IV. A teoria económica marxista: a sua aplicaçom às contradiçons existentes na posiçom que ocupa a mulher na sociedade capitalista.

 

   Até o de agora temos concentrado o nosso estudo do marxismo em desenrolar o seu concepto de ideologia e em contrarrestar a tradiçom do determinismo económico de forçar umha divisom entre umha análise ideológica e umha análise económica. Mas isto nom equivale a afirmar que as categorias básicas económicas que Marx desenrolou nas suas obras principais, como os Grundrisse ou O capital carezam de valor. Faze-lo serviria unicamente para reforçar a divisom entre economia e ideologia que, segundo já temos argumentado, devera desaparecer. Pola contra, resultam indispensáveis para desenrolar umha análise detalhada das tendências que actúam em relaçom à posiçom das mulheres na sociedade capitalista, especialmente nas suas etapas avanzadas. A tarefa que nos resta é, entom, a de voltar a essas categorias e emprender tal análise baixo a luz da argumentaçom prévia.

 

   Já se derom algúns passos nesta direcçom cumha série de artigos em torno ao tema do "trabalho doméstico" no capitalismo. Estes artigos representam umha tentativa importante de opôr-se a um dos efeitos do determinismo económico sobre a teoria económica marxista, é dizer, o limitar a análise do "modo de produçom" unicamente às relaçons de produçom industriais. Em contra disto, nestes artigos tentou-se destruir a pressunçom de que as categorias económicas de Marx só resultavam pertinentes para a posiçom do proletariado em relaçom coa produçom, e que a posiçom das mulheres no fogar era algo que saía do seu campo de aplicaçom. Nom obstante, estes artigos toparam co obstáculo de que o próprio Marx nunca sinalou de forma explícita a aplicabilidade das suas categorias.

 

 

[1. A POLÉMICA EM TORNO AO TRABALHO DOMÉSTICO E A PRODUÇOM DE PLUSVALOR]

 

  Em 1969, Margaret Benston fixo a primeira contribuiçom à polémica, co título "A economia política da libertaçom das mulheres" (1). Em muitos aspectos estableceu as bases da discussom. Neste artigo tentou analizar as "raízes económicas" da opressom das mulheres a fim de mostrar "que as mulheres em quanto grupo tenhem efeitivamente relaçom concreta cos meios de produçom e que esta é diferente da dos homes". A sua conclusom foi que as mulheres eram definidas "como esse grupo de gente que som responsáveis da produçom de simples valores de uso, nas actividades relacionadas co fogar e a família".

 

  Seguindo esta mesma linha, María Rosa Dalla Costa em "O poder das mulheres e a subversom da comunidade" deu um passo adiante e afirmou que "o trabalho doméstico produz nom só valores de uso, senom que resulta essencial para a produçom de plusvalia... o trabalho doméstico é produtivo em sentido marxista, é dizer, produz plusvalia" (2).

 

  Wally Seccombe, em "A ama de casa e o seu trabalho baixo o capitalismo", tomou o ponto de vista oposto e tentou, pola contra, descobrir a fórmula para o valor do "trabalho doméstico". Esta formulaçom foi atacada por duas contribuiçons posteriores. A primeira "O trabalho doméstico das mulheres", de Jean Gardiner, julgou os factores que actuavam em favor e em contra da socializaçom do trabalho doméstico no capitalismo. A segunda, "A ama de casa e o seu trabalho baixo o capitalismo - Umha crítica", escrita conjuntamente por Margaret Coulson, Brabka Magas e Hilary Wainwright, discutia o ponto de partida das escritoras anteriores respeito à posiçom da mulher como ama de casa e afirmava pola contra "que o rasgo central da posiçom da mulher baixo o capitalismo nom é simplemente o seu papel como trabalhadora doméstica, senom mais bem o facto de que é  ao mesmo tempo trabalhadora doméstica e assalariada" (3).

 

  Este rápido repasso dos argumentos serve-nos para delinear, nom obstante, as principais perguntas que urge respostar. Qual é a relaçom das mulheres coa produçom da força de trabalho? Produz valor o trabalho que as mulheres realizam na casa? Pode o capitalismo socializar este trabalho? E qual é a importáncia do facto de que as mulheres saiam fóra a trabalhar e trabalhem tamém na casa?

 

  O argumento inicial da polémica, devido a Margaret Benston, de que as mulheres producem valores de uso, era em realidade mui pouco polémico. Todos os objectos que tenhem um uso tenhem consecuentemente un valor de uso.  E por conseguinte, ao converter por exemplo, os ovos, a auga, a manteiga e a farinha num pastel as amas de casa criam certamente novos valores de uso. Mas cambiar um objecto de umha cousa a outra nom supóm necessáriamente nengumha grande diferência para o sistema capitalista nem proporciona por isto importáncia ao trabalho da mulher. A polémica começou quando Dalla Costa sugeriu que as mulheres nom produciam unicamente valores de uso, senom tamém plusvalia. Agora, a produçom de plusvalia é a verdadeira razom de ser da sociedade produtora de mercadorias, já que é a base da acumulaçom de capital. Se se dera o caso de que as mulheres produciram plusvalia, entom o seu trabalho seria dumha grande importáncia para o sistema capitalista. E ao mesmo tempo, a posiçom da mulher na família passaria imediatamente de ser umha questom periférica, como os marxistas tenhem afirmado tradicionalmente, a ter umha importáncia estratégica para derrocar o capitalismo. Sem embargo, utilizando a distinçom de Marx entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo, Seccombe opuxo-se a esta sugerência. Nom obstante, mostrou-se de acordo com que o trabalho que realizavam as mulheres no fogar, para o que acunhou a expressom "trabalho doméstico", era necessário, e nom periférico, para a produçom capitalista. O trabalho produtivo, na interpretaçom de Marx, vinha definido nom polo facto de que fora ou nom um trabalho socialmente necessário, senom por encontrar-se ou nom em relaçom directa co capital através do salário. O "trabalho doméstico", ainda que era socialmenle necessário, estava privatizado e impagado e por tanto, nom producia plusvalia. E assi tentou tomar um rumo distinto ao de Benston ou Dalla Costa, afirmando que o "trabalho doméstico" expresava um valor que nom era nem plusvalia nem meramente valor de uso. O seu argumento era o seguinte:

 

  "Quando a ama de casa actua directamente sobre os bens adquiridos co salário e altera inevitavelmente a sua forma, o seu trabalho convirte-se em parte da massa congelada do trabalho anterior, incorporada na força de trabalho" (4).

 

   Assi, de acordo com este argumento, o valor que cria o trabalho doméstico expresa-se no valor de intercámbio da força de trabalho do trabalhador.  Desta forma Seccombe, creu que descobrira a fórmula para fijar o valor do "trabalho doméstico".  O salário do trabalhador dividia-se em duas partes, A e B:

 

  "A parte A corresponde ao salário do trabalhador (e os seus substitutos) mentres que a parte B corresponde à trabalhadora doméstica (e os seus substitutos)... Velaqui o critério para fijar o valor do "trabalho doméstico": cria um valor equivalente ao dos "custos da produçom" do seu próprio mantimento, é dizer a parte do salário" (5).

