Recordar…
O mar abraçava a praia
de sempre. As vagas, agora transformadas em ondas, caminhavam
perfeitas sobre o chão azul espelhado, colorindo-o
com pedaços de branco, com energia, com envolvimento.
O vento, esse nómada perdido, trazia a sua voz de
terra e gritava sobre o mar. Era fácil ouvi-lo, o
frio percorria os nossos corpos, era um sinal da sua presença.
O Inverno era jovem, tal como nós, e a praia de sempre,
recebia-nos como uma mãe, enamorada pelo pai, o mar.
Éramos um grupo pequeno, porém
unido, o mar une as pessoas, sabiam? Entre nós, havia
um puto que se destacava pela sua alegria, mas também
pela sua inocência, talvez por ser o mais novo, não
sei. O colónias, nome que adoptou perante o nosso
grupo, pois os seus avós tinham uma casa dentro das
instalações das colónias do INATEL,
e de tantas vezes falarmos no puto das colónias,
acabou por ficar. O bodyboard era a sua grande paixão,
mas todo um talento respirava no seu corpo. Mais tarde,
começa com o pranchão, a habilidade era notória,
tal como a sua simpatia para com todos dentro de água.
A última surfada que demos,
com ondas minúsculas, foi na praia em que nos conhecemos,
gritei com algumas das suas manobras, puro estilo, puro
feeling. O puto tinha crescido.
Já está de noite, o
caminho de volta da Ericeira é feito em piloto-automático,
as ondas em que deslizei percorrem o meu pensamento e guiam-me
para casa. O telemóvel (maldito) toca, a minha mãe
diz-me para encostar o carro e ter calma: “ morreu um amigo
teu, o Luís Pedro”, estive mais de um minuto para
fazer a associação pessoa – nome, desculpa-me
Colónias, mas eu já não ouvia o teu
verdadeiro nome há tanto tempo. Chorei, questionei-me,
arrependi-me dos dois últimos anos em que raramente
nos vimos.
À noite, na praia de sempre,
unimo-nos, e dissemos-lhe até sempre.
João “Flecha” Meneses
15 de Maio de 2003
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