Harry Potter e a Luz Sagrada
Capítulo 16
O ATAQUE NOTURNO
A conversa entre Harry, Rony e Hermione já se estendia por horas. Harry
passara a maior parte do tempo contando tudo o que escondera até então, e
contou também sobre os sonhos, o papel misterioso de Carla na profecia – também
mostrou-a para os amigos, e Hermione ficou exaltada ao ver a perfeição dos
versos e o mistério embutido – e compartilhou suas dúvidas sobre o último
sonho de Voldemort.
- Bem... depois de tudo o que você nos contou, Harry, o que tínhamos
para contar já não é de importância... – disse Rony sem graça.
- Como não é? – perguntou Harry, com Hermione concordando – Se vocês
estavam me evitando por alguma coisa, é de muita importância sim!
- Faz favor de não lembrar dessa discussão? – pediu Rony nervoso.
- Rony, acho melhor contarmos... – disse Hermione, segurando a mão de
Rony. Harry ergueu uma sobrancelha – Harry, eu e Rony... bem... nós...
- Estamos namorando! – completou Rony, vendo que Hermione não
conseguiria terminar a frase. Só que para surpresa dos dois, Harry não teve
nenhuma das reações que eles esperavam, simplesmente começou a rir.
- Por que está rindo, Harry? – perguntou Hermione vermelha.
- Isto já era óbvio! – exclamou Harry ainda rindo – Desde sempre eu
soube que vocês iriam acabar juntos! Mas... contem, como aconteceu?
- Foi semana passada, depois do treino do time – começou Rony. – O
treino acabou, e você foi embora correndo, acho que para essa Ordem aí. Eu e
Mione fomos caminhando até o Salão Comunal, mas no meio do caminho resolvemos
voltar e fomos ao jardim.
- Já fazia um tempo que estávamos nos tratando de um jeito estranho, e
resolvemos “lavar roupa suja” – continuou Hermione. – Acabamos
descobrindo que nos tratávamos por vezes de modo chato por termos muito ciúmes,
e esclarecemos tudo. Por fim acabamos nos beijando e resolvemos namorar – no
final da história os dois já estavam completamente vermelhos.
- Que história emocionante! Parece conto de fadas! – comentou Harry
divertido – Mas eu não acredito até ver os dois... se beijando!
- Harry! – repreendeu Hermione, mas corando ainda mais.
- Vamos, o que tem de mais? – perguntou Harry sorrindo marotamente.
- Nada, mas... – disse Rony um pouco inseguro.
Nenhum dos três precisou falar mais nada. Rony e Hermione foram
aproximando seus rostos lentamente, e deram um beijo simples, mas que
demonstrava tudo o que sentiam. Harry ficou feliz pelos dois, mas percebeu que já
estava na hora de tomar alguma atitude quanto ao seu amor por Cho Chang, ou ao
menos encontrar alguém que ele gostasse.
Os três foram conversando sobre a Ordem da Fênix e companhia enquanto
rumavam para o Salão Principal, já que o jantar seria servido em pouco tempo.
A enfermeira estava deserta. Somente Madame Pomfrey caminhava vez ou
outra pelas camas do local, aplicando alguma injeção ou dando alguma poção.
As únicas visitas eram Fred e Jorge Weasley, que zelavam o leito de Carla.
Estavam em absoluto silêncio, e vez ou outra lançavam olhares para o outro,
mas sem dizer uma palavra.
- É melhor vocês dois irem jantar. Ela não irá acordar tão cedo –
disse Madame Pomfrey, um tanto contrariada pelos dois estarem ali novamente.
- Nós não estamos com fome – disse Jorge.
- Podemos ficar aqui, não podemos? – perguntou Fred suplicante.
- Ah, só um pouco, daqui a pouco preciso reaplicar a injeção nela! –
cedeu a enfermeira, mesmo contra sua vontade.
Eles agradeceram e continuaram zelando a garota, que parecia dormir
profundamente. Passaram-se vinte minutos sem nenhum novo movimento, até que os
dois viram-na abrir os olhos, com um pouco de dificuldade.
- Carla! Você acordou! – exclamou Fred, em um misto de surpresa e
felicidade.
- Que bom! Pensamos que ia ficar desacordada por um longo tempo! –
completou Jorge.
- Fred, Jorge... Que bom que estão aqui... – disse ela com dificuldade
– Mas não queria... que ninguém... me visse... desse jeito...
- Não importa como você aparenta estar, - começou Fred, segurando uma
das mãos dela.
- Importa como você é por dentro – terminou Jorge, segurando a outra
mão dela.
- Vocês são uns amores, muito obrigada – disse sorrindo, mas com
bastante dificuldade.
- Como está se sentindo? – perguntou Jorge.
- Não estou sentindo... Quer dizer, não consigo me mover, acho que
somente a cabeça – respondeu Carla infeliz.
