Sub-tópicos desta página:

- Comuna
- Ditadura
- Bakunin
- Lassalle
- Rússia

 

Revolução

          O caminho seguido por Marx em sua análise do capitalismo não podia deixar de causar fortes contrariedades aos ideólogos da burguesia. Desde há algum tempo, aliás, os economistas burgueses já vinham abandonando o terreno da objetividade científica e a honestidade essencial que tinha caracterizado os trabalhos de Adam Smith e de David Ricardo.

          Em 1837, por exemplo, o economista Nassau Sênior protestou contra as tentativas de diminuição da jornada de trabalho nas fábricas inglêsas (a jornada era, então, de onze horas e meia) e invocou argumentos pretensamente científicos para defender os interesses patronais: "Se as horas de trabalho fossem reduzidas em uma hora por dia, isso se ria o suficiente para fazer desaparecer o lucro liquido. E, se a redução fosse de uma hora e meia, desapareceria igualmente o lucro bruto".

          Com o tempo, com as lutas e reivindicações do proletariado organizado, a jornada de trabalho acabou sendo reduzida a oito horas. E nem por isso as fábricas inglêsas foram a falência.

          Outro economista, o Dr. Andrew Ure, combateu a idéia da redução da jornada de trabalho para os menores de 18 anos, alegando que uma hora de descanso adicional só ser viria para corrompê-los: "Se eles deixassem o trabalho uma hora mais cedo, indo para o mundo exterior, tão frio como frívolo, a ociosidade e o vicio os exporiam ao perigo da perdição de suas almas".

          O Sr. Giddy; que não era economista e sim Presidente da Royal Society de Londres; foi ainda mais radical em seu reacionarismo. Quando propuseram no Parlamento a criação de escolas primárias para as crianças que trabalhavam nas fábricas britânicas, ele escreveu: "Dar educação às classes pobres trabalhadoras seria, na realidade, uma medi da prejudicial à moral e à felicidade delas. Os trabalhadores aprenderiam a desprezar sua condição (...) poderiam ler folhetos subversivos e se tornariam insolentes no trato com seus superiores".

          De modo geral, os ideólogos da burguesia; mesmo quando não eram tão facciosos como estes três que acabamos de citar; viam o capitalismo como um regime perfeitamente adequado à "natureza humana" e achavam que o sistema capitalista de produção iria se aperfeiçoando eternamente, sem que jamais os homens chegassem a substitui-lo por qualquer outro.

          Marx, com os raciocínios desenvolvidos em O Capital, seguiu uma direção que só podia inspirar desgosto aos adeptos do capitalismo. Em sua análise da estrutura econômica do regime burguês, ele em nenhum momento admitiu que ela pudesse ser eterna. Seus ponto de vista, pelo contrário, foi o de que o sistema capitalista engendrava necessariamente seus próprios coveiros.

          Num capitulo do Capital dedicado ao exame da "Tendência Histórica da Acumula cão Capitalista", Marx estudou o processo pelo qual a propriedade capitalista foi se Impondo às demais formas de propriedade e mostrou como, no bojo da sua vitória, ela trazia a sua derrota.

          A indústria capitalista se monta mediante a concentração de capitais. Para poder contratar um grande número de empregados e mobilizar uma vasta quantidade de matéria prima, o capitalista precisa ter chegado a concentrar em suas mãos um capital sufi ciente para arcar com as vultosas despesas. Os capitalistas, portanto, competem entre si e os grandes vão expropriando os pequenos. O desenvolvimento lógico da concentração dos capitais, entretanto, conduz à formação dos monopólios. Criam-se empresas cada vez maiores. A busca de lucros leva essas empresas imensas a estenderem sua ação a diversos países: na fase monopolista do capitalismo, desenvolve-se uma economia eminentemente imperialista. Marx não chegou a analisar a fenômeno; que ainda não tinha se desenvolvido no tempo em que ele viveu; mas chegou a identificá-lo em seus germes.

          Por outro lado, paralelamente à concentração dos capitais (que desemboca no capitalismo monopolista), a indústria moderna vai desenvolvendo a forma cooperativa do processo de trabalho. As grandes empresas capitalistas reúnem um enorme número de operários e vinculam as atividades dos trabalhadores, ligando-os fortemente uns aos outros. O próprio mecanismo do processo de produção industrial vai organizando o proletariado. Cria-se uma espécie de socialização técnica da produção.

