E é melhor mesmo ir para Cambuquira. Penso nisso assim que vejo o ônibus colar na plataforma de embarque. Depois de tudo que já passei com o Oliver, é melhor guardar uma boa distância dele. Já houve confusão demais, não estou a fim de passar minhas férias me arrependendo do que poderia ter feito e não fiz. E quando sai o ônibus, vem uma esperança de que tudo vai ser bem diferente e melhor assim. Não conheço a cidade. Mas já sei que vai ser bom só do Oliver não estar por lá. Fico mentalmente imaginando as ruas de Cambuquira, seu casario, as pessoas que se pode conhecer por lá. Agora é noite fechada e eu aproveito a solidão e escuridão das estradas lá fora para dormir um pouco.
"Cambuquira", ouço o motorista dizer e desperto do meu sono para olhar pelas janelas do ônibus. Poucas luzes na borda da estrada, ruínas grandes e brancas a certa altura de uma das colinas, um pátio cercado com dizeres numa fachada branca: Fonte do Marimbeiro, Gava, COMIG, ao nível da estrada, fonte pela qual o ônibus passa com velocidade aproveitando a descida na frente dela.
Mais adiante, um bosque de eucaliptos formando um arco de madeira sobre a estrada, se recortando contra o céu estrelado; uma estrada subindo em direção a um casario sobre outra colina, iluminado a vapor de mercúrio, uma colina rasgada pela estrada de asfalto, antes da qual se vê uma placa: Cambuquira, perímetro urbano. Mais casario adiante, a Oficina de Autos do Ivan, ou o que quer que a placa dissesse naquela velocidade e escuro da noite. Rodoviária. Pego minhas coisas e desço do ônibus, sinceramente disposto a ver aonde vai ter toda essa loucura. Saindo da rodoviária, tenho as anotações de Romero, vou seguindo o mapa traçado por ele na biblioteca.
Em pleno perímetro urbano. Ruas, ladeiras de todos os ângulos e inclinações possíveis, hotéis e bares, um posto de gasolina quase no final da subida, mais uma subida depois da primeira e uma praça com uma igreja de duas torres toda cercada por um jardim. Fico durante algum tempo só para olhar a Igreja Matriz, seus alto-falantes pregados nas torres. Pregados e pregando. Olho o papel com o endereço e ando um pouco mais à procura. A casa de Romero é uma toda verde e arrumadinha, com um pequeno, mas bem-cuidado jardim na frente. Na varanda, alguém se balança numa rede multicolorida. Pelo calçado que usa, só pode ser o dono da casa, já que o Jorge só tira os tênis para dormir ou tomar banho. Às vezes, nem para dormir. Eu me encosto ao muro da casa.
"Ó de casa!", eu digo e Romero levanta a cabeça por sobre a rede para ver de quem se trata. Ele sorri um largo sorriso ao me ver e me ajuda a levar a mochila para dentro, depois das boas-vindas costumeiras, "como foi de viagem?", "muito trânsito nas estradas?", essas coisas. Ele bate na porta do quarto onde ficava o Jorge.
"Seu quarto vai ficar um pouco menor agora, mas eu tenho certeza de que você não vai se importar, Jorge."
O Jorge olha para ver quem entra e me dá um abraço como se não tivéssemos nos visto por anos. Acho que ele teme ficar sozinho na experiência, no sentido de ser o único inexperiente na situação. Ele diz para mim que sabia que eu viria o tempo todo. Diz que tem a certeza de que a minha escolha foi das melhores.
"É o que estou começando a achar."
Dia seguinte, dia de sol, céu sem nuvens, o imenso azul por toda a parte, o clima agradável do frio com sol, o sombreado das árvores nas praças, fotografias para todos os lados, tudo é novidade sob a luz do Sol, tudo é algo que não vi ao chegar na cidade no escuro da noite passada.
Romero nos mostra em seu jardim, o chaquinam. Belíssima planta, com folhas miúdas, quase tão miúdas quanto as folhas de renda portuguesa. Ficamos um tempão hipnotizados pela beleza da planta mágica dos sonhos da memória.
Tomamos café da manhã tipicamente mineiro, broas, bolo de fubá, leite trazido de fazendas direto da ordenha e tudo mais. Essas deliciosas coisas de cidades do interior. E saímos a pé para conhecer o local de nossas experiências.