 

  Mas, como Gardiner afirmava no seu artigo, havia um falho enorme na argumentaçom de Seccombe. Segundo el, que o seu método era umha aplicaçom lógica da teoria do valor do trabalho, é dizer que o trabalhador assalariado nom recebe todo o valor que cria, apropriando-se o capitalista parte deste valor, senom somentes o valor da sua força de trabalho.  Sem embargo,

 

 "apresenta o valor criado pola trabalhadora doméstica como realmente determinado polo valor que ela recebe do salário do seu marido. Assi, a mistificaçom da forma de salário que Seccombe expóm e rejeita no caso do trabalho assalariado, aplica-se inquestionavelmente ao trabalho doméstico" (6)

 

  Ademais, Gardiner esboçou as implicaçons das conclusons, de Seccombe:

 

   "Se o valor que criam as amas de casa é, de facto, igual ao valor que recebem do salario dos seus maridos, o capital nem ganha nem perde, em termos de plusvalia, co trabalho doméstico" (7).

 

  Assi pois, segundo a argumentaçom de Seccombe, a posiçom da mulher como "trabalhadora doméstica" nom supom umha tensom específica no sistema capitalista.  Presumivelmente, a excepçom da existência dos benefícios "ideológicos" que xurden do mantimento da família, o capitalismo poderia tanto socializa-lo como mante-lo privatizado.

 

  Mas voltemos ao dito anteriormente sobre a distinçom entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo, e a categorizaçom do "trabalho doméstico" como socialmente necessário. Seccombe cria que, em primeiro lugar, como o "trabalho doméstico" nom era produtivo, nom estava governado pola lei do valor. E polo tanto, em segundo lugar, como nom tinha umha relaçom directa co capital nom existia nengumha pressom específica para incrementar a sua produtividade:

 

  "A força de trabalho doméstica, ao nom ter umha relaçom directa co capital, queda isolada perifericarnente pola evoluçom deste e nom sofre nengumha alteraçom significativa na organizaçom do seu processo de trabalho ao longo de toda a época capitalista" (8).

 

  Mas, é isso certo? E o que ocorre coa evoluçom do estado de bem-estar social na Grande Bretanha do século XX?  Coa implantaçom da educaçom estatal e da seguridade social, o Estado fixo-se cargo de tarefas, como a educaçom da mocidade ou o cuidado dos enfermos, que anteriormente eram realizados polas mulheres nos seus fogares.  Certamente, estas ocupaçons seguen sendo domésticas em países capitalistas nom avanzados. E que dizer da invasom do sistema de produçom de mercadorias en áreas como a do lavado de roupa, confecçom e alimentaçom? E que dizer desse periodo do capitalismo, a começos do século XIX na Grande Bretanha, em que o rápido avanço da industrializaçom lançou às mulheres ao mundo laboral, ameazando a mesma existência da família, mentres que umha indústria de mulheres da classe trabalhadora aparecia da noite à manhá para encarregar-se das suas tarefas domésticas?  Seccombe eludiu totalmente este fenómeno no seu informe por considerar que nom tinha importáncia.

 

  Mas, quere isto dizer que Seccombe se equivocava ao classificar o "trabalho doméstico" como improdutivo e que depois de tudo Dalla Costa tinha razom?  Para resolver esta interrogante é necessário dar um rodeio. Marx falava nos Grundrisse doutra situaçom na que "o trabalho pode ser necessário sem ser produtivo" (9), o que arroja umha nova luz sobre o problema.  Referia-se às formas de trabalho que, como no desenrolo da comunicaçom, eram "todas as condiçons gerais, colectivas da produçom" (10).  Nestes casos, ainda que nom se criara plusvalia, existía umha importante relaçom entre a produtividade do trabalho em questom e o capital.  Estas condiçons de produçom,

 

 "mentres a sua produçom nom se poda lograr ainda meiante o capital como tal e baixo as suas condiçons, som polo tanto pagas cumha parte da renda pública do país, co erário público, e os trabalhadores nom aparecem como trabalhadores produtivos, ainda que incrementam a força produtiva do capital" (11).

 

  Mas antes de dilucidar se o trabalho das mulheres no fogar pode incluir-se nesta categoria, hai outro ponto importante que formulou Marx sobre esta modalidade de trabalho:

 

  "O mais alto desenrolo do capital ocorre quando as condiçons gerais do processo social de produçom nom se criam a partir dumha deduçom do rédito social, dos impostos estatais -onde é o rédito, e nom o capital, o que aparece como Labour Funds [Fundos de trabalho], e o obreiro, ainda que é um assalariado livre como qualquer outro, desde o ponto de vista económico, está sem embargo noutra relaçom-, senom do capital em quanto capital.   Isto revela, por um lado, o grado em que o capital tem submetido ao seu dominio todas as condiçons da produçom social, e por outra banda, consguintemente, en que medida está capitalizada a riqueza social reprodutiva e se satisfacem todas as necessidades baixo a forma do intercámbio" (12).

 

   Em outras palavras, Marx pensava que a tendência da produçom capitalista era a de erradicar estas formas de trabalho socialmente necessário e coloca-las baixo a hegemonia do capital. O mais interessante é que Marx e Engels descreveram o efeito desta tendência na posiçom da mulher no fogar. Por ejemplo, em "A origem da família, a propriedade privada e o Estado", Engels referira-se ao "resultado da indústria moderna em grande escala, que nom só permite a participaçom da mulher na produçom, senom que realmente a solicita e, incluso ansia tamém converter o trabalho doméstico privado numha indústria pública" (13).

 

   Mais tarde, Clara Zetkin baseou a sua estratégia para a socialdemocracia alemá na exatitude desta análise em relaçom coas mulheres.

 

   Claramente, esta tendência a "o mais alto desenrolo do capital", como a denominara Marx, nom se chegou a realizar totalmente na sociedade capitalista moderna, nem em relaçom à posiçom da mulher no fogar, nem incluso desde um ponto de vista mais geral. A produçom de mercadorias só se fixo cargo parcialmente das tarefas tradicionalmente femininas. E ainda que o século XIX  significou-se por umha ampla utilizaçom das mulheres e nenos na indústria, na primeira parte do século XX producira-se umha estabilizaçom cualitativa da família. O capitalismo moderno, mais que supor umha disminuiçom da intervençom do Estado, vem-se caracterizando, particularmente na Grande Bretanha, por un crecimiento massivo dlos serviços estatais ou financiados polo estado. Quere tudo isto dizer que a análise que Marx fixo desta tendência estava equivocada, ou que a sua aplicaçom à posiçom das amas de casa estava fóra de lugar, ou quiçais que existia outra tendência no trabalho que nom tivo em conta? Para dar a contestaçom correcta, teremos que fazer outra ligeira disgresión sobre a natureza da força de trabalho (#13).

 

(#13) Como o objetivo da autora nesta parte é, fundamentalmente, analisar e criticar o método teórico que se seguiu nas distintas aportaçons em torno à aplicaçom da teoria económica ao problema do trabalho doméstico, finalmente a análise da questom de se o trabalho doméstico produz ou nom plusvalor, queda um tanto à marge. Para Foreman o trabalho doméstico é um trabalho "necessário" para o modo de produçom capitalista, mas ao mesmo tempo nom produtivo. Aqui está errada na nossa opiniom.

