I. Alienaçom, cousificaçom e separaçom entre a indústria e a família.

 

 

[1. A IMPORTÁNCIA DAS NOÇONS DE ALIENAÇOM E REIFICAÇOM (#1)]

 

  Tendo introduzido os conceptos de alienaçom e reificaçom dentro da discussom sobre marxismo e psicoanálise, estes termos necessitan ser explicados mais detalhadamente. Nos Grundrisse (1), Marx centrou-se especialmente na análise destes processos e a sua conexom. É útil, portanto, citar um dos seus parágrafos com certa amplitude:

 

  "O carácter social da actividade, assi como a forma social do producto e a participaçom do indivíduo na produçom, apresentan-se aqui como algo alheo e com carácter de cousa frente aos indivíduos; nom como um estar recíprocamente relacionados, senom como um estar subordinados a relaçons que subsistem independentemente deles e nascem do choque dos indivíduos recíprocamente indiferentes. O intercámbio geral das actividades e dos produtos, que se tem convertido em condiçom de vida para cada indivíduo particular e é a sua conexom recíproca (cos outros), apresenta-se ante eles mesmos como algo alheo, independente, como umha cousa. No valor de cámbio o vínculo social entre as persoas transforma-se em relaçom social entre cousas; a capacidade persoal, numha capacidade de cousas". (2)

 

  De modo que a alienaçom e a reificaçom baseam-se em três processos relacionados. Primeiro, no trabalho humano da produçom de mercadorias a objetividade do indivíduo no mundo convirte-se, através da expropriaçom do seu produto, numha actividade alienada. Segundo, ao converter a própria capacidade de trabalho em mercadoria, o seu valor, como o de qualquer outra mercadoria, expressa-se em termos monetários. Assi pois, as relaçons sociais dentro do processo de produçom asumem a forma de relaçons entre cousas materiais. Terceiro, mentres que umha mercadoria tem dous valores, o valor de cámbio e o valor de uso, o capital relaciona-se principalmente co primeiro. O seu interesse no uso dumha mercadoria limita-se ao facto de que sem el nom se venderia no mercado; e assi o intercámbio de dinheiro aparece como a base lógica e a finalidade de todo o sistema social.

 

  A partir disto, podemos fazer duas observaçons. Primeira, que os conceptos de alienaçom e reificaçom som fundamentais na análise marxista, porque descrevem a forma da actividade produtiva no seo da sociedade capitalista, e a relacionam co desenrolo da história humana. E segunda, que expressam os processos polos que as relaçons comunitárias se deshumanizam através da produçom de mercadorias. Este último ponto proporciona, à sua vez, a uniom entre estes conceptos e o desenrolo dumha crítica da reduçom do marxismo a um determinismo económico. Resumindo, os deterministas reduziam a esfera da actividade humana ao reflexo dos movimentos do mercado. As leis inmutáveis das alças e baixas prediziam que o capitalismo estava condeado ao fracasso com ou sem a intervençom humana. Mas, através da análise da reificaçom, Marx relacionou este tipo de enfoque coa forma em que cada indivíduo experimenta a realidade do processo capitalista. As relaçons sociais toman a forma de relaçons monetárias (#2).

 

 (#1) Umha definiçom ampla do concepto de alienaçom (que se subdivide nos aspectos de: enalheaçom, extranamento, desrealizaçom etc.) pode encontrar-se nos Manuscritos de Economia e Filosofía de Marx, escritos em 1844, em particular no manuscrito primeiro (parte sobre o trabalho alienado ou enalheado). Outra fonte importante é o primeiro capítulo de A Ideologia Alemá (Marx/Engels, 1846), obra na que, ao longo de diferentes partes, trata-se da independizaçom das forças produtivas e do produto do próprio trabalho da vontade humana, e define o comunismo como o movimento histórico-mundial que suprime efectivamente as relaçons sociais que provocam esta situaçom, para establecer no seu lugar a regulaçom consciente da produçom e da reproduçom da vida social, por meio da apropriaçom revolucionária das forças produtivas pola "comunidade dos proletários revolucionários".

 

  O concepto de cousificaçom é sinónimo do de reificaçom. Este último vem sendo umha forma mais culta, procedente do latim "res", que significa cousa, e do que procede, por exemplo, a palavra "república" (res publicae=a cousa pública). A sua significaçom explica-se bastante bem por parte da autora, de modo que nom nos extenderemos. Somentes mencionar a sua interrelaçom, na teoria marxiana, coas categorias de "despersonalizaçom" do trabalho e coa "abstracçom real" do trabalho.

