Subtópicos desta página:

- Morte
- Posteridade



Crepúsculo

         Em 1865, Marx e a família se mudaram para Maitland Park Road, n° 41, no bairro de Haverstock Hill (Londres), e ali Marx viveu seus últimos anos. Não foram anos de pobreza tão aguda como os anteriores, de vez que Engels pôde ajudá-los de maneira mais efetiva.

          Laura Marx casou-se, em 1868, com Paul Lafargue. Jenny Marx (a filha mais velha) casou-se, em 1872, com Charles Longuet. Tanto Lafargue como Longuet lutaram na Comuna de Paris e tiveram de se refugiar fora da França em seguida à repressão. A terceira filha; Eleanor; namorou outro communard: Lissagaray. Porém não se casou com ele e sim com o inglês Aveling.

          Embora as preocupações financeiras tivessem ficado atenuadas, a saúde de Marx piorou: atormentavam-no uma constante dor de cabeça, uma bronquite crônica, a velha furunculose (que voltara) e o mau funcionamento de seu fígado. Sua atividade política sofreu uma sensível redução. As leituras, entretanto, se multiplicaram. Marx lia furiosamente e tomava notas a respeito dos livros lidos. Depois de sua morte, Engels ficou espantado com o volume das anotações de leitura de seu amigo: cerca de três mil páginas, preenchidas com letra minúscula, estendendo-se por cinqüenta cadernos!

          Como de hábito, Marx lia sobre os mais variados assuntos: desde a fisiologia e a astronomia (Laplace) até a economia, a evolução do crédito, a propriedade da terra e a agricultura, passando pela história e pela filosofia (estudos sobre Leibnitz e Descartes).

          O trabalho de elaboração do segundo e do terceiro volumes do Capital se desenvolveu com lentidão. Como Engels tinha entrado em polêmica (1876) com o professor alemão Eugen Duhring (que vinha exercendo uma influência confusionista sobre o movimento operário na Alemanha), Marx ajudou-o, escrevendo o capitulo econômico do Anti-Duhring. Este capítulo foi um dos raros escritos destinados à publicação preparados por ele durante a última década da sua vida.

          Em uma carta enviada a Joseph Dietzgen em dezembro de 1875, por exemplo, Marx declarou que pretendia escrever todo um livro sobre a dialética. Pois bem: esse livro; que seria tão importante para o esclarecimento teórico da filosofia marxista; não chegou sequer a ser esboçado no papel.

          Outro livro não realizado (cujo trabalho de realização, contudo, chegou pelo menos a ser iniciado): um estudo sobre a evolução histórica da instituição da família, baseado nas pesquisas do norte-americano H . L. Morgan. Mais tarde, em 1884, Engels aproveitou as anotações deixadas por Marx e utilizou- as expressamente no livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.

          Afora isso, Marx bem pouco escreveu nessa fase. Cartas, alguns prefácios para reedições de obras suas, uns poucos artigos de jornal, um questionário para o inquérito realizado pela Revue Socialiste em 1880, a introdução do Programa do Partido Operário Francês (ditada por ele a Jules Guesde, em Londres, 1880, na presença de Lafargue e Engels), e só.


Morte

           Nos arquivos secretos do Estado prussiano, foi encontrado há tempos um documento interessante: o relatório de um agente policial que freqüentou a casa de Marx em Londres, em 1853. Neste relatório, o espião descreve Marx, sua esposa e seu ambiente doméstico. Passamos a transcrevê-lo.

          "Marx é de estatura mediana, tem 34 anos e seus cabelos já estão grisalhos. Seus ombros são largos. Usa barba. Seus grandes olhos penetrantes e vivos têm qualquer coisa de demoníaco: sente-se que se trata de um homem cheio de gênio e de energia. Sua superioridade intelectual fascina irresistivelmente os que o cercam, É um homem de vida extremamente desorganizada; não tem hora para levantar-se nem para deitar-se. Freqüentemente passa as noites em claro; depois, ao meio dia, deita-se sobre um sofá e dorme até anoitecer, sem se preocupar com as pessoas que estão sempre entrando em sua casa.

