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UMA REFLEXÃO SOBRE PACIENTES DE DIFÍCIL ACESSO E A CONTRATRANSFERÊNCIA

ResumoArtigoBibliografia - Autor

Cláudia de Faria Cardoso

Resumo:

 

Este artigo tem por objetivo fazer uma reflexão sobre pacientes de difícil acesso. Trata-se de um tipo de paciente dedicado, empenhado, e, cumpridor de seus deveres, mas é só isso. Procura tratamento para terceiros (filhos, cônjuges, pais, etc.), comparece regularmente às sessões, tem um relato claro e contínuo, guarda um número incrível de histórias detalhadas, conta várias histórias a cada sessão sem repetir, porém não demonstra afeto em nenhuma delas. Mesmo situações de abandono, perda, rejeição ou violência são tratadas sem emoção; situações que normalmente deixariam alguém no mínimo revoltado, indignado, rancoroso ou magoado. Mas ele parece indiferente a isso tudo. Parece faltar vida nos seus relatos, conta histórias sem se envolver com elas. McDougall (1987) denominou esse paciente como o analisando-robô, o que Ferraz (2002) chama de normopata. Ferraz (2002) explica que ‘a palavra “normopatia” foi inventada para tentar retratar um certo tipo de paciente aparentemente bem adaptado e “normal”, isto é, sem um conflito psíquico ruidoso, seja neurótico, seja psicótico. Mas o trabalho analítico com este paciente chegava invariavelmente a um impasse, pois ele tinha uma imensa dificuldade – quando não uma total impossibilidade – de fazer um mergulho profundo em seu mundo interno, exigência básica para o sucesso de uma análise.’

        A contratransferência torna-se instrumento fundamental na análise, já que o paciente parece não colaborar. É através da contratransferência que o analista vai conhecer o mundo mental do antianalisando, já que seu discurso pouco revela, a não ser sua “pobreza imaginativa” e a sua “incapacidade de compreender o outro”, expressões não só do bloqueio de sua afetividade, como até mesmo de seu raciocínio (McDougall, 1978).

 

 

Artigo: UMA REFLEXÃO SOBRE PACIENTES DE DIFÍCIL ACESSO E A CONTRATRANSFERÊNCIA

ResumoArtigoBibliografia - Autor

 

 

Este artigo tem por objetivo fazer uma reflexão sobre pacientes de difícil acesso. Trata-se de um tipo de paciente dedicado, empenhado, e, cumpridor de seus deveres, mas é só isso. Procura tratamento para terceiros (filhos, cônjuges, pais, etc.), comparece regularmente às sessões, tem um relato claro e contínuo, guarda um número incrível de histórias detalhadas, conta várias histórias a cada sessão sem repetir, porém não demonstra afeto em nenhuma delas. Mesmo as situações de abandono, perda, rejeição ou violência são tratadas sem emoção; situações que normalmente deixariam alguém no mínimo revoltado, indignado, rancoroso ou magoado. Mas ele parece indiferente a isso tudo. Parece faltar vida nos seus relatos, conta histórias sem se envolver com elas. McDougall (1987) denominou esse paciente como o analisando-robô, o que Ferraz (2002) chama de normopata. Ferraz (2002) explica que ‘a palavra “normopatia” foi inventada para tentar retratar um certo tipo de paciente aparentemente bem adaptado e “normal”, isto é, sem um conflito psíquico ruidoso, seja neurótico, seja psicótico. Mas o trabalho analítico com este paciente chegava invariavelmente a um impasse, pois ele tinha uma imensa dificuldade – quando não uma total impossibilidade – de fazer um mergulho profundo em seu mundo interno, exigência básica para o sucesso de uma análise.’

Através do caso de N. pode-se perceber alguns desses aspectos. Casada com três filhos, procurou atendimento para seu filho adotivo, caçula, de 15 anos. Porém, este não aceitou o tratamento, por isso ela começou o atendimento, “por ele”. Em todas as sessões só falava dele, de suas histórias. Quando questionada quanto aos sentimentos dela relacionados a isso, falava superficialmente de emoções, mas logo desconversava, contava novas histórias, que eram relatos sem emoção, sem cor, sem vida. Sua fala sempre realista, sem abstração, causava cansaço, desconforto, ansiedade.

