História
O que sempre ajudou Marx a manter o ânimo forte foi a sua capacidade de se concentrar no trabalho e no estudo. Em meio à crise, atormentado pelos credores, pela preocupação com o pão de cada dia, por furúnculos e hemorróidas, por infâmias policiais e dissidências revolucionárias, Marx lia sem parar e coligia dados para suas análises. Para consultar livros que não podia comprar, ia à Biblioteca Pública de Londres. Para adquirir papel onde pudesse anotar suas observações, levava peças de roupa à casa de penhores.Nos primeiros anos de exílio londrino; e apesar da sua convicção de que a Economia Política não tinha feito progressos substancias desde Adam Smith e David Ricardo; Marx leu e estudou os livros de B. Torrens, T. Hodgskin, Malthus, Ure, J. G. Hubbard, Nassau Senior, W. H. Prescott, Bastiat, J. Gray e diversos outros autores. Pieper, em carta a Engels (janeiro de 1851), referiu-se a Marx dizendo: "Quando vou visitá-lo, não sou recebido com saudações e sim com categorias econômicas".
Marx estudava com afinco a economia, a organização bancária, o crédito, a renda da terra e a tecnologia industrial. Mas não o fazia com o espírito de um especialista. Por isso, a consideração das questões econômicas exigia, para ele uma complementação, que era a consideração dos problemas humanos mais amplos em geral.
Interessado em compreender as causas da situação decepcionante a que chegara a França, Marx afastou-se momentaneamente da teoria econômica e iniciou a elaboração de dois estudos destinados a servir de teste prático para a sua concepção da história: As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850 e O 18 Brumário de Luiz Bonaparte.
De acordo com o materialismo histórico (que é a concepção marxista da história), é impossível ter uma compreensão científica das grandes mudanças sociais sem ir à raiz dessas mudanças, quer dizer, sem chegar às causas econômicas que, em última instância, as determinam. Daí que um marxista, quando se dispõe a analisar um determinado período histórico, procure sempre dispor das mais completas e seguras informações acerca da situação econômica e de suas transformações no período a ser analisado.
Quando Marx resolveu aplicar o seu método à análise de fatos históricos que mal tinham acabado de acontecer; e, ainda por cima, não em um artigo de jornal, mas em dois ensaios bastante desenvolvidos; ele sabia que estava sendo excessivamente ousado. Os dados de que dispunha eram insuficientes: as estatísticas não lhe podiam proporcionar os elementos necessários à compreensão da evolução recente da situação econômica da França.
Apesar da ousadia, no entanto, Marx se saiu multo bem da prova que se impusera:
tanto As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850 (publicado em capítulos pela Nova Gazeta Renana, em seu período londrino) como O 18 Brumário de Luiz Bonaparte (publica do pela revista A Revolução, de Joseph Weydemeyer, editada em New York) resistiram bem à ação do tempo e ao confronto com a evolução posterior dos fatos.O estudo sobre As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850 mostrou que o reinado de Luiz Filipe (de 1830 a 1848) fôra um período em que dominara uma fração da burguesia francesa: a fração constituída pelos banqueiros, especuladores da Bolsa, donos de estradas de ferro, proprietários de minas, detentores de explorações florestais e demais integrantes da chamada "aristocracia financeira". A burguesia industrial, a pequena burguesia e a grande massa dos pequenos proprietários rurais (camponeses ); tal como, é claro, o proletariado; tinham ficado excluídas do poder político.
Em fevereiro de 1848, um movimento popular abrira as portas da direção do Estado para a burguesia industrial e para a pequena burguesia. O proletariado; que participara decisivamente da deposição de Luiz Filipe e impusera a forma republicana de governo; teve uma colher de chá momentânea no governo provisório, mas acabou excluído da direção do Estado. E os camponeses (os pequenos proprietários rurais) foram esquecidos.
