Boletim Mensal * Ano V * Maio de 2007 * N.º 50

           

 

Aguarela verde e amarela

José Manuel Barroso

 

         
 
Olhamos um pouco de esguelha para o Brasil (eles também nos olham assim) e tantas vezes nos esquecemos de que a grande reserva da lusofonia está nesse país de quase 200 milhões de habitantes e do tamanho da Europa. A relação com o Brasil é, para nós, uma espécie de regresso à nossa História atlântica, sobretudo se a conciliarmos com outra ponta de um triângulo de que Angola faz parte.
            Talvez devêssemos assumir mais -como o faz o Reino Unido em relação aos Estados Unidos -esta vocação de país marítimo ligado aos países que outrora foram colônias e amanhã serão potências continentais.
            O Brasil de Lula começou por olhar o mundo nessa perspectiva de potência emergente. Capaz, ao mesmo tempo, de ser co-liderante do diálogo político e econômico no hemisfério sul, de se colocar numa posição de grande intermediário condutor do relacionamento entre a América Latina e a América do Norte e de grande dinamizador do Mercosul e de se relacionar com os grandes países e espaços do mundo (nomeadamente a União Européia) como potência emergente de fato.
            A nova política externa brasileira, no início do primeiro mandato do Presidente Lula da Silva, foi agressiva e pragmática ao mesmo tempo. Lula fez périplos pela África e Ásia e pelo Médio Oriente, assumindo a voz e os interesses próprios do Brasil -ajudado pela aura de sindicalista eleito Presidente, capaz de estar em Davos ou no Terceiro Mundo. Levando a diplomacia política no rasto da diplomacia econômica, a vontade de diálogo na trilha dos interesses comerciais e de investimento.
            Mas os escândalos internos do final do seu primeiro mandato, se não alteraram o pragmatismo da política externa (com casos de avanços e de recuos, como em todas as políticas), foram suficientemente fortes para fragilizar a imagem de Lula como líder internacional que sonhara ser.
            As polemicas que envolveram o seu Governo e o seu partido fragilizaram também Lula no campo externo. Embora o Brasil se comporte bem, em termos internos, na área da economia - aquela em que o pragmatismo do Presidente mais se afirmou. Mas internamente as coisas não parecem parar. Este início de segundo mandato está já desenhado pela dúvida sobre a capacidade de Lula ser um líder com autoridade. Dúvida assente na lentidão (dois meses) do Presidente em formar o seu novo governo e nas hesitações e vaivém de posições sobre a.questão do "apagão" aéreo e a greve dos controladores (no Brasil eles são militares) que desobedeceram às regras de conduta da instituição, desrespeitando missão, disciplina e hierarquia. A tendência de Lula para ver as lutas sociais pelo óculo do antigo sindicalista, os piscares de olho inicial aos militares controladores aéreos amotinados criaram a mais grave crise militar desde o golpe antidemocrático de 1964-com todas as chefias das Forças Armadas em pré-pronunciamento 'contra o Presidente (por clara cedência à indisciplina e ao desrespeito das hierarquias pelos controladores de vôo) e Lula a ter de fazer um recuo público, alinhando a sua posição pelas da hierarquia militar. Um episódio mais a criar alguns problemas à desejada solidez do papel internacional deste Brasil da era PT.
            Enquanto tal se passa, o Brasil olha para dois acontecimentos, em 2007, como reforçadores do seu papel de grande país. Primeiro, com a afirmação do maior país católico do mundo, com a visita de Bento XVI, em Maio. Depois, com a afirmação de potência regional, através da realização do PAN 2007, as olimpíadas da América Latina, em Junho.
            Bento XVI chega ao Brasil quando alguns comentários perguntam se o país "ainda é católico". O Papa, tal como fizera João Paulo II, dá uma particular atenção à nação onde, até há poucas décadas, 74 por cento das pessoas se consideravam fiéis praticantes e que, pelo censo de 2000, tem já 40 por cento de católicos "não praticantes". Bento XVI procura deter o avanço das chamadas igrejas evangélicas e recolocar o Brasil no roteiro do apoio claro do Vaticano -depois da aparente desvalorização da ameaça evangélica, das questões com os arautos da "teoria da libertação" e da atenção particular dada a países católicos como o México, a Colômbia e a Argentina. O Papa celebrará, em São Paulo, uma missa para dois milhões de brasileiros e levará para o país a Conferência Episcopal da América Latina e das Caraíbas, à qual presidirá. A atenção do Papa pelo Brasil refletiu-se, já, na recente nomeação para prefeito da importante Congregação do Clero (responsável por 400 mil sacerdotes) de um cardeal brasileiro, D. Cláudio Hummes.

Fonte:- Jornal “Diário de Noticias”, de Lisboa, de 10 de Abril de 2007

   
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