 

  Para Foreman o trabalho doméstico nom remunerado é necessário para a continuidade da produçom capitalista e está sujeito, quando menos indirectamente, à pressom para incrementar a sua produtividade. Mas nom analisa exatamente o por que dessa pressom. Umha empregada da limpeça, contratada por um patrono para que realice um serviço externo à produçom que se realiza na fábrica (limpar as oficinas, os lavabos, etc.), efectua um trabalho necessário, mas nom produtivo, apesar de ser umha trabalhadora assalariada. Coa mesma lógica, a mulher que trabalha sem assalariar numha empresa familiar, como camareira a media jornada num pequeno restaurante, está a fazer um trabalho tam necessário como produtivo do ponto de vista capitalista. No primeiro caso, como o trabalho de limpeça é inevitávelmente externo ao processo de produçom de plusvalor, o único que lhe preocupa ao capitalista é pagar o menos possível polo mesmo trabalho. No segundo caso, ainda que formalmente é um trabalho nom remunerado, o capitalista tem todo o interesse nom só em ter que pagar o menos possível, mas tamém em incrementar a produtividade do trabalho. No primeiro caso o que lhe interessa é diminuir o salário em termos absolutos, nom desenvolver os meios de produçom, considerando que nom cámbia o tamanho das instalaçons que hai que limpar. No segundo, ao contrário, o que interessa é aumentar a produtividade, de modo que a plusvalia produzida cresza proporcionalmente mais que o salário.

 

  Os avanços na produtividade do trabalho doméstico, meiante o desenvolvimento dos electrodomésticos, da fabricaçom de comida, dos produtos de limpeça, dos serviços e educaçom públicos, etc., e a sua socializaçom a escala massiva no consumo individual, nom se explicam se nom servem para alterar efectivamente a relaçom salario/plusvalia. A sua extensom implica um custo maior em termos salariais, por muito que o desenvolvimento tecnológico faga mais baratos esses produtos. Se o acesso a estes produtos se geraliza na classe trabalhadora, é porque esse incremento salarial se ve compensado amplamente por um incremento maior na produçom de plusvalor. Isto somentes é possível se o incremento na produtividade do trabalho doméstico repercute de modo directo na produtividade do trabalho assalariado, na relaçom salario/plusvalia.

 

  Por conseguinte, a nossa tese pode sintetizar-se nos seguintes pontos:

 

       1) O salário é um meio para a reproduçom social da força de trabalho como massa, nom umha relaçom individual, que é a forma em que se apresenta ao indivíduo proletário quando assina um contrato e recebe as nóminas mensuais. É sempre um salário familiar. Por conseguinte, a integraçom crescente da mulher no trabalho assalariado nom multiplica o salário masculino, senon que o deprécia para passar a distribuir o valor salarial medio (necessário para a reproduçom social da força de trabalho) entre um salário feminino e outro masculino (distribuiçom que segue a ser desigual, tanto pola posiçom subsidiária da mulher na família e as suas consequências, como polo mais elevado paro feminino).

 

       2) A socializaçom do trabalho doméstico nom remunerado, transformando-o em trabalho remunerado, implicaria para empezar que os salários teriam que aumentar para assumir esse custo. Se este trabalho nom fosse assumido polo capital, senom que adoptasse umha forma privada (contratando directamente a família a umha persoa para fazer esse trabalho), isto nom suporia umha verdadeira socializaçom, e ademais conlevaria um incremento dos custos do trabalho (despraçamento até o lugar de trabalho, fundo da seguridade social, etc.) por acima dos existentes. Mentres, por outra parte, esta forma de integraçom da força de trabalho feminina no trabalho assalariado nom supóm, a longo praço e em geral, um incremento do salário real correspondente à unidade familiar. Isto, deixando a um lado que o trabalho doméstico nom remunerado está sujeito a umha minimizaçom muito maior da parte do salário familiar que serve para a sua reproduçom, em comparaçom coa sua forma remunerada, que supóm umha externalizaçom do trabalho doméstico das relaçons familiares opressivas e a sua regulaçom meiante relaçons públicas (em teoria, naturalmente).

 

  Umha verdadeira socializaçom suporia que o capital se faga cargo da produçom doméstica, mas isto implicaria que, além dum salario mais elevado, a família teria que assumir a carga da plusvalia produzida por esse trabalhador ou trabalhadora para a empresa que realiza o serviço. Por estas razons, o capitalismo nom assumiu a socializaçom do trabalho doméstico, nem a assumirá salvo na medida em que é imprescindível para o desenvolvimento da produçom. E resulta evidente que o capitalismo nom precisa em absoluto de suprimir as limitaçons e desigualdades de género no acesso e nas condiçons do trabalho assalariado.

 

       3) A persistência do trabalho doméstico na sua forma tradicional, ainda que cada vez mais combinado co trabalho assalariado, explica-se por ser um trabalho necesário para o capital. O incremento na sua produtividade obedece ao interesse do capital para melhorar, por um lado, a qualidade da reproduçom da força de trabalho, e polo outro, para possibilitar a utilizaçom mais intensiva da força de trabalho feminina como assalariada sem que abandone o trabalho na família. O mesmo que a geralizaçom do automóvel privado nom é umha conquista social, mas umha condiçom necessária para poder extender e flexibilizar a jornada laboral e para fazer mais móbil territorialmente a força de trabalho (incrementando a oferta de trabalhadores/as para aumentar a competência dentro do mercado de trabalho e poder assi impôr salários inferiores); do mesmo modo, os electrodomésticos e outras "comodidades" servem para compatibilizar o trabalho doméstico gratuito co trabalho assalariado, nom para suprimir a posiçom tradicional da mulher como ama de casa.

 

  O trabalho doméstico das mulheres incrementa o tempo de trabalho e a energia laboral dos homes e, por conseguinte, a produtividade do trabalho assalariado, tanto no sentido da produtividade material como no sentido da produtividade em valor. Portanto, o seu trabalho produz plusvalor, mas dum modo que nom é vissível (tamém neste sentido pode qualificar-se de "trabalho invissível") e que, pola forma, é indirecto. Em primeiro lugar, nom objetiva o seu tempo de trabalho numha cousa, senom numha persoa, e dentro dumha relaçom aparentemente nom económica. Por isso, o seu trabalho apresenta-se como improdutivo, isto é: está fóra da relaçom trabalho assalariado-capital, relacionando-se únicamente co trabalho assalariado. Em segundo lugar, a mulher nom recebe umha renumeraçom, nem é empregada formalmente polo capital, de modo que nom está directamente baixo a autoridade do capital. Mas o que se perde de vista, e nom casualmente, é que o trabalho assalariado como actividade, e o trabalhador assalariado como recipiente da força de trabalho, nom som outra cousa que outra forma de existência do capital, em particular do capital variável, e que a relaçom da ama de casa co trabalhador assalariado é, ao mesmo tempo, ainda que nom se apresente de tal modo, umha relaçom co capital meiada pola família (enquanto estrutura localizada espacialmente fóra da empresa) e a própria relaçom interpersoal entre os sexos. Do mesmo modo que um trabalhador assalariado pode objetivar o seu trabalho numha mercadoria que vai permanecer durante certo tempo armazenada, para mais tarde entrar na circulaçom e vender-se, a trabalhadora doméstica nom remunerada objetiva o seu trabalho numha mercadoria -o corpo do home que é trabalhador assalariado- que terá que circular até o centro de trabalho para passar a funcionar activamente como capital e transmitir o valor excendente criado polo trabalho doméstico (excedente em relaçom às necessidades dumha mulher solteira ou sem parelha) junto co seu próprio valor. O que acontece é, pois, que, primeiro, o plusvalor criado polo trabalho doméstico existe somentes em estado potencial. Ao trabalhar, o home convirte essa energia e tempo suplementares em salario e plusvalia, e fai-no de modo separado e independente da mulher.

