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Oeste

Oeste, inverno, vento, melancólico, Fonte Sulfurosa Dr. Sousa Lima. Se eu tinha algum medo ainda, poderia facilmente guardá-lo para esta última parte. Os dias agora dentro dessa última etapa são frios, mas é um frio no nosso próprio interior, já que estamos sendo agora regidos por esta fonte. Nós três paramos bem em frente à fonte e como das outras fontes que passamos, iluminei a fachada dela com a lanterna com grandes letras pintadas em vermelho: Fonte Sulfurosa Dr. Sousa Lima. Jorge também perdeu algum tempo observando aquela fachada e foi Romero quem quebrou o silêncio, quando pediu os gravetos que tínhamos juntado pelo caminho. Passei todo os que eu tinha para ele. Jorge entregou os seus. Girei os olhos pelo interior da fonte, avencas, uma placa envidraçada indicando o tipo de água e um certo frescor que vem de todas as fontes e nascentes que já conheci.

O corrimão antigo, feito de cobre, azinhavrado pelo tempo, lembrando tempos tão antigos quanto, tempos em que Cambuquira conheceu seus dias de glória. A fonte em si era revestida de aço inoxidável, chapado com a palavra sulfurosa, escrita com letras de estêncil que os funcionários do Parque das Águas de Cambuquira usavam para fazer as placas e tabuletas do lugar. Jorge e eu estávamos tensos. A fonte era igual a todas as outras que já tínhamos visitado e experimentado, mas de certo modo era diferente. Era a última. As derradeiras provas antes que pudéssemos ver as Chuvas Luminosas e Bombardeios Astrais de que Romero tanto falava. Não sabíamos o que ainda tínhamos pela frente, já que nem mesmo Romero parecia saber. Mas era isso mesmo. Não havia como saber, fosse quem fosse. Era isso que nos deixava tensos.

"Se você dois estão aqui agora é por puro merecimento", Romero parecia ler nossos pensamentos por vezes, "vocês passaram por provas difíceis apesar de infinitamente simples. Como beber ou não beber água pode fazer a diferença entre a vida e a morte, entendem?"
"É claro, é claro…"
"Cala a boca, Jorge. Deixa ele falar."
"Conseguiram, apesar de tudo, encontrar caminhos até aqui em que o equilíbrio era presente. E isso não é tão fácil como pode parecer à primeira vista."

Olhei para a fonte e para o bico d'água onde Romero enchia a chaleira. Notei um retorno para a água e perguntei se ele iria encher dali. Ele disse que coletava a água da fonte, não do retorno. Que a água do retorno poderia até ser boa para o que queríamos fazer, mas que ele não iria perder tempo confirmando isso. Ele olhou em volta, certificou-se de que Jorge tinha acendido os gravetos, pediu que nos sentássemos junto ao fogo. Assim que a água sulfurosa começou a levantar fervura, Romero acrescentou um pouco das folhas e flores do chaquinam que tinha trazido consigo, tampou a chaleira e a retirou do fogo.


Em silêncio e concentração total, aguardamos que o fogo se extinguisse, deixando somente o braseado, tempo suficiente para que o chá tomasse corpo, como Romero disse em uma de nossas conversas. Quando apenas as brasas restavam, parecendo respirar sob os gravetos queimados à medida que o vento frio daquela noite de julho passava através deles brilhando e apagando em intervalos curtos de tempo, chegou o momento de beber o chá. Romero tomou a chaleira com a mão direita e encheu as três xícaras com quantidade igual para os três.

"Podem beber o chaquinam."

Olho a fonte em volta depois de beber. Parece a mesma. Mas eu acabei de beber. Estou ansioso e nervoso com o que ainda está por vir. Ao meu lado, Romero percebe minha agitação e me diz que isso não facilita as lembranças. Eu me acalmo e ele sugere que eu olhe para as brasas. Isso tem um efeito relaxante, mais relaxante ainda quando se mistura aos sons de grilos, curiangos, sapos, saparia distante mas possível daqui do lugar, do bairro da Figueira talvez. Sons de bichos noturnos que varrem de sons minha memória. Fixo o olhar nas brasas. Vejo como respiram. Como passam de tons de vermelho-vivo, quase laranja, para o quase vermelho escuro do pouco oxigênio que recebem quando não há vento.

Fumaça sobe por entre os gravetos e me distraio com ela. De repente, o vento muda de direção, ou pelo menos é o que ele quer que eu pense. A fumaça entra em meus olhos e eu me levanto. Quando consigo limpar os olhos da fumaça, o meu corpo já foi tomado por aquela sensação estranha de leveza total. Abro os olhos. Vejo uma estrada de terra em minha frente; já não estou mais na Fonte Sulfurosa Dr. Sousa Lima. Estou numa estrada que não sei onde termina no meio dessa noite, estou largado agora à minha própria sorte. Agora é cada um por si.

Meu corpo leve e fluido facilita o trabalho de seguir caminho naquela subida infinita e espiralada que vou reconhecendo aos poucos, um caminho de mata-burros e porteiras e cercas de arame farpado que delimitam fazendas da zona rural de Cambuquira. Animais pastando em meio a todo o silêncio da noite e sons de insetos noturnos, vacas, bois e touros elásticos, cujos corpos vão assumindo formas surrealistas e retorcidas para alcançar os melhores tufos de grama fluoretada (ou pelo menos era essa a visão que eu tinha, dos fluoretos coloridos que faziam a grama se iluminar sob o céu estrelado).


Mais adiante, quando já estou bem alto no caminho, um trecho de mata aparece. A estrada que estou seguindo agora passa por dentro dele. A mata é escura, porque nem mesmo a luz das estrelas deixa passar. Suas árvores são folhosas, suas copas são fechadas. Tudo em meu caminho vai se acendendo, flores noturnas se abrem, emitindo delicadas, estranhas notas musicais. O trecho de mata termina e eu continuo subindo em meu passo elástico, como um perfeito astronauta dessas regiões rurais deste lugar a que chamam Cambuquira.

Ainda longe, vejo um ponto luminoso em meio à estrada, ponto que a essas horas, ainda assim, pode significar espaços habitados. Por quem? Será que isso conta pontos? Será que interessa a alguém como eu, preocupado em ver as Chuvas Luminosas e Bombardeios Astrais? Por que alguém iria construir naquele lugar ermo?

À medida que me aproximo do ponto de luz, eu ouço o latido de cachorros que vai aumentando em volume à medida que me aproximo. Já bem próximo à origem do ponto de luz, vejo que é um chalé triangular enorme. Me reconheço naquele ponto. Estou na subida do Alto do Piripau. Se estou aqui, é possível que também Romero e Jorge estejam lá em cima, me esperando próximos das antenas. Agora os cachorros já me viram e começaram a latir e rosnar desesperadamente em minha direção. Estão na estrada em frente ao chalé, entre eu e o topo do morro. Não parecem dispostos a me deixar passar de jeito nenhum. Mas tenho para mim que Romero e Jorge estão lá, que de algum modo conseguiram passar pelos cães.


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