Boletim Mensal * Ano V * Julho de 2007 * Número 52

           

 

   

FADO TAMBÉM É CULTURA (10)                

Alfredo Antunes

 

   
   

Comadres e Compadres. Prometi, na última vez, que, hoje, diria o que talvez tenha faltado a Mário de Andrade dizer, quando afirmou, sem mais que, com a vinda da Família Real, “o Fado nasceu no Brasil” e que “o Fado é Brasileiro”. Repito, com muito respeito, que não busco polêmica mas, apenas, a verdade. Afinal, quem é Alfredo Antunes para se contrapor a uma autoridade do nível de Mário de Andrade?! Bom. Eu, neste caso, sou obrigado a invocar o brocardo que os medievais tanto usavam nas discussões filosóficas: “Auctoritas tantum valet quantum probat”; que, em português, quer dizer: “A Autoridade somente vale na medida em que prova”!  (Todos sabemos que o argumento de autoridade somente se aplica aos campos da fé. Nunca aos campos da filosofia, das ciências ou da história. Nestes, somente provas racionais, ou científicas, têm entrada). Nada de nacionalismos, de simpatias ou inferências subjetivas.

            E que esperava eu que Mário de Andrade tivesse dito? Mais ou menos o que se segue. Quando a Família Real portuguesa veio para o Brasil (acompanhada por quatro mil nobres, burgueses e funcionários) trouxe na bagagem todas as expressões culturais de Portugal, incluído, nelas, o velho Fado. Este continuava sendo lamentoso e vinculado às populações periféricas. Alguns casos houve em que chegou a adentrar-se aos salões aristocráticos, com acompanhamento de piano; mas, de tão descaracterizado (no fundo e na forma), não vingou. E ainda bem. O legítimo Fado sempre foi coisa de deserdados, boêmios e marginais. Coisa de quem não tem sorte. Por isso, o Fado, ao chegar aqui ao Brasil, saltou logo da Casa Grande para o seu habitat natural: a Senzala. E, na Senzala, continuou a expressar-se dentro da dança do  Lundum (característico de rituais africanos, e já fundido, em Lisboa, com o Fandango árabe-andaluz, desde os começos de 1400). Somando, então, a esta dança unificada, certos meneios típicos da “fofa” baiana, os negros brasileiros – e os brancos das camadas mais baixas - levaram o “fado batido”, “de umbigada” e “de pernada” ao paroxismo duma frenética sensualidade, só comparável às orgias rítmicas de certos cultos africanos em homenagem à deusa da fertilidade.

O Fado apenas acentuou, no Brasil, sua expressividade externa. E não foi com a chegada da Família Real! Foi logo desde os começos da colonização! Ou seja: negros e portugueses, vivenciaram juntos, durante séculos, valores culturais recíprocos, e...juntos, “bailavam” o Fado! Pois é. Tudo isto, repito, veio reforçar a já secular herança negro-árabe-andaluza que o Fado Português sofrera em Portugal! Com a volta da Família Real a Portugal (1821) – e até muito antes -  voltou também o Fado: agora, com pequenos elementos de reforço incorporados.Calca na guitarra e escolhe FADO e FADISTA

Podíamos chamar-lhe de “Fado-torna-viagem”(como se dizia dos famosos vinhos que lastreavam as naus, na vinda, e que, ao retornarem à Pátria, chegavam verdadeiras preciosidades!).O Fado, digamos,“manteve”-se inteiro, no Brasil. Mas não nasceu aqui. Apenas incorporou novos elementos gestuais, vindos, sobretudo da “fofa”. Moldaram-se, isso sim, os Cantadores e as Cantadeiras em Portugal que, a partir de então passaram a sublinhar, enquanto cantavam, expressões físicas mais marcantes, que a expressividade negra lhes emprestara. Entre as mais visíveis, podemos mencionar: um certo histrionismo nos gestos; as fortes batidas com o pé direito (no gênero gingão”);as sacudidelas de cabeça, para trás; o corpo hirto e trêmulo marcando, miudinho, o ritmo das guitarras; os olhos fechados; as surpresas e dramaticidade de gestos; os pequenos esboços de dança, ou transe; as vozes de interação (sempre em surdina) entre os ouvintes e os Cantadores (eh! fadista!...) etc, etc. Pensar, por exemplo, no  Marceneiro,  na Hermínia ou  na Argentina Santos, entre tantos, tantos outros, é ver, e sentir, um pouco da ritualística negra misturada à má sina e ao destino cruel que um Povo ocidental incorporou às suas crenças e ao seu inconsciente coletivo. Este Povo é o povo português. Só ele – pela sua raiz céltica, sua herança grega e gestualidade negra - congrega esse “pathos ”profundo que o levou,  desde sempre, a cantar, em Fado, as suas saudades, os seus males de amor, as suas distâncias e os seus destinos cruéis. O Fado é, e nasceu, português! É céltico quanto ao sentimento, é grego quanto à tragicidade, é meio árabe, flamenco e português (“Modinha”) quanto à música, e é meio negro, quanto à ritualística exterior. O Brasil teve o mérito de, nele, se ter continuado esta saudável mistura, já antes consolidada.

            E só. E já que “Fado é Cultura e não Polêmica”, até à próxima, Compadres e Amigos

 

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