        Os atendimentos a esta paciente foram sempre extensos. Dificilmente a sessão se encerrava dentro do horário, o que causava transtorno na clínica, já que os horários são justos e devem ser seguidos à risca. Independente disso, o horário deveria ser cumprido, mas nem sempre o era devido à dificuldade em impor limites a essa paciente. Ao ser chamada na recepção logo começava a falar. Sua fala, sempre rápida e contínua, não dava brechas para colocações ou intervenções. As histórias se emendavam umas às outras, parecendo pertencer a uma só, o que particularmente dificultava o entendimento do material trazido pela paciente, pois era como um texto sem pontuação, e considerando que deveria ser devolvido no momento da fala dela, esses atendimentos deixaram muito a desejar.

        A queixa que trouxe essa paciente à clínica se referia também à dificuldade em colocar limites a esse filho de 15 anos, que sempre reclamou que ela é chata porque fala muito. Contudo o atendimento não foi muito eficaz nesse sentido já que esses limites não foram colocados de forma clara a ela. Após um aviso do término do horário, N. se ajeitava na cadeira para começar mais uma história. Só depois de algumas sessões essa atitude foi interrompida de forma abrupta para que a sessão se encerrasse concretamente, caso contrário ela se estenderia por mais uma ou duas sessões consecutivas.

        O trabalho com essa paciente foi um tanto árduo. O motivo que a levou buscar atendimento seria o foco a ser trabalhado. Contudo sua fala muito concreta e objetiva, sua postura expansiva, sem limites, foram mais reforçados do que propriamente trabalhados. Estar com uma pessoa que só fala de coisas, que parece não abstrair é um tanto quanto cansativo e monótono.      

McDougall (1978) diz que, a transferência que surge nestas análises dá a impressão de vazio, pois os afetos transferenciais dificilmente são exprimidos; nem mesmo a agressividade, que tais pacientes dirigem livremente às pessoas de seu convívio, transparece na relação com o analista. Sendo assim, a contratransferência torna-se instrumento fundamental na análise, já que o paciente parece não colaborar. É através da contratransferência que o analista vai conhecer o mundo mental do antianalisando, já que seu discurso pouco revela, a não ser sua “pobreza imaginativa” e a sua “incapacidade de compreender o outro”, expressões não só do bloqueio de sua afetividade, como até mesmo de seu raciocínio (McDougall, 1978). Há grande dificuldade de entrar em contato com a subjetividade. ‘Sua história é factual e os dados que poderiam ser emocionalmente significativos são deixados de lado, e não esquecidos ou recalcados’ (Ferraz, 2002).

Ao analista cabe a tarefa de fazer este paciente entrar em contato com seus sentimentos, sendo isto possível através da sessão analítica como experiência afetiva. Sendo assim, conclui-se que este atendimento não foi tão bem sucedido já que os sentimentos contratransferenciais apesar de possibilitarem uma maior compreensão dessa paciente não receberam o olhar que deveriam. Sua atitude, que foi reforçada durante os atendimentos, trazia implícito um pedido de ajuda que se perdeu na contratransferência. McDougall (1978) diz que ‘enquanto o analista persistir unicamente em localizar as cadeias associativas, em seguir os fios significativos do discurso, aplicando fielmente a grade de decodificação herdada de sua formação, o processo analítico será bloqueado pela resistência da contratransferência.’

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

FERRAZ, Flávio C. Normopatia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

MCDOUGALL, Joyce. O antianalisando em análise. Em defesa de uma certa                 anormalidade,  Porto Alegre: Artes Médicas, 1978.

Notas Sobre o Autor:

Nome: Cláudia de Faria Cardoso

Data de Nascimento: 19/04/1980

Cidade: Jacareí - SP

Telefone: (0xx12) 3958-1988

Nível de Ensino: Superior Incompleto(Psicologia 10° semestre)

Entidade promotora: UNIP

Empresa: Hospital e Maternidade São Francisco de Assis

Cargo: Estagiária em Recursos Humanos

Período: 19/09/2003 à 31/12/2003

 

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