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Leste

A imagem do pequenino porco dentro daquela caixinha falando com a voz de Romero me persegue escadaria acima, mas eu tenho que ver o que é porque eu sei que o meu amigo Jorge está correndo perigo. Acho que tenho o dever de ajudar um amigo em dificuldades. Os degraus oferecem certa resistência, dando um atrito forte contra a minha aura, como se algo quisesse me impedir de chegar ao andar de cima da casa, mas eu chego mesmo assim.

De fato, Jorge está lá, amarrado a uma mesa de torturas da Idade Média, do tipo que estica os ossos da pessoa, é o tipo de coisa que faz você crescer sem saúde. Ele grita e convulsiona e é difícil tirar dele as amarras, cortar as cordas. Olho em volta, buscando um objeto cortante. Há uma faca em cima de outra mesa, mas quando eu a pego e me volto para a mesa de torturas para cortar as cordas, ela já não está mais lá. Nada do Jorge, nem da mesa de torturas.

No lugar onde ela estava, um banquinho e a larva, fumando seu narguilê sossegadamente. O meu olhar faz com que ela se encolha, deve ser um olhar realmente terrível e fulminante, mas infelizmente (ou felizmente) não posso vê-lo.

"Eu sabia que você viria", ela disse, "sente-se aqui, fique à vontade, por favor."

Eu me sento, não sei porque, mas me sento. Estou furioso. E desconfortável, por estar furioso. Uma onda de fúria que fica subindo e descendo por dentro de mim. A larva começa a desfiar histórias antigas que ela conhece bem. Não sei qual é a dessa larva. Não sei se ela quer me conduzir à memória das coisas como ela mesma diz ou se simplesmente quer brincar comigo. A sempre incômoda fumaça de seu narguilê se condensa numa névoa grossa, que a princípio me impede de ver a larva e depois cobre o resto do andar de cima. Acho que começo a retornar à fonte.


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