III. Reformulaçom da teoria de Marx sobre o desenrolo humano.

 

 

[1. SUBJETIVIDADE E ALTERIDADE NA RELAÇOM HOME-MULHER: EFEITOS DO IMPACTO DO CAPITALISMO]

 

  Mas o fracasso das relaçons interpersoais [entre os sexos] e a sua disgregaçom em atitudes de subjetividade e alteridade estava baseado numha realidade histórica concreta e nom nas condiçons essênciais da existência humana, como creram Sartre e de Beauvoir: o impacto da alienaçom e a reificaçom sobre as relaçons sociais da sociedade capitalista.

  E o desenvolvimento histórico destes processos na divisom entre a indústria e a família, e a crescente importáncia das relaçons íntimas entre homes e mulheres, constituem a realidade sobre a que se tenhem fundado as categorias de subjetividade e alteridade.

 

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  Se bem é certo que, nos períodos pre-capitalistas, considerara-se às mulheres inferiores aos homes, foi só nos alvores da produçom de mercadorias quando se desenrolaram as condiçons específicas polas que as mulheres assumiam, em palavras de Simone de Beauvoir, o papel do Outro. O capitalismo dividiu a sociedade em dous mundos: o mundo dos negócios, a indústria e o intercámbio social, e o mundo da família. Mas estes mundos nom eram simétricos. Os homes esforzavam-se em manter o primeiro mas, se fracassavam, seguiam a ser vencedores no segundo. Em ambos, as mulheres eram a sua defesa. A vida familiar proporcionava um descanso quando, tras as ameaças e ataques que a sociedade infringia à seguridade do home, a mulher o reafirmava na sua humanidade e subjetividade. A sua posiçom prepotente na família estava garantida, longe da luita constante pola sobrevivência no campo de batalha competitivo da produçom social. A feminidade na sociedade capitalista adquire o seu sentido nesta afirmaçom. Os homes acçoam, as mulheres reacçoam, a feminidade define-se como umha resposta à masculinidade. A feminidade da esposa confirma a masculinidade do esposo. Quanto mais feminina, delicada físicamente e atractiva visualmente é a mulher, mais seguro está o direito do marido à hombridade. Ressumindo, a mulher está definida principalmente pola sua sexualidade.

 

  Isto ajuda a explicar por que, cos inícios da produçom de mercadorias, o adultério e a libertinage sexual se convertiram nos mais detestáveis crimes sociais (#6). Si bem a mulher devia ser atractiva, só devia atraer a um home, o seu marido. O seu adultério considerava-se nom sólo umha ameaça à propriedade privada, senom tamém à reputaçom social do marido. Tanto ao tomar a iniciativa como ao entregar-se a um competidor, a mulher adúltera assestava um golpe mortal ao orgulho e à confiança social do seu marido. E foi, portanto, na sociedade burguesa onde por primeira vez se alicerçou o amor na idea da monogámia.

 

(Extrato do capítulo X: O auge do individualismo)

 

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  Mas dada a importáncia da individualidade, frente à secularizaçom de otras relaçons sociais a relaçom matrimonial foi envolta cumha santidade especial, ainda que esta santidade nom fosse principalmente de carácter religioso. As atitudes de masculinidade e feminidade nas que se baseava, convertiram-se num tema de importáncia inquestionável. O distinto comportamento social do home e a mulher encerrou-se num rígido esquema de costumes e etiquetas sobre o que deviam fazer as "verdadeiras damas" e os "verdadeiros cavaleiros". Puxo-se especial énfase em ressaltar as diferências entre os dous papeis na linguage e os modais.

 

(Extrato do capítulo X: O auge do individualismo)

 