Em junho de 1848, os operários se sublevaram e foram derrotados. A pequena burguesia urbana, que apoiara a repressão ao movimento operário, não tardou a ver que embarcara em uma canoa furada, pois logo a política econômica e financeira do governo passou a lhe impor graves prejuízos. Foi então que; conforme a análise do 18 Brumário de Luiz Bonaparte; um aventureiro medíocre e inescrupuloso, explorando o fato de ser sobrinho de Napoleão, capitalizando o descontentamento generalizado, cresceu na arena política francesa e chegou a ser eleito Presidente da República.
Posto na chefia do Executivo, Luiz Bonaparte tratou logo de preparar o golpe que o levaria a ser coroado imperador: o seu "18 Brumário". Apoiou-se, sobretudo, nos peque nos proprietários rurais (camponeses) e no lumpemproletariado urbano (a marginalidade, os ladrões, os mendigos, as prostitutas, os gigolôs, etc.). Algumas concessões populistas conseguiram trazer para a sua área a pequena burguesia e amplos setores do proletariado. Mas a área de manobra que ele utilizou ainda foi maior: a "aristocracia financeira" que governara a França até 1848 viu no boêmio um boneco que ela poderia facilmente controlar. E as duas correntes monarquistas; a dos adeptos da Casa de Orleans e a dos adeptos da Casa dos Bourbons; viram na sua ascensão um meio de desmoralizar definitivamente o regime republicano e de abrir caminho para a restauração da "verdadeira" monarquia.
A mediocridade de Luiz Bonaparte, por tanto, não foi um empecilho à sua vitória: ela levou-o a obter apoio nas mais diversas áreas, levou-o a reunir condições favoráveis para ser o líder mesquinho de um momento mesquinho da história da França. E, quando a ocasião surgiu, em 2 de dezembro de 1851, ele fechou o Parlamento, escorou-se no exército e substituiu, de fato, a palavra de ordem da Revolução Francesa ("Liberdade, Igualdade, Fraternidade") pela palavra de ordem do bonapartismo ("Infantaria, Cavalaria e Artilharia").
Durante anos, Marx planejou escrever um livro no qual promoveria a revisão da Economia Política. Chegou a expor a Engels e a outros amigos um plano para a realização da obra, em três volumes, porém considerava-o provisório e não se decidia a pô-lo imediatamente em prática. Ia recolhendo novos dados, revendo e ampliando o plano original, adiando sempre a publicação de seu estudo.
Ferdinand Lassaile, jovem e talentoso advogado socialista, admirador de Marx, escreveu-lhe em 12 de maio de 1851 uma carta perguntando pela obra, "esse monstro em três volumes do Ricardo que se tornou socialista e do Hegel que se tornou economista". Engels também pressionava Marx no sentido de que este acabasse logo o livro: "Não sei quando te convencerás de que não tens por que seres tão consciencioso em tuas coisas e de que ele está mais do que bem para o público. O principal é que o escrevas e que ele se publique. Os defeitos que porventura envergues nele não serão vistos pelos asnos". Marx, no entanto, evitava qualquer precipitação e deixou de seguir o conselho do amigo.
Enquanto buscava Os elementos que considerava necessários à elaboração do seu livro, Marx para ganhar a vida, escrevia artigos sobre política internacional. Escrevia, por exemplo, para o People's Paper, jornal do movi mento cartista. Escrevia para a Neue Oder Zeitung, publicação liberal que sala em Breslau, na Silésia (região hoje pertencente à Polônia). E escrevia para The Free Press, revista do diplomata inglês David Urquhart, admirador extremado da Turquia ("monomaníaco", segundo Marx), que apreciara muito uns artigos que Marx escrevera, criticando a guerra da Rússia czarista contra a Turquia e as franquezas e equívocos do Ministro inglês Palmerstom em face da política russa.
A colaboração jornalística mais digna de interesse, entretanto, a que encerra maior número de artigos, foi a que Marx encaminhou. ao longo de vários anos para o New York Daily Tribune. A matéria era inicialmente escrita por Engels, ou por este traduzida, pois Marx ainda não dominava a língua inglesa. Em meados de 1853, porém, Marx já se animava a redigi-la sozinho.
