Desentendimento
Com os gastos que precisou fazer para a edição de O Senhor Vogt, Marx viu piorar a sua situação econômica. A miséria chegou a tal ponto que Marx se viu obrigado a empreender uma viagem (que sua mulher chamou de "expedição pirata") à Holanda, a fim de obter dinheiro com seu tio Lion Philips. O tio acabou por lhe antecipar 160 libras da herança a que tinha direito por parte de sua mãe. O adiantamento, contudo, não lhe cobriu as despesas senão por um período bastante curto.
De volta à Inglaterra, depois de ter visitado Lassaíle na Alemanha, Marx se reintegrou, com sua família, na vida de pobreza que levava em Londres desde 1849. Em meados de 1862, num desesperado esforço por superar as privações, candidatou-se a uma vaga de escriturário na Companhia das Estradas de Ferro, porém a vaga lhe foi negada em virtude de sua má caligrafia. A persistência da situação de miséria não impediu Marx de prosseguir trabalhando em O Capital, mas diminuiu sensivelmente o rendimento do seu trabalho.
Em janeiro de 1863, Engels lhe escreveu de Manchester, acabrunhado, comunicando que morrera Mary Burns, a operária irlandesa com quem vivia maritalmente há cerca de dez anos. Embora Engels fosse mulherengo, afeiçoara-se sinceramente a Mary Burns e sentiu profundamente a sua perda. Marx, entretanto, estava inteiramente absorvido por sua desgraça particular e, na carta de resposta ao amigo, juntamente com os pêsames, fez- lhe uma exposição pormenorizada de sua situação econômica: "É terrivelmente egoísta de minha parte relatar-lhe, num momento como este, os horrores aqui expostos. Mas o remédio é homeopático, uma infelicidade faz esquecer a outra".
Engels se irritou com a resposta: "Escolheste uma boa ocasião para demonstrar a superioridade da tua frieza de espírito". Marx voltou a escrever-lhe, desculpando-se e pedindo-lhe que atribuísse o seu cinismo às circunstâncias; desesperadoras; em que se encontrava. Engels arranjou-lhe dinheiro e ainda o tranqüilizou: "Tua última carta apaga a anterior. Estou feliz de não ter perdido, ao mesmo tempo que Mary, o meu melhor e mais antigo amigo".
O incidente foi logo superado. Ele marca o único desentendimento; momentâneo; ocorrido na longa história das relações entre Marx e Engels. Engels, de resto, não demorou muito a se recuperar da perda de sua companheira; para a recuperação, contou com a ajuda de Lizzy Burns, irmã mais nova de Mary, com quem passou a viver maritalmente e a quem permaneceu ligado até morrer.
De 1861 até 1865, Marx acompanhou com grande interesse o que se passava nos Esta dos Unidos da América do Norte. A guerra de secessão; que opôs os Estados do norte aos Estados do sul e resultou na libertação dos es cravos negros; mereceu-lhe diversos comentários publicados no New York Daily Tribune e em Die Presse, ou incluídos em suas cartas.
Interpretando os fatos da guerra de se cessão, Marx foi o primeiro a formular certas idéias que mais tarde vieram a ser aceitas por quase todos os historiadores desvinculados de compromissos com posições conservadoras e libertos de preconceitos ideológicos.
Marx afirmou, por exemplo, que o fator decisivo na deflagração da guerra foi a divergência básica existente entre o desenvolvi mento econômico dos Estados industrializa- dos do norte e a estrutura conservadora dos Estados do sul. Os observadores políticos, na época, asseguravam que a causa da secessão tinha sido o elevado imposto protecionista decretado pelo governo em defesa dos interesses dos Estados do norte. Marx, porém, insistiu na tese de que a secessão tinha raízes mais profundas e viu no imposto Morrili apenas um episódio do choque geral entre as exigências da industrialização e as conveniências da oligarquia sulista. A secessão, escreveu Marx, "não ocorreu porque o imposto Morrill foi aprovado pelo Congresso; antes, pelo contrário, o imposto Morrill foi aprovado pelo Congresso porque tinha ocorrido a secessão".
Durante a guerra, os grandes jornais europeus, embora evitassem apoiar abertamente a causa sulista, criticavam asperamente o norte. Na Inglaterra, alguns políticos chegaram a organizar um movimento em favor da intervenção inglesa na guerra, apoiando o sul. No entanto, a oposição do povo a este movi mento impediu-o de dar frutos. E, além disso, como observou Marx pioneiramente, a Inglaterra precisava tanto do trigo do norte como do algodão do sul dos Estados Unidos, de modo que a sua intervenção no conflito podia lhe acarretar um duplo sacrifício comercial: ao corte do algodão, poderia se acrescentar o corte do trigo.
A guerra de secessão; assinalou Marx; assumiu uma significação diferente das outras campanhas militares verificadas em todo aquele período da história: ao contrário da guerra da Rússia contra a Turquia, ao contrário da guerra da Itália e da França contra a Áustria ou da invasão da China por ingleses e franceses, ela sensibilizou a opinião pública mundial.
No curso da luta dos escravistas contra antiescravistas, nos Estados Unidos, houve momentos em que a vitória da oligarquia sulista parecia mais provável do que o êxito das tropas do norte. O próprio Engels, analisando a desordem reinante nos exércitos nortistas, chegou a duvidar do triunfo da causa do norte. Marx, todavia, não hesitou: para ele, a vitória só poderia caber ao lado politicamente mais progressista e economicamente mais desenvolvido. "Parece-me; escreveu ele a Engels; que te deixas guiar um pouco excessivamente pelo aspecto militar da coisa", E a evolução posterior dos acontecimentos lhe deu razão.