 (#6) Mas seria um erro considerar isto só desde o ponto de vista das relaçons familiares. No capitalismo ascendente isto podia ser um meio político repressivo para manter a coesom familiar num momento histórico em que a tendência económica empurrava à sua dissoluçom. Umha vez que a explotaçom capitalista foi deixando de requerir do uso intensivo de mano de obra feminina e infantil, a luita das mulheres puido conquerir umha certa liberdade sexual jurídica, ao menos nos países mais desenvolvidos. Igualmente, coa crescente incapacidade da acumulaçom capitalista para mantener numhas proporçons reduzidas o exército de reserva da força de trabalho, tenhem-se criado as condiçons (desde o ponto de vista do capital) para reduzir a natalidade desenvolvendo e socializando o sistema de anticonceptivos, ao tempo que as mulheres se encontrarom -tanto polas dificultades económicas cada vez maiores para ampliar a família, como pola sua própria vontade de nom faze-lo excesivamente- numha situaçom que lhes permitiu reclamar o seu direito a trabalhar "livremente" como assalariadas. De aí que, na actualidade, a moral sexual se tenha relaxado enormemente, em comparaçom coas épocas precedentes, mas sem que os seus valores essênciais -cuja base é económica, nom ideológica- tenham cambiado.

 

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[2. A DEFINIÇOM DA FEMINIDADE POLAS RELAÇONS SOCIAIS]

 

  (-) As atitudes de masculinidade e feminidade dentro da sociedade capitalista representam, respeitivamente, a tendência cara o sadismo e o masoquismo. A reduçom histórica das mulheres à passividade dentro do processo social, determinou a forma do desejo como apropriaçom. Era a sua dependência económica a que incitava à mulher a apresentar-se como um objeto fascinante para atrair a um marido e conseguer, polo tanto, seguridade económica. O home, à sua vez, enfrentado coas aparentemente incontroladas e inhumanas forças da produçom social, volvia os seus olhos cara a mulher para confirmar a sua humanidade. Mas, como dizia Sartre, posto que esta relaçom é, desde os seus começos, desigual, nengum é capaz de confirmar-se num mesmo "plano de igualdade". A resposta que recebe o home nom vem dum sujeito livre, posto que a mulher depende de el. Para a mulher, à sua vez, a forma do desejo só confirma a sua dependência. Assi pois, a sexualidade masculina  convirte-se na utilizaçom activa da mulher como instrumento de prazer, e a sexualidade feminina no abandono passivo da mulher ante este (#7).

 

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  Deste modo, a feminidade define-se polas relaçons íntimas da família, a relaçom da mulher co seu marido, e tamém cos seus filhos. Mentres que os homes reproducem-se si mesmos através da indústria, as mulheres reproducem-se quase enteiramente através destas relaçons interpersoais (#8). Assi, as mulheres experimentam-se a si mesmas como umha resposta às necessidades de outras persoas, sobretudo às suas necessidades emocionais. Em tempos pre-capitalistas as cousas eram distintas. Entom, a participaçom da mulher na indústria era importante tanto para a relaçom co seu marido como cos seus filhos. Nom só contribuia visivelmente co seu trabalho à produtividade da unidade familiar, senom que tamém desempenhava um papel na preparaçom industrial das crianças. Co avanço da produçom capitalista, a mulher foi perdendo gradualmente ambas funçons. Debilitou-se a sua posiçom na força de trabalho e o Estado foi fazendo-se cargo da preparaçom da mocidade para a sua incorporaçom à indústria, através do desenrolo dum sistema educativo mais amplo. Assi, o papel da mulher na família consistiu, basicamente, em proporcionar apoio emocional (#9).

 

(#7) A atitude puramente passiva da mulher nas relaçons sexuais era mais bem umha fundamentaçom aparente da alienaçom feminina. A essência da alienaçom nom é a passividade, mas a transformaçom das capacidades humanas em instrumentos dominados por forças alheas que elas mesmas producem. Isto significa que a passividade somentes é algo essencial enquanto anulaçom da autonomia do individuo. O arquetipo fundamental da alienaçom capitalista nom é a reduçom do proletariado à condiçom de cousa inerte, mas a sua reduçom à condiçom de máquina. Do que se trata, pois, é de anular a capacidade de autonomia dos individuos para converter as suas restantes capacidades num instrumento para umha actividade alhea às próprias necessidades individuais. Por essa razom, actualmente a consideraçom de que a alienaçom sexual da mulher residia fundamentamente na sua posiçom de pasividade física convertiu-se num elemento de mistificaçom, que esconde o facto de que a mulher passou dessa forma de alienaçom a outra muito maior: a ser considerada e comportarse como umha máquina sexual, de modo que, por outra parte, a sua satisfacçom sexual passou a ser reconhecida só como um meio para a própria prazer masculina e nom como umha necessidade recíproca de ambos sexos.

