RETORNO
A publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica nos grandes centros industriais da Europa e com agitações políticas em diversos países europeus. Na Suíça, os democratas haviam enfrentado um movimento separatista interno dos clericais e, apesar do apoio dado a este movimento separatista pelas potências reacionárias da "Santa Aliança", tinham levado a melhor. Com isso, trouxeram poderoso incentivo aos democratas de todo o continente. No norte da Itália, os democratas saíram às ruas e tiveram choques com a policia dos conservadores.
Em Palermo, explodiu uma rebelião popular. Na França, em 24de fevereiro de1848, uma sublevação forçou a queda do rei Luiz Felipe. Um representante do governo provisório instalado em Paris; Flocon; escreveu a Marx, convidando-o a voltar à França. Marx já estava se preparando para deixar Bruxelas quando foi vitima de acontecimentos desagradáveis. O rei Leopoldo, da Bélgica, genro de Luiz Filipe, sentindo-se ameaçado pela morte política do sogro, fez urna aliança com o partido liberal e desencadeou uma violenta repressão contra os democratas, contra os republicanos e especialmente contra o movimento operário. No curso dessa repressão, Marx foi preso. E, em seguida, foi igualmente presa sua esposa, a senhora Jenny Marx, que chegou a passar algumas horas em uma cela juntamente com três prostitutas. A imprensa protestou contra o tratamento dado ao casal Marx, lembrando que ele era professor de filosofia e ela era irmã de um alto figurão da política alemã. O escândalo foi grande: houve até interpelação ao Ministro da Justiça, formulada pelo deputado Bricourt. Mas as manifestações de solidariedade não impediram que Marx e a mulher fossem expulsos da Bélgica.Chegando a Paris, em 6 de março, Marx encontrou um clima de euforia revolucionária. Com o apoio de Herwegh e de Bakunin, Adalbert von Bornstedt; uma sinuosa figura de aventureiro; estava organizando um exército de refugiados (de bandeira negra, amarela e vermelha) com o qual pretendia invadir a Alemanha. O governo provisório da França financiava Bornstedt, com o intuito de livrar-se o mais rapidamente possível dos refugiados.
Marx não concordou com a invasão. Para ele, a libertação da Alemanha deveria se fazer de dentro para fora e não de fora para dentro. Sua opinião era a de que os refugia dos deveriam regressar individualmente à Ale manha e lá deveriam se organizar com vista à insurreição das massas. Por se opor à aventura militar, Marx foi chamado de "covarde" e "traidor". No entanto, seu ponto de vista foi confirmado pelos fatos que vieram a se suceder. A invasão de Bornstedt foi um fiasco: a reação explorou-a para levar amplos círculos da população alemã a uma atitude de má vontade para com os republicanos e os socialistas, acusando-os de falta de patriotismo.
Uma última tentativa de envolver Marx em operações militares foi feita pelo velho duque de Brunswick, aristocrata decadente, bêbado e corrupto, que se dispunha a financiar um levante na Prússia caso lhe fosse de volvido o seu antigo ducado. Mas, ainda aqui, Marx não se deixou desviar do caminho da sensatez revolucionária.
A situação da Alemanha (da Prússia) exigia outro tipo de ação: o reacionaríssimo Metternich havia caído e o rei Frederico Guilherme IV estava assustado, fazendo concessões aos liberais e aos constitucionalistas. Processava-se uma democratização interna, parcial e momentânea, na vida alemã.
Marx e Engels aproveitaram o momento e, no dia 10 de abril, vieram instalar-se em Colônia, na Prússia Renana, exatamente na região onde ambos haviam nascido.
Em Colônia. funcionara, anos atrás, a Gazeta Renana. E Colônia foi o lugar que Marx e Engels escolheram para ser a sede de uma nova publicação, cujo primeiro número apareceu em 19 de maio de 1848: a Nova Gazeta Renana.
A revista se intitulava "órgão da democracia". Achando-se o movimento operário muito fraco na região, Marx entendeu que ele devia trabalhar em aliança com os democratas burgueses, devia formar uma espécie de ala esquerda da liberal-democracia. À Nova Gazeta Renana cabia defender a posição correspondente a esta ala esquerda: Marx ficou como redator-chefe da revista e Engels, Burgers, Dronke, George Weerth, Ferdinand e Wilhelm Wolff compuseram o quadro dos seus colaboradores permanentes.
No interior do movimento operário, desenvolveu-se uma oposição à linha "conciliadora" e "reformista" da Nova Gazeta Rena- na. o líder dessa oposição "de esquerda" a Marx era o médico André Gottschalk. Segundo Gottschalk, a vanguarda do movimento operário devia apresentar um programa clara e diretamente comunista e lutar pela sua imediata realização. Gottschalk era contra a participação dos comunistas nas eleições. Marx denunciou o oportunismo existente sob a máscara do aparente "radicalismo" de Gottschalk dizendo que as posições do outro levavam os revolucionários à seguinte (e inaceitável) alternativa: "Ou tomamos agora mesmo o poder ou então vamos para casa descansar".