          Em dado momento, a socialização técnica da produção possibilita um desenvolvimento da força de trabalho que o sistema de apropriação privada não pode mais suportar. O conflito entre a produção tecnicamente socializada e a apropriação de tipo capitalista começa, então, a criar crises.

          As crises vão preparando a revolução proletária. "O monopólio do capital converteu-se num obstáculo ao modo de produção que tinha prosperado com ele e graças ao seu apoio. A concentração dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a tal ponto que se tornam incompatíveis com o invólucro capitalista e o despedaçam. Soou a hora final da propriedade privada capita lista. Os expropriadores são expropriados".


Comuna

          Mais cedo do que se podia prever; me nos de 4 anos após a publicação do 1° volume de O Capital ; a revolução proletária fez a sua estréia: a Comuna de Paris.

          A França estava, então, em guerra com a Alemanha. Do lado francês, o comandante ainda era Napoleão III (cujo governo durou bem mais do que Marx previra). Do lado ale mão, o dirigente mais importante era o reacionaríssimo Bismark, Ministro de Guilherme I.

          Num dado momento, o exército alemão capturou Napoleão III e todo o seu Estado Maior. A França, entretanto, não se entregou: foi proclamada a república (em 4 de setembro de 1870) e a guerra prosseguiu. O novo governo republicano burguês; sob a chefia de Thiers, historiador e "anão monstruoso", segundo Marx; assumiu uma atitude vacilante em face dos alemães. O proletariado parisiense, que tinha tido um papei decisivo por ocasião da proclamação da república, observava com desconfiança as manobras de Tiers e temia que este abandonas se Paris às forças de Bismarck.

          O povo de Paris se achava inquieto. Um Comitê Central progressista controlava a Guarda Nacional e era apoiado por cerca de trezentos mil soldados. A Guarda Nacional, que fôra criada para servir à burguesia, procurava mobilizar amplos setores da população parisiense para a luta e contava em suas fileiras com várias dezenas de milhares de trabalhadores.

          Através de uma subscrição popular, a Guarda Nacional adquirira diversos canhões. Thiers, preocupado, tentou tomar os canhões para tropas que lhe fossem mais fiéis, mas não foi bem sucedido. Depois de ter participado de uma malograda expedição noturna a Montmartre, procurando roubar os canhões da Guarda Nacional, o General Le comte foi fuzilado (segundo alguns, por seus próprios soldados). Outro General; Clement Thomas; também foi surpreendido em ação contra a Guarda Nacional e teve morte igualmente trágica.

          Thiers percebeu que a Guarda Nacional escapara completamente ao seu controle e, em 18 de março de 1871, fugiu de Paris, indo instalar-se em Versalhes. O Comitê Central, vendo-se senhor da situação, convocou imediatamente o povo parisiense para amplas eleições; e, em 28 de março, a direção eleita da Comuna de Paris assumiu o governo. Era uma direção coletiva, em que predominavam elementos representativos das classes trabalhadores: pela primeira vez na história da humanidade, o proletariado se achava no poder.

          As medidas governamentais tomadas pela Comuna, durante seus dois meses de existência, foram, em geral, acentuadamente democráticas e moderadas. Ela fez instalar armazéns e padarias que vendiam os gêneros de 1ª necessidade praticamente ao preço do custo. Apesar de quase todos os postos de chefia terem sido abandonados por seus ocupantes, o serviço postal foi mantido em per feito funcionamento. Suspendeu-se a venda dos objetos colocados nas casas de penhor, prorrogaram-se os prazos de pagamento de todas as obrigações comerciais. As ações judiciais de despejo tiveram seu curso interrompido.

          Apesar da falta de pessoal especializado e da carência de remédios, a assistência médica prestada à população parisiense foi bem mais eficiente do que nos anos anteriores. Elaborou-se um plano que visava instituir o ensino leigo, gratuito e obrigatório para todas as crianças: não houve tempo, contudo, para pô-lo em prática. As oficinas abando nadas por seus proprietários foram entregues à administração dos sindicatos operários.

