A biblioteca da UniSantos já se preparava para fechar as portas. Ouviam-se passos no corredor, dos últimos alunos que ainda restavam no prédio. Eu e o Jorge conversávamos, esquecidos dentro do tempo e do espaço. Cada dia, menos alunos apareciam na biblioteca, que já se preparava para a temporada de férias de inverno. Eu estava exausto de aulas e de provas, poderia cair com a cabeça sobre os livros que tinha tomado emprestado, mas me mantinha dialogando. Eu ouvia o Jorge falar, sem olhar para ele.
"Meu amigo Marcelo me disse que aqui em volta da UniSantos cresce uma variedade de trombeta, uma planta bem diferente, bastante psicoativa. Em muitos outros lugares, na verdade."
Eu bem que queria experimentar uma coisa assim. Sair um pouco dessa rotina chata de aulas e provas e horários, todo dia a mesma coisa. Mas a viagem que há para eu fazer é física mesmo, como me deslocar para vários pontos do Brasil, partindo de minha cidade de origem, Ribeirão Preto. Talvez Mato Grosso, talvez o norte do Brasil.
"Procurando plantas para a memória?"
Olho para o Jorge, entreabrindo os olhos que o sono força para baixo. Era como se o Jorge tivesse falado, não como se a voz tivesse vindo de acima dele. Me ergo, apoiando os cotovelos na mesa e vejo um homem parado, em pé diante de nós, sorrindo, que pede licença para se sentar junto a nós e se apresenta como Romero.
"Muito prazer, meu nome é Jorge."
É o Jorge quem me apresenta, ainda estou com os olhos embaçados de sono que eu protegia da luz forte da biblioteca. Acabo sorrindo, apertando a mão dele. Eu devia mesmo era estar na cama, depois de toda essa loucura, mas é bom estar finalmente em férias.
"…e é importante saber quais os tipos de plantas que se pretende usar para não se cair em nenhuma armadilha que possa…"
Por incrível que pareça, agora a conversa me acorda de vez. Este homem, Romero, tem um carisma estranho que nos força a prestar atenção no que ele diz, mesmo que a gente não queira ou não possa. Ainda que não se entenda ou se concorde com uma palavra do que ele diz.
"…essa planta, o chaquinam, deve ser fervida e bebida como chá ainda quente para que se aproveite o pico de concentração do princípio ativo. Fervendo-se as folhas e flores da planta na água mineral específica, obtemos a memória dessa água. E as nossas memórias também."
"E onde tem dessa planta?", perguntou o Jorge.
Romero apoiou os cotovelos na mesa.
"Eu planto em minha casa em Cambuquira."
Do meu lado esquerdo, o Jorge, como sempre objetivo, indo direto ao assunto:
"Eu gostaria de passar pela experiência."
O homem sorriu e disse que isso se podia arranjar. E me perguntou se eu também não gostaria de me unir à experiência.
"Acho que não vai dar."
Romero olhou para Jorge, e depois para mim.
"Entendo. Tem compromissos já para as férias de julho…"
Jorge se atravessou:
"Ele quer viajar o Brasil com o pessoal de Ribeirão Preto, de onde ele é. Tem uma mina…"
Devo ter acertado a canela dele em cheio por debaixo da mesa, já que ele desconversou na mesma hora. O Jorge às vezes fala demais, até com gente que acaba de conhecer, o que pode às vezes ser uma loucura. Romero não parece perceber o motivo do chute e isso não lhe interessa de qualquer modo, ou pelo menos é o que ele deixa passar para nós. O que ele faz é deixar um monte de instruções em papel sobre como chegar à Cambuquira e à casa dele na cidade. O Jorge vai até a xerox, gasta um tempão convencendo - com seu infinito charme - a funcionária a religar a fotocopiadora, tira uma cópia e a deixa comigo, na improvável hipótese de que eu decida ir.
"…cada uma dessas fontes e seu tipo de água específica, gasosa, magnesiana, ferruginosa e sulfurosa se liga a outros sinais em quadratura, como os quatro pontos cardeais, os quatro elementos, os quatro humores fundamentais, como o colérico, melancólico, sangüíneo e fleumático. Somos uma certa mistura desses quatro humores. Um desses humores em cada um de nós é dominante, mas os outros aparecem ali também. Nosso papel é equilibrar tudo isso. E equilibrar a nós mesmos."
