que som?

 

— que som?
— O som que sou.
— somos.

 

A música é o som transmutado em luz. Falar de luz é o mesmo que falar de energia. Que energia percorre nossos caminhos interiores enquanto ouvimos música integral, ao vivo, na presença do músico? Que energia consumimos quando ligamos nossos corpos a estas correntes de atrito eletrônico provenientes das caixas de som?

A música ensina sensibilidade, o aparelho eletrônico ensina comodismo, cria dependência, estimula o consumismo e causa a atrofia das artérias de luz de nosso corpo sutil. Onde a música ilumina, o som eletrônico não alcança por uma deficiência imposta pela Física: a luz é mais rápida que o som. Música é vibração transdimensional, é som transformado em luz, vai onde o ruído não pode ir, alcança oitavas de freqüência muito mais profundas e amplas.

O microfone não pode captar luzes de altíssima freqüência, não há circuitos elétricos ou supercondutores que possam transportar informações de natureza extrafísica. A música faz vibrar a alma em ressonância enquanto o som eletrônico ignora a alma, faz vibrar em nós apenas o universo tridimensional, o mundo material, a máquina dolorosa do corpo, a razão insensível, o campo emocional mais denso.

   Quando foi que combinamos, todos nós?
   O som de origem metálica proveniente dos aparelhos eletrônicos pode ser considerado música? Quem disse isso? Desde quando?
   Você já pensou sobre isto alguma vez? Eu quero pensar melhor.
   Será música esta energia que sai em jatos das caixas-de-som?

 

engenhocas ocas

Codificar e decodificar freqüências, gravar, reproduzir, industrializar, comercializar, divulgar, fazer negócios, brincar com equipamentos movidos pela energia elétrica, nada disto é música, apenas indústria de diversões em funcionamento. Cultuamos o hábito de brincar de música. Não se trata de discutir que tipo de música ouvimos, mas quanto de experiência humana há neste ato de ouvir equipamentos. Ficamos nos envenenando com produtos de péssima qualidade acústica acreditando estar ouvindo música... Desde o início sempre foi apenas truque, como o cinema. Alguém confunde cinema com realidade? Por que confundimos aparelhos elétricos com instrumentos musicais?

A música é uma vibração interior em altíssima freqüência.
A melhor música é aquela que sai de dentro de nós, aflorando, de dentro para fora; para experimentá-la é preciso fazer, participar, vibrar dentro. Ao ouvinte atento cabe vibrar em ressonância, seu silêncio é vibração harmônica que abre as vias de inspiração para o músico. Isto é impossível de fazer com um aparelho de televisão, com uma caixa de som ou com uma guitarra elétrica. Os harmônicos interiores não são acionados pela vibração elétrica, não adianta aumentar o volume, a questão é dimensional. O circuito elétrico vibra muitas oitavas abaixo da freqüência necessária para gerar música integral. 

A ressonância harmônica gerada pelo equipamento elétrico nos atinge por baixo, nos puxa para baixo, no sentido da insensibilidade acústica, da falta de identidade, nos puxa para fora, para o mundo exterior, para a casca social, para os mitos fascinantes do mercado. O mundo elétrico é todo ele maya, dura ilusão, o dragão da realidade.

O microfone é incapaz de captar a emoção, a intenção interativa, a existência do momento único de criação musical entre as pessoas, com toda a cumplicidade do ato criativo coletivo, participativo, existencial, com todos os contatos físicos, relacionamentos e ressonâncias interpessoais ali presentes. A música aproxima, harmoniza, cria harmônicos humanos. O microfone afasta as pessoas, engendra os mitos modernos, seres audiovisuais, sem coração e sem alma.

Seres humanos não aparecem na televisão, ali só há pontos e bips.

Ouvir futebol no rádio é diversão. Ouvir música transistorizada ou transcodificada é apenas brincadeira de crianças e adultos, talvez trabalho de profissionais do ramo das diversões públicas. Truque, alegoria, informação incompleta, a mídia diverte enquanto vai minando a sensibilidade, a intuição, a capacidade de se comunicar, estas e outras competências humanas desprezadas por nossa cultura ensurdecida.

A música, para merecer o nome de arte, precisa ser feita entre pessoas, não a partir de engenhocas falantes ou de sons distorcidos e manipulados a partir de curto-circuitos elétricos. A diferença entre o som integral e o som eletrônico é como a diferença entre um coração humano em todas as suas dimensões físicas e extrafísicas, incluindo aí as paixões e as emoções, e uma caixa preta com um alto-falante dentro. É a diferença entre o que está vivo e o que é morto.

A cultura de massas, engendrada pelo poder do microfone, tem dominado nossas consciências a ponto de não percebermos mais a diferença entre o sagrado e o profano, entre o saudável e o pernicioso. Há cento e poucos anos atrás, a música era som sagrado em todas as culturas do planeta. Hoje, expomos nossas crianças ao rádio, à televisão, ao som ligado no computador sem qualquer critério de qualidade, 24 horas por dia, sempre ligados na tomada. Diversão sem fim. Repito, não importa aqui o conteúdo, que estilo de música ouvimos, mas sim a forma: que tipo de energia está fazendo vibrar nosso microcosmos pessoal e coletivo a partir desta dependência aos fenômenos elétricos?

Os músicos dedicados à diversão de massas vão arrombando seus preciosos ouvidos até o ponto de só saberem tocar plugados nalguma tomada. Sem eletricidade o som não rola, com eletricidade, a música se perde completamente. Por este caminho, a sensibilidade vai sendo conspurcada e ignorada até desaparecer.

Esqueceram de avisar à nossa geração e assim deixamos de avisar nossas crianças que música é vibração de altíssimo poder e repercussão interior. A música transforma as pessoas, cura, pode transtornar, muda o homem, envolve a sociedade, repercute em nossa consciência da realidade. A música feita entre seres humanos, com envolvimento pessoal, é vital para a formação do universo infantil, crianças privadas de verdadeira música são aleijadas em sua sensibilidade. Adultos que não sabem ouvir música são pessoas de sensibilidade atrofiada, e isto se reflete numa sociedade violenta, competitiva, consumista e desumanizada.

Quando criamos nossas crianças entre caixas de som permanentemente ligadas, no rádio, na tv, no som do cd... Que efeitos isto terá sobre sua criatividade, imaginação, inteligência emocional? Que tempo sobra para estimular sua sensibilidade artística, sua sociabilidade, seu senso de humanidade?

O essencial é eletronicamente impossível de traduzir. Não há plenitude na sonoridade geneticamente modificada, filtrada e recuperada através de fios, membranas e circuitos impressos. Parece música, mas por mais que pareça realidade sonora, é apenas um truque, uma brincadeira. Um brinquedo pode substituir a realidade? Pode-se morar numa casa de papel ou transitar num carrinho de plástico? Podemos extrair florais de Bach de flores artificiais?

Música verdadeira só se pode obter ao vivo, na presença do músico, sem a interveniência de microfones e recursos eletrônicos. O resto é loucura industrializada pela sociedade do século passado.


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