- Madame Pomfrey comentou alguma coisa sobre poção paralisia... –
comentou Fred pensativo.
- Oh, ela acordou! – exclamou Madame Pomfrey se aproximando – E vocês
dois, nem me avisam? Eu pedi isso!
- Me desculpe, Madame Pomfrey, mas ficamos tão felizes por ela ter
acordado que... – Jorge começou a justificar, mas ela o interrompeu.
- Não quero saber de desculpas, só gostaria que os dois fossem chamar
Dumbledore, é importante – disse com urgência.
Os dois saíram rapidamente, sabiam que o quão mais rápido avisassem,
mais rápido poderiam conversar com a garota.
- Você prefere sentir dor mais ter movimento no corpo ou não sentir dor
e não poder se mexer? – perguntou a enfermeira para Carla.
- Qual a diferença?
- Quase nenhuma, já que você não está em um estado muito bom –
disse sentindo um pouco de pena pelo que a garota estava passando.
- Certo, deixe eu poder me mover – decidiu dando um suspiro.
Madame Pomfrey assim o fez. Minutos depois Dumbledore chega, acompanhado
de Hagrid, Fred, Jorge e Lupin.
- Alvo, que bom que chegou! – exclamou Madame Pomfrey aliviada –
Talvez ela não agüente muito tempo acordada, tem que ser rápido.
- Tudo bem Papoula – concordou o diretor serenamente. – Fred, Jorge,
se importam de nos deixarem a sós por um momento? Remo irá procurá-los em
seus dormitórios assim que terminarmos.
- Sim senhor, já vamos indo – murmuraram ao mesmo tempo, saindo da
enfermaria em seguida.
Dumbledore se sentou ao lado da cama de Carla, enquanto Madame Pomfrey,
Lupin e Hagrid ficavam de pé, esperando apreensivos.
- Carla, você sabe o que aconteceu para estar aqui, não sabe? –
perguntou Dumbledore calmamente. Carla somente concordou com a cabeça –
Poderia nos contar tudo o que aconteceu, desde quando saiu à noite do castelo?
Ela engoliu em seco. Não esperava ter que contar a história, ainda mais
com todos a olhando, já que infligira um bocado de regras do colégio, e pior,
do Ministério. Mas o olhar de Dumbledore a encorajou, e ela se conformou que de
um jeito ou de outro já estava pagando pelo que fizera.
- Bem... era noite. Eu estava em uma sala de aula no sétimo andar,
estudando animagia – o diretor arregalou os olhos, enquanto Lupin soltava uma
exclamação silenciosa, mas que reprovava a atitude da afilhada.- Eu já
treinava há um bom tempo, já que queria ajudar Remo quando não pudesse estar
junto com ele sempre. Aquela era minha noite de glória. Pela primeira vez tinha
conseguido me transformar, e estava testando meus poderes. Até então estava
tudo bem, mas fui interrompida – ela engoliu em seco antes de continuar. Ouvi
passos se aproximando. Três pessoas estavam cada vez mais perto, e pelos passos
soube que estavam vindo para a mesma sala que eu.
- Quem eram essas pessoas? – perguntou o diretor – Chegou a
descobrir.
- Na realidade sim – disse cautelosa. – Mas não sei se devo contar.
- Pode nos dizer, eles não serão punidos, dependendo do que acontecer.
- Bem... – ela hesitou um pouco antes de continuar – Eram Harry
Potter, Rony Weasley e Hermione Granger – Lupin soltou outra exclamação,
desta vez mais alta.
- Entendo... – disse pensativo – Pode continuar.
“Eu fiquei realmente desesperada. Não sabia o que fazer. Escondi os
livros e minha mochila em um canto da sala, e não tive nenhuma escolha para
fugir dali. Eles já abriam a porta, e minha única escolha foi pular pela
janela. O problema veio em seguida. Estava muito desesperada. Não sabia se
continuava como animaga ou voltava para a forma humana. Tentei permanecer como
estava, já que poderia aparar a queda melhor. Faltavam uns três andares até
eu cair no chão, mas não consegui permanecer como estava. Acabei me
transformando em humana, e o impacto recebi deste jeito...”
Carla bateu com estrépito no chão, e seu grito pôde ser ouvido à distância.
Não conseguia se levantar, tinha quebrado a perna com a queda. Ficou deitada no
chão por uns segundos, segurando o choro. Então ouviu um som de alguém
rastejando até onde ela estava. Abriu os olhos temerosa. Uma grande cobra
estava sobre ela, mostrando suas presas cheias de veneno.
Sua primeira reação foi pegar a varinha, mas a cobra foi mais rápida.
Cravou seus dentes no braço esquerdo da garota, provocando outro grito da parte
dela. A varinha rolou no chão, e ela ficou impossibilitada de pegá-la. A cobra
não deu trégua. Insatisfeita com somente uma mordida, repetiu o movimento
cinco vezes seguidas, acertando partes estratégicas do mesmo braço, uma
mordida perto da outra.
