Bem, já posso ver pelo posicionamente deles que não vão me deixar atravessar até o Alto do Piripau sem luta. E ninguém sairá do chalé para vir recolher esses nervosos. Eu vejo nos cachorros a aura expansível, agitada, mesmo interferindo com a aura das plantas e do ar ao redor do chalé. Continuo avançando decidido a enfrentá-los, seja o que Deus quiser. Sei que isso não é uma atitude de quem está procurando um caminho, mas acho que é isso que os cachorros guardam com tanta atenção, podem estar querendo me afastar do topo que é um lugar onde eu poderia chegar a esa contemplação pacífica. Um teste, por que não?
Ação. Me jogo para cima dos cachorros; dois deles recuam enquanto grito como um homem de Neanderthal para tentar espantar os bichos para longe do caminho. Começo até a achar que está dando certo. Mas não. Um dos dois cachorros deu a volta na casa, vem por outro caminho por trás de mim, vejo ainda a aura horrível e distorcida dele, mas não consigo me esquivar a tempo. Este cachorro consegue abocanhar minha perna esquerda e os outros vêm com fúria.
Esqueço as orações e parto para a baixaria, usando os outros dois cachorros para espancar o que morde a minha perna esquerda. O cachorro que morde está miando. Como um gato, absurdo dos absurdos, mas está miando, e se recusa a largar minha perna. Num repente, um dos cachorros que estou usando como porrete consegue se agarrar à minha barriga com os dentes e rasga tudo, liberando minha buchada para o ar frio e astral da noite. Me sinto mal sem os meus intestinos, mesmo sendo eles somente astrais me fazem uma grande falta. E logo, sim meus amigos, e logo esses cachorros que até alguns instantes miavam acabam por despedaçar totalmente o meu corpo.
Começo a entender que não foi uma escolha contemplativa afinal. Os cachorros se recolhem finalmente para dentro do chalé e miam alto, comemorando a vitória final. Acho que se Jorge e Romero estão me esperando lá no Alto do Piripau, terão de ficar me esperando eternamente.
Agora a névoa começa a se espalhar por todos os cantos, encobrindo a visão do chalé e de tudo mais em volta, inclusive a visão dos meus pobres e patéticos pedaços espalhados pelos caminhos do Piripau.