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Boletim Mensal * Ano V * Outubro de 2006 * Número 44 |
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Fado... também é cultura Alfredo Antunes
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Caros Compadres e Comadres. Olha eu aqui de novo! Eu e o “meu fado”.
Mencionamos, de passagem, no mês passado, que o significado profundo do Fado tem raízes gregas, e constitui uma das bases do nosso psiquismo lusíada.Parece ousadia, mas não é. Não me refiro ao Fado-música. Sobre ele falaremos mais tarde. Refiro-me ao Fado-conceito; ao Fado-visão de mundo; ao Fado-raiz. Os gregos, já desde o Séc. V a.C., acreditavam que, além de um Princípio eterno do Bem, existia também um Princípio eterno do Mal, ao qual chamavam de “Moira”. Este Princípio, segundo eles, é que presidia e dominava o mundo material, no qual estamos inseridos. Era uma espécie de “divindade perversa” – senhora absoluta, que marcava o destino de cada homem, ainda antes de nascer. Nenhum homem era livre, portanto, para realizar seu projeto de vida. Cada um tinha que cumprir, fatalmente, o que lhe fora destinado pela “Moira”. Bom ou mau, não se lhe podia fugir! Esta crença ficou chamada de Fatalismo Grego. E este sentimento trágico está latente, repito, em toda a sua Filosofia e Cultura. Basta pensar nas grandes tragédias do teatro grego (Édipo Rei, Electra, Antígona, etc.) de Sófocles, Eurípedes e outros.Todas elas são tragédias da luta, inútil, entre o homem e o seu destino fatal; são lutas desiguais entre os humanos e uma divindade cruel. Não admira, pois, que sejam estes autores considerados os maiores nomes do teatro mundial. Nem William Shakespeare se lhes igualou. É que os personagens de Shakespeare são simples humanos, lutando com humanos. Os das tragédias gregas são humanos, lutando contra divindades cruéis.
E que tem isto a ver com o Fado? Tudo! Todos sabemos que, boa parte da nossa herança cultural lusíada, é grega. Recebemo-la através de Roma. Já dizia Fernando Pessoa: Temos ruínas romanas e idéias gregas. Pois é, meus Compadres. Parece que, sem querer, fizeram-nos trágicos e sem esperança! Nada disso!Não se preocupem! Até porque, entre esses gregos e nós, temos o Cristianismo!
Mas, aonde quero chegar (e faço-o com bastante segurança) é à afirmação de que o nosso Fado - quando vivido em toda a sua dramaticidade original - reflete, como nenhum outra manifestação cultural portuguesa, essa raiz do Fatalismo Grego. Por isso se chama Fatum: Fado. Repito. Tem que ser o verdadeiro Fado. Aquele que nasce e se vive à medida que se canta. Tem que ser o Fado “ruim”, o Fado canalha e em transe, o Fado da viela, o Fado castiço e cruel, o Fado arrancado das entranhas, o Fado-confissão, o Fado do trágico Destino, o Fado que se canta pra si mesmo e não para os outros...
Não o Fado janota, para turistas e endinheirados. Não o Fado do compasso e da orquestra. Não o Fado do Francisco José – magnífica voz, mas mau fadista.E, muito menos, o Fado saltitante do Roberto Leal... Mas, dirão os Senhores: e a nossa Amália?! Ah! A Amália era outra coisa! A Amália transportava, no canto e no corpo, toda a tragicidade dum Destino adverso. A Amália, ao cantar, era o próprio “Fado”. Sobre a Amália, exclamou, um dia, o brasileiro Assis Chateaubriand, ao ouvi-la: “O maior tormento de mulher que jamais se viu em cena!”. E, em 1967, o jornal francês “Le Monde” escrevia: “Amália canta a fatalidade, a angústia, os amores e os destinos infelizes. A sua voz rasga o tempo e o espaço!” E ainda, dois anos mais tarde, a Revista americana “Newsweek”, se referia a ela como: ”Antígona depois de Tebas, Cassandra depois de Tróia...”.
Mas, Comadres e Compadres, sobre a Amália Rodrigues, falaremos depois. Por hoje, perdoem o mergulho filosófico! É que, no fim de contas, “Fado também é Cultura!”.
Quase 700 estrangeiros de diversos países do Mundo, estudam na Universidade do Porto.
Desse elevado numero de estudantes estrangeiros os brasileiros estão em maioria e, este ano, estão estudando na Universidade do Porto 196 alunos do nosso Brasil.
Os nossos maiores desejos de felicidades no novo curso.
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