 

(#8) A autora está a falar do contexto dos anos 70. Na medida em que cresce a integraçom da força de trabalho feminina, utilizada polo capital como instrumento para depreçar o conjunto da forza de trabalho e intensificar a explotaçom, o que prevalece é a combinaçom do trabalho asalariado co trabalho doméstico e, por conseguinte, o desenrolo do antagonismo entre o trabalho "livre" e a servidumbre familiar. Embora, na medida em que esta combinaçom se sustém, em detrimento do tempo de trabalho asalariado ou do tempo de trabalho doméstico -e, especialmente, quase sempre em detrimento do tempo livre-, o que xurde é umha combinaçom das duas formas de alienaçom, a específicamente capitalista e a de género, e, de facto, o próprio capitalismo aproveita-se desta situaçom para mercantilizar à mulher como objeto de prazer e explotar intensivamente as suas necessidades sociais derivadas dessa condiçom (vestidos, cosmética, cirugia, etc.). Assi, em lugar de libertar-se da alienaçom de género produzida pola sua posiçom subjugada na família -e na sociedade en geral, entanto a dominaçom de classe segue a adopta-la como base-, esta alienaçom intensifica-se e, coa crescente impossibilidade do capitalismo para integrar a força de trabalho feminina se nom é em detrimento da masculina, é o próprio capitalismo o que se convirte de forma imediata no inimigo principal da libertaçom das mulheres trabalhadoras e na causa da amplificaçom da sua alienaçom.

 

(#9) Aqui a autora deveria sinalar de novo que está a fazer referência somentes ao ponto de vista psicológico.

 

  Já que a actividade dumha mulher dedica-se às persoas mais que aos objetos, a miúdo encontra dificultades em criar para si mesma umha identidade separada e distinta; ouvimos frequentemente o comentario de que "umha mulher vive para o seu marido e os seus filhos". Por dizi-lo em termos existencialistas, o "ser para outros" das mulheres tende a ser mais forte que o "ser para si mesmas". Como as mulheres experimentam-se a si mesmas principalmente em termos físicos, emocionais e sexuais, geralmente som mais conscientes da sua presença física que da sua presença mental, de como aparecen imediatamente ante os outros. Esta consciência que possuem de si mesmas tem implicaçons importantes para a sua sexualidade porque, dalgum jeito, permite-lhes experimentar a sua presença sexual como mulheres e nom como homes. Como explicava John Berger na sua obra Modos de olhar:

 

  "os homes olhan às mulheres. As mulheres contemplam-se a si mesmas como se fossem observadas. Isto determina nom só a maioria das relaçons entre homes e mulheres, senom tamém a relaçom das mulheres consigo mesmas. O supervisor que leva umha mulher dentro de si mesma é masculino: o supervisado é feminino" (1).

 

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[3. A FEMINIDADE COMO IDEOLOGIA. A DIVISOM ENTRE CONSCIENTE E INCONSCIENTE.]

 

  Este debate sobre a feminidade ajuda-nos a esclarecer alguns pontos sobre a naturaleza da ideologia. A análise da opresom da mulher sempre tem ido mui unido ao da ideologia.

 

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  (-) A feminidade -ou no seu caso, a masculinidade- nom é algo adicional à experiência do indivíduo. Ser mulher ou ser home na sociedade capitalista significa que toda a experiência persoal estrutura-se dumha forma específica e diferente. E, portanto, a ideologia (#10) nom pode ser explicada como um conjunto de ideas erroneas, nem sequer como um conjunto de ideas, posto que existe a um nível mais profundo que o pensamento consciente e, em muitos sentidos, determina a este. Em outras palavras, nom opera só a nível da consciência racional, como afirmavam os liberais.

 

  Umha interpretaçom mais adequada da ideologia seria a baseada numha experiência real que só se compreende parcialmente. As formas de masculinidade e feminidade na sociedade capitalista tenhem a sua orige em necessidades e experiências reais: a alienaçom do trabalhador na indústria e a sua necessidade de apoio emocional por parte da sua mulher. O problema está em que estas relaçons parecem as mais naturais e imutávels da sociedade, ainda que, em realidade, sejam específicas dum momento histórico. Mas esta experiência em si mesma nom carece de fundamento, já que xurde à sua vez do processo de reificaçom que se da nas sociedades capitalistas. Para explica-lo, Marx analisou a reificaçom como o processo polo que as relaçons sociais tomam a apariência de relaçons entre cousas. Isto acontece na produçom de mercadorias, já que o intercámbio de dinheiro convirte-se em princípio e final de todas as relaçons sociais.

