A POESIA NA ACTUALIDADE
ANTERO DE QUENTAL
Centro de Estudos Anterianos
Vila do conde
Foi em 1881, à volta do aparecimento de Lira Íntima, livro de versos do seu amigo e correspondente Joaquim
de Araújo, que Antero de Quental escreveu «A Poesia na Actualidade»,
eloquente meditação elegíaca sobre o declínio e a extinção de uma alta e
nobre forma de literatura. Neste belíssimo texto, visitado aqui e ali por
aqueles estilemas «decadentistas» que tanto marcarão a prosa visionária de
Teixeira de Pascoaes — «um sonho de faquires», «um povo mudo de esfinges»,
«um mundo grandioso e extravagante de fantasmas espirituais», etc. —, advoga
o autor da «Sepultura Romântica» a ideia de que nos tempos modernos a poesia
agoniza, vítima de um «estado social e mental moldado pela ciência e dirigido
pelo espírito de análise e pela reflexão». Tal ideia, de conotações
hegelianas, já desponta com todas as letras a partir dos taxativos parágrafos
iniciais da meditação: «A fase poética da Humanidade pode dizer-se que está
a terminar. Este século terá visto os últimos poetas, como viu os últimos
crentes. / A faculdade sintética, depois de ter criado as línguas, os mitos e
as religiões, manteve-se ainda, durante largos séculos, no domínio da poesia.
Mas ainda aí se terá estancado dentro de pouco. A análise ficará senhora
absoluta de todo o terreno, gradualmente abandonado pela faculdade criadora».