ESTUDOS ANTERIANOS Nºs 3 e 4
Centro de Estudos Anterianos de Vila do Conde
Ao sustentar, num livro estimulante, que, nestes finais do século XX, a
ideia capaz de justificar o esforço colectivo dos portugueses, «não pode ser
a de um Portugal acientífico, a de uma sociedade contra a ciência», João
Caraça conclui desta forma: «assim, introduzir uma componente científica e
tecnológica na cultura portuguesa contemporânea constitui a tarefa essencial
do presente».
Antes de assim concluir, o autor invoca a noção de atraso que tem
perseguido, com fatalidade, a nação portuguesa durante a segunda metade da sua
existência. Mas não faltaram aqueles que se insurgiram contra esse estado de
coisas e que impulsionaram uma atitude de rotura com o passado e de adopção de
uma «alma moderna». E, a propósito. João Caraça refere o caso de Antero de
Quental, citando-o, quando este afirma na célebre conferência de 1871 sobre as
Causas da decadência dos Povos
Peninsulares nos últimos Três séculos: «(...) a Europa culta
engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela
falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos».
Segundo António José Saraiva, a conferência de Antero — que iremos,
de seguida, analisar um pouco mais em pormenor — não tem grande
originalidade, reconhecendo-se aí o pensamento de Herculano, que dava como
causa da decadência nacional «o
absolutismo e o fanatismo», isto é, a
centralização monárquica e a Inquisição. E, pouco mais adiante: «Para
Herculano Portugal acabou ao mesmo tempo que a dinastia de Avis, e os
descobrimentos (como para Sá de Miranda) foram uma causa de decadência».
Descontada a falta de originalidade, poderá, no entanto, reconhecer-se
no trabalho de Antero a realização de um síntese bastante elaborada das «causas
de decadência», tema que Alexandre Herculano abordou abundantemente, mas sem
carácter sistemático, nos volumes da História
da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal e em artigos de
opinião dispersos.