Enquanto pôde, Marx procurou aproveitar as oportunidades que ainda se achavam abertas para um trabalho político em aliança com os democratas. Cedo, porém, essas possibilidades foram desaparecendo. A burguesia francesa iludira o proletariado francês explorando em seu proveito exclusivo o movi mento popular de fevereiro de 1848 e depois reprimira com violência um protesto operário verificado em junho de 1848. A reação, na Prússia, passada a tempestade, se reorganizou e voltou à ofensiva.
No final de 1849, Marx ainda tinha esperanças em novo levante do proletariado francês. Logo, no entanto, a esperança se dissipou. A situação internacional piorou e a situação Interna piorou também. A burguesia alemã, fraca, adotou uma política de conciliação em face das forças reacionárias locais e facilitou o fortalecimento delas, o governo, então, fechou arbitrariamente o Congresso e decretou o estado de sitio em Colônia: a publicação da Nova Gazeta Renana foi temporariamente suspensa.
Tendo sido expedido um mandado de prisão contra Engels, o grande amigo de Marx foi obrigado a sair da cidade. Na companhia de Dronke e dos irmãos Wolff; igualmente per seguidos; Engels dirigiu-se a Bruxelas e de lá, com a polícia nos calcanhares, encaminhou- se para a Suíça. Como se achava completa mente sem dinheiro, Engels fez a viagem a pé, admirando os vinhos e as mulheres, com a ajuda financeira de Marx.
Posteriormente, os democratas do sul da Alemanha se insurgiram contra o fechamento do Congresso e pegaram em armas para defender a legalidade. Engels alistou-se nas tropas da região de Baden e notabilizou-se como oficial e estrategista. Contudo, a superioridade militar do governo era imensa e os democratas, prejudicados por numerosas sisões internas, foram derrotados. O batalhão de Engels acabou sendo forçado a internar-se na Suíça. Quando o prazo do estado de sítio terminou, a Nova Gazeta Renana reapareceu, sem Engels, sem Dronke, sem os irmãos Wolff. E, ainda por cima, sem fundos: mais da metade dos assinantes haviam cancelado suas assinaturas. Marx foi obrigado a fazer empréstimos em seu nome pessoal para sustentar a revista. As precárias condições econômicas, entre tanto, não impediram que a linha política da publicação viesse a ser mais radical e mais agressiva do que no período anterior.
Em conseqüência dos ataques que Marx lhe fazia, o governo decidiu processá-lo. Diante dos juizes, Marx afirmou que o governo dera um golpe e desrespeitara. as leis vigentes, de modo que só com muita hipocrisia poderia pretender aplicar tais leis contra os seus adversários vencidos. O Tribunal de Colônia absolveu Marx. Desistindo, afinal, de recorrer aos meios legais, o governo, aproveitando o fato de Marx achar-se momentaneamente fora da cidade, vibrou um golpe de morte na Nova Gazeta Renana, decretando a expulsão de Marx do pais.
Em maio de 1849, no meio da mais absoluta falta de recursos, Marx teve, assim, que deslocar-se para Paris (e logo depois para Londres), na companhia de seus três filhos, de sua mulher (que estava grávida) e de Helena Demuth, fiel criada de Jenny, já integra da à família.
Em 24 de agosto de 1849, Marx deixou Paris para se instalar em Londres, onde permaneceu, em geral, até o fim de sua vida...
Para sobreviver; e também para se desincumbir de uma tarefa de propaganda revolucionária; reorganizou em Londres a Nova Gazeta Renana, em forma de revista mensal, e chegou a editar seis números da publicação, fazendo com que ela fosse impressa em Hamburgo.
Procurou, também, reestruturar a Liga dos Comunistas. Entrou em entendimentos com Augusto Willich, ex-oficial alemão que comandara um corpo de tropa na rebelião dos democratas de Baden (e sob cujo comando Engels servira). Entrou igualmente em entendimentos com os seguidores do dirigente mais prestigiado do proletariado francês; Augusto Blanqui; e com os cartistas revolucionários da Inglaterra: com eles fundou uma "Sociedade Mundial dos Comunistas Revolucionários".
O pão do exílio, porém, lhe foi bastante amargo, sobretudo nos primeiros anos. A Nova Gazeta Renana, em sua fase londrina, durou pouco: em novembro de 1850 saiu o seu sexto e último número.
A miséria se apoderou da família de Marx. Seu filho Guido, nascido logo depois da chegada a Londres, e sua filha Francisca, nasci da no principio de 1851, só viveram um ano cada um: a falta de recursos materiais em que Marx se achava contribuiu decisivamente para a morte prematura das duas crianças.