 

(#10) Desde o nosso ponto de vista, ainda que a autora quere, ao tempo que trata o problema de género, chegar a umha clarificaçom do concepto de ideologia, ao faze-lo através da análise dum problema particular deixa a um lado diversos aspectos. Por exemplo, nom aprofunda no concepto de "falsa conciência" (que nom é equivalente à simples "consciência errónea"): a ideologia como consciência separada da prática e, por conseguinte, da história, e ferrada sobre si mesma como um sistema de ideas cumha lógica autonomizada da realidade.

 

  Tem razom em que é a relaçom consciente coa realidade, quando é superficial e/ou fragmentária, a causa da deriva do pensamiento cara umha forma de consciência ideológica, mas nom tem em conta que o "campo ideológico", a cultura, é à sua vez um terreo da luita de clases e dos antagonismos sociais, no que a consciência individual propriamente dita expressa-se em formas ideológicas que, em grande medida, nom som um resultado do pensamiento próprio, senom que tenhem sido introduzidas desde fóra e nom foram submetidas à reflexom e à evaluaçom prática conscientes.

 

  Mas a reificaçom nom afecta somentes às relaçons socializadas da produçom. Porque, se bem o dinheiro é a primeira forma de mediaçom, os familiares, ao estar em oposiçom ao mundo do comércio e dos negócios, aparecem como se nom tivessem nengumha mediaçom; em outras palavras, como si fossem imediatos. E, ao apresentar-se como as relaçons mais espontáneas, parece impossível que se poda conceber nengun cámbio nas relaçons íntimas entre o home e a mulher. É este nível da realidade o que a maioria dos homes e mulheres experimentam. Assi pois, a ideologia nom se deriva de ideas erróneas ou experiências equivocadas, senom de níveis de realidade diferentes.

 

  É neste sentido no que podemos falar da importáncia neste tema do inconsciente. O processo de reificaçom exclue estruturalmente um nível de realidade do pensamiento. Em termos da análise do problema da mulher, isto quere dizer que a experiência completa da feminidade impide às mulheres desenrolar umha consciência da sua opressom. Em outras palabras, as mulheres poden ser cómplices, sem sabe-lo, da sua própria opressom.

 

  Antes de desenrolar esta interpretaçom do inconsciente, lembremos o atractivo inicial que tal teoria tivo para escritores como Wilheim Reich, Erich Fromm, Herbert Marcuse e Juliet Mitchelh. Estes autores dirigieram-se à psicoanálise porque o marxismo semelhava ser incapaz de explicar dumha maneira adequada a esfera do individual e o significado das relaçons sexuais entre homes e mulheres. De maneira similar, o existêncialismo se distanciou do marxismo no que concerne a estas questons. Mas nengum destes autores foi capaz de alcançar o seu propósito e manter um plantejamento histórico consistente. Aqueles que adoptaram a teoria do inconsciente de Freud comprometeram-se cumha teoria que punha serias travas ao potêncial do home para o seu desenrolo consciente, mentres que o existêncialismo de Sartre e de Beauvoir defendeu que o fracasso das relaçons entre o home e a mulher na sociedade capitalista permaneceria imutável para sempre. O que se necessita, portanto, é um plantejamento que mantenha a teoria do desenrolo humano de Marx e, ao mesmo tempo, a reelabore integrando dentro dela umha análise do significado dos cámbios nas relaçons interpersoais e a consciência que os homes tenhem deles.

 

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  Em tempos pre-capitalistas nom existia [a] análise das relaçons sociais [que temos desenrolado anteriormente], mas tampouco entom tentavam os homes entender a sua sociedade como umha totalidade. Reconheciam que algumhas cousas eram inexplicáveis. Para eles, o mito e as fábulas, mais que a análise, representavam a realidade das relaçons sociais na mente individual. Ao desterrar todas estas representaçons metafóricas, na sociedade capitalista produziu-se um valeiro difízil de encher cumha teoria analítica. Mentres que se enfatizava o domínio da acçom individual a través da alienaçom do trabalho e da divisom entre a indústria e a família, simultaneamente escureceu-se polo processo de reificaçom. O capitalismo exigia umha explicaçom do indivíduo, ao mesmo tempo que obstaculizava a sua evoluçom.