          O Banco de França; ao qual a direção da Comuna tinha acesso; foi parcimoniosa mente utilizado: os funcionários foram geralmente mantidos em seus postos e as retiradas foram mínimas. Calcula-se que a Co muna gastou mais ou menos 41 milhões de francos, enquanto no mesmo período Thiers gastava quase o sêxtuplo dessa quantia. A probidade e o desprendimento pessoal com que agiram os dirigentes da Comuna é hoje reconhecida pela imensa maioria dos historiadores. A preocupação de economia deles era de tal ordem que, para pouparem os recursos do povo francês, mandaram transformar as peças da baixela da Casa Imperial em moedas de cinco francos.

          Thiers, em Versalhes, preparou sua desforra. Enquanto não tinha tropas que pudesse mobilizar contra a Comuna, simulou uma atitude de ponderação e declarou: "Haja o que houver, jamais enviarei tropas contra Paris" (21 de março de 1871). Depois, entrou em entendimentos com Bismarck. Quando este lhe devolveu os prisioneiros de guerra que tinha feito, Thiers, sentindo-se fortalecido militarmente, mandou invadir a capital. Bismarck acompanhou de longe o massacre (cerca de cinqüenta mil vitimas) propiciado por um entendimento graças ao qual Thiers lhe entregou a Alsácia, a Lorena e, ainda por cima, assumiu o compromisso de pagar uma indenização de guerra de cinco bilhões.


Ditadura

          Tal como Bismarck, Marx acompanhou com vivo Interesse o surgimento, a luta e o esmagamento da Comuna. Só que, enquanto Bismarck favorecia a repressão burguesa, Marx levava a Internacional, desde o Inicio, a dar um resoluto apoio à luta dos defensores da Comuna, isto é, dos communards.

          Logo após a derrota Marx escreveu sobre os acontecimentos um trabalho intitulado A Guerra Civil na França. Neste ensaio histórico, prestou sua homenagem ao exemplo de heroísmo dado pelos communards e defendeu a Comuna contra as acusações que lhe estavam sendo feitas pelos Ideólogos da burguesia.

          Uma das acusações, por exemplo, era a de que o fuzilamento do arcebispo de Paris, Darboy, do juiz Bonjean, do pároco da Madeleine e de mais três jesuítas era a expressão da brutalidade incontrolável da Comuna e dava idéia do que ocorreria caso ela vencesse. Marx mostrou que o fuzilamento não decorreu de uma decisão do comando da revolução, que ele resultou da iniciativa de um grupo de communards desesperados, que o ato foi uma espécie de vingança, de réplica aos fuzilamentos sumários que os generais de Thiers estavam ordenando há vários dias contra o proletariado parisiense.

          Enquanto puderam, os dirigentes da Comuna tentaram trocar o arcebispo, o juiz e os demais prisioneiros por um único encarcerado que se achava nas mãos de Thiers: Augusto Bianqui. Mas Thiers recusou a troca. Ele sabia que Blanqui, solto, poderia as sumir a direção geral da Comuna e, com a força do seu prestigio, poderia fazer com que a revolução proletária se estendesse a. toda a França. E, por outro lado, o cadáver do arcebispo Darboy, morto pelos parisienses, poderia ser útil aos seus propósitos políticos, ensejando-lhe a exploração propagandistica de um martírio. Por isso, Marx afirmou que o responsável pela morte do arcebispo era o próprio Thiers.

          O fato de que Marx se tenha solidariza do com os communards e tomado enérgica mente a defesa deles, entretanto, não o impediu de enxergar e discutir os erros da Co muna. Segundo Marx, por exemplo, a direção militar da Comuna cometeu uma grave falha quando, logo após a fuga de Thiers para Versalhes, deixou de ir-lhe ao encalço, aproveitando a fraqueza e a desorganização das forças burguesas. A direção militar da Comuna foi demasiado tímida e adotou uma tática meramente defensiva.

          No entender de Marx, o Comitê Centrai que dirigia a Guarda Nacional foi precipita do em desfazer-se imediatamente de seus poderes, passando-os a uma direção coletiva eleita às pressas, despreparada e prejudicada por dissenções internas.