No New York Daily Tribune, Marx comentou a insurreição ocorrida na Espanha em 1854, quando dois generais; O'Donnell e Dulce; mobilizaram suas tropas contra o rei, procurando capitalizar o descontentamento do povo ante a política econômica e financeira da monarquia. Para melhor estudar a história da Espanha, Marx aprendeu o espanhol e lia constantemente no original as obras de Cervantes e Calderón.
Marx sabia que a miséria do povo, por si só, nunca basta para provocar uma rebelião popular e menos ainda para fazer com que ela vença. Por isso, ele não se surpreendeu quando, em 1856, as forças reacionárias da Espanha derrotaram o movimento iniciado em 1854. Embora tenha fracassado, explicou Marx, o movimento acarretou um progresso histórico. "Um progresso cuja lentidão só pode assombrar aos que não conheçam os hábitos e costumes de um país onde todo mundo está sempre disposto a dizer que seus ante passados levaram oitocentos anos para expulsar os mouros
O redator do New York Daily Tribune que recebia a colaboração e mandava publicá-la era um jornalista chamado Charles Daria, que Marx conhecera em Colônia, nos tempos da Nova Gazeta Renana. Uma ocasião, Marx propôs a Dana escrever uma história da moderna filosofia alemã para ser editada em livro nos Estados Unidos. Dana respondeu que só dispunha de editor caso Marx lhe garantisse que a obra proposta não ia ferir os "sentimentos religiosos" do povo norte-americano. A história acabou não sendo escrita.
No New York Daily Tribune, em 1853, Marx analisou o domínio britânico na índia, mostrando que a exploração inglesa foi para o povo indiano uma verdadeira calamidade, pois destruiu o seu modo de vida tradicional e saqueou-lhe impiedosamente as riquezas, além de explorar-lhe o trabalho. Porém; conforme assinalou Marx; a situação de atraso da índia, embora tenha sido agravada pela exploração colonial britânica, encontrou nessa própria exploração as condições necessárias à sua modificação. Os ingleses, levando a tecnologia desenvolvida de que dispunham à índia, destruíram a "inocência" em que vegetava o povo indiano, Depois de terem entrado em contato com o poderio industrial da Inglaterra e de lhe terem sofrido o peso, os indianos não mais abandonariam suas exigências no sentido de que o país deles também viesse a se industrializar.
Os anos de trabalho para o Neto York Daily Tribune foram cheios de incidentes e flutuações na vida de Marx. Houve momentos em que Marx, cheio de esperanças, chegou a admitir a possibilidade de ir morar com sua família nos Estados Unidos. Em outros períodos, contudo, surgiam aborrecimentos. Certos artigos eram publicados como edito riais, sem assinatura. Alguns saíam assina dos, porém sofriam cortes. E outros, ainda. mofavam nas gavetas e não conseguiam publicação: havia na redação do jornal estadunidense um redator; o polonês Gurovski que simpatizava com a Rússia czarista e procurava impedir que chegassem ao público os ataques de Marx à política russa.
Uma vez, tendo escrito a Dana uma carta de reclamação, Marx recebeu dele uma proposta de colaboração para a New American Cyclopedia ("Nova Enciclopédia Americana"), Depois de consultar Engels, aceitou. E começou a redigir uma série de verbetes sobre assuntos históricos. A verdade, contudo, é que nem os ver betes da enciclopédia nem os artigos escritos para diversos jornais chegavam a proporcionar a Marx mais do que um desafogo momentâneo. Sua situação habitual, durante cerca de vinte anos, foi a de miséria. Nessa época, por exemplo, a mulher de Marx dera à luz uma filha (Eleanor) e a família, per seguida pelos credores, se viu obrigada a refugiar-se durante alguns meses na casa de Engels.
Antes de passar essa temporada na casa de seu amigo, entretanto, Marx ainda se viu atingido por um novo e rude golpe em sua vida privada: em 12 de abril de 1855, aos nove anos de idade, morreu seu dileto filho Edgar (apelidado Mush).
A morte do garoto deixou Marx acabrunhadíssimo. Em total prostração, ele escreveu a Engels: "Tenho passado por todas as espécies de dificuldades, mas só agora sei mesmo o que é uma verdadeira desgraça".