 

  Em conclusom, a especificidade da situaçom da ama de casa é que nom pode chegar a ser consciente por si mesma de que está produzido plusvalor. Para isso é necessário que assuma um trabalho assalariado e desenvolva a compreensom da relaçom do capital como relaçom de explotaçom; só entom poderá adentrar-se no problema do seu próprio trabalho doméstico. Que o plusvalor que produz esteja num estado potencial nom é nengumha imaginaçom; precisamente, trata-se do único tipo de trabalho humano que pode adoptar essas características, ao server para incrementar as forças produtivas, e o seu único co-relato poderia ser o trabalho da maquinaria, enquanto tamém incrementa directamente a força de trabalho humana, de modo que pode dizer-se que o incremento que produz o trabalho da máquina no plusvalor relativo está já, em estado potencial, na combinaçom física de trabalho humano e trabalho mecánico.

 

 

[ 2. A GENERIZAÇOM SOCIAL DA FORÇA DE TRABALHO, OU A SUA DUPLA FACE COMO RELAÇOM DE CLASSE E RELAÇOM DE GÉNERO]

 

  No livro primeiro do Capital, Marx sinala estes aspectos da relaçom entre o valor da força de trabalho e o emprego de mulheres trabalhadoras:

 

  "O valor da força de trabalho nom estava determinado polo tempo de trabalho necessário para manter ao obreiro adulto individual, senom polo necessário para manter à família obreira.  Ao arrojar a todos os membros da família obreira ao mercado de trabalho, a maquinária distribue o valor da força de trabalho do home entre a sua família enteira, desvaloriza, portanto, a força de trabalho daquel" (14).

 

  Queda claro neste parágrafo que Marx definia a força de trabalho como a capacidade do home para o trabalho (#14). Porque, se tivesse considerado que a categoria da força de trabalho era aplicável igualmente às mulheres que aos homes, teria falado mais bem neste parágrafo de que o preço da força de trabalho estava depreciando-se, nom de que o valor em si mesmo decrecera.  Incidentalmente, Seccornbe afirmou o mesmo ao descrever a força de trabalho como algo que desempenhava "um papel meiador entre a ama de casa e o capital" (15).

 

  Mas por que afirmaram isto Marx e Seccombe?  Definindo-a dum jeito abstracto, a força de trabalho é a capacidade para o trabalho, que compartem tanto homes como mulheres. A questom está, sem embargo, em que a força de trabalho é umha abstracçom em multitude de sentidos.  Em Salário, preço e ganho, Marx explicava um destes sentidos. O valor real da força de trabalho nom se determina só pola fórmula que se aplica a todas as mercadorias, principalmente pola quantidade de tempo empregado nelas, senom tamém por uns factores sociais e históricos definidos:

 

  "Hai certos rasgos peculiares que distinguem o valor da força de trabalho ou o valor de trabalho dos valores de todas as demais mercadorias. O valor da força de trabalho está formado por dous elementos, um dos quais é puramente físico, mentres que o outro tem um carácter histórico ou social. O seu limite mínimo está determinado polo elemento físico; é dizer, que para poder manter-se e reproducir-se, para poder perpetuar a sua existência física, a classe obreira tem que obter os artigos de primeira necessidade absolutamente necessários para viver e multiplicar-se. (...) Ademais deste elemento puramente físico, na determinaçom do valor do trabalho entra o nivel de vida tradicional em cada país" (16).

 

  Na Grande Bretanha, na primeira metade do século XIX o valor da força de trabalho levou-se praticamente aos seus limites físicos. A introduçom da maquinária e a inestabilidade do mercado de trabalho debilitou talhantemente a capacidade da classe trabalhadora para manter o valor da força de trabalho contra a força do capital que tentava mante-lo a um nivel baixo. Mas já na última metade do século XIX e começos do XX, a classe trabalhadora desenrolara considerávelmente a sua força organizativa.  E com esta força, desenrolou umha tradiçom de valores e expectativas.  Entre elas, e ocupando um lugar privilegiado, estava a crença de que o salário devia ser suficiente para manter à mulher do trabalhador na casa.  Henry Broadhurst, secretário do Comité Parlamentário do Congresso de Sindicatos manifestou os sentimentos da maioria dos homes trabalhadores quando dixo no Congresso de 1877,

 

  "Eles (os homes) tinham que considerar o futuro do seu país e dos seus filhos, e era o seu dever, como homes e como maridos, esforçarem-se ao máximo para acadarem umha situaçom na que as esposas puidessem quedar no lugar que lhes correspondia, o fogar, em vez de ter que lanzar-se à luita pola vida contra os homes, mais fortes e mais poderosos que elas" (17).

 

  Noutras palavras, o fortalecimento do movimento obreiro foi minado ao definir a força de trabalho como umha capacidade masculina e de acordo com isto, exigir que o salário reflectisse este facto.  Deste jeito, a começos do século XX produziu-se um incremento substancial do valor da força de trabalho, um possível avanço que Marx, de novo, tinha anticipado em Salário, preço e ganho.

 

  "Se comparades os salários ou valores do trabalho normais em distintos países e em distintas épocas históricas dentro dum mesmo país, veredes que o valor do trabalho nom é, por si mesmo, umha magnitude constante, senom variável, ainda suponhendo que os valores das demais mercadorias permaneçam fixos" (18).

 

  Mas a definiçom da posiçom da mulher no fogar nom se reflectia unicamente num incremento dos salários.  Senom tamém, e mais tarde de maneira crescente, num incremento da intervençom estatal.  Através do desenrolo do sistema impositivo e particularmente do desenrolo de innovaçons como as bonificaçons fiscais para o home casado e  a sua família, o mantimento da mulher no fogar chegou a ser financiado parcialmente polas rendas públicas.  Assi pois, as actividades da mulher na família convirtiram-se, de facto, numha parte das "condiçons gerais e comunitárias da produçom" às que Marx se referira nos Grundrisse. Se bem Seccombe tinha razom ao dizer que as amas de casa nom eram trabalhadoras produtivas que criassem plusvalia, o certo é que o seu trabalho está submetido à pressom social, como esclareceu Marx quando falava desta modalidade de trabalho:

 

 "Polo demais, o Estado mesmo e as suas dependências caem dentro destas deduçons do rédito, dentro, por assi dizi-lo, dos custos de consumo do individuo, dos custos de produçom da sociedade" (19).