 

(#2) Ver tamém, no livro I de O Capital, cap. 1, a parte de «O fetichismo da mercadoria».

 

 

[2. A TEORIA DA REIFICAÇOM EM LUKÁCS E OS SEUS LIMITES.]

 

  Lukács retomou este tema, quando desenrolou a análise de Marx da reificaçom. Na sua obra História e consciência de classe explica como a deshumanizaçom do processo produtivo expressava-se na teoria como a separaçom entre os valores subjetivos e os factos. Do mesmo jeito que a vida comunitária aparecia como umha relaçom entre cousas, os factos apareciam como externos e alonjados de todo agente humano (#3). Mas os "factos", segundo el, nom som "nada mais que as partes, os aspectos do processo total que tenhem sido desgalhados, isolados e cousificados artificialmente" (3).

 

  Deste modo, Lukács proporcionava a clave para compreender a persistência do dualismo no pensamiento radical. As alternativas do materialismo e o idealismo representavam o impacto da reificaçom no método de análise [marxiano], tanto na definiçom de Plejanov do valor científico do marxismo como conteúdo nos seus estudos dos "factos" do processo capitalista, como na volta de Bernstein aos valores subjetivos de Kant. Segundo explicava Lukács:

 

  "Todo movimento, quando se confronta coa rigidez destes «factos», parece um movimento que os afecta, mentres que toda tendência a cambia-los aparece como um mero princípio subjetivo (um desejo, um juiço de valor, um dever)." (4)

 

  Em resumo, o revisionismo de Bernstein e o determinismo económico representaram as duas reacçons teóricas complementares à imediatez das relaçons sociais capitalistas, no seo da tradiçom marxista.

 

  Lukács foi mais alá do imediato e reintegrou a consciência dos seres humanos na sua análise teórica. Para el, eran os seres humanos os sujeitos da história e nom as forças monetárias. "Ademais da mera contradiçom -o produto automático do capitalismo-, escreveu, require-se um novo elemento: a consciência do proletariado deve fazer-se realidade" (5). Neste sentido, os seus escritos representaram umha evoluçom positiva dentro do marxismo alonjada do determinismo económico, um golpe contra a degeneraçom daquel. Mas foi incapaz de completar esta evoluçom.

 

(#3) A vida comunitária apresenta-se como determinada polo movimento das mercadorias na circulaçom. O intercámbio, a variaçom dos preços, é o modo em que a actividade produtiva se volta sobre a sociedade. Os factos apresentam-se assi como o resultado de relaçons entre cousas indepedientes da vontade humana, nom como produtos da actividade humana. Tudo assume o carácter de forças cegas que dominam a vida humana, sem ser capazes de reconhecer que estas forças cegas som o produto da actividade criadora humana, mas dumha forma de actividade baixo relaçons sociais que impidem a sua regulaçom consciente.

 

  Lukács pensava que a reificaçom que se produzia no capitalismo tinha um aspecto positivo, e é que: "só co capitalismo o interés económico de classe xurde com toda a sua pureza como força motriz da história" (6). Para el, esta pureza económica era o resultado da despersonalizaçom da produçom socializada; mas, ao fixar a sua atençom neste aspecto, esqueceu a outra parte complementar do processo.

 

  Nos períodos pre-capitalistas, as relaçons económicas, persoais e sexuais tenhem estado completamente misturadas entre si. O sistema de parentesco tinha proporcionado umha base lógica para a divisom do trabalho dentro da produçom social. As tarefas que homes e mulheres levavam a cabo asignavam-se com base no posto que ocupavam dentro desse sistema. Por exemplo, as avoas e as moças tinham um papel específico dentro da indústria, que estava condicionada pola cultura e a tradiçom dessa sociedade concreta. E quando os homes escolhiam às suas esposas, nom o faziam por necessidades económicas nem emocionais.

 

  Sem embargo, coa geralizaçom da produçom de mercadorias, a organizaçom da produçom colectiva baseada no parentesco veu-se abaixo. O trabalhador mantinha umha relaçom contractual "livre" co capitalista, na que os laços sanguíneos nom jogavam papel algum. O sistema de parentesco subsistiu, se bem de forma débil, fóra do processo de produçom socializada. As relaçons sexuais e sociais de parentesco quedarom separadas e, polo tanto, em oposiçom às relaçons económicas de produçom.

