II. As mulheres e o desenrolo da produçom de mercadorias

 

  Na sociedade pre-capitalista, as mulheres das classes altas mantinham-se a distáncia da vida social, e os homes cantavam as suas louvanças desde longe, como os dous cavaleiros dos Contos de Canterbury. Mas as mulheres de capas mais baixas, as campesinhas e as comerciantes, eram como a mulher de Bath: participavam activamente em toda forma de intercámbio social. Só nos alvores da organizaçom capitalista, quando se geralizou a separaçom entre família e produçom social em todas as classes e relaçons sociais da sociedade, xurdiram as condiçons para a alteridade (#5) da mulher. O significado das ideas de Simone de Beauvoir (1) devera aparecer, portanto, ao analisar a transiçom do feudalismo ao capitalismo desde o ponto de vista dos cámbios na posiçom social da mulher.

 

  No transcurso do século XVII, o valor social outorgado às mulheres variou consideravelmente. A començos de século, todos os homes contemplavam o matrimónio na Grande Bretanha como um prémio; a finais, como um castigo. Um escritor tem comentado sobre o primeiro período: "os homes nom contemplavam o matrimónio como algo que necessariamente implicava assumir umha séria carga económica, senom ao contrário, a miúdo o consideravam como algo que lhes fortaleceria na sua luita pola vida" (2).

 

 

(#5) Para Simone de Beauvoir é a oposiçom entre trabalho de produçom e reproduçom a que, por um lado fai que o home trascenda "a sua condiçom animal" e protagonice o desenvolvimento social, mentres que, polo outro, fai que a mulher se convirta no "Outro", excluida da totalidade, reduzida à categoria do negativo, só podendo ser através dos demais (dos homes). Os homes reservam-se para si em exclusiva a natureza humana, entanto que para eles a mulher permanece na natureza animal, maleável para que resposte aos seus desejos e reflicta a sua própria image. Igual que o home se esforça históricamente por transformar a natureza em expressom de si mesmo, objetivando a sua subjetividad, assi o home se relaciona coa mulher como coa base natural primaria que utiliza para afirmar as suas necessidades e capacidades e cujo objetivo é dominar.

 

  As apreciaçons anteriores sintetizam-se nas categorias de alteridade (qualidade da mulher de ser o Outro, algo nom humano para o home) por um lado, e de subjetividade (no sentido de que a mulher é reduzida a mero objeto passivo que reflicta a subjetividade masculina).

 

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  (Nom vamos aqui a discutir esse noçom de "dominar a natureza", ainda que nom concordamos com ela. Basta saber que é umha constante ideológica da sociedade baseada todavia na luita pola existência individual).

 

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  Durante o século XVII, a complexidade da estratificaçom social sofreu umha rápida transformaçom e simplificaçom. Esta transformaçom pode-se apreçar mais facilmente estudando o destino dos jornaleiros e as suas esposas.

 

  Durante este período, começou a aparecer a indústria organizada sobre princípios capitalistas, junto às indústrias de base familiar e doméstica. Esta última classe de indústria era de dous tipos básicos. O primeiro, aquel em que os bens se produziam por e para a família, existia fundamentalmente nos meios rurais. Este tipo de indústria reempraçava a relaçom feudal clássica entre o senhor e o servo, e, em muitos casos, a família todavia arrendava a terra a um fazendeiro e mantinha certas obrigas sociais respeito a el. No segundo tipo, a familia estava formada polo pai, a mai, os nenos, servintes e aprendizes. O exemplo mais significativo era a família do mestre artesam, que se desenrolou no seo da crescente povoaçom urbana, produzindo bens para o intercámbio. Mas, coexistindo já com estes tipos de indústria, apareciam os inícios dumha produçom de mercadorias na que a indústria era controlada polos proprietários do capital, que alugavam a trabalhadores para a produçom de bens a cámbio dum salário. Se bem estas três formas de produçom coexistiram ao longo do século XVII e até fins do XIX, o domínio da forma capitalista quedou já establecido a finais do XVII. O transvase mais importante realizou-se do sistema artesanal à forma de produçom capitalista, o que à sua vez pode medir-se polos cámbios de posiçom dos jornaleiros e as suas esposas.

 

  Nos tempos de maior esplendor do sistema artesanal, a mulher de cada artesam compartia o seu trabalho. As tarefas caseiras as realizavam as filhas solteiras e os servintes, permitindo con isto que a mulher casada exercesse o seu papel na artesania. Desta forma, ainda que rara vez se ensinava oficialmente às mulheres as artes dum ofício, chegavam a alcançar rango de especialistas através do seu matrimónio cum artesam. Se o marido morria, a mulher normalmente encarregaria-se do negócio. E, certamente, as viúvas dos mestres artesans tinham muitos pretendentes que viam no matrimónio um caminho seguro cara um ofício especializado.

 

  Contudo, a medida que a indústria se fixo mais competitiva, muitos jornaleiros nom chegavam a qualificar-se como mestres. E como trabalhavan baixo as ordes do seu mestre, sucedeu que as suas esposas já nom podiam incorporar-se ao seu trabalho. Fazer-se aprendiz convertiu-se na única porta pola que os homes podiam chegar a um ofício especializado. Para as mulheres isto produziu umha crise de desemprego.

 

  Se a organizaçom gremial dum trabalhador era o suficientemente poderosa como para manter um salário alto, a mulher podia unir-se ao número crescente de mulheres que permaneciam ociosas ou se ocupavam nas tarefas domésticas nom remuneradas. O crescimento da riqueza, devido à expansom da indústria, permitira às esposas dos mestres deixar de trabalhar e alugar mais sirvintes, convertendo-se a sua dependência num símbolo de éxito.