  Esta tensom, pois, entre a exigência dumha explicaçom racional, e a repressom meiante a reificaçom dum nível de realidade do pensamiento, explica a estruturaçom das mentes dos homes na sociedade capitalista, a divisom entre consciente e inconsciente.

 

***

  O concepto liberal da liberdade dominou o pensamiento político, incluindo o radicalismo, até Marx; e a teoria marxista, embora representava umha ruptura qualitativa coas estruturas liberais, retivo nom obstante os vestígios do seu cordom umbilical. Marx nom analisou totalmente o impacto dos processos de reificaçom e alienaçom, e polo tanto, nom preparou adequadamente o terreo teórico para a sua superaçom. Como temos visto, nem Marx nem o marxismo consideraram a importáncia do fracasso da autoconfirmaçom dos homes no seo das relaçons íntimas da família dentro da sociedade capitalista. A relaçom do existêncialismo co marxismo lembrano-lo, já que Sartre definiu a liberdade como angústia, a angústia que nasce da incapacidade perpétua dos seres humanos para confirmar-se a si mesmos no seu ser e o seu conhecimento através das relaçons interpersoais.

 

  Pois, o que suporia, portanto, o concepto marxista de liberdade, se incluisse a importáncia da auto-realizaçom dentro destas relaçons? Como já temos visto,  a sexualidade masculina na sociedade capitalista representa a degradaçom das mulheres a instrumentos de prazer, e a sexualidade feminina a degradaçom a umha forma mais ínfima de alienaçom. Deste modo, se as mulheres, como os homes, tenhem que realizar-se dentro do mundo, deverám superar a sua perpetuaçom como objetos nas relaçons sexuais. Isto inclue, em última instáncia, portanto, a destruiçom da sexualidade como apropriaçom e da polaridade das atitudes de masculinidade em que se basea. A sexualidade polimórfica, termo que tinha utilizado Herbert Marcuse para a sexualidade dentro da sociedade comunista (mas assumido agora de forma consciente e nom instintiva), representa, pois, a próxima forma das relaçons sexuais da sociedade.

 

  A sexualidade polimórfica sugire a possibilidade de superar a supremacia da sexualidade genital, a resexualizaçom de todo o corpo e, à sua vez, a superaçom das relaçons heterosexuais como norma social inevitável (#11). A sexualidade genital baseava-se, em épocas pre-capitalistas, na importáncia da pauta social sobre as relaçons entre o home e a mulher para assegurar, através do nascimento dum herdeiro, a apropriaçom do produto excedente. Ainda que isto segue a ser verdade até certo ponto para as classes dirigentes na sociedade capitalista, a força principal da sexualidade genital jáce na resposta à alienaçom, na busca de consolo por parte do home na relaçom sexual coa sua esposa. Mas, ao superar-se a alienaçom da sociedade produtora de mercadorias, o ímpetu da sexualidade, junto coa importáncia social de ser home ou mulher, esvaeceram-se.

 

  Desta forma, póm-se de manifesto o aspecto positivo do desenrolo do individualismo na sociedade capitalista. O marxismo, incluso nas suas melhores variantes, tem visto tradicionalmente este processo como um desenvolvimento totalmente negativo, é dizer: ao dar importáncia ao indivíduo devalua-se o intercámbio social. Mas o capitalismo, ao separar as relaçons sexuais íntimas dos homes e a indústria, preparou tamém o terreo para o controlo consciente destos. Em outras palavras, o capitalismo revela, sem ser capaz el mesmo de resolve-lo, o potencial da gente para realizar-se em todos os aspectos da sua sociabilidade, na sexualidade assi como na actividade produtiva. Porque a negaçom do capitalismo na sociedade comunista exige que os seres humanos reproduzam conscientemente a sua sociabilidade, em lugar de faze-lo espontáneamente (#12) como nas primeiras etapas da história humana.