          Sua esposa, irmã do Ministro da Prússia, é uma mulher culta e simpática, que se acostumou à miséria e a essa vida boêmia; tem duas filhas e um filho, um menino muito bonito. Quando as pessoas entram na casa de Marx, são envolvidos por uma nuvem de fumaça e são obrigadas a caminhar cautelosamente, como se entrassem em uma caverna. Nada disso constrange Marx ou sua mulher, que recebem os visitantes com amabilidade, trazem-lhes fumo e alguma coisa para beber. Uma conversa inteligente e agradável acaba, então, por compensar as deficiências da casa, tornando suportável a sua falta de conforto. Esse é o quadro fiel da vida familiar do chefe comunista Marx".

          No essencial, o depoimento do beleguim policial coincide com as informações prestadas pelas filhas de Marx, por Lafargue e Liebknetch. Marx era, à sua maneira, um homem apegado à família: convivia multo com as filhas, contava-lhes histórias, saía com elas em longos passeios a pé e, quando elas eram pequenas, servia-lhes comumente de cavalo.

          O centro da vida doméstica de Marx, entretanto, mais do que as filhas, era sua mulher. Jenny acompanhou-o com admirável coragem ao longo de toda a sua acidentada vida, colaborando diligentemente com ele, participando de todos os seus problemas e de todas as suas dificuldades. Marx prezava-lhe muito a opinião: dava-lhe a ler os manuscritos de seus trabalhos e ouvia-a com atenção antes de publicá-los.

          Quando ela morreu, em 2 de dezembro de 1881, vítima de um câncer no fígado, Marx sofreu um tremendo abalo. Sua saúde teve um acentuado declínio. A família enviou-o para Alger, a conselho médico. De lá, escreveu a Engels: "Você sabe que poucas pessoas detestam o patético-demonstrativo tanto como eu. Mas, aqui entre nós, eu lhe estaria mentindo se não confessasse que meu espírito vive atualmente em grande parte absorvi do pela recordação de minha mulher, que foi a melhor parte de minha vida" (19 de março de 1882).

          Posteriormente, passou algum tempo em Paris, na companhia dos genros. Conversando com eles, descobriu influências de Bakunin em Lafargue e influências de Proudhon em Longuet. irritado, escreveu a Engels: "Longuet me aparece como o último dos proudhonianos e Lafargue como o último dos bakuninistas. O diabo os leve!" (11 de novembro de 1882).

          De volta a Londres, prosseguiu em sua leituras. Acompanhou as experiências de Deprez relativas à transmissão da eletricidade em longa distância, organizou uma cronologia da história da Alemanha, estudou a história do antigo Egito. Não perdia de vista, por outro lado, a atualidade política; e aborrecia-se com as deficiências dos socialistas. Sabendo das tolices que eram ditas ou praticadas em seu nome, pilheriou com Engels:

 
"O que é certo é que eu; Marx; não sou marxista".
 
          Em 11 de janeiro de 1883, morreu-lhe a filha, Jenny Longuet. Depois da morte da mulher, era um novo golpe. O estado de Marx se agravou: uma inflamação da garganta impedia-o de falar e de engolir. Apareceu-lhe, então, um abcesso no pulmão. E ele veio a falecer, em 14 de março de 1883.


Posteridade

          Em 1885, Engels publicou o segundo volume de O Capital, E em 1894 publicou o terceiro, Para a publicação do segundo e sobre tudo do terceiro volume da obra fundamental de seu amigo, foi-lhe necessário um imenso trabalho de organização do caótico material deixado por Marx.

          Depois da morte de Engels, em 1895, Karl Káutski se incumbiu de prosseguir na orga nização dos escritos inéditos de Marx, com o objetivo de publicá-los. E, em 1905, Káutski iniciou a publicação, sob o titulo de Teorias sobre a Mais-valia, daquilo que constituiria o 4&degree; volume de O Capital, segundo o plano de Marx: a análise histórica das teorias econômicas que tinham abordado, antes dele, as questões tratadas de maneira sistemática nos três primeiros volumes.