 

  E como parte destes custos de produçom, presionava-se  às mulheres para que fossem mais produtivas.  Para reduzir estes custos, a mulher podia conseguer umha diminuiçom do valor da força de trabalho ao comprar mercadorias num estado primário de manufacturaçom e polo tanto reempraçar co seu próprio tempo de trabalho empregado no seu último estado de manufacturaçom. Mas a pressom sobre a mulher para que fixesse isto era indirecta, através dumha diminuiçom dos niveis de vida normais da classe trabalhadora. Poderia-se ter feito muito mais eficaz o trabalho da casa se se tivesse integrado na produçom de mercadorias, é dizer, se tivesse sucumbido à tendência que Marx analizara e que actuava nesta e outras formas de trabalho similares. Mas, por que nom sucedeu isto? E ademais, por que o mantimento da mulher no fogar chegou a formar, em realidade, parte das finanças estatais num periodo relativamente tardio do desenrolo do capitalismo?

 

   Isto leva-nos ao segundo sentido da força de trabalho como abstracçom. Já temos visto no primeiro que o seu valor está condicionado por factores históricos concretos. O segundo e mais importante, é que é umha abstracçom das capacidades humanas do individuo. A existência da categoria económica de força de trabalho define o trabalho dentro da sociedade como trabalho alienado. A alienaçom supom a deshumanizaçom da actividade vital dos homes, a sua reduçom ao trabalho assalariado. Mas tamém acarrea, como já temos analisado, a inversom na família, e, em concreto, umhas relaçons entre marido e mulher cum intenso significado persoal.  Noutras palavras, a apariçom da força de trabalho como categoria económica descansa sobre estes avanços paralelos da alienaçom na divisom entre a indústria e a família. Deste modo, a teoria económica de Marx nom pode ser separada dos principais aspectos dos seus escritos sociais e políticos, e, sobretudo, dos seus conceptos de reificaçom. Em efeito, Marx atacou os falsos métodos de abstracçom na sua crítica da teoria económica burguesa:

 

  "...A categoria económica mais simple, é dizer, por ejemplo, o valor de cámbio, pressupóm... umha povoaçom que produz umhas relaçons específicas; assi como tamém um certo tipo de família... Nunca pode existir outra relaçom que nom seja abstracta e unilateral numha totalidade concreta e vivinte já dada" (20).

 

  Deste modo, o concepto de força de trabalho de Marx, pressupunha a análise do processo de alienaçom na sociedade productora de mercadorias. Sem embargo, como temos comentado antes, Marx nom analisou totalmente o segundo aspecto da alienaçom, a relaçom de subjectividade do marido e alteridade da esposa na família.

 

(#14) No capítulo III (O marxismo e as origes da opressom da mulher) de A feminidade como alienaçom, Ann Foreman extendese mais nas suas apreçaçons críticas às posiçons de Marx. Destacamos aqui a seguinte:

 

  «Mas, quais eram as implicaçons práticas das teorias de Marx e Engels sobre a opressom da mulher? Como convertiria o cada vez mais numeroso movimento da classe trabalhadora -e, em especial, aquelas secçons del que se aderiram ao marxismo- a teoria numha estrategia desenrolada aplicável a este problema?

 

  Na Associaçom Internacional de Trabalhadores -a I Internacional-, que Marx e Engels ajudaram a criar, o tema ocasionou importantes enfrentamentos. O movimento estava dividido respeito a dous temas da maior importáncia naquel momento: o sufrágio universal e o direito da mulher ao trabalho. Mas, ainda que Marx se tinha mostrado terminante e decidido em outras questons contenciosas, como por exemplo as ideas de Proudhon, a sua intervençom sobre estes dous temas deixou muito que desejar. As suas críticas ao programa de Gotha reflictem-no claramente.»

 

  «Cual foi a contribuiçom de Marx ao debate? Marx concentrou as suas observaçons sobre o borrador do programa [de Gotha] na petiçom de restricçom para o trabalho da mulher. (...)

 

  Marx nom se lança a umha discussom defendendo que os socialistas deveriam estar a favor do direito da mulher ao trabalho, assi como exigindo umha melhora das condiçons de trabalho de todos os obreiros, senom que resmunga porque os autores [do borrador do programa] nom deixaram claro que tipo de restricçons queriam que se fixessem no trabalho feminino.»

 

 

 

[3. A INTEGRAÇOM DAS MULHERES NO TRABALHO ASSALARIADO E A SUA COMBINAÇOM CO TRABALHO DOMÉSTICO]

 

  Isto leva-nos ao problema, que formulavamos anteriormente, da relaçom entre empresa capitalista e trabalho doméstico.  Assi como Marx tivo razom ao indicar a tendência da sociedade capitalista de atrair todas as formas de trabalho socialmente necessárias a umha relaçom directa co capital, nom viu sem embargo, que existia umha tendência mais poderosa que actuava contra o capital em relaçom co trabalho doméstico. Como resposta à experiência de alienaçom, o movimento obreiro resistiu-se com força à intrusom do capital na família.  Deste modo, foi tanta a importáncia que a classe trabalhadora deu à posiçom da mulher na família, que impediu, usando palavras de Marx, "o mais alto desenrolo do capital" (#15).

 

(#15) Esta interpretaçom nom é, do nosso ponto de vista, completamente correcta. A autora pressupóm aqui que a classe obreira pode actuar como sujeito autónomo dentro do capitalismo, fóra dumha situaçom de ascenso revolucionário da luita de classes. Naturalmente, a luita de classes no capitalismo, na medida em que tende a radicalizar-se, gera momentos de autonomia, mas de tal modo que podemos falar de luita formalmente autónoma ou, dito mais simplemente, cumha estrutura própia de direcçom formada de abaixo a acima, nom de autonomia a nível do conteúdo da luita.

 

  Como o contexto histórico da resistência do movimento obreiro à integraçom da mulher no trabalho assalariado nom era revolucionário, nom pode pressupor-se que o movimento obreiro puidesse contar como umha força autónoma dentro da sociedade burguesa. Ao contrário, nestas condiçons o movimento obreiro nom pode actuar mais que como capital variável, ainda que a sua oposiçom de classe faga que esta acçom se desenvolva de modo formalmente contraposto à classe capitalista. Do que se trata é de defender os seus interesses como classe para o capital, nom como classe para si. A classe obreira actua, nestas condiçons, como alter-ego do capital, defendendo um ponto de vista complementar ao da burguesia do ponto de vista da estabilidade e progresso do sistema. A posterior aprovaçom pola burguesia de leis que restringiam o trabalho assalariado para as mulheres é umha mostra de que a contraposiçom entre movimento obreiro e capital era aqui meramente superficial e dependia para a sua resoluçom simplesmente do desenvolvimento superior do próprio modo de produçom capitalista. Em realidade, a funçom da luita do proletariado no marco dum capitalismo ainda ascendente -quando nom se orienta todavia a atacar abertamente a relaçom do capital-, sempre consiste em chamar a atençom sobre os desequilíbrios sociais e fazer assi, consciente ou inconscientemente, de salvaguarda da classe burguesa. Neste caso, salvaguarda dum mecanismo social fundamental para a reproduçom da força de trabalho, a família.