E, dois meses depois, ainda escreveu a Lassaíle: "Bacon diz que os grandes homens têm relações tão diversas com a natureza e com o mundo, têm tantos objetivos a reter lhes a atenção, que lhes é fácil esquecer a dor de qualquer perda. Pois bem: não sou um desses grandes homens. A morte de meu filho me abalou profundamente o coração e a cabeça. E continuo a sentir-lhe a falta com a mesma intensidade que no primeiro dia".
CRÍTICA
1857, Marx estava doente do fígado e Engels se achava às voltas com graves per turbações glandulares. Jenny Marx, igual mente, não andava bem de saúde e dera à luz urna criança que nascera morta. No final do ano, entretanto, uma crise financeira abalou a Inglaterra e o resto da Europa. Isso bastou para que Marx se animasse. Em meio às dores do fígado e à mi séria habitual, ele escreveu a Engels: "Desde 1849, nunca me senti tão bem como agora'. E Engels respondeu com o mesmo entusiasmo: "A crise produz em mim o mesmo bem- estar físico de um banho de mar".
Jenny, por sua vez, em carta a Conrad Schramm, amigo de seu marido, deu o seguinte testemunho: "Você não pode imaginar como o Mouro está satisfeito. Voltaram lhe a capacidade e a facilidade no trabalho, voltaram-lhe a juventude e a alegria de espírito dos melhores tempos" (Mouro era o apelido de Marx no meio da família, por causa da sua tez morena) Marx e Engels viram na crise a possibilidade de ocorrerem profundas modificações políticas e até, nos países onde o proletariado estivesse organizado, a possibilidade da classe operária tomar o poder. Em 1857, entretanto, nada disso chegou a acontecer: as conseqüências da crise foram muito menos drásticas do que os dois amigos esperavam.
A crise de 1857 foi menos útil para o movimento socialista do que para os nacionalista italianos, que, desde 1848, vinham fazendo força para promover a unificação da Itália. Aproveitando os efeitos da crise, a Sardenha, sob a liderança política de Cavour, entrou em entendimentos com a França e se insurgiu contra a dominação austríaca. Napoleão III, imperador francês, apoiou a Sardenha em troca de Savóia e Nice, posterior mente entregues à França.
Marx escreveu diversos artigos sobre os acontecimentos da Itália, procurando pôr a nu no exame da questão italiana os interesses particulares contraditórios da Áustria, da Prússia, da França e da Inglaterra. Além disso, Marx incentivou Engels numa polêmica deste com Lassalle a propósito da questão. Lassalle, impressionado com as veleidades imperialistas de Napoleão III, preconizava para a Prússia uma política que resultaria em fortalecimento do imperialismo alemão, que mais tarde teve em Bismark o seu primeiro organizador.
Enquanto isso, na própria época da crise de 1857, a burguesia inglesa foi levada a enfrentar com brutalidade o movimento nacionalista chinês que ameaçava prejudicar o seu lucrativo comércio no oriente, impondo entraves ao tráfico do ópio. As Forças Armadas da Inglaterra bombardearam Cantão e impuseram aos chineses uma devastadora derrota militar, que garantiu a sobrevivência dos interesses comerciais britânicos na China.
Curiosamente, nesta guerra contra o nacionalismo chinês, a burguesia inglesa contou com a ajuda do imperador dos franceses. Colocado numa dependência cada vez maior em face dos financistas ingleses, Napoleão III estava quase transformado num vassalo deles. A situação era melancólica: o sobrinho, que fizera carreira explorando a fama de seu ilustre tio, servia agora de criado aos que o tinham vencido em Waterloo, Marx não deixou de chamar a atenção para o fato nos artigos que escrevia para o New York Daily Tribune.
O fato de que a crise de 1857 não tivesse produzido efeitos mais profundos levou Marx à convicção de que precisava analisar mais detidamente a estrutura da sociedade capitalista. E começou, então, por estudar os problemas de método cujo esclarecimento considerava indispensável aos economistas e redigiu uma Introdução Geral à Crítica da Economia Política. Depois, redigiu uma série de anotações que vieram mais tarde a. ser conhecidas como Fundamentos da Economia Política. Por fim, baseado na experiência dos dois trabalhos anteriores, escreveu o livro Contribuição à Critica da Economia Política.
