, sem perda da sua resistência mecânica ou distorção da sua estrutura.

 A repetição dos episódios isquémicos, constitui um processo patológico com características próprias e comporta-se como uma doença isquémica intermitente, provocando uma distorção da resposta osteogénica e fragilização da estrutura mecânica da epífise.

Nestas condições, a existência de micro-traumatismo leva ao colapso da epífise, com compactação da sua estrutura trabecular, destruição da rede vascular primitiva e formação de um verdadeiro sequestro ósseo, que constitui a fase inicial da Doença de Legg-Calvé-Perthes.

 O processo de reconstrução da epífise nesta fase, inclui a substituição lenta do sequestro por zonas de tecido mesenquimatoso rico em fibroblastos a partir do tecido mieloide periférico e por zonas de tecido cartilagíneo a partir da cartilagem articular, dando assim início à fase de fragmentação típica da doença de Legg-Calvé-Perthes.

Com esta metodologia foi possível induzir lesões macroscópica e microscopicamente comparáveis á DLCP em 75% das ancas após a 2ª semana. Nas ancas sujeitas apenas ao posicionamento, só foram encontrados sinais microscópicos de necrose simples e reparação, sem sinais macroscópicos de deformidade em 25% dos casos. 

 

A) Osso normal. B) Necrose simples e reparação.

C) Necrose sobre necrose e osso em colmeia.

D) Doença de Perthes

A) Osso metafisário normal. B) Distorção da cartilagem de crescimento. C) Osso epifisário necrosado.

Colapso externo da cabeça do fémur após desencadeamento experimental de doença de Perthes. Espécimen macroscópico. 

Colapso externo da cabeça do fémur após desencadeamento experimental de doença de Perthes. Espécimen diafanizado.

 

ILAÇÃO CLÍNICA: Os resultados do presente trabalho experimental, estão de acordo com a existência de uma nova entidade clínica, a Doença Isquémica da Anca em Crescimento (DIAC), que em determinadas circunstâncias pode evoluir para a Doença de Legg-Calvé-Perthes.

 A postura repetida em extensão e rotação interna tão comum na criança que dorme em decúbito ventral, principalmente nas que apresentam anteversão femoral exagerada, pode desencadear em crianças susceptíveis, episódios isquémicos intermitentes com necrose simples da epífise femoral superior. Se um novo episódio de necrose ocorre sobre uma epífise em processo de regeneração de uma necrose anterior, a cabeça femoral perde a sua resistência mecânica. Se nesta fase houver micro-traumatismos sobre a cabeça femoral, vai produzir-se uma fractura patológica sub-condral e o colapso do núcleo epifisário, com o início clássico da doença de Legg-Calvé-Perthes.

 

Padrão típico de DIAC bilateral, na RMN em T1. 

Padrão típico de DLCP à direita, na RMN em T1. 

 

        Os dados deste trabalho de investigação experimental, permitiram estabelecer um protocolo de despiste de DIAC e introduzir medidas para prevenir o aparecimento da DLCP nestes doentes. 

        O protocolo pode ser consultado em   http://www.geocities.com/craveiro01/pagedlcp/index1.html

        O modelo experimental que serviu de base ao procedimento preventivo pode ser consultado em http://clientes.netvisao.pt/nfrancac/dlcp02.htm

 

 

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