A sociedade dos gatos domésticos
A história natural dos gatos revela que, apesar de toda sua beleza, sabedoria e elegância, eles nem sempre foram apreciados por todos. Combinando um forte senso de independência com uma profunda afeição ao seu dono, o gato modificou o conceito de animal de companhia, introduzindo um novo estilo de relação amigável: menos proximidade e contato físico, mas muito amor e carinho. Entretanto, isto não é da compreensão de todos.
Já na Idade Média, esta independência natural associada a alguns de seus traços físicos - os olhos salientes, por exemplo, levaram as pessoas a associarem-no ao demônio, bruxarias e à adoração de maus espíritos. Isto desencadeou o extermínio de muitos animais, além de criar inúmeras superstições mantidas até hoje, como nunca deixar um gato preto cruzar o seu caminho. Assim, temos desde os supersticiosos até aqueles que os acham interesseiros e egoístas.
Por outro lado, há os que conseguem compreendê-los e desfrutar de sua companhia. Dentre eles, estão poetas, escritores, grandes pensadores e celebridades, tais como Maomé e Victor Hugo, que sempre os apreciaram, pois foram capazes de admirar sua beleza e entender o seu íntimo.
Ao contrário do que muitos pensam (e fazem questão de declamar!), os gatos não são animais solitários. Ainda que não sejam considerados os melhores amigos do homem e que, na maioria das vezes, sejam vistos sozinhos ou em pequenos grupos, dizer que os gatos são animais anti-sociais é pura especulação e falta de conhecimento.
Diversos pesquisadores do assunto vêm monitorando e observando gatos dia e noite. Seus relatos, cada vez mais interessantes - como o caso de uma fêmea auxiliando o parto de outra, encontros noturnos de gatos de uma vizinhança ou um gato debilitado diante da morte de um companheiro, revelam que os gatos, de uma forma mais distanciada, também se relacionam uns com os outros.
Quando observamos um gato passeando pela rua, imediatamente supomos que este seja um animal sozinho. Estamos muito enganados. Um animal aparentemente solitário pode estar em constante comunicação com outros gatos sem que possamos perceber. Eles se comunicam por olhares, pela emissão de sons específicos, pelo odor de sua urina e fezes e até por meio de marcas deixadas em objetos arranhados. Essa forma de comunicação, muito utilizada pelos gatos, chama-se comunicação não-verbal. Machos e fêmeas utilizam estas sinalizações em situações amigáveis, em confrontos, e até como uma forma de apaziguamento. Por exemplo, dois gatos machos de uma mesma região podem evitar uma briga simplesmente quando um detecta os sinais da presença do outro e, a partir daí, evita um encontro.
Na natureza, os gatos se organizam num matriarcado. Isto significa que eles vivem em grupos coordenados pelas mães ou pelas avós. É uma grande família marcada por esfregamentos e lambeduras recíprocas. Mas estes grupos são compostos apenas de fêmeas e filhotes. Os machos são expulsos a partir dos 6 meses de idade, quando passam a disputar um território com os outros machos da região. Assim, o jovem iniciante agüenta rixa após rixa, derrota atrás de derrota, por meses e às vezes até anos.
Passada esta dolorosa iniciação, eles são tolerados pelo gato dominante naquela região. (Na verdade, o relacionamento dos machos em geral é caracterizado pela tolerância uns com os outros). O mesmo não ocorre com as filhas, que podem permanecer com a mãe por mais tempo e até por toda a vida. Isto acontece principalmente se comida e abrigo forem abundantes na área. Neste caso, elas costumam se alimentar, caçar e brincar juntas, limpar-se mutuamente, compartilhar cuidados com filhotes e até defendê-los de invasores. Mas quando existe superpopulação, a competição se acirra principalmente entre os gatos machos.
Segundo a Dra. Bonnie Beaver (veterinária e especialista em comportamento de gatos) nestes casos eles costumam até eleger alguns como párias (indivíduos sem classe social ou pertencentes a classe social inferior). Estes serão excluídos e desprezados por todos.
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