A conta está errada mas, mas da certo.
"Minha vida é um fracasso", pensava o sr. Fusi. "Afinal
de contas, quem sou eu? Só consegui ser um pequeno barbeiro. Se pelo menos
pudesse levar uma vida de verdade, eu seria uma pessoa muito diferente!"
Só que o sr. Fusi não sabia muito bem em que consistia essa "vida
de verdade". Imaginava algo de importante e luxuoso, como ele via nas
revistas.
Aborrecido, continuou suas reflexões: "A questão é que meu trabalho
não me deixa tempo para essas coisas. Para viver uma vida de verdade, é preciso
ter tempo. É preciso ser livre. Mas eu vou passar a vida inteira preso ao
barulho da tesoura, às conversinhas e à espuma de sabão."
Naquele momento, um elegante carro cinzento parou na porta da barbearia.
Um homem cinzento desceu do carro e entrou na loja. Colocando sua pasta
cinza-chumbo sobre a mesa na frente do espelho, pendurou no cabide seu
chapéu-coco cinza, sentou-se na cadeira de barbear, tirou do bolso um
caderninho e começou a folheá-lo, sempre tirando baforadas de um pequeno
charuto cinzento.
O sr. Fusi fechou a porta da barbearia porque, de repente, começou a
fazer um frio esquisito.
- O que o senhor deseja? - perguntou, meio confuso. -Vai barba ou
cabelo?
Mas na mesma hora censurou-se por sua falta de tato, pois o homem tinha
uma careca reluzente.
Nem um nem outro - retrucou o homem cinzento, sem um sorriso, com uma
voz inexpressiva, cinzenta, por assim dizer. - Venho da parte da Caixa
Econômica de Tempo. Sou o agente XYQ/384/b. Soubemos que o senhor deseja abrir
uma conta de poupança no nosso estabelecimento.
Para mim isso é novidade - declarou o sr. Fusi. - Para ser franco, eu
nem sabia da existência dessa tal caixa.
Mas agora já sabe - retrucou secamente o outro. Consultou seu caderninho
e continuou: - É o sr. Fusi, barbeiro, não é?
Certo. Sou eu mesmo.
Então estou no lugar certo - e fechou abruptamente o caderninho. - Está
na nossa lista de pretendentes.
Como assim? - indagou o sr. Fusi, sem compreender.
Ora, vejamos, meu caro senhor. O seu tempo está sendo desperdiçado entre
barulho de tesouras, conversinhas e espuma de sabão. Quando morrer, será como
se nunca tivesse existido. Se dispusesse de tempo para levar uma vida de
verdade, seria uma pessoa muito diferente. Mas o que lhe falta é tempo. Estou
certo?
É exatamente nisso que eu estava pensando agora mesmo - murmurou o sr.
Fusi, tremendo porque, apesar de a porta estar fechada, o frio aumentava na
barbearia.
Está vendo? - disse o homem cinzento, com ar muito seguro, tragando
satisfeito o seu charuto. - Mas onde vai arranjar tempo? Só poupando! Veja, sr.
Fusi, tem desperdiçado seu tempo com a maior imprudência, conforme vou lhe
provar apenas fazendo Lima conta. Um minuto tem sessenta segundos. Uma hora tem
sessenta minutos. Até aqui está entendendo?
Claro que estou.
O agente XYQ/384/b começou a escrever números no espelho com um lápis
cinza.
Sessenta vezes sessenta são três mil e seiscentos segundos. Então, uma
hora tem três mil e seiscentos segundos. Um dia tem vinte e quatro horas.
Portanto, três mil e seiscentas vezes vinte e quatro são oitenta e seis mil
quatrocentos e sessenta e cinco dias (excluindo o ano bissexto), o que dá
trinta e um milhões quinhentos e trinta e seis mil segundos por ano. Ou
trezentos e quinze milhões trezentos e sessenta segundos em dez anos. Quanto
tempo acha que vai durar sua vida, sr. Fusi?
Bem... - gaguejou o barbeiro, perplexo. - Espero viver até os setenta ou
oitenta anos, se Deus quiser.