 

  Se o salário dum trabalhador era baixo, a mulher via-se obrigada a trabalhar nas fatigosas indústrias nom qualificadas e desorganizadas, ou na produçom de fibras e fiados que satisfaciam a crescente demanda do sector textil em expansom. O carácter das indústrias de fiados estava adaptado especialmente bem às necesidades da mulher que estava encarregada tamém das tarefas domésticas. Mas o salário das indústrias de fiados era demasiado baixo para poder independizar-se de outros meios de sustentamento. Assi pois, a proletarizaçom do jornaleiro veu acompanhada do debilitamiento da posiçom da mulher na produçom social, e do seu rebaixamento, na maioria dos casos, a umha dependência económica. E foi este cámbio na posiçom da mulher o que subjazia tras a perda de valor do matrimónio a finais do século XVII. Assi pois, a produçom de bens baseada no sistema artesanal foi decaindo paulatinamente baixo a pressom da competência capitalista: os artesans algo afortunados forom somando-se à nascente burguesia, e os jornaleiros e as suas mulheres engrossaron as fileiras cada vez mais povoadas do proletariado e dos despossuidos.

 

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  No final do século XVIII e começos do XIX, a invençom de novas maquinárias preparou o caminho para umha expansom massiva da industrializaçom. Com esta expansom ampliou-se o rádio de acçom da organizaçom capitalista e, ao mesmo tempo, incrementou-se a demanda de todo tipo de trabalho, incluindo o das mulheres. Mas os acontecimientos do século XVII já tinham abonado o terreo para que, quando a mulher entrasse nas fábricas, o fixesse desde umha posiçom de debilidade, nom de força, o que os patronos souberom aproveitar em beneficio próprio. A crise social que estalou coa introduçom dos teares mecánicos ilustra perfeitamente o dito.

 

  A tecedoria (-) constituia tradicionalmente umha ocupaçom masculina. Quando os patronos reempraçaram os velhos teares polos novos de tipo mecánico, muitos deles preferiram empregar a mulheres, porque podiam pagar-lhes um salário menor que aos homes polo mesmo trabalho. O resultado foi violento e, como relatou Charlotte Bronté em Shirley, ondequeira que os patronos introduzissem a nova maquinária, tinham que enfrentar-se a umha situaçom de extrema hostilidade e tumultuária. A apariçom da maquinária atemorizou à classe trabalhadora, nom só porque, ao ser desnecessária a habilidade profissional, reduzia o nível salárial, senom tamém porque ameaçava por todas as partes a divisom do trabalho entre home e mulher baseada na tradiçom. Em geral, os homes nom aceitavam a presença das mulheres nas fábricas e dedicavam os seus melhores esforços a mante-las à marge, em lugar de melhorar o seu salário e condiçons de trabalho. A sociedade, em geral, nom via com bos olhos à operárias das fábricas e, se um trabalhador nom podia manter à sua mulher na casa, como o pai da senhora Gaskelh em Mary Barton, tentava buscar-lhe algum outro ofício.

 

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  Desde 1830 em adiante foram-se aprovando umha série de leis industriais que restringiam o emprego de mao de obra feminina. Até entom, os industriais tinham-se oposto a qualquer cámbio neste sentido. Mas, segundo foram passando de umhas formas de produçom que necessitavam muita mao de obra, a outras que necessitavam menos, mas mais qualificada, foram-se fazendo mais partidários dumha reduçom, ainda que nom erradicaçom, da mao de obra feminina. O movimento sindical em bloco apoiou estas leis, argüindo que melhorariam as condiçons de trabalho das mulheres. Mas já que a legislaçom cobria somentes áreas de emprego onde homes e mulheres competiam por postos de trabalho e nom, por exemplo, as esgotadoras indústrias onde trabalhavam principalmente mulheres, semelha que o fixeram, fundamentalmente, para proteger o emprego masculino tradicional.

 

  Nom obstante, nom todos na classe obreira criam que a mulher devia ser alonjada da indústria. Algumhas trabalhadoras valoraram a independência económica que os seus empregos lhes tinham proporcionado e iniciaram umha luita surpreendentemente dura para defender o seu posto de trabalho. Entre estas mulheres, e especialmente na indústria textil do Norte de Inglaterra, houvo umha expansom do sindicalismo durante este período.

 

  Sem embargo, tenderam a criar novos sindicatos formados por mulheres, mais que a unir-se aos já existentes que eram predominantemente masculinos. E nom é casual que o movimento sufragista nos seus primeiros tempos ganhasse o apoio da classe trabalhadora através destas mulheres.

 

  Mas, por mui militantes que fossem estas mulheres, estavam a luitar contra a corrente de opiniom de toda a classe trabalhadora. Muitas trabalhadoras desmoralizaram-se, tanto polas condiçons do seu trabalho como pola hostilidade do seus companheiros. A desintegraçom da família da classe trabalhadora, dado que as suas mulheres e crianças tiveram que sair a trabalhar e os seus membros se desperdigavam por diferentes partes do país na procura de trabalho, foi considerada pola maioria como parte do ataque das classes dirigentes à sua forma de vida. Assi pois, a protecçom da família e o assegurar o posto da mulher dentro dela, pensou-se que era parte integrante da luita contra os patronos e contra o efecto brutalizante das condiçons de trabalho. E, gradualmente, a capacidade do trabalhador para manter à sua mulher na casa foi-se convertendo num signo de força e prosperidade da classe obreira, do futuro melhor que lhes esperava.

 

Capítulo III

 

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