Quando a guerra já estava decidida, em 7 de janeiro de 1885, a Associação Internacional dos Trabalhadores, de cuja direção Marx participava, enviou a Abraão Lincoln uma mensagem de congratulações por sua reeleição na Presidência dos Estados Unidos. Nesta mensagem, os trabalhadores europeus, lembrando o fato de que Lincoln era filho de lenhadores, diziam considerar um bom prenúncio para o futuro "que tenha sido escolhido Abraão Lincoln, o sincero filho da classe operária, para dirigir o país através da inigualada luta pelo resgate de uma raça escravizada e pela reconstrução da sociedade".
Lincoln mandou resposta, pelos canais diplomáticos próprios, afiançando que o seu governo tinha plena consciência de que os Estados Unidos não eram e nem poderiam ser reacionários. Além disso, declarou que a mensagem dos trabalhadores europeus lhe infundia "renovado ânimo" para prosseguir em sua luta. No entanto, o seu assassinato em 14 de abril de 1865 impediu esse prosseguimento. A resposta à mensagem da Associação Internacional dos Trabalhadores foi um dos últimos atos políticos de Lincoln.
A Associação Internacional dos Trabalhadores ; que posteriormente ficou sendo conhecida como "A primeira Internacional"; foi criada por decisão de um comício operário realizado em Saint Martin's Hail (Londres), a 28 de setembro de 1864.
Naquela época, a vanguarda do proletariado inglês e a vanguarda do proletariado francês tinham ficado poderosamente impressionadas com a rebelião popular polonesa de 1863 e com a repressão czarista russa àquele movimento. Os trabalhadores de diversos países europeus começavam a se convencer de que seus problemas eram comuns, de que seus inimigos eram os mesmos e de que para lutar melhor em defesa de suas reivindicações locais precisavam se unir acima das fronteiras.
A Internacional foi organizada com o objetivo de tornar mais solidários os operários dos diferentes países. O comício de Saint Martin's Hall elegeu um comitê encarregado de redigir um projeto de estatutos. Esse projeto acabou sendo redigido por Marx, que fazia, parte do comitê e transigiu, na redação, com as outras correntes do pensamento socialista chamadas a participar da associação.
O texto afirmava que os trabalhadores organizados sob a égide da Internacional adotavam em face de todos os homens uma conduta baseada na verdade, na moral e na justiça. Mas afirmava, também, outras teses mais concretas: 1) a de que a emancipação dos trabalhadores devia ser obra deles mesmos;
2) a de que a libertação dos operários devia acabar com toda e qualquer forma de dominação de classe;
3) a de que a luta política era necessária e devia sempre ter como objetivo final a emancipação econômica da classe trabalhadora; e
4) a de que a libertação do proletariado exigia a atividade conjugada; tanto teórica como prática; dos trabalhadores dos diversos países.Marx apresentou seu anteprojeto na terceira reunião do comitê e sustentou-o com argumentos hábeis, sem qualquer sectarismo. O comitê o aprovou por unanimidade. A Internacional, então, se pôs imediatamente em funcionamento.
Uma das primeiras tarefas com que a Internacional se defrontou foi a do combate às manobras de Napoleão III, que procurava "amolecer" o combativo proletariado francês estimulando a formação de cooperativas de trabalhadores e premiando com quinhentos mil francos cada cooperativa que se fundava.
Na luta contra as ilusões do "cooperativismo", a Internacional contou com a preciosa ajuda de Augusto Blanqui. Blanqui -- cujo prestigio era imenso no meio dos trabalhadores estava preso, na ocasião. ( Ele passou, aliás, mais de quarenta anos no cárcere). De dentro da sua cela, porém, mandava instruções aos seus seguidores, recomendando lhes que combatessem a idéia de que as cooperativas poderiam, acabar com a exploração da classe operária. Bianqui acabara de ler na prisão A Miséria da Filosofia de Marx e estava convencido de que o proletariado precisava combater as ilusões reformistas do tipo das de Proudhon.
Além da luta contra as ilusões do "cooperativismo", a Internacional; embora lutando contra a falta de meios; deu apoio material, efetivo, a diversas greves. No principio de 1867, por exemplo, a Internacional conseguiu um extraordinário êxito ao enviar ajuda financeira dos sindicatos ingleses aos operários parisienses da indústria do bronze, que assim puderam sair vitoriosos de uma greve contra seus patrões, E em 20 de junho de 1870, a Internacional mandou à França um representante seu com dinheiro dos sindica tos Ingleses da construção mecânica para o pessoal da fundição, que estava em greve em Paris.
A burguesia dos diversos países não se conformou com as atividades do organismo e protestou, acusando-o de promover a subversão em toda parte. Um grupo de capitalistas suíços chegou a denunciar a existência de um fundo de milhões que seria manipulado pelos subversivos. Marx franqueou o exame do cofre vazio da organização operária a um emissário dos suíços.
Quando a imprensa burguesa percebeu o avanço do movimento dos trabalhadores e acusou a associação deles de ter provocado várias greves, Marx respondeu: "Não foi a Internacional que levou os operários à greve; foram as greves que levaram os operários à Internacional".
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