OS EXPOSTOS DA RODA

DE

VILA DO CONDE

1835/1854

 

            Maria ADELINA Azevedo PILOTO, docente, investigadora e Mestre, em História Contemporânea, nasceu na freguesia de São Martinho de Guilhabreu, concelho de Vila do Conde, em 1955.

            Licenciou-se em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1984 e nesse mesmo ano iniciou a sua carreira docente em Escolas do Ensino Básico 2º e 3º Ciclo.

            No acto lectivo de 1994/95 começou o mestrado em História Contemporânea e no ano seguinte 1995/96 procedeu à elaboração da Tese — “Os Expostos da Roda de Vila do Conde — 1835-1854”.

            A dissertação deste trabalho científico ocorreu na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a 6 de Dezembro de 1996, tendo sido classificado de MUITO BOM e vivamente aconselhada a prosseguir o trabalho académico conducente ao grau de doutoramento.

            Na cidade de Vila do Conde tem proferido várias palestras e conferências, bem como colaborado em séries de programas radiofónicos, versando temas de história.

            Participou activamente em um CDRom sobre a história de Vila do Conde e seu Aro. É sócia de várias Associações Culturais, entre as quais CEPES  (Centro  de  Estudos  da  População,  Economia e Sociedade),  ASBRAP (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia), APPAVC (Associação de Protecção do Património Arqueológico de Vila do conde). 

 

            Como mãe, educadora e docente a criança é no dia a dia o centro das nossas especiais atenções e, talvez por isso, o tema dos Expostos nos atraiu de uma maneira tão intensa e de forma tão particular. Sendo um assunto de um dramatismo atroz, vivencial e interessante, toca-nos no âmago da alma e fere a nossa sensibilidade. A criança merece ser olhada com mais carinho e ênfase pela sociedade e historiografia.

                No século XIX, ainda tão próximo de nós no tempo, mas já tão afastado, felizmente, nas atitudes, comportamentos e mentalidades, a criança era muitas vezes abandonada pelos pais, desprezada e renegada pela família logo à nascença, entregando-a à comiseração particular ou oficial. Quantas vezes eram expostos os recém nascidos na soleira da porta de família abastada, onde era conhecido o sentido caritativo e meigo da patroa; ou então abandonados à porta dos templos mais visitados pelos fiéis; ou ainda em lugares públicos de concorrência obrigatória. Mas era essencialmente na Roda dos Enjeitados que depositavam os infelizes, fazendo-os acompanhar de algum enxoval (quase sempre insignificante) e de um bilhete onde eram declarados o nome e qualquer outra circunstância particular, como por exemplo, se já estava ou não baptizado.

                Na actualidade, infelizmente, continuam a ser abandonados recém-nascidos nas maternidades, nas estações de serviço das auto-estradas, e mesmo noutros locais, no entanto, tais rejeições são esporádicas, e muito excepcionais, ao contrário do que acontecia, no século passado, em que tais abandonos, eram frequentíssimos e estavam institucionalizados.

                O crescente controlo da natalidade e o aumento da infertilidade dos casais, tornou as crianças raras e preciosas, muito mais amadas e respeitadas pela grande maioria da sociedade. Em oposição ao século de Oitocentos, em que a sua superabundância as tornava banais e depreciadas por tantos, e amadas por tão poucos.

                E porquê ter decidido tratar dos expostos na Roda de Vila do Conde? Sendo natural deste concelho, desde muito nova a frequentar a sede, estudamos na cidade e nela nos habituamos a gostar dos seus monumentos, das suas casas quinhentistas, dos estaleiros de construção naval em madeira, donde partiram naus e caravelas à conquista do mundo. A escolha era óbvia.
              Mas para além disso tomamos conhecimento de que no Arquivo Histórico do Município de Vila do Conde existiam fontes manuscritas e originais, sistemáticas e contínuas sobre o assunto. Sendo assim, deparava-se-nos a oportunidade para perceber melhor a vida neste concelho, nesse século XIX tão atribulado, conhecer o tecido social, as ideias e os sacrifícios, que foram feitos em favor dos desventurados e dos desvalidos da sorte, pelos meus ancestrais. O esforço foi grande, pois desde o século XVI que em Vila do Conde existem, ainda que esparsos, elementos relativos a enjeitados e à sua criação por conta do Município, e nós quisemos consultá-los, o que naturalmente implicou um redobrado trabalho. Damos todo o tempo por bem empregue.  ...,...   (de:
Introdução)

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