          A experiência da Comuna levou Marx a refletir mais detidamente sobre a necessidade de se desenvolver a organização partidária da classe operária, capacitando-a para enfrentar os problemas imediatos ligados à tomada do poder. Marx retomou, então, uma tese que já expusera em 1852 numa carta a seu amigo Joseph Weidemeyer: a de que, após a sua ascensão ao poder, e enquanto preparam a supressão das classes, os trabalhadores, precisam montar um Estado forte, precisam instaurar a ditadura do proletariado.

          Na concepção de Marx, a ditadura do proletariado nada teria de intrinsecamente antidemocrática ou de essencialmente violenta. A propósito dessa questão, Marx e Engels chegaram até a polemizar com Blanqui e os seguidores deste. Os bíanquistas encaravam a violência como uma espécie de fórmula mágica capaz de resolver todos os problemas: eram apaixonada e ferozmente anti-religiosos e entendiam que, uma vez supera do o modo de pensar religioso, a opressão social iria desaparecendo por si mesma. Os blanquistas subestimavam a Importância da elaboração de um programa econômica e social para o mobilização popular e davam uma atenção unilateral à questão política, supondo que a conquista e a manutenção do poder dependiam exclusivamente da força militar e da violência. De acordo com a crítica dos blanquistas, a Comuna errara ao ter si do "excessivamente democrática": Paris de veria ter sido posta sob o controle férreo de um pequeno grupo de revolucionários e, em seguida, a ditadura de Paris deveria ter estendido o seu poder sobre o resto da França. Marx e Engels acharam corretos os aspectos "democráticos" da Comuna e viram neles elementos positivos da ditadura do proletariado. A principal falha da direção dos communards ; conforme o ponto de vista marxista; não estaria na democracia por ela praticada e sim na sua confusão teórica e prática.


Bakunin





          As divergências de Marx com os blanquistas não tiveram tanta importância, na ocasião, como as divergências de Marx com os bakuninistas.

          Bakunin era anarquista. Marx já com batera, em 1845, os elementos de anarquismo existentes nas concepções do filósofo alemão Max Stimer, E já combatera em 1847 os elementos de anarquismo que se manifestavam nas Idéias de Proudhon. O próprio Bakunin já tinha sido criticado por Marx, quando ambos se conheceram em Paris, em 1844.

          Em 1868, porém, a situação parecia ter mudado definitivamente. Bakunin escreveu a Marx uma carta na qual exprimia a sua vontade de participar da luta da Internacional e fazia a autocrítica de suas atitudes passadas: "Compreendo agora melhor do que nunca, meu velho amigo, quanta razão tem você em trilhar o amplo caminho da revolução econômica, convidando-nos a segui-lo, e desprezando aqueles que se extraviam pelas sendas nacionais ou exclusivamente políticas. Faço, atualmente, aquilo que você vem fazendo há mais de vinte anos".

          Na mesma carta, Bakunin se declarava discípulo de Marx: "Minha pátria agora é a Internacional, entre cujos mais notáveis fundadores se encontra você. Como vê, meu querido amigo, sou seu discípulo e orgulho- me de sê-lo" (22.12.1868). Mais tarde, contudo, as divergências voltaram a surgir.

          A Internacional se fortalecera em conseqüência da Comuna, Embora o seu papel na sucessão dos acontecimentos tivesse sido relativamente pequeno, os reacionários acusaram a Associação de ter sido a verdadeira causa da rebelião dos communards. O resultado da acusação foi o aumento do seu prestígio junto à classe operária.

          Por outro lado, o crescimento da Internacional fez com que ela se defrontasse com um número maior de problemas, levou-a a uma fase critica, exigiu que ela definisse com maior rigor o seu programa de ação. Foi nessa época que Bakunin trouxe novamente à baila os seus princípios anarquistas. Em nome do anarquismo, Bakunin pôs- se a combater a participação dos trabalha dores na política institucionalizada, preconizando a abstenção sistemática nas eleições realizadas sob o regime burguês e difundindo o mito segundo o qual o caminho para a tomada do poder pela classe operária teria de ser o de uma greve geral que levaria à imediata supressão do Estado.

          Marx criticou o anarquismo como uma concepção romântica e uma influência desagregadora que só poderia prejudicar o indispensável e paciente trabalho de organização do proletariado para a revolução socialista. Os companheiros de direção da Internacional consideraram justa a critica de Marx e repeliram as posições anarquistas.

