Boletim Mensal * Ano V * Julho de 2007 * Número 52

           

 

   

COLUNA DOS VINHOS

Ivo Amaral Junior

 

Atentos Compadres, recebi uma saraivada de comentários acerca do último artigo, no qual versei sobre a mítica degustação de Paris, ocorrida em 1976, onde vinhos californianos desmistificaram o vinho francês, fazendo com que especialistas franceses reconhecessem que em outros lugares do mundo também se poderia produzir vinho de qualidade.
            Também me chegou um comentário sobre um artigo publicado há alguns meses, acerca da qualidade de vinhos produzidos no Novo Mundo (África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Chile, Argentina, etc), além de ventilar sobre as associações que estão surgindo em torno desse assunto por demais instigante: o vinho.
            Pois bem. Sem querer fazer proselitismo com quem não faz parte de nenhuma associação e já dizendo que fazer parte de associações, confrarias e sociedades que giram em torno do vinho é espetacular, seja pelo aspecto de relacionamento interpessoal, seja pelo aspecto de aprofundar os conhecimentos enológicos, seja apenas para se divertir junto aos amigos, venho exaltar meu empirismo na Associação Brasileira de Sommeliers – PE, numa degustação ocorrida no início do mês, na qual provei vinhos de várias nacionalidades.
            Apesar de sempre me considerar um neófito na área, tive a oportunidade de conversar com uma platéia altamente especializada sobre a harmonização entre frios, queijos e vinhos – inclusive é valente ressaltar a dificuldade que é proceder com o “casamento” entre eles, ao contrário do que habitualmente se pensa – e dessa degustação pude ter noção e apreciar inúmeros aspectos que antes me passavam desapercebidos.
            O formato do encontro muito me chamou a atenção, primeiro porque houve a apresentação das empresas fornecedoras dos frios, trazendo sua linha top de linha e demonstrando o processo de fabricação do produto desde o início, ou seja, desde a seleção dos suínos e bovinos até a forma como eles deviam ser consumidos, com destaque para a montagem de uma tábua, a apresentação e suas nuances. Pequeno detalhe de grande importância para quem é ávido por receber amigos e fazer com que eles se sintam bem como convidados.
Posteriormente, alguns dos Diretores tiveram a oportunidade de falar sobre a harmonia entre os produtos, uma vez que a cada vinho diferente (no total foram cinco) eram servidos queijos e frios específicos.
            O escriba dessas linhas teve a oportunidade de provar um Pinot Noir Bourgogne Cuvée Louis Latour (francês) e harmonizar com queijos edam e prato esférico, além de uma copa suína – para quem não sabe a copa é feita de uma única peça, localizada no dorso do porco, sendo temperada e salgada antes do processo de defumação – elementos que se harmonizaram perfeitamente. Quase tão perfeitamente quanto meu casamento com a perspicaz Celinha, que muito me auxiliou exaltando minhas palavras e iniciando os desmerecidos, mas lisonjeiros aplausos que recebi ao final. Talvez por me conhecer tão bem, notou que eu já havia encerrado o discurso, fato notado com certo atraso pelos demais.
            Todos provaram, em seguida, um Kresmmann Syrah, do Chateau Latour (francês), combinando com queijo parmesão em pedaços e pastrami, que estavam deliciosos. Ressalto que apesar do grau de dificuldade a junção das peças foi muito prazerosa.
            Foi oportunizado degustar, ainda, um Stamp Hardy’s Cabernet/Merlot (australiano), que casou muito bem com um presunto tipo parma e queijo edam, não deixando nenhum gosto metalizado na boca, fato esse perceptível quando a combinação não é bem feita.
            O último vinho anunciado e tomado de forma esplêndida com o queijo brie foi o Los Vascos Cabernet Sauvignon produzido pelo Baron de Rothschild e, apesar do produtor, o vinho é chileno – mostrando que a harmonia, sem trocadilho, entre produtores do velho e novo mundo está em alta - sempre havendo pão e água entre os intervalos do serviço dos vinhos, a fim de limpar as papilas gustativas e para que os presentes pudessem provar os vinhos em sua plenitude.
            A surpresa veio após, quando todos pensaram que havia encerrado a maratona viníca, a direção da ABS/PE apresentou o grand finale, um vinho do porto branco, o Vinzelo (português), da Quinta do Ventozelo com queijo gorgonzola e salame. Perfeito! Por essa eu não esperava.
Concluí que não há porque se buscar a harmonização perfeita em todos os momentos.  O mais desafiador e instigante é justamente a experimentação e a busca de novos sabores, texturas, pratos, iguarias, bebidas e alimentos. Muitas das vezes se poder errar, diria um cético (e cauteloso) amigo. Correto. Mas o prazer de você acertar um casamento perfeito, uma harmonização prodigiosa, é inigualável (e audaciosa). Experimentalismo!   
            É a palavra de ordem.

 

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