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| Self
made man:
aos 52 anos, Chris Gardner tornou-se a encarnação do sonho
americano |
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| Perfil |
| De
mendigo a milionário |
A
incrível história de Chris Gardner, o
sem-teto que virou corretor da Bolsa,
acumulou US$ 600 milhões e agora
tem sua vida contada em livro e filme |
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| Por
Osmar Freitas Jr. – Nova York |
É
bem provável que o mundo tenha perdido um grande trompetista
de jazz quando o americano Chris Gardner, 52 anos, compreendeu
que ele não poderia ser outro Miles Davis – um
dos deuses do gênero. “Estudei trompete por dez
anos. Minha meta era ser Miles. Mas minha mãe me disse
que o posto de Miles Davis já estava ocupado pelo original
e que eu jamais seria ele”, diz.
O consolo foi abraçar outro sonho: o de ganhar milhões
de dólares. E os Estados Unidos ganharam um excepcional
financista e, ainda mais importante, um mito inspirador. Afinal,
são poucos os que, como Gardner, saltaram da condição
de miserável sem-teto para a de milionário,
tornando plausível a promessa do “sonho americano”
de oferecer infinitas possibilidades a quem tem força
de vontade, caráter e senso de oportunidade. Além
de sorte, claro. Contada por ele no livro The pursuit
of happyness (À procura da felicidade), a história
de Gardner – bem conhecida dos americanos – deve
ganhar o mundo com o filme homônimo estrelado por Will
Smith e seu filho Jaden (estréia no Brasil em 2 de
fevereiro).
Trata-se
da saga de um homem desempregado, abandonado pela esposa,
tornado pai solteiro, mendigo, carregando o filho pequeno
para os abrigos de sem-tetos, bancos de jardins e até
banheiros públicos, ocupados à força
para servirem de dormitório à dupla. Até
que, com muito esforço e espírito empreendedor,
Gardner consegue reverter esse estado de penúria para
uma situação de riqueza, respeitabilidade e
de fama. Hoje, ele tem uma fortuna estimada em US$ 600 milhões.
Essa metamorfose, claro, dependeu de uma confluência
de fatores que raramente se alinham. “Acho que somente
nos Estados Unidos a minha história não é
considerada uma anomalia. É claro que em outros países
algumas pessoas conseguem repetir, ou mesmo superar, conquistas
como as minhas. Mas são exceções que
confirmam a regra que aponta esta nação como
a verdadeira terra das oportunidades”, diz Chris Gardner,
sentado atrás da mesa de conferências de sua
empresa Christopher Gardner International Holdings, em Chicago.
A peça de mobiliário, note-se, foi em outra
encarnação a cauda de um avião DC-10.
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Em
família: Gardner com seus filhos Chris Jr.
e Jacintha. Negro, sem-teto
e pai solteiro, Chris Gardner jamais
perdeu a esperança |
Nos
anos 80, Gardner vivia em San Francisco, onde trabalhava com
venda de equipamentos médicos. Um dia, ele viu um sujeito
numa Ferrari vermelha procurando vaga num estacionamento no
centro da cidade. Impressionado com a máquina, ele
ofereceu a sua vaga. “Falei para ele, você pode
estacionar no meu lugar, mas me responda duas perguntas: O
que você faz? E como você faz?” O dono da
Ferrari disse que era corretor da Bolsa de Valores, vendia
ações e faturava US$ 80 mil por mês –
uma verdadeira fortuna na época. Ali, no ato, surgiu
a inspiração indicando o caminho do ouro: “Naquele
momento tomei duas decisões: entrar no negócios
de ações e comprar uma Ferrari no futuro”,
conta Gardner.
