Brad deu asas à imagem em ação: a animação
Bastou uma simples leitura, num livro que tem no título “qualquer um pode...”, que ele fez Ratatouille. O filme do ratinho cozinheiro diz o tipo de força que precisamos para prestar serviço a Pixar ou Disney, no momento em que aventura, tecnologia e uma asinha frita de imaginação compõem o prato em 3D do dia. O diretor Brad Bird fez-se suficiente para nos servir.
É a vivacidade ao redor da degustação que dá o sabor do filme. E filme tem sabor? Sim! Nós podemos ver (digo, usar os olhos!) como é a sensação produzida por temperos, frutas e outros condimentos no sentido do gosto. Só a simples tradução do que a gente sente, o sentimento, projetada na sala de cinema já vale o valor do ingresso - dos filmes que conseguem isto.
Ratatouille incrementa a linguagem ao usar sua feição artística absurdinha. O gênero da animação torna fácil combinar bem cenário com personagem tipo e, de mesmo modo, quadrar personagens com o cenário. Nota-se, nesta produção, a técnica auxiliar a história e não o contrário.
Exemplo são as cenas que ilustram o paladar. Retiram o espaço e só ficam o guloso e o tempo do gosto da comida, na tela grande. O ratinho divide com o expectador apenas o prazer dos alimentos. Outro exemplo, muito bem observado anteriormente pelo Claquete, é o diálogo do humano com o roedor, sem caracterização de mundo real, no primeiro encontro da dupla Ratatouille. Cozinhar é mesmo uma arte, e fazer um filme sobre isto é arte duas vezes!
A obra produzida tem mesmo coisas plausíveis, construção impecável, sabor e até Oscar, quem sabe? (Até que “Transformers” prove o contrário, né?) Mas, entre tudo, encontramos os ingredientes amargos tradicionalmente necessários num filme produzido em um local estabelecido com sua cultura peculiar. Estou falando de armas de fogo para matar rato, para resolver problemas conjugais. De munição calibre 12 no meio dos livros em uma estante da sala de uma “véinha”. Cadáveres de pequenos mamíferos roedores na vitrine da loja de ratoeiras. E o ser humano fantoche. Tudo isto faz oposição ao que aprendemos em casa sobre como amar os animais. Sobre o que as crianças na sala de projeção aprendem na escola.
Passado a bronca, Ratatouille desponta numa persistente e conflitante ideologia de um rato, que só comia lixo, talentoso, que a fim de proporcionar o prazer a quem come, aprende a ler e fazer receitas. Ajuda um herdeiro desavisado e não deixa o irmão comer algum tipo de embalagem. Boicota um negocio de comidas congeladas e muda a visão da crítica parisiense. O filme leva crédito por ter uma historia de amor com o primeiro beijo pelo comando do rato. Muito engraçado!
Ratatouille é a animação do ano. Talvez o arsenal do marketing Pixar/Disney faça pensar assim. Mas é provável que nenhuma outra história tenha um Anton Ego, o crítico que tirou a estrelinha da imaginação do Mini-chefe, comendo comida de rato e secando garrafas de vinho. Que figura!
Ps: Em qual mesa fica o Pelé nessa história?

