A POESIA NA ACTUALIDADE

ANTERO DE QUENTAL

Centro de Estudos Anterianos

Vila do conde

 

            Foi em 1881, à volta do aparecimento de Lira Íntima, livro de versos do seu amigo e correspondente Joaquim de Araújo, que Antero de Quental escreveu «A Poesia na Actualidade», eloquente meditação elegíaca sobre o declínio e a extinção de uma alta e nobre forma de literatura. Neste belíssimo texto, visitado aqui e ali por aqueles estilemas «decadentistas» que tanto marcarão a prosa visionária de Teixeira de Pascoaes — «um sonho de faquires», «um povo mudo de esfinges», «um mundo grandioso e extravagante de fantasmas espirituais», etc. —, advoga o autor da «Sepultura Romântica» a ideia de que nos tempos modernos a poesia agoniza, vítima de um «estado social e mental moldado pela ciência e dirigido pelo espírito de análise e pela reflexão». Tal ideia, de conotações hegelianas, já desponta com todas as letras a partir dos taxativos parágrafos iniciais da meditação: «A fase poética da Humanidade pode dizer-se que está a terminar. Este século terá visto os últimos poetas, como viu os últimos crentes. / A faculdade sintética, depois de ter criado as línguas, os mitos e as religiões, manteve-se ainda, durante largos séculos, no domínio da poesia. Mas ainda aí se terá estancado dentro de pouco. A análise ficará senhora absoluta de todo o terreno, gradualmente abandonado pela faculdade criadora».

            Para Antero — que como um comparatista erudito fundamenta a sua tese com múltiplos paradigmas históricos do lirismo ocidental, acrescidos de muitos outros da filosofia ou da teologia (Pitágoras, Plotino, Santo Anselmo, Bruno, Lutero, Loyola) —, época houve em que a grande poesia, não alheia à especulação metafísico-teológica, e tomada «nos seus altos exemplares» (dos Salmos e da tragédia grega aos quatro «poetas humanistas por excelência», Camões, Ariosto, Lope, Tasso, passando, entre outros, por Hesíodo, Píndaro, Virgílio, Lucrécio, Calderón e Shakespeare, «o intérprete universal das paixões»), época houve, repita-se, em que a poesia, na acepção mais forte e elevada do termo, identificava-se ela própria com as aspirações da colectividade e fundia a matéria exterior e objectiva do real às pulsões subjectivas do Eu profundo. Tratava-se, em verdade, de uma rara simbiose de síntese e análise que atingiria na Renascença «o grau de mais perfeito equilíbrio — justamente na véspera do momento em que esse equilíbrio se ia romper para sempre, com o império decidido da análise, pela constituição das ciências e a correspondente organização dum ponto de vista racional sistematicamente positivo». ...,...  (de: Apresentação crítica de Joaquim-Francisco Coelho)                                 

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