A dor era insuportável. Carla pôde sentir o veneno correr em suas
veias, enquanto seu corpo se tornava mais vulnerável. Em uma tentativa
desesperada se transformou em animaga. O belo lobo cinza-claro levantou-se com
dificuldade, e partiu para o ataque contra a cobra. Os reflexos, infelizmente, não
foram muito rápidos, e a cobra novamente se saiu melhor, mordendo o lobo na
pata traseira. Ele caiu, e a cobra aproveitou-se e se enroscou no tronco do
animal, na tentativa de quebrar as costelas.
O movimento foi bem-sucedido, ao menos Carla voltou à forma humana, o
que fazia as investidas da cobra se tornarem mais eficazes. Ela continuou
apertando a garota por um tempo, até sentir-se satisfeita. Ela já não sentia
seu braço direito, e foi com muita dificuldade que conseguiu alcançar sua
varinha e dizer, em um fio de voz:
- Impedimenta!
A cobra voou longe, mas logo se aproximou novamente. Carla já não
conseguia se mover direito, sentia que a batalha já estava perdida. E só
piorou, pois no instante em que olhava para a cobra, viu que ela se transformara
em um homem. Um homem encapuzado, envolto em vestes negras. Empunhava a varinha
com firmeza, e ela conseguiu, com muita dificuldade, reconhecer quem era aquela
pessoa.
O desespero se tornou mais acentuado. Se sabia quem era aquela pessoa, já
sabia o que viria a seguir. Conseguiu distinguir as primeiras letras de um feitiço
sem volta, o feitiço da morte. Avada Kedavra era o que a esperava. Tudo
ficou embaçado, ela já não conseguia sentir mais nada, além do veneno
percorrendo seu corpo e seu sangue jorrando, no que prometia ser o fim...
E então, ela perdeu os sentidos.
O silêncio tomou conta do local. Ninguém se atrevia a dizer uma só
palavra, e até o zumbido de um mosquito atrapalharia a situação. Dumbledore
estava calado, com a mão no queixo, analisando o que acabara de ouvir. Hagrid
estava parado, não tão chocado quanto os outros, já que vira uma parte dessa
história. Madame Pomfrey desmaiara, e estava estirada no chão. Remo Lupin era
o pior de todos. Parecia sem chão, completamente desolado. Não conseguia dizer
uma palavra, fechava as mãos a todo momento, e caiu em uma cadeira, sem ação.
Carla suava frio. Agora que se lembrara da história, viu que foi muita sorte
ainda estar ali.
Aquele ar pesado ainda continuou por um tempo, até Dumbledore se
pronunciar.
- É realmente muita sorte Hagrid ter aparecido por lá. Rúbeo, pode nos
contar o que aconteceu após isso?
- Eu vi aquele vulto com a varinha empunhada. Tinha ido com Canino ver o
que eram todos aqueles gritos. O vulto quase me atacou, mas Canino foi corajoso,
deu uma mordida nele, e ele voltou a ser cobra. Fugiu pela floresta antes que eu
pudesse fazer qualquer coisa – disse Hagrid. – Peguei ela no colo, não
sabia se ela estava... bem, a trouxe para a enfermaria, e acho que depois não
preciso comentar nada...
- Certo... – começou Dumbledore, sem saber ao certo o que dizer –
Carla, acho que vai querer descansar, mas antes, posso ver seu braço esquerdo?
Com muita dificuldade, Carla tirou o braço dos lençóis e mostrou a
Dumbledore. Estavam visíveis as presas da cobra cravadas no braço, e
curiosamente aquela região do braço estava com o sangue coagulado, dando uma
tonalidade vermelho-vivo. As presas também formavam uma figura; um crânio, com
uma cobra saindo da boca como se fosse uma língua: a Marca Negra. Dumbledore
arregalou os olhos, parecia não acreditar no que acabara de ver. Deixou Carla
cobrir o braço novamente e disse, com um pouco de dificuldade.
- De certa forma Voldemort a marcou como sua serva, e esta marca será
impossível de ser removida. Papoula, por favor, tome as providencias necessárias
para a recuperação dela. Rúbeo, pode me acompanhar. Remo, acho que vai querer
falar com sua afilhada com calma. Papoula irá ceder algum tempo para os dois. E
é só.
Ele levantou-se da cadeira, e junto com Hagrid, saiu da enfermaria.
Madame Pomfrey, já acordada, foi preparar algumas poções. Remo, com
dificuldade, sentou-se na cadeira ao lado de Carla, e a fitou em completa
desaprovação. Ela pôde notar com mais nitidez as olheiras sob os olhos dele e
a aparência de cansaço. Sentia-se culpada, em parte, por preocupar tanto as
pessoas que amava, mas a consciência pesava mais para a bronca que iria ouvir.
E assim Remo começou a falar.
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