 

  Este era, por conseguinte, o outro aspecto da "pureza económica" do capitalismo que Lukács nom analisou. Consequentemente, nom foi capaz em absoluto de compreender a experiência do indivíduo dentro da sociedade produtora de mercadorias: "a individualidade -escreveu- foi aniquilada polas condiçons económicas às que estava submetida devido à reificaçom criada pola produçom de mercadorias" (7).

 

  Mas a individualidade nom foi aniquilada. Ainda que tenha sido destruida a existência subjetiva do indivíduo na indústria, no entanto o trabalhador ia-se convertendo num elemento mais das forças de produçom, permaneceu viva fóra, nas relaçons familiares. Isto segue-se do aspecto dualista e o desenrolo histórico do próprio processo de alienaçom. Marx já o tinha visto, ainda que nom sacara disto todas as suas implicaçons, quando dizia nos Manuscritos de 1844:

 

  "Por isso o trabalhador só se sinte em si fóra do trabalho, e no trabalho fora de si. Está no seu quando nom trabalha e quando trabalha nom está no seu". (8)

 

  Certamente, a importáncia da existência individual dentro da família aumentou coa intensificaçom da alienaçom dentro da força de trabalho. E, umha vez que se consolidou esta oposiçom entre a família e o trabalho, o processo de produçom continuou a reproduzir e geralizar esta divisom através de todas as relaçons sociais da sociedade.

 

  Georg Lukács pensava que a "pureza económica" do capitalismo era um avanço positivo em quanto permitia que o proletariado se conscientizasse da fundamentaçom classista do capitalismo. Marx via as cousas de forma similar, quando descrevia de jeito positivo a destruiçom do sistema de parentesco da produçom social:

 

  "E seguramente esta independência material é preferível à ausência de relaçons ou nexos locais baseados nos vínculos naturais de consanguineidade, ou nas (relaçons) de senhorio e servidume. É igualmente certo que os indivíduos nom podem dominar as suas próprias relaçons sociais antes de te-las criado" (9).

 

 

[3. O POLO OPOSTO DA REIFICAÇOM: A EXPERIÊNCIA INDIVIDUAL NA FAMÍLIA.]

 

  Mas, se bem as relaçons da produçom social eram menos imediatas, no sentido de que estavam mediatizadas polo intercámbio de dinheiro e, portanto, mais sujeitas a análise, acontecia o contrário coas relaçons da família. Tanto Lukács como Marx nom foram capazes de ver que, quando a produçom social se separou da família, estas últimas relaçons perderam aparentemente o seu significado económico. Despojada deste, a família convertiu-se no reino do persoal e o sexual, emoçons que se tenhem considerado subjetivas e nom susceptíveis dumha análise intelectual. As relaçons entre homes e mulheres já nom descansavam, como nas épocas pre-capitalistas, nos papeis industriais que cada um exercia na sociedade, senom nos seus próprios sentimentos, espontáneos e persoais de amor. Mas, além, devido a que a autoconfirmaçom do indivíduo tinha lugar na família e nom no trabalho, a individualidade definiu-se com base nestes termos. Deste modo, os processos de alienaçom e reificaçom que revelavam a dinámica de classe do capitalismo, submergiam, ao mesmo tempo, a experiência individual nas escuras profundidades do emocional e o sexual (#4).

 

  Desafortunadamente, nem Marx nem Lukács se dedicaram à tarefa de botar luz sobre estas escuridades; nom compreenderam totalmente a magnitude dos problemas que implicava superar o determinismo económico e consolidar aos seres humanos como autores da história. Se o proletariado se ia converter no agente consciente do cámbio revolucionário, tamém havia que enfrentar-se ao domínio deste aspecto da reificaçom e a alienaçom.

 

  Assi pois, o problema da experiência individual adquire na sociedade capitalista umha forma específica. Nos tempos pre-capitalistas, o indivíduo definia-se de acordo co seu posto no sistema de parentesco, e polo status desse sistema em particular. Mas, dentro do sistema de produçom de mercadorias, si bem o sistema de parentesco permanecia de algumha forma, era a relaçom contractual o que determinava a posiçom do indivíduo na indústria, e a primacia do parentesco foi reempraçada polo nexo monetário. Nom obstante, como foi destruido sistemáticamente o sentido individual de um mesmo no centro de trabalho, apareceu umha tensom crucial. A individualidade nom foi destruida, mas enfrentou-se a umha crise de identidade.