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| Sucesso:
livro lançado em 2006 já inspirou
Hollywood |
Ele
acabou perdendo o emprego, mas não a perspectiva. Depois
de muita insistência, Gardner finalmente conseguiu ser
colocado como estagiário não remunerado numa
corretora da Bolsa de Valores. Esta primeira tentativa, porém,
não traria sucesso. O homem que lhe ofereceu o treinamento
saiu da empresa e, da noite para o dia, fecharam-se as portas
para o protegido. Novamente desempregado e com US$ 1.200 em
multas de trânsito sem pagamento, Gardner foi parar
na cadeia. Sua mulher – numa das piores decisões
financeiras de que se teria notícia – o deixou
a ver navios com o filho deles, Chris Jr., então com
dois anos.
Suas economias se resumiam a US$ 25 no bolso. Seria o suficiente
para fazer uma pessoa começar a beber. “Meu padastro
era alcoólatra, fracassado, ressentido e violento.
Por isso eu não bebo até hoje”, conta.
Se era suficiente para comprar dois litros de uísque,
o dinheiro não dava para pagar o aluguel. Sem casa,
pai e filho montaram residência provisória no
banheiro da estação rodoviária de Oakland
– uma espécie de Niterói da região.
E foi no toalete, ainda hoje em funcionamento, que o futuro
milionário teve uma epifania: “Neste mundo existem
dois tipos de pessoas: aqueles que vêem um monte de
estrume e o identificam como merda e os que reconhecem ali
uma boa quantidade de fertilizantes.” Com essa idéia
na cabeça, Gardner passou a sair pelas ruas em busca
de seu monte.
Depois de muito penar, ele teve outra oportunidade no programa
de treinamento da corretora Dean Witter Reynolds. “Eu
não ganhava nada. Meus colegas não sabiam que
de noite, meu filho e eu dormíamos em abrigos de mendigos,
banheiros e parques”, disse Gardner a ISTOÉ.
A situação, embora considerada por ele como
“promissora” – segundo a “teoria dos
fertilizantes” –, não era nada confortável.
Mas em 1981 ele finalmente obteve a licença para operar
oficialmente na Bolsa de Valores. Imediatamente, encontrou
emprego na conceituada firma Bear, Stearns & Company,
trabalhando primeiro na área de San Francisco e depois
em Nova York. De lá para diante, deslanchou e nunca
mais parou. A primeira Ferrari de Gardner foi comprada de
segunda mão. E não poderia ter passado por mãos
mais significativas: pertenceu ao maior gênio do basquetebol,
Michael Jordan. Pode ter sido um sinal de sorte. A aquisição
foi feita nos anos 90, em Chicago, onde, como empresário
independente, Gardner já havia montado banca para lidar
com ações futuras de commodities. “No
filme essa trajetória mudou um pouco, para melhorar
a narrativa. Mas a essência é a mesma do livro”,
diz o protagonista.
Os Estados Unidos têm fixação com a história
de Cinderela, fascinados pela possibilidade de alguém
sair da pobreza e ficar rico. É o conto de fadas que
explicita o chamado american way of life. Christopher
Gardner é apenas mais um exemplo desse mito. “Aqui
é a terra das oportunidades. Quem se empenhar e trabalhar
duro tem boas chances de se dar bem”, explica a apresentadora
de televisão Oprah Winfrey. Ela é a voz da experiência.
Nascida na miséria há 52 anos no paupérrimo
e racista Estado do Mississippi, filha de mãe solteira,
acabou se transformando na mulher negra mais rica da história
do país, tem o programa de maior popularidade da tevê
e é uma das empresárias de maior poder no mundo.
Por seu sofá no estúdio de gravação
passaram outros símbolos do american dream,
como Michael Jackson, o próprio Chris Gardner e o senador
Barack Obama, de Illinois, que disputa a nomeação
do Partido Democrata à Presidência. “Isso
não que dizer que nos livramos do preconceito racial.
O racismo existe nos EUA, é um mal que impõe
carga insuportável aos oprimidos e atrapalha a realização
dos sonhos de cada um”, ataca Obama. Chris Gardner,
o vencedor, concorda. E diz que vai votar em Obama.
US$
25 é quanto Gardner tinha quando ficou desempregado.
Hoje sua fortuna é estimada em US$ 600 milhões
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