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Aguarela verde e amarela
José Manuel Barroso
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Olhamos um pouco de esguelha para o Brasil (eles também
nos olham assim) e tantas vezes nos esquecemos de que a grande reserva
da lusofonia está nesse país de quase 200 milhões de habitantes e do
tamanho da Europa. A relação com o Brasil é, para nós, uma espécie de
regresso à nossa História atlântica, sobretudo se a conciliarmos com
outra ponta de um triângulo de que Angola faz parte.
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Talvez devêssemos
assumir mais -como o faz o Reino Unido em relação aos Estados Unidos -esta
vocação de país marítimo ligado aos países que outrora foram colônias e
amanhã serão potências continentais.
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O Brasil de Lula
começou por olhar o mundo nessa perspectiva de potência emergente. Capaz, ao
mesmo tempo, de ser co-liderante do diálogo político e econômico no
hemisfério sul, de se colocar numa posição de grande intermediário condutor
do relacionamento entre a América Latina e a América do Norte e de grande
dinamizador do Mercosul e de se relacionar com os grandes países e espaços
do mundo (nomeadamente a União Européia) como potência emergente de fato.
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A nova política
externa brasileira, no início do primeiro mandato do Presidente Lula da
Silva, foi agressiva e pragmática ao mesmo tempo. Lula fez périplos pela
África e Ásia e pelo Médio Oriente, assumindo a voz e os interesses próprios
do Brasil -ajudado pela aura de sindicalista eleito Presidente, capaz de
estar em Davos ou no Terceiro Mundo. Levando a diplomacia política no rasto
da diplomacia econômica, a vontade de diálogo na trilha dos interesses
comerciais e de investimento.
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Mas os escândalos
internos do final do seu primeiro mandato, se não alteraram o pragmatismo da
política externa (com casos de avanços e de recuos, como em todas as
políticas), foram suficientemente fortes para fragilizar a imagem de Lula
como líder internacional que sonhara ser.
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As polemicas que
envolveram o seu Governo e o seu partido fragilizaram também Lula no campo
externo. Embora o Brasil se comporte bem, em termos internos, na área da
economia - aquela em que o pragmatismo do Presidente mais se afirmou. Mas
internamente as coisas não parecem parar. Este início de segundo mandato
está já desenhado pela dúvida sobre a capacidade de Lula ser um líder com
autoridade. Dúvida assente na lentidão (dois meses) do Presidente em formar
o seu novo governo e nas hesitações e vaivém de posições sobre a.questão do
"apagão" aéreo e a greve dos controladores (no Brasil eles são militares)
que desobedeceram às regras de conduta da instituição, desrespeitando
missão, disciplina e hierarquia. A tendência de Lula para ver as lutas
sociais pelo óculo do antigo sindicalista, os piscares de olho inicial aos
militares controladores aéreos amotinados criaram a mais grave crise militar
desde o golpe antidemocrático de 1964-com todas as chefias das Forças
Armadas em pré-pronunciamento 'contra o Presidente (por clara cedência à
indisciplina e ao desrespeito das hierarquias pelos controladores de vôo) e
Lula a ter de fazer um recuo público, alinhando a sua posição pelas da
hierarquia militar. Um episódio mais a criar alguns problemas à desejada
solidez do papel internacional deste Brasil da era PT.
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Enquanto tal se passa,
o Brasil olha para dois acontecimentos, em 2007, como reforçadores do seu
papel de grande país. Primeiro, com a afirmação do maior país católico do
mundo, com a visita de Bento XVI, em Maio. Depois, com a afirmação de
potência regional, através da realização do PAN 2007, as olimpíadas da
América Latina, em Junho.
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Bento XVI chega ao
Brasil quando alguns comentários perguntam se o país "ainda é católico". O
Papa, tal como fizera João Paulo II, dá uma particular atenção à
nação onde, até há poucas décadas, 74 por cento das pessoas se consideravam
fiéis praticantes e que, pelo censo de 2000, tem já 40 por cento de
católicos "não praticantes". Bento XVI procura deter o avanço das chamadas
igrejas evangélicas e recolocar o Brasil no roteiro do apoio claro do
Vaticano -depois da aparente desvalorização da ameaça evangélica, das
questões com os arautos da "teoria da libertação" e da atenção particular
dada a países católicos como o México, a Colômbia e a Argentina. O Papa
celebrará, em São Paulo, uma missa para dois milhões de brasileiros e levará
para o país a Conferência Episcopal da América Latina e das Caraíbas, à qual
presidirá. A atenção do Papa pelo Brasil refletiu-se, já, na recente
nomeação para prefeito da importante Congregação do Clero (responsável por
400 mil sacerdotes) de um cardeal brasileiro, D. Cláudio Hummes.
Fonte:- Jornal “Diário de Noticias”, de Lisboa, de 10 de Abril de 2007