 

  Mas nesta luita o determinante tampouco é a ideologia patriarcal do movimiento obreiro. O movimento obreiro podiá entom suster esta ideologia, porque era tamém a prevalecente na classe dominante. E isto a su vez constituia a justificaçom do facto de que, o capitalismo, já entom, era incapaz de suprimir a relaçom de género, empregando indistintamente e em igualdade de condiçons a homes e mulheres y superando a dominaçom de género na família. Isto socavaria o processo de acumulaçom de capital, de modo que nom podia ser iniciado pola burguesia, cuja cultura de classe e relaçons sociais internas estavam tamém constituidas com base na dominaçom de género. Somentes a classe proletária como um todo poderá suprimir essa dominaçom, mas nessa época nom existiam ainda as condiçons históricas para que desenvolvesse a sua verdadeira luita autónoma de classe.

 

  O trabalho assalariado e a posiçom da mulher na família som, por tanto, as duas formas recíprocamente determinantes que toma a actividade produtiva na sociedade productora de mercadorias. Este concepto ilumina os perigos de considerar as categorias económicas de Marx a un nivel superficial. Considerar a força de trabalho e o seu valor, principalmente em termos monetários, pode levar-nos a esquecer que expressa umha forma de ser, ignorando que "a força de trabalho dum home existe pura e exclusivamente na sua individualidade viva" (21). Todo o debate sobre o "trabalho doméstico" inclina-se nesta direcçom que é, naturalmente, um resíduo do determinismo económico.  A tentativa de atopar um valor equivalente do "trabalho doméstico", que foi a principal preocupaçom de Seccombe, reduciu a actividade da mulher aos trabalhos caseiros e esqueceu completamente a importáncia da sua relaçom co marido. Ironicamente, foi, em primeiro lugar, a importáncia desta relaçom o que impediu à ama de casa incorporar-se ao mercado e que o seu trabalho, por tanto, recebesse um valor de cámbio equivalente. O facto de que o trabalho do marido fosse assalariado motivou que a sua mulher quedasse sem nengúm tipo de remuneraçom.

 

  A incapacidade para ver o isolamento da mulher no fogar como um aspecto do mesmo processo histórico que transformou o trabalho social em trabalho alienado, nos inícios da sociedade de produçom de mercadorias, reflicte-se tamém doutra forma, nesta polémica. É dizer, na idea de que a posiçom da mulher no fogar era um resíduo dumha forma prévia de organizaçom social. Margaret Benston definiu as tarefas caseiras como "pre-capitalistas num sentido mui literal" (22), mentres que Coulson, Magas e Wainwright falaram da incapacidade do capitalismo para "levar a cabo a revoluçom burguesa na esfera da reproduçom da força de trabalho", e opinavam que "a geralizaçom da produçom de mercadorias converteu a unidade doméstica num remanso opressivo" (23). A questom está em que foi precissamente a realizaçom da revoluçom burguesa, a ruptura entre a família e a produçom socializada, o que provocou o isolamento da mulher no fogar. Gardiner tamém subestimou a importáncia das actividades da mulher na sociedade capitalista e o seu lugar preminente nos seus processos básicos, quando se perguntava se seria mais barato para o capital socializar o trabalho doméstico ou deixa-lo privatizado. Dada a natureza da alienaçom havia dous factores a considerar, nom só o concernente aos sobrecustos do capitalista senom tamém, e ainda mais importante, a resistência da classe trabalhadora que somentes permitiria a sua socializaçom até certos limites.

 

  Na Grande Bretanha, os limites da socializaçom do trabalho realizado tradicionalmente polas mulheres tenhem sido definidos historicamente através do desenrolo da produçom de mercadorias por um lado e do da criaçom do estado de bem-estar social polo outro. Dos dous, o desenrolo do estado de bem-estar social necesita umha explicaçom mais extensa. O estado de bem-estar social, cum cuidado dos ancians e dos enfermos e a educaçom para a mocidade, xurdiu ao mesmo tempo e unido ao desmembramento dos componhentes nucleares da família. Veu a expressar e a volver a recalcar a importáncia da relaçom entre marido e mulher e a definiçom social do papel da mulher, especialmente em termos da reproduçom da força de trabalho.

 

  Mas a criaçom do estado de bem-estar social e a capacidade dumha parte da classe trabalhadora para manter às suas esposas no fogar, supuxo tamém um índice do verdadeiro desenrolo do próprio capitalismo. Estes dous fenómenos, intimamente ligados, puxeram limites institucionais à tendência da produçom de mercadorias a colocar todo o trabalho socialmente necessário numha relaçom directa co capital. Em outras palavras, a criaçom do estado de bem-estar social sumou-se de forma significativa à força que actuaba contra "o desenrolo mais alto do capital". Ao mesmo tempo, a capacidade da classe trabalhadora para assegurar estas limitaçons do desenrolo capitalista através da sua força organizativa, impulsou o reformismo dentro do movimento obreiro. Em efeito, foram as etapas iniciais deste processo, já que a classe trabalhadora puxo a prova por primeira vez as suas organizaçons a finais do século XIX, o que deu credibilidade ao argumento revisionista de que a sociedade capitalista poderia racionalizar-se até que num momento dado, chegasse a ser socialista. Já que, dalgumha forma, tinha lugar umha racionalizaçom a nivel salarial.

 

  Para explica-lo mais detalhadamente, as relaçons salariais representam umha divisom a dous niveis, de interesses entre o capitalista e o trabalhador e da existência mesma do trabalhador. O capitalista paga um salário para conseguir o uso da força de trabalho do obreiro. Nom lhe importa nada o aspecto da existência do obreiro que o seu salário mantém. Mas, para o trabalhador este aspecto da sua vida é o mais importante. Assi pois, tanto a demanda de salários mais altos como de melhores condiçons familiares, xurdem directamente da experiência do trabalho assalariado. Sem embargo, devido à relaçom dos interesses do capitalista cos do trabalhador, é só o primeiro nivel, o do salário, o que se trata entre eles. De acordo com isto, os salários levam-se negociando tradicionalmente a nivel da fábrica, ou quiçais da indústria. Mas, mentres ao capitalista individual nom lhe importam as condiçons nas que o trabalhador reproduz a sua força de trabalho, para o capital em geral trata-se dum assunto de verdadeira importáncia. O avanço tecnológico do modo de produçom capitalista exige um certo tipo e qualidade da força de trabalho. Assi pois, ainda que a consolidaçom da posiçom da mulher na família, e o desenrolo das aportaçons do estado de bem-estar social representam umha resposta parcial às demandas da classe trabalhadora, tamém possuem umha maior trascendência, já que representam o desenrolo dumha relaçom de forças entre a classe trabalhadora e a burguesia a um nivel nacional -nom simplemente a nivel de fábrica ou indústria- e dam como resultado a divisom do trabalho entre a ama de casa e o estado de bem-estar social no que respecta à reproduçom da força de trabalho (#16).

