Karabtchevsky e a Música Viva

“Com um pé no Brasil e outro na França, Karabtchevsky adora notebooks e celulares, mas, na hora de ouvir música, só ao vivo.

Sob um olhar entre desconfiado e divertido de sua mulher, Maria Helena, o maestro Isaac Karabtchevsky brinca que a tecnologia é sua amante. Mas, quando o assunto é música, ele é fiel à partitura: “Música é no teatro, ao vivo e sem truques.”

Durante seu cotidiano frenético de idas e vindas entre o Brasil e a França, Karabtchevsky vive rodeado de computadores, notebooks e sofisticados celulares. Só com a ajuda dessa parafernália hi-tech ele consegue assinar a direção artística – e reger – três orquestras ao mesmo tempo: a Petrobras Sinfônica, no Rio, a Sinfônica de Porto Alegre e a Orquestra Nacional do País do Loire.

Como outros maestros, ele afirma quase não ouvir música em casa. “Tenho uma boa discoteca, mas como referência. Prefiro ouvir música ao vivo”, diz.

“Para nós que somos militantes, nenhum registro jamais reproduzirá o ambiente de uma sala de concerto, que vai além da qualidade musical, pois baseia-se na reciprocidade entre os músicos e o público. Só a sala de concerto propicia essa interação, essa sintonia, essa relação totalmente imponderável entre o intérprete e o ouvinte.”

Segundo o maestro, quando alguém assiste à apresentação de uma orquestra ao vivo não deve esperar perfeição. “A qualidade de uma gravação é, em geral, superior porque, com os recursos de gravação e edição, não é difícil fazer um disco perfeito. Mas isso não é arte. Já quando se vai ao teatro, há uma deformação natural pois, dependendo de onde se senta – à direita ou à esquerda, mais para frente ou mais para trás –, as reverberações são diferentes. A sala de concerto é, por tradição, imperfeita acusticamente falando, mas traz o impacto emocional que nenhum registro traz”, explica o Maestro Karabtchevsky.

“Tem gente que gosta de ouvir música sentado em uma poltrona de couro, com um copo de bebida ao lado e o Karajan ‘tocando só para mim’. Assim, tem uma sensação estética que o satisfaz completamente. Mas não é a mesma coisa. Karabtchevsky lança um alerta veemente: “O interessado em música erudita precisa educar seu ouvido e sua percepção às condições imperfeitas da sala de concerto.”

Ele não se opõe, em princípio, à digitalização da música erudita e sua disponibilização na internet, mas considera que formatos como o MP3 não são adequados à riqueza desse universo musical. “O MP3 é muito compactado e, como tudo que é compactado, perde qualidade.”

(Otávio Dias / Rio de Janeiro - O Estado de São Paulo - 22/08/2005)

 
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