          Bakunin, então, acusou Marx de querer monopolizar a direção do movimento operário, impondo-lhe métodos ditatoriais: "Como alemão e como judeu, Marx é da cabeça aos pés um autoritário".

          Derrotado por Marx na luta interna, expulso da Internacional pelo Congresso de Haia (em 1872), Bakunin acabou por se retirar da vida pública. Passou o resto dos seus dias doente e amargurado, chamando Marx de "'agente policial, delator e caluniador" (carta de 26.9.1873). Morreu em 1876. Seus seguidores continuaram em atividade, pregando e praticando suas concepções.


Lassalle

          Depois da morte de Bakunin, seus discípulos ainda continuaram a dar trabalho a Marx e a Engels. Depois da morte de Lassalle, igualmente, os lassaileanos causaram muitos aborrecimentos ao autor de O Capital.

          Marx nunca vira com bons olhos o advogado Ferdinand Lassalle, sete anos mais moço do que ele, intelectual socialista de for mação hegeliana que chegou a exercer pode rosa influência sobre o movimento operário alemão. No trato com Marx, Lassalle era cor dial e prestativo. Marx, porém, não confiava nele.

          Foram diversas as controvérsias ocorri das entre ambos. Quando Engels e Lassalle se desentenderam na análise do conflito que opôs a Sardenha à Áustria, em 1859, Marx tomou resolutamente o partido de Engels. Naquele mesmo ano, apreciando criticamente uma peça teatral de autoria de Lassalle; Franz von Sickingen; Marx escreveu-lhe que os personagens por ele criados não eram convincentes, pois não se definiam através da ação e sim através de discursos cansativos, figurando no palco como meros porta-vozes do autor. Lassaíle não concordou com a crítica.

          Lassalle considerava urgente a questão da unificação da Alemanha e, para consegui-la a curto prazo, dispunha-se a uma aliança até com o reacionarissimo Bismarck. Marx também achava muito Importante a questão da unificação da Alemanha, mas não julgava correto, do ponto de vista revolucionário, que ela fosse feita "de cima para baixo". Aos olhos de Marx, os métodos de Lassalle eram oportunistas.

          Em 1864, Lassalle morreu num duelo, baleado pelo noivo de uma moça por quem se apaixonara. Engels escreveu, em carta a Marx: "Atualmente, ele era para nós um amigo incerto. No futuro, seria quase seguramente um Inimigo. Mas pouco importa: é doloroso ver como na Alemanha vão se acabando os homens capazes do partido". Marx respondeu: "Apesar de tudo, ele era da velha guarda; e era inimigo de nossos inimigos" (7 de setembro de 1884).

          Mais tarde, em 1869, Marx e Engels estimularam a fundação de um novo partido operário na Alemanha, para competir com o partido dos discípulos de Lassaíle, O novo partido foi criado na cidade de Eisenach e ficou conhecido como Partido de Eisenach. Entre os seus dirigentes, influenciados por Marx, achavam-se W. Liebknetch, Augusto Bebei e Wilhelm Bracke.

          Em 1874, realizaram-se eleições na Ale manha e os partidos de esquerda conseguiram excelentes resultados. Lassalleanos e eisenachianos, então, resolveram se unir: realizaram um congresso, em Gotha, e aprovaram um programa de ação comum. Marx considerou o programa que selava a aliança um documento bastante infeliz e enviou a Bracke uma série de anotações, que posterior mente vieram a ser publicados sob o titulo de crítica ao Programa de Gotha.

          Nas anotações, Marx fustigava as concessões feitas à corrente lassalleana e dizia que a utilização das idéias e fórmulas ambíguas de Lassalle só serviria para desmoralizar um programa que se pretendia revolucionário. Parecia-lhe, por exemplo, marcada pelo mais nefasto paternalismo a idéia segundo a qual o Partido Operário deveria lutar pela criação de cooperativas de produção auxilia das pelo Estado burguês. Parecia-lhe também equivocada a tese que levava o Partido Operário a exigir do Estado burguês uma educação efetivamente democrática e popular. E isso ainda o chocava mais ao considerar que o Estado a que se referia o Programa de Gotha era o Estado prussiano, dirigido por Bismarck.

