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Uma animação de dar água na boca

DivulgaçãoNão deve ser fácil. Se manter no topo depois de tantos sucessos imediatos (como “Toy Story” e “Procurando Nemo”). Pior ainda, ter que arcar com a difícil responsabilidade de carregar o selo Disney de qualidade - que sozinha se mostra incapaz de produzir animações computadorizadas de destaque. Colocando nestes termos, parece improvável que o melhor estúdio de animação 3D da atualidade se arrisque em produções absurdinhas. Apostando na criatividade em detrimento ao fácil retorno (financeiro) copiando fórmulas garantidas e/ou consagradas. Mas é justamente este o grande triunfo e diferencial da Pixar: eles fazem cinema - o resto é conversa fiada.

Ratatouille é a prova suprema deste desprendimento. Tudo aqui é razoavelmente diferente. A começar pelo nome, dado a um importante prato provençal formado por berinjelas e tomates. Não se assuste, o tema aqui é a gastronomia - sim, a gastronomia - e isso num filme para toda a família! A animação ostenta um título mais do que apropriado, se levarmos em conta seu enredo - que coloca o ratinho Remy como o “mini-chefe” de cozinha em um dos mais importantes restaurantes parisienses.

Logicamente, a própria idéia de se ter um rato na cozinha (principalmente na de um restaurante) é provocativa. E esta é a grande sacada do diretor Brad Bird (de “Os Incríveis”), colocar um roedor no comando (literalmente falando) de um jovem faxineiro alçado ao estrelato, graças às receitas criadas (secretamente) pelo pequenino cozinheiro azulado.

Bird é experto. Pensa primeiro em termos cinematográficos. Pouco importando se está trabalhando com seres digitais ou personagens em animação tradicional. Desta forma, indubitavelmente, o longa ganha dimensões totalmente inesperadas - onde o enfoque se desloca da pirotecnia técnica para o exercício da própria cinematografia. Muitos são os momentos em que as boas idéias e a linguagem sobrepõem à estética (ainda que linda, por sinal). Como a maneira encontrada para ilustrar a experiência degustativa, de paladares e cheiros impossíveis de serem “re-criados” nas telas.

Outro ponto importante, que ganha espaço, é a escolha por uma ambientação (fantasiosamente) atemporal. Que mescla conceitos e épocas distintas para a criação de um universo único, coeso e funcional (para qualquer público). Onde motos modernas se misturam com máquinas de escrever do "arco-da-velha". Onde televisões em “Preto & Branco” se contrastam com a inerente tecnologia empregada para a confecção desta obra - visivelmente tão sofisticada (realizada com as mais avançadas ferramentas disponíveis atualmente no ramo dos desenhos animados).

A coragem dos artistas da Pixar é claro. Eles não se limitam a rótulos e velhacos códigos de conduta impostas pelo mercado. Esquivando-se do “politicamente correto” com um conteúdo realmente “verdadeiro”, sem falsos moralismos ou parado no tempo. Isso tudo, exemplarmente, sem menosprezar a inteligência do expectador. Ou deturpar valores que são importantes, realmente. Garantindo uma (real) diversão, correta tanto para adultos quanto para crianças.

Vide a excelência do material apresentado, fica fácil se render aos talentos da Pixar. E ao relato metalingüístico no final de Ratatouille - contrapondo a importância do empreendimento e o valor da crítica. Realmente, nem sempre críticos e realizadores se entendem. Ou se fazem entender. Contudo, a resolução é fácil, basta tratá-los tão bem quanto fora mostrado. E o filme realizado. Desta forma sairemos todos satisfeitos - e sabedouros de que estamos diante de um (raro) momento onde o melhor dos elogios pode ser inválido. Só mesmo provando para acreditar no que é dito. Como nas melhores receitas - devemos saborear e sentir o gostinho. Sendo assim, bon apetit!

 

Carlos Campos

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