 

(#16) O facto de que se combinem a actividade privada e a pública significa sempre que a economia capitalista nom é capaz de resolver os seus próprios problemas e antagonismos e tem que recorrer à meios extraeconómicos para palia-los. Igual que aconteceu com a inversom em determinados sectores da indústria, as infraestruturas, etc., tamém na esfera da reproduçom da força de trabalho se fixo imperativa a interveçom estatal para evitar a descomposiçom do capitalismo. Certamente, as chamadas conquistas do estado de bem-estar foram logradas através da luita de classes, mas é igualmente certo que a sua funçom foi abaratar a força de trabalho e incrementar o seu rendimento -funçom que tamém cumpre o trabalho doméstico feminino-. O aparelho estatal trabalha para a burguesia do mesmo modo que a ama de casa trabalha para o marido nas famílias proletárias. 

 

 

[4. O PAPEL DO ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL]

 

   Até que ponto supóm isto umha racionalizaçom das relaçons salariais?  Em primeiro lugar, significa a apariçom dum novo ponto de contacto entre a burguesia e o proletariado a um nivel nacional. Em segundo lugar, significa o desenrolo por parte da burguesia, dum interesse polo segundo aspecto da vida do trabalhador, as condiçons de reproduçom da sua força de trabalho, que anteriormente era excluida das relaçons salariais. Este interés ve-se mediatizado polo estado de bem-estar social e a posiçom da mulher na família. E, em terceiro lugar, o financiamento do estado de bem-estar social convirte-se, junto co mantimento da mulher no fogar, numha parte dos "custos de produçom da sociedade".

 

   Ainda que estes avanços em torno à apariçom do estado de bem-estar social estavam baseados na reacçom espontánea da classe trabalhadora ante as suas condiçons de existência, nom podiam xurdir espontaneamente.  Dependiam da força organizada do movimento sindical e, especialmente, da criaçom do Partido Laborista como catalizador dessa força a nivel nacional. Deste modo, subjazia nas origes do Partido Laborista o processo polo que as relaçons salariais entre o proletariado e a burguesia  racionalizaram-se. A partires da polémica revisionista, os comentaristas tenhem sinalado o crescimiento dos partidos da classe trabalhadora e as aportaçons do estado do bem-estar social nos países capitalistas desenrolados, geralmente como indicativos de que a premissa básica de Marx da luita de classes nom era já aplicável às condiçons do capitalismo avanzado, e que a racionalizaçom das relaçons salariais era umha racionalizaçom do processo capitalista.

 

   Sem embargo, o desenrolo da socialdemocracia, como quedou patente na Grande Bretanha coa formaçom do Partido Laborista, nom puxo fim ao antagonismo básico entre o capital e o trabalho, senom que simplemente modificou a sua forma. Tanto a organizaçom do estado de bem-estar social como o Partido Laborista, representaram umha integraçom das demandas da classe trabalhadora dentro das estruturas básicas do capitalismo. Assi pois, a definiçom do Partido Laborista como catalizador da força organizada do movimento sindical a nivel nacional, é só parcial. O seu outro aspecto é a direcçom dessa força dentro do marco do Estado capitalista, é dizer, principalmente através do Parlamento. Em resumo, o Partido Laborista e o estado de bem-estar social supuxeram simultaneamente um logro e umha perda para a classe trabalhadora. Finalmente, posto que a socialdemocracia estava baseada na intervençom do Estado na reproduçom da força de trabalho, o seu destino estava ligado a aquelas relaçons que xurdiram na sociedade capitalista para fazer-se cargo das tarefas tradicionalmente femininas.

 

   Mas, significa isto que o mantimento da mulher no fogar e a criaçom do estado de bem-estar social, ao modificar as contradiçons do capitalismo, amortigua-as? Se este fosse o caso, entom a crítica do argumento de Seccombe, de que o acoplamento da mulher dentro da economia capitalista nom causou especialmente problemas, poderia-se aplicar igualmente aqui. Sem embargo, como parte dos custos de produçom da sociedade, o estado de bem-estar social e as actividades da mulher no fogar, ham de ser contabilizadas na circulaçom do capital. Se o capital se orienta cara a renda pública através do sistema impositivo, pode suceder umha destas duas cousas, ou umha combinaçom de ambas (pode producir-se um descenso na porcentage de benefícios, já que parte da plusvalia vai parar às rendas públicas, ou pode produzir-se um aumento no preço das mercadorias em relaçom ao seu valor, para libertar dinheiro desta forma). No segundo caso, os produtos do país volvem-se menos competitivos no mercado internacional. Ao mesmo tempo, cria-se um processo inflacionário, a medida que os trabalhadores exigem um salário mais elevado para fazer frente ao aumento do valor da sua força de trabalho que se produz ao elevar-se  custo das mercadorias. Em qualquer variaçom ou combinaçom, os interesses do capitalista e da classe trabalhadora permanecem antagónicos, entre umha reduçom no índice de benefícios do capitalista ou no nivel de vida do trabalhador, e o resultado depende do balanço de forças que exista entre eles.

 

  Um ejemplo disto temo-lo nos frecuentes comentários actuais sobre a importáncia de reduzir o salário social", assi como aplicar a restricçom salarial. Chega-se ao "salário social" meiante a divisom do gasto público total polo número de habitantes. De facto, recortar o "salário social" acarrea umha reduçom do gasto social, coa fim de salvaguardar o índice de benefícios e a competividade dos productos británicos, ao mesmo tempo que reduz o nível do salário do trabalhador. Em outras palavras, é umha tentativa de despraçar o peso dos custos de produçom da sociedade, incluindo o custo do estado de bem-estar social e do mantimento da mulher na família, sobre as costas da classe trabalhadora.

 

 

[5. O DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO E A CRISE DA FEMINIDADE]

 

  A posiçom da mulher na economia planteja tamém outro tipo de contradiçom para o capitalismo, baseada no facto sinalado por Coulson, Magas e Wainwright de que a mulher é ama de casa e trabalhadora assalariada. Até agora nom nos referiramos a isto, senom simplemente tinhamo-nos centrado na posiçom da mulher dentro das relaçons privadas do fogar. Significa isto que a nossa análise nom pode incorpora-lo? Parte da resposta jace na compreensom da natureza da relaçom salarial.

 

  Como mencionamos anteriormente, ao capitalista nom lle interesava esta relaçom sobre as responsabilidades sociais do trabalhador. É este certamente um rasgo característico das relaçons entre patrono e trabalhador na sociedade capitalista, que as distingue das relaçons industriais na etapa pre-capitalista, em contraste com, digamos, a relaçom entre señor e servo, ou mestre e aprendiz que implicavam umhas obligaçons sociais por ambas partes. O senhor ou o mestre artesám aceitavam umhas certas responsabilidades em benefício do servo ou aprendiz e a sua família, a cámbio dos seus serviços. A relaçom entre o capitalista e o trabalhador nom se caracteriza por tal reciprocidade.  Assi, o capitalista nom tinha reparos em assumir o trabalho feminino em base às responsabilidades sociais da mulher. Em efeito, posto que a sua definiçom social como reprodutora de força de trabalho a convertia em mao de obra barata no mercado, estava incluso predisposto a emprega-la.  As suas preocupaçons polos assuntos familiares, convertiam-na numha alternativa ideal para emprega-la em trabalhos mal pagos, rutinários e repetitivos. A resistência a que fosse empregada procedia mais bem da própria classe trabalhadora.