          Por outro lado, as anotações de Marx não se limitaram à ação negativa, à refutação das teses lassalleanas, aguadamente reformistas. Um dos pontos essenciais da Crítica ao Programa de Gotha é aquele que estabelece a diferença entre o socialismo e o comunismo.

          Para Marx, a sociedade socialista é aquela em que o peso negativo do passado ainda é muito grande, a divisão social do trabalho ainda não foi superada, o Estado ainda subsiste, os homens ainda não sofreram uma transformação profunda: nela, a emulação ainda exige que cada indivíduo receba a sua parte da riqueza social de acordo com a sua produtividade.

          Na sociedade comunista plenamente desenvolvida, ao contrário, o Estado desaparece como tal, segundo Marx. Os indivíduos, desfrutando de toda a segurança econômica, podem enfim libertar-se de certas formas primárias de egoísmo - A divisão social do trabalho é superada. E a comunidade humana põe em prática a máxima do socialista utópico Proster Enfantin: "De cada um de acordo com suas possibilidades; a cada um de acordo com suas necessidades".


Rússia





          Além da caracterização do comunismo na Critica ao Programa de Gotha, Marx esboçou definições dele em outras obras. N'O Capital, por exemplo, referiu-se ao comunismo como "uma livre associação de indivíduos que trabalham com meios coletivos de produção e aplicam suas numerosas forças individuais de trabalho, com plena consciência do que fazem, como uma só força imensa de trabalho social".

          De modo geral, contudo, as caracterizações do comunismo por Marx são raras, cautelosas e abstratas. Ele evitava sair do terreno cientificamente já assentado e não queria; como escreveu no prefácio de O Capital; "elaborar receitas para os caldeirões do futuro".

          Ao contrário dos utopistas e dos visionários, Marx tinha clara consciência de que seu método não podia fazer concorrência a qualquer bola de cristal. Ele sabia que uma concepção da história, por mais científica que seja, pode prever a direção necessária em que os homens caminharão para poderem solucionar as grandes contradições sociais com que se defrontam em uma determinada fase, mas não pode prever as circunstâncias particulares que hão de caracterizar todos os acontecimentos do processo histórico.

          Quanto mais aperfeiçoava o seu método, tanto mais procurava levar em conta a infinita variabilidade das condições empíricas em que os povos evoluem...

          Nos últimos anos de sua vida, por exemplo, Marx Interessou-se vivamente pela Rússia. Estudou a língua russa, deteve-se no exame da história política da Rússia e de sua economia, analisou sua composição de classes e, em diversas ocasiões, previu que lá ha veria de ocorrer uma grande revolução.

          Em 12 de fevereiro de 1870, após ter lido um livro do ensaísta russo Fleróvski sobre a classe operária no pais dos czares, Marx escreveu a Engels: "A situação atual na Rússia é insustentável. A emancipação dos ser vos apenas acelera o processo de dissolução. Uma terrível revolução social é Iminente". Por outro lado, analisando a guerra européia de 1870, em carta a Sorge, previu: "Uma segunda guerra dessa espécie agirá inevitavelmente como a parteira da revolução social na Rússia".

          Mais tarde, em 27 de setembro de 1877, voltou a escrever a Sorge, dizendo: "Todas as camadas da sociedade russa se acham em decomposição, tanto econômica e moral como intelectualmente. Dessa vez a revolução está começando no Oriente. E é lá que se encontra o exército de reserva e o bastião (até aqui intacto) da contra-revolução".

          Em 1° de fevereiro de 1879, o diplomata inglês Mountstuart E. Grant-Duff, depois de uma conversa com Marx, escreveu à Imperatriz Frederika da Alemanha: "Com alguma razão, ele espera para breve o desabamento total na Rússia; acha que isso começará por reformas de cúpula e que o velho edifício, incapaz de suportar as mudanças, será levado à completa ruína".

          A Rússia, aliás, foi um dos países onde as idéias de Marx começaram a penetrar mais cedo e com maior rapidez. O Manifesto Comunista, em tradução de Bakunin, tivera boa repercussão. E o 1° volume de O Capital, lançado em 1872 em tradução russa (autorizada pela censura czarista em virtude de ser um volume muito grosso), vendera mais de 900 exemplares em menos de dois meses.


 
 
 

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