O Parque das Águas de Cambuquira fica situado na parte de baixo de Cambuquira, onde nada na verdade é ao nível do chão. Não é uma viagem pelo Brasil, como a que poderia estar fazendo, mas sem dúvida é uma viagem a um delicioso recanto deste país. Em frente a esse parque, uma praça densamente arborizada cheia de bancos, muita luz de sol e sombras de árvores por todo lado. Na bilheteria do Parque das Águas, pedimos nossos ingressos, passamos pela catraca. Fiquei observando a balança antiquíssima, tocada à moedas, na entrada.
Como na praça, o Parque das Águas de Cambuquira tem seus jogos de luz e de sombra, jardins bem-cuidados, placas do tipo: "não me pise, eu tenho vida", bancos de madeira e de cimento com patrocínio de alguns comerciantes locais, um recanto de sombra sob a proteção de quatro grandes moitas de bambu, onde se encontram pitorescas mesas de piquenique.
"Isso aqui e mais a Fonte do Marimbeiro lá na estrada foram administrados pelo governo e pela Hidrominas e agora foram privatizados. A concessão para exploração das águas agora é de uma firma particular, Gava, COMIG, sei lá, não entendo muito deses negócios. O que sei é que essa água, que vem de graça para todos, não deveria ser propriedade de ninguém."
"Do outro lado daquele bambuzal passando o Parque das Águas de Cambuquira é o Estádio Municipal," disse o Jorge, que já estava ficando versado em cambuquirismos.
"E aquela casa ali com as vidraças?"
"Não é uma casa", respondeu Romero com um sorriso. "Aquilo ali é a Fonte Roxo Rodrigues. Essa fonte foi reformada e abriga até uma exposição de fotografias das pessoas que estiveram no Parque das Águas de Cambuquira e várias épocas diferentes, quando havia ainda a Fonte Gasosa Maria que, penso eu, foi rebatizada para Fonte Gasosa Regina Werneck."
Descemos para dentro da fonte. Água gasosa à nossa espera. Bem gasosa. Romero me assegurou que era uma das mais suaves. Na exposição permanente de fotografias, memória. Memória de pessoas que passaram por aqui com vidas tão diferentes no mundo lá fora, histórias de amor, rivalidade, paixão, paz, introspecção. Quantas histórias se pode contar? Quantas histórias se pode viver? Ali, vi algumas fotos alegres, outras tristes, mas todas vinham a sugerir a mesma coisa: a introspecção das pequenas cidades, mundos à parte, onde a gente pode se perder por algum tempo da rotina desta vida.
Visitamos as outras fontes. Romero costumava chamar os quatro tipos de fonte de cardeais. Ele ia nos explicando as correspondências de cada uma.
"Prestem atenção, procurem guardar as correspondências nessa ordem. Norte, primavera, terra, fleumático, Fonte Magnesiana Comendador Augusto Ferreira. Leste, verão, fogo, colérico, Fonte Gasosa Regina Werneck. Sul, outono, água, sangüíneo, Fonte Ferruginosa Dr. Fernandes Pinheiro. Oeste, inverno, vento, melancólico, Fonte Sulfurosa Dr. Sousa Lima."
"Nossa, isso é complicado."
Romero sorriu e disse que isso viria naturalmente.
Ele parou o carro numa região de fazendas que disse ser o Vale do Sol. Disse que por ali se passava em direção ao distante bairro do Congonhal e de fato, havia uma placa com esse nome pendurada numa árvore numa encruzilhada do caminho. Era idêntica a outra dentro da floresta, que deixamos para trás há poucos minutos.
"Eu e uma rapaziada de Cambuquira costumávamos vir aqui à noite, passar várias noitadas nesse lugar até o nascer do Sol e foi por isso que se deu esse nome, que acabou pegando, entre a gente é claro. Não é um ponto de interesse ou de referência, simplesmente um lugar onde sempre curtimos ficar à noite."
Uma casinha no vale ao longe. Comentei do isolamento que se pode viver numa casa distante de tudo assim. Jorge olhou por uns instantes a casinha ao longe e disse que não entraria nessa. Romero apenas ria.
O Vale do Sol é uma amplidão para onde quer que você olhe. Um verdor assim a perder de vista, pastagens, cercas ao longe demarcando territórios, açudes e nuvens.
Romero parou o carro num lugar que disse ser o mais alto de Cambuquira. Disse que se chamava Alto do Piripau. Eu e Jorge fomos os primeiros a sair. Uma amplidão muito maior que a que vimos no Vale do Sol, muito maior. Romero veio a nosso encontro.