Há uma carta de Marx para Engels datada de 8 de setembro de 1852, que dá idéia do desespero de Marx em face da pobreza extrema a que se vira reduzido. Nela, Marx escreveu: "Minha mulher está doente. Minha filha Jenny está doente. Heleninha (Demuth) está com uma espécie de febre nervosa. Não pude e nem posso chamar o médico por falta de dinheiro para os remédios. Há oito dias que alimento minha família unicamente com pão e batatas. E não sei se ainda vou poder comprar pão e batatas para hoje".
Naquela ocasião; como em inúmeras outras, aliás; Engels prestou a seu amigo toda a ajuda que podia. Para poder prestar um auxilio mais efetivo a Marx, Engels aceitou até se empregar na fábrica de tecidos que seu pai possuía em Manchester.
Com supremo esforço, Marx mantinha em dia o pagamento da casa que alugara em Chelsea. Mas a casa era sublocada. E a locatária, que recebia de Marx, não pagava em dia ao proprietário. Marx, foi, então, despejado com sua família. A muito custo, instalou-se provisoriamente em Leicester Street e, depois, numa pequena casa em Deanstreet.
A "Sociedade Mundial dos Comunistas Revolucionários", por sua vez, não deu certo. As divergências internas impediram-na de funcionar. A crise acabou por se instalar no interior da própria Liga dos Comunistas: Willich e Schapper restauraram na Liga as posições praticistas de Weitllng, proclamando uni acentuado desprezo pela teoria, e as posições ultra-esquerdistas do Dr. Gottschalk.
As discussões travadas entre os comunistas refugiados tornaram-se violentas. Um refugiado chamado Schramm, em conseqüência de um bate-bôca, desafiou Willich para um duelo, do qual resultou uma ferida leve para o desafiante. Em outra ocasião, posterior, um grupo de refugiados agrediu Willich na rua a pauladas.
Willich era um homem corajoso, porém não era muito sensato. Para ele, a realização de uma revolução não dependia das condições sócio-económicas e sim da disposição, da combatividade e da habilidade dos revolucionários, Marx, embora reconhecendo a importância dos fatores subjetivos no processo histórico, repelia as ilusões voluntaristas de Willich.
Em geral, Marx evitara ser envolvido pelas intrigas e choques pessoais entre os refugiados. mas sentia-se obrigado a combater as influências ideológicas que podiam acarretar prejuízo grave para os comunistas. Além de suas criticas a Willich, ele censurou dura- mente Kinkel, Ruge, Heinzen e outros. Chegou até a redigir contra eles, juntamente com Engels, um folheto intitulado Os 'Grandes Homens' do Exílio. Um ex-oficial húngaro, J. Bangya, ofereceu-se para levar os manuscritos do folheto a um editor interessado, que pagaria bem pela edição. Sucedeu, contudo, que Bangya levou os manuscritos e sumiu: conforme posteriormente se apurou, ele era um agente policial.
O clima entre os exilados era de tensão, insegurança e mal estar. Alguns chegaram a perder o juízo. Em carta a Engels, Marx contou o caso de um deles, o jovial alfaiate Rumpf: "Há mais ou menos cinco meses, o infeliz, para sair da miséria, casou-se com uma senhora idosa. Tornou-se, então, excessiva mente sério, renunciou completamente à bebida e passou a trabalhar como um cavalo. Há cerca de uma semana, voltou a beber.. E, há poucos dias, mandou me chamar para me dizer que descobrira o jeito de fazer todo mundo feliz, que eu seria o seu Ministro, etc. Desde ontem, está internado no manicômio" (14 de junho de 1835).
Neste ambiente Insalubre, Marx esforçava-se por não perder o equilíbrio, por manter o senso de humor. Mas nem sempre Isso era possível, Uma das ocasiões em que Marx se sentiu mais profundamente encolerizado foi a do seu envolvimento num rumoroso processo aberto contra os comunistas em Colônia, na Alemanha, em 1851. Tendo alguns partidários de Willlch e Schapper sido presos em Colônia durante suas atividades conspiratórias, a policia resolveu aproveitar as circunstâncias para acusá-los de fazerem parte de uma perigosa trama internacional e para envolver Marx no escândalo".
A principal "prova" apresentada contra Marx no processo era um livro de atas atribuído à Liga dos Comunistas, no qual Marx aparecia como planejador de atentados terroristas. Marx irritadíssimo, dedicou várias se manas de sua atividade a provar que o tal livro de atas era uma grosseira falsificação policial e o Ministério Público foi obrigado a abandonar a "prova" que apresentara ao Tribunal, reconhecendo que a mesma fôra forja- da pelos agentes Fleury, Hirsch e Greif.
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