Jorge já se via dentro do ônibus para Cambuquira. Eu estou balançando com toda essa conversa. Mas jogar fora a viagem pelo Brasil que estou planejando desde o início do ano para ir beber água mineral, especial como seja, não me parece uma boa idéia. Não faz vinte minutos que fui apresentado ao sujeito e ele está tentando nos convencer a embarcar numa aventura estranha que não faço a menor idéia do que seja e nem como possa terminar. O cara pode ser um vigarista. Ladrão, assassino, sei lá o quê. O Jorge se joga em tudo de cabeça, não sei como continua vivo até hoje. A troco de que esse cara oferecendo hospedagem, quando uma diária de pousada deve estar os olhos da cara? Não sei. A aventura parece atraente, mas não sei. Francamente, não sei. Em Ribeirão Preto conheço todos, tenho a segurança de pelo menos estar perto de minha família. Em Cambuquira, quem eu conheço, além de alguém que se apresentou não faz nem uma hora?
Descemos já na penumbra; o prédio inicia o seu descanso noturno. Romero se despede e tão súbito como tinha aparecido, desaparece sem deixar vestígios na virada de um lance de escada. Pergunto ao Jorge o que ele acha de toda a história.
"Eu acho que ele está sozinho nessa há muito tempo e quer compartilhar essa descoberta. Isso talvez ajude o Romero a se sentir menos só. Já imaginou o quanto de tempo ele já deve estar bebendo esse tal chaquinam sem ninguém com quem ele possa dividir seus pensamentos, suas impressões? Se parar para pensar, vai ver que o processo todo é muito solitário assim. Eu acho que é o medo da solidão e também é saber que há mais gente que gostaria de conhecer o poder dessa planta. Eu pelo menos vou me encontrar com ele na rodoviária amanhã e se você não for, bom, eu entendo, mas bem que vamos sentir muito a sua falta na experiência."
"Belo anfitrião, pena que a casa não seja sua", brinquei.
"Pena mesmo, eu bem que ia curtir muito ter uma casa no campo…"
Fico na penumbra do meu quarto, enquanto os outros na república - Jorge incluído, ele que deveria estar arrumando suas coisas para seguir viagem - se entregam a uma barulhenta celebração do fim das aulas e da chegada das férias de inverno. Fico aqui pensando. Lembro de Romero, de seu estranho magnetismo pessoal, carisma, sei lá o que, lembro da Cláudia, de seu rosto me olhando, das brigas que sempre temos e da vontade que eu tenho de melhorar nossa relação. Fico a noite inteira sem dormir; ainda estou acordado quando o Jorge vem fazer sua mochila finalmente, à meia-luz do abajur. As luzes da rua lançam estranhas sombras das copas de árvores no teto do quarto que eu brinco de contemplar. Meus olhos vão se fechando devagar sem que eu perceba, presos nos complicados jogos de luz e sombra sobre o forro, até que uma campaínha acaba com meu cochilo.
"Telefone para o senhor, lá no saguão. É sua mãe. O senhor liga depois ou atende no saguão mesmo?"
Desço até o saguão, os olhos ainda grudados e agradeço o senhorio automaticamente. Minhas pernas estão dormentes da posição em que fiquei, eu inteiro estou dormente. Prefiro atender no prédio mesmo, que estou sem o cartão telefônico e até achar um vai demorar. Ao telefone, minha mãe nem dá bom-dia, acho que prefere como o Jorge ir direto ao assunto.
"Já comprou a passagem? Estamos todos te esperando, teus irmãos, primos, a Cláudia, o Oliver…"
Se calou do outro lado da linha de repente, como se tivesse deixado escapar algo que não devia ter me dito. Mas eu não deixei passar desapercebido.
"O Oliver não ia para a Argentina? Fazer a bosta do curso dele?"
"Ele cancelou a matrícula no curso porque achou que seria melhor a viagem para a tal Chapada-do-Não-Sei-O-Quê e eu só sei que ele também vai. Mas e daí? Você não precisa ficar perto dele."
"Deixa de absurdo mãe, vamos viajar no mesmo carro e eu não tenho que ficar perto dele? Que coisa mais sem pé nem cabeça!"
"Filho, deixa de bobagem, deixa de ser anti-social e vem para cá, estão todos te esperando."
"Já que o Oliver quer viajar, por que é que ele não vai para Paris? Ou para a puta que Paris?"
De volta ao quarto, encontro bilhete. O Jorge deixou para mim quando se foi. Dizia no papel que toda a viagem tem sua própria conta e risco e que esperava que eu tomasse a decisão certa. Eu, que já nem sei se gosto do curso e da profissão que escolhi para mim… Fazer o que? Agora com as últimas notícias direto de Ribeirão Preto, com o Oliver colando na viagem que eu ia fazer sozinho com minha namorada, começo a me questionar se ir para Ribeirão Preto é realmente o que eu quero. Eu e o Oliver nunca gostamos um do outro, sem a menor identidade um com o outro e não será nessa viagem que as coisas vão melhorar. Tem a chance de ficar perto da Cláudia e acertar as coisas com ela. Francamente não sei o que escolher. Só sei que deixar o tempo passar é pior, muito pior, já que hoje é o primeiro dia de férias.