 

  Em resumo, a estruturaçom das relaçons íntimas entre o home e a mulher é um elemento vital para completar a teoria marxista do desenrolo da consciência humana. Os seus cámbios formais determinam se os seres humanos se experimentam a si mesmos espontáneamente como na sociedade primitiva, ou se se exclue um nível de realidade do pensamiento consciente como na sociedade capitalista; ou se os homes e mulheres som capazes de experimentar-se a si mesmos conscientemente através de todas as relaçons, como na futura sociedade comunista. Ao mesmo tempo, a extensom da análise dos processos de alienaçom e reificaçom, a fim de incluir o seu impacto nas relaçons sexuais humanas, completa o concepto de liberdade de Marx, depurando-o das últimas influências do liberalismo. Porque nom estava claro até que ponto Marx pensava que umha luita revolucionária requeria umha reestruturaçom radical de todas as relaçons da sociedade, e até que ponto dava por suposto que a relaçom sexual entre o home e a mulher permaneceria básicamente inalterável. Mas, ao basear a liberdade na superaçom da alienaçom e a reificaçom em todos os seus aspectos, a sua realizaçom fai-se depender dum cámbio qualitativo na sexualidade humana: o reempraçamento da heterosexualidade genital pola sexualidade polimórfica. A liberdade, neste sentido, reconhece a capacidade dos homes e as mulheres para controlar conscientemente as suas vidas. Embora as suas acçons sigam a estar limitadas, estarám-no por processos que a sua capacidade lhes permite compreender, nom por processos cuja realidade é reprimida desde o pensamento. Assi pois, a superaçom última da alienaçom e a reificaçom permitirá aos seres humanos converter-se, por vez primeira, em autores conscientes do processo social.

 

(#11) Nós introduzimos neste ponto umha posiçom mais radical. A própria identificaçom entre a prazer material e a sexualidade em sentido amplo tem, na sociedade comunista, que perder a sua dimensom meramente animal -a sensibilidade biológica- e privada, para alcançar umha verdadeira socializaçom e desenrolo superior através da produçom social. Igualmente, co livre e pleno desenrolo das capacidadees humanas, desaparecerá a separaçom entre os sentidos mais materiais e os mais espirituais; produzira-se, como dixera Marx, umha "libertaçom de todos os sentidos e qualidades humanos". Entom, a sexualidade deixará de ser um impulso instintivo e limitado, para ser compreendida como a fonte de energia criativa universal para a autorrealizaçom humana, e a ser despregada em todas as suas possibilidadees. A creatividade livre, prazenteira e infinita, convertirá-se assi na forma social do impulso da prazer, desligando-se da relaçom co sexo e a sensibilidade biológica. O concepto de "sexualidade polimórfica", pois, pode ser útil por oposiçom à "heterosexualidade genital", mas nom mais alá. Trata-se dumha fórmula transitória e, ademais, por definiçom tem um conteúdo social ambiguo.

 

(#12) É sabido que, nas suas origes, a teoria marxista desconhecia o concepto de espontaneidade. Em A ideologia alemá Marx e Engels utilizam o adjetivo "natural" ou "xurdida de modo natural" para referirse ao originamento das formas sociais, en contraposiçom às criadas de modo "consciente". A contraposiçom de consciência e espontaneidade é um elemento próprio do leninismo, nom do marxismo. Essa acepçom do "natural" por oposiçom ao "consciente" provém do facto de que a consciência humana se forma meiante o desenvolvimento da actividade social humana e, por conseguinte, na medida em que se supera a determinaçom da actividade humana pola natureza exterior e essa actividade passa a ser determinada polo ser humano mesmo (graças ao incremento das forças produtivas sociais do seu trabalho). Algo "espontáneo" é algo que, simplesmente, tem a sua orige em si mesmo, sem que isso implique necessáriamente inconsciência; somentes implica que nom existe umha estructura ou plano exterior ao próprio processo que o determine, ou seja, umha organizaçom da acçom no sentido formal.

 

  Em todo caso, o que o marxismo reconhece, desde Rosa Luxemburg, é a dialéctica entre organizaçom e espontaneidade como aspectos complementares da autoactividade humana em geral. Em consequência, nós interpretamos o uso do concepto de espontaneidade por parte de Foreman no sentido marxiano de "natural". 

 

Capítulo IV

 

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