Dos três trabalhos acima referidos, só o último foi publicado ainda em vida de Marx: saiu em 1859. A Introdução Geral não foi publicado porque Marx achou que ela pareceria dogmática aos olhos dos leitores exigentes, pois antecipava conclusões que deveriam de correr de análises que ainda não tinham si do suficientemente desenvolvidas. Fundamentos, por sua vez, permaneceu um escrito fragmentário, incompleto. Por isso, a introdução Geral permaneceu inédita até 1903 e Fundamentos ("Grundrisse") até 1939.
Quanto à Contribuição à Crítica da Economia Política; o livro que Marx chegou a publicar; trata-se de um trabalho que antecipa as idéias constantes dos quatro primeiros capítulos do Capital. Quando falarmos do Capital, procuraremos ver, resumidamente, em que consistem essas idéias de Marx.
Embora o estudo da economia e a análise política fossem as duas ocupações principais de Marx, ele não limitava a estes dois campos a sua intensa e variada atividade intelectual. Seu conhecimento se desenvolvia constantemente em diversas direções, acumulando vasta soma de dados, que Marx do minava sem ostentação.
Para aprofundar suas análises políticas, Marx estudava a história dos povos cujos problemas queria compreender. Para desenvolver o método justo de abordagem das questões teóricas da economia, releu em 1859, a Lógica de Hegel; e realizou estudos de matemática (sobretudo de cálculo diferencial e integral). Mesmo áreas mais afastadas de suas pesquisas políticas e econômicas mereciam sua atenção. O aparecimento da Origem das Espécies de Darwin, em 1859, não lhe passou despercebido: um ano depois, já tinha lido a obra. Além disso, quando Engels se achava doente e os médicos não conseguiam dar jeito em seus problemas glandulares, Marx interessou-se pelo assunto e, procurando formular um diagnóstico para o caso do amigo, leu diversos livros de medicina.
Outra esfera da atividade humana pela qual Marx sempre se sentiu atraído foi a da arte. Em sua adolescência, ele escreveu poemas e fez algumas tentativas mal sucedidas de criação literária. Aos 24 anos, dedicou-se a um ensaio sobre a arte cristã. Nos Manuscritos de 1844, incluiu importantíssimas reflexões a respeito da arte como educadora dos sentidos humanos, como atividade humanizadora das criaturas. N'A Sagrada Família, fez uma longa e penetrante critica do romance Os Mistérios de Paris de Eugênio Sue, mostrando que muitos intelectuais "de esquerda", na época, estavam considerando conteúdo social progressista no livro de Sue aquilo que não passava de demagogia sentimentalóide de fundo conservador.
Também em A Ideologia Alemã Marx tratou de questões ligadas à arte. Ele indicou a importância do comunismo para a criação artística: na medida em que for superada a divisão da sociedade em classes, na medida em que os artistas não mais se acharem na dependência de determinadas classes sociais e dos interesses particulares destas classes, a criação artística será mais livre e alcançará resultados melhores. Nem todos os artistas se transformarão em gênios, mas todos os artistas que forem realmente geniais poderão se desenvolver sem entraves, isto é, poderão trabalhar com independência, sem estarem presos às injunções do mercado capitalista.
Em 1857, Charles Dana convidou Marx a escrever para a New American Cyclopedia um artigo sobre "Estética"; Marx chegou a ler a Estética de Friedrich Theodor Vischer, mas não escreveu o artigo. Na Introdução Geral à Crítica da Economia Política entretanto, Marx deu conta de suas novas reflexões a respeito da arte.
Para Marx, a produção artística não poderia ser avaliada se não a encarássemos a partir das condições históricas em que ela surge. Toda obra de arte exprime a sua época, a sociedade particular em que ela se cria. Toda obra de arte traduz uma determinada concepção do mundo, própria de uma deter minada classe social. Marx, porém, entendia que a arte jamais se reduz à sua gênese social. Como resultado de uma atividade criadora do homem, a obra de arte é sempre algo mais do que o mero quadro das condições em que ela aparece.