 

***

  Num mundo de caos e cámbio, o sexo amossa-se como o único elemento de continuidad ao que se pode fixar a individualidade.

 

 

(#4) Nos tempos da autora a teoria da opresom da mulher estava ante um cámbio de época. Na sua visom, a reificaçom das relaçons sociais fai que as relaçons familiares fiquem num segundo plano e adoptem a apariência de relaçons naturais derivadas da sexualidade polarizada. Isto é: a cousificaçom das relaçons sociais no ámbito da vida pública tem o seu co-relato na despersonalizaçom, a des-subjetivaçom, da vida privada -e isto nom só a nível das relaçons entre os sexos, mas tamém a nível da relaçom de cada indivíduo consigo mesmo-. Mas isto era a expressom de que o ámbito privado seguia a estar, em apariência, à marge da produçom de mercadorias.

 

  Co desenrolo do capitalismo, sem embargo, o controlo político e a dominaçom espiritual do capital sobre a vida privada e persoal volve-se cada vez mais forte, mentres que, por outro lado, tende a dissolver as velhas relaçons familiares patriarcais (já despojadas muito antes de qualquer base económica propriamente patriarcal, isto é, da funçom da família como unidade económica autónoma que tinha na economia agrária e artesanal feudais, ou na economia natural de subsistência. Tende a reemplazar esta forma das relaçons familiares por outra forma mais "livre", acorde coa tipologia do trabalho asaláriado e das relaçons do valor de cámbio. A velha família patriarcal é assi reempraçada cada vez mais por umha forma de família na que impera a liberdade capitalista: o contrato livre entre duas persoas que encobre a explotaçom do trabalho, umha relaçom inspirada no proveito recíproco e medida polo valor de cámbio (ou seja, pola sua capacidade para produzir um benefício para o outro), etc.

 

  À sua vez, esta maior liberdade reflicte a crise histórica do capitalismo, a sua incapacidade para assimilar o crescimento do exército de reserva (emprego da força de trabalho das mulheres e das novas geraçons no trabalho assalariado) mantendo estáveis as condiçons de trabalho (e de reproduçom da força de trabalho na família).

 

  A reduçom da natalidade, à marge das suas consequências sobre os mecanismos do "Estado do bem-estar", convém ao capitalismo nos países avançados. Concedendo umha maior liberdade às mulheres cumpre o duplo papel de: 1) mistificar esta situaçom de maior liberdade familiar como um progreso histórico que significária fundamentalmente a libertaçom da mulher, e 2) mistificar um incremento na integraçom da força de trabalho feminina na produçom exponhedo-a como a expressom culminante dessa libertaçom de género, quando em realidade é um instrumento para intensificar a degradaçom geral das condiçons de existência do proletariado -sobre a base de reproducir a nível industrial as relaçons de género, de modo que as mulheres seguen, em geral, a ter remuneraçons, condiçons de trabalho e postos de trabalho diferentes e inferiores aos dos homes-.

 

  Nestas condiçons, de liberalizaçom das relaçons familiares, o capitalismo tem podido desenvolver crescentemente umha cousificaçom da sexualidade da mulher -do seu corpo como força de trabalho sexual-, de modo que a sexualidade e as relaçons sexuais tenhem saído do ámbito do privado para fazer-se, na prática, algo público. Con isso, nom obstante, o capitalismo nom abole a cousificaçom embrionaria criada polo trabalho doméstico alienado dentro da família, senom que a desenvolve a umha escala superior em intensidade e amplitude, só que cambiando a sua forma: em lugar da moralidade tosca e brutal do patriarcado, temos agora umha forma ideológica puramente mercantil. A escravitude da mulher como objeto sexual passa assi de apresentar-se como umha reminiscência patriarcal a adoptar o carácter do "trabalho livre" como objeto/força de trabalho sexual, sendo as próprias mulheres as que vem este papel como umha libertaçom, identificando-se com el e reclamando essa liberdade como a sua verdadeira auto-realizaçom, anunciando as suas capacidades sexuais como umha mercadoria mais ante o mercado masculino.

 

Capítulo II

 

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