          Quando Engels comunicou a Bernstein a morte de Marx, numa carta escrita no próprio dia 14 de março de 1883, formulou a seguinte previsão: "Durante alguns anos, desaparecerão, com ele, da cena, seus pontos de vista elevados". A previsão se confirmou. As idéias de Marx se difundiram em escala apreciável; porém, ao se difundirem,, sofreram também um processo de empobrecimento filosófico. A época da 2&degree; Internacional, criada em 1889, não trouxe para o marxismo qual quer desenvolvimento teórico profundo.

          Mesmo os mais talentosos entre os teóricos marxistas dessa época da 2ª Internacional - como Káutski, Plekhânov, Lafargue e Mehring - não souberam salvaguardar, em muitos aspectos, a verdadeira essência da filosofia de Marx. Lafargue, por exemplo, escreveu um livro Intitulado O Determinismo Econômico de Karl Marx, publicado em 1909, no qual a concepção marxista da história perde a sua dimensão dialética e se vê reduzida às proporções mesquinhas de um economicismo. Plekhânov, por sua vez, ignorando o que existe de criação no trabalho dos artistas, reduzia a arte à sua gênese social e se punha a buscar um equivalente sociológico para a obra de arte. E Káutski tendia a assimilar as for mas especificas dos movimentos sociais às formas próprias dos movimentos biológicos, subordinando, assim, a perspectiva marxista à perspectiva de uma espécie de darwinismo social.

          Em fins de 1917, aproveitando as condições criadas pela falência do czarismo e pela guerra européia, um partido marxista conseguiu, na Rússia, pela primeira vez na história, tomar o poder e firmar-se nele. O Líder desse partido; Vladimir Ilitch Uliânov, mais conhecido como Lênin; tornou-se responsável por um revigoramento do marxismo.

          Infelizmente, porém, esse revigoramento foi cortado, após a morte de Lênin, pelas condições instauradas por Stálin.

          Com a morte de Stálin, entretanto, e com a desestalinização iniciada a partir de 1954, o marxismo reconquistou suas mais amplas possibilidades de desenvolvimento. Um texto que tem estimulado a reflexão marxista, nos nossos dias, é o texto dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1884, obra do jovem Marx que só veio a ser publicada em 1931: esse texto; que o próprio Lênin não chegou a conhecer; mostra com grande clareza a amplitude humanista da filosofia marxista e desautoriza as interpretações que apresentam a pensamento de Marx como uma mera doutrina econômica ou como unia simples teoria política estratificada em dogmas de tipo religioso.

          Marx elaborou as bases de uma vasta concepção do homem e do mundo. Por força das condições em que viveu e em virtude da urgência das tarefas que se impôs, não pôde desenvolver suas idéias no que concerne aos diversos planos da atividade humana: centrou-se no exame dos problemas econômicos, sociais e políticos. Sua contribuição à história da cultura, entretanto, ultrapassa os limites da economia, da sociologia e da política. Como diversos marxistas contemporâneos têm demonstrado; sobretudo Georg Lukács; a obra de Marx revela uma espantosa vitalidade quando a confrontamos com as mais variadas questões da época presente.

 
          Mesmo pensadores não marxistas reconhecem tal vitalidade. É por isso que um Heidegger, por exemplo, no fim de sua vida está se dedicando a reflexões sobre temas colhidos na obra de Marx, É por isso que Jean-Paul Sartre, tendo partido de pontos de vista existencialistas, desemboca na conclusão de que "o marxismo é a filosofia insuperável do nosso tempo". E é por isso que o católico Jean Lacroix, replicando àqueles que se apegam a uma versão dogmática do marxismo, escreve: "Em sua inspiração mais profunda, o espírito marxista é, sem dúvida, uma negação radical de todo dogmatismo" (Marxismo, Existencialismo, Personalismo).

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