 

  A segunda força que actuava a favor do emprego da mulher provinha das mulheres que já pertenciam à massa trabalhadora. Ainda que a tendência no desenrolo da produçom de mercadorias ía debilitar a posiçom das mulheres dentro da produçom socializada, éstas nom foram nunca totalmente excluidas. Dentro de certas áreas limitadas da indústria textil, a mulher mantivo um posto nas tarefas tradicionalmente femininas, tais como fiados, serviço doméstico, e nalgumhas secçons pouco organizadas da indústria. E ainda que eram umha secçom relativamente débil do movimento organizado da classe obreira, jogaram un papel importante à hora de assegurar e extender o posto da mulher dentro das forças produtivas.

 

  O terceiro factor na Grande Bretanha e outros países capitalistas avanzados, foi o facto de que se producissem duas guerras mundiais no transcurso dos primeros cincuenta anos do século XX.  Em ambas ocasions empregou-se amplamente à mulher.  E ainda que, sobretudo depois da primeira, reduciu-se rapidamente o seu número aos niveis que existiam antes da guerra para compensar umha crise de emprego masculino, reforçou-se consideravelmente a demanda feminina dum posto de trabalho.

 

  Todos estes factores fixeram possível um movimento geral de incorporaçom da mulher ao trabalho, e de maneira especial, na Grande Bretanha, tras a segunda guerra mundial. Mas as mulheres nom se moveram livremente por todos os sectores da indústria, senom mais bem quedaram distribuidas em áreas bastante específicas, denominadas "trabalho feminino", e remuneradas como tais. O trabalho feminino estava dividido em linhas gerais em tres grandes categorias. Em primeiro lugar, as mulheres seguiram naquelas tarefas que tradicionalmenente vinham realizando na família e que gradualmente foram transfiriendo-se ao estado de bem-estar social, tais como professoras, enfermeiras, e empregadas em certos campos do trabalho social. Em segundo lugar, incorporaram-se às novas indústrias e, por tanto, menos ligadas à tradiçom, que xurdiram como resultado da "revoluçom científica" da tecnologia. E em terceiro lugar, empregaram-se em muitas indústrias nas que o trabalho era de tipo repetitivo e requeria destreza manual. Tais trabalhos apareceram da noite à manhá ao tempo que se multiplicavam as técnicas do trabalho em cadea. Este incremento do número de mulheres empregadas é, por conseguinte, a realidade que subjaze à contradiçom que Coulson, Magas e Wainwright acentuaram dentro do capitalismo, é dizer que as mulheres eram ao mesmo tempo amas de casa e trabalhadoras assalariadas. Sem embargo, ainda que tinham razom nesta afirmaçom, nom foram capazes de extrair as implicaçons mais importantes desta contradiçom.

 

   A definiçom da feminidade dentro da sociedade capitalista descansava fundamentalmente na relaçom da mulher co seu home dentro da família. Consequentemente, o facto cada vez mais frecuente das mulheres trabalhadoras fixo que entrara em crise todo o estereotipo femenino. E ao formular-se em grande medida em termos sexuais, esta crise desafiou ao mesmo tempo os códigos tradicionais das relaçons sexuais. Consequentemente, naqueles períodos de máximo nervosismo social na Grande Bretanha durante o século XX, especialmente nas décadas dos anos vinte e sesenta, temos visto com claridade como se cumpria isto. Ambos períodos caracterizam-se pola busca de novas definiçons de feminidade. Os anos vinte coquetearam coas ideas das Flapper Girls (24) e a vampiressa que quedaria imortalizada nos éxitos cinematográficos de Greta Garbo. Ao mesmo tempo, os novos bailes da época anunciaram a desapariçom dos antigos formalismos nas relaçons sociais entre home e mulher. Os anos sesenta nom só contemplaram a erupçom dumhas novas formas de música popular, senom tamém o anúncio da chegada da "sociedade permissiva" e o nascimento de todo um movimento social, o Movimento de Libertaçom das Mulheres, cujo objectivo foi pôr em entredito as normas aceitadas sobre a conduta feminina. A crise dos anos sesenta tivo tamém umha nova dimensom que a distinguiu da dos anos vinte. O grado em que o Estado se preocupara na reproduçom de força de trabalho desde 1945, fixo que todas as possíveis repercussons dessa crise foram muito maiores. E a inestabilidade da instituçom familiar convertiu-se num tema cada vez mais alarmante para a burguesia.

 

 

[6. RECAPITULAÇOM]

 

   Som estes, entom, os aspectos mais importantes da contradiçom existente entre as mulheres como amas de casa e trabalhadoras assalariadas que Coulson, Magas e Wainwright foram incapazes de analisar. Ironicamente, elas mesmas admitiam que a sua análise da "transformaçom de todas as relaçons tanto sexuais e emocionais, como económicas e políticas, necessita provavelmente todavia ser exposta com rigor" (25). Mas o erro nom foi em absoluto unicamente delas; repetia-se constantemente e de modos diversos, através de toda a polémica sobre o "trabalho doméstico". Por ejemplo, Gardiner apontou a "outra possível explicaçom", coa que se evitava a socializaçom das tarefas do fogar que "se relacionam coa funçom ideológica da família" (26) e que nom podia tratar no seu artigo. Seccombe nem sequera mencionou o problema da sexualidade feminina. Em ambos casos os aspectos cruciais da opressom da mulher nas relaçons emocionais e sexuais dentro da sociedade, foram tratados como problemas "ideológicos" independentes e, se se chegavam a tratar, sobrepunham-se a umha análise da economia.

 

  Ora bem, em conjunto, a debilidade da análise destas escritoras nom é mais que um pálido reflexo da dos deterministas. Porque sua foi, sobretudo, a inovaçom de aplicar as categorias económicas de Marx à posiçom da mulher. As suas omissons jazem na sua completa incapacidade para superar a superficialidade em que o determinismo económico as colocara. Mas umha vez que a força de trabalho é entendida como um termo para expressar a alienaçom da actividade produtiva, a divisom mecanicista que se repetiu sempre no marxismo entre a "superestrutura ideológica" e a "base económica", começa a desaparecer. E com isto, começa a mostrar-se a importáncia capital da opressom da mulher para as relaçons do capitalismo, tanto na família como na produçom social. Este tipo de enfoque revela tamém o erro da tendência complementária dentro do marxismo: a idea de que o capitalismo pode ser analisado como um tipo de modelo, separável das condiçons reais da sua existência. Tal idea fai desaparecer a interacçom das forças humanas. Mas o transcurso histórico sobre o processo de alienaçom mostra-nos que é a confrontaçom entre duas forças vitais, a burguesia e o proletariado, a que estrutura as relaçons da sociedade capitalista. De acordo com isto, nem a família nem a ideologia podem ser contempladas como impostos sobre umha classe trabalhadora passiva, senom mais bem como fenómenos que jogam umha parte no processo.

 

Capítulo V

 

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