"Quando tivermos encontrado um caminho equilibrado dentro da experiência, é para cá que vamos vir para ver as Chuvas Luminosas e Bombardeios Astrais. Elas são uma espécie de sinal de que nosso equilíbrio foi alcançado."
Uma antena gigantesca, torre enorme com um alambrado bem alto cercando, duas parabólicas enormes brotando da torre à nossa direita. O sol já ia bem baixo no horizonte, lançando tons violetas e nuvens cor de chumbo a oeste. Nuvens compridas que se rasgavam na distância até desaparecerem completamente. Vento frio começa a soprar suavemente, vindo do vão entre aqueles montes. Do Sol agora restava apenas o último brilho sumindo por trás das montanhas distantes. Havia no cenário uma nota de melancolia e saudade. E havia o vento frio do começo de mais uma noite em Cambuquira.
Noite fechada e fomos para casa de Romero jantar. Descansamos mais algum tempo, entramos no carro de novo para mais uma série de passeios de reconhecimento desta cidade a que chamam Cambuquira. Subimos uma ladeira alta, muito alta por dentro de um bairro conhecido como Lavra, o bairro do operariado cambuquirense. Achei, pelo caminho que iríamos novamente ao Vale do Sol, mas desta vez ele não entrou pela floresta como tinha feito à tarde, seguindo à direita até mais à frente ao invés. Depois de uma curva sentimos a mudança do tipo de pavimento pelo atrito que os pneus soavam debaixo do carro. Luzes fortes mais acima, uma espécie de estação elétrica a poucos metros de nós agora.
"A Subestação de Força da CEMIG", explicou Romero enquanto passava uma marcha e reduzia para entrarmos em um mata-burros bem em frente à tal subestação. Jorge nada dizia, imerso pela escuridão da noite que os faróis seguiam rasgando, iluminando vacas, bois, altos tufos de grama, cercas, postes, corujas, gaviões, rasga-mortalhas e árvores. Sobre o que ele chamou de Alto de Santa Quitéria, um cruzeiro estilizado feito em concreto, bordas pretas no canteiro que se prestava à colocação de velas e uma altíssima torre de telefonia celular rangendo sob a brisa noturna gelada. Descemos do carro em silêncio, observando a cidade iluminada lá em baixo, as grandes luzes da subestação de força da CEMIG e o céu estrelado. Fiquei de costas para as luzes da cidade e me pareceu que o céu assim ficava mais nítido, muito mais estrelado.
"O chaquinam pode tirar em corpo astral e trazer vocês a qualquer lugar da cidade na velocidade do pensamento. Estes lugares que estamos visitando são os lugares a que ele tem me trazido com mais freqüência dentro da madrugada quando se colhe a água das fontes para preparar o chá."
"Quanto tempo de infusão?", perguntou o Jorge enrolando as palavras na pressa de vomitar a pergunta.
"O tempo suficiente para que o fogo se apague e deixe só as brasas. Quando não há mais fogo, só brasas, nós bebemos."
Eu não tinha entendido alguma coisa.
"Você disse que colhe a água de madrugada…"
Ele sorriu. Disse que toda a experiência nós teríamos dentro da fonte, sem sair de lá.
"Enquanto não retornarem, vou cuidar para que não saiam da fonte porque ela é o campo energético que protege vocês de qualquer risco astral que possa estar presente. Se saírem, o elemento fora da fonte pode ser hostil, porque é diferente do da fonte que está regendo vocês naquela etapa em particular."
"Como conseguimos entrar no Parque das Águas de Cambuquira à noite? Não fecha?"
"Fecha sim, mas faço muito remédio com ervas e as águas do Parque das Águas de Cambuquira, por isso meus fregueses que trabalham no parque me deixam entrar tranqüilo."
O vento que passou no final de tarde ameaçando trazer chuva desistiu de trazer mau tempo. A tempestade que ele poderia estar trazendo talvez nunca tivesse existido afinal ou desistiu de passar por aqui. Eu e o Jorge, de costas para a cidade, só fazíamos observar o céu estrelado e aberto ao redor, caçando estrelas cadentes. Vimos um Bom número delas, quando Romero nos disse que aquilo era brincadeira de crianças comparado às Chuvas Luminosas e Bombardeios Astrais em toda a sua insanidade e beleza luminosa.
A noite de estrelas seguia em frente, como nossa conversa; noite sem fim, conversa sem fim.