Na medida em que a arte é capaz de refletir profundamente a condição humana de uma determinada época histórica ela se ele vá à universalidade e conquista o poder de manter a sua vitalidade ao longo da história, comunicando ensinamentos e emoções significativas a homens de diferentes períodos e diferentes países. Marx prezava imensamente a rica experiência transmitida pelos grandes artistas do passado e lia constantemente as tragédias de Ésquilo (no original grego) e de Shakespeare. Eleanor; uma das filhas de Marx; escreveu depois da morte de seu pai que Shakespeare era uma espécie de Bíblia em sua casa. E Wilhelm Liebknetch, amigo da família, informa que Marx sabia de cor quase toda a Divina Comédia de Dante.
Entre os romancistas, por outro lado, Marx tinha especial admiração por Balzac. Embora Balzac fosse politicamente um conservador, Marx achava que os romances dele refletiam tão profundamente a realidade de época que assumiam até uma significação revolucionária, pois mostravam a estrutura social como uma coisa que estava sendo transformada e precisava mesmo ser submetida a uma transformação. Marx gostava tanto da obra de Balzac que, quando acabasse de escrever O Capital, pretendia se dedicar a um estudo aprofundado dela. Infelizmente, a morte não lhe deu tempo para esse trabalho.
Em 1860, Marx foi obrigado a interromper todos os seus estudos econômicos e políticos por causa de uma desavença com Karl Vogt, materialista vulgar que sustentava, de maneira bastante simplista, que o cérebro produz as idéias tal como o fígado produz a bílis e os rins produzem a urina. A briga de Marx com Vogt não foi motivada pelas idéias filosóficas deste e sim por seu comportamento político.
Marx sabia que a produção da bílis pelo fígado e a produção de urina pelos rins são processos biológicos, ao passo que a produção de idéias pelo cérebro é um processo social. As idéias, ao contrário da bílis ou da urina, podem influir ativamente sobre o destino da humanidade como um todo. Porém Marx não se incomodava com o fato de que Vogt sustentasse pontos de vista filosoficamente tão frágeis: o que lhe aborrecia era o fato de Vogt, da Suíça onde se achava, interferir no trabalho das organizações socialistas e revolucionárias da Alemanha, criando crescentes dificuldades para a ação da vanguarda da classe operária.
Certa ocasião, um refugiado alemão chamado Karl Blind procurou Marx em Londres e afirmou-lhe possuir documentos que provavam ser Vogt um agente assalariado de Napoleão III. Marx comunicou o fato ao jornalista Biskamp e este, por sua conta, inseriu em um número do jornal O Povo um texto anônimo denunciando Vogt como espião e traidor. Vogt, enfurecido, processou O Povo por calúnia; e, embora o processo judicial não tenha resultado em condenação alguma, o "calunia do" teve uma vitória moral já que a direção do jornal não conseguiu apresentar provas do que afirmara (pois Karl Blind jamais exibiu os documentos que dissera ter em seu poder).
Animado com a repercussão do caso, Vogt publicou um folheto em que acusava Marx de ser o chefe de uma "gang" de achacadores exilados em Londres que tomavam dinheiro dos patriotas alemães sob a ameaça de mover contra eles violentas campanhas de imprensa. Atacado em sua honra, Marx foi compelido a replicar: dedicou-se durante todo o ano de 1860 a redigir um volume intitula do O Senhor Vogt, editado em Londres, em seguida, às suas expensas, com imenso sacrifício.
Neste livro polêmico, Marx demonstrou, com grande abundância de exemplos, que as campanhas lançadas por Vogt correspondiam sempre aos interesses no momento defendi dos por Napoleão III. Anos mais tarde, após a queda de Napoleão III, foi encontrado nos arquivos secretos das Tolherias um documento que comprovava a entrega a Vogt pela polida francesa da importância de 40.000 francos, em agosto de 1859.
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