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Engels
Os Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 constituem a última expressão do pensamento de Marx antes do inicio de sua fecunda e constante colaboração com Friedrich Engels.
Engels era dois anos mais moço do que Marx. Tal como Marx, Engels era natural da Prússia Renana, onde nascera em 28 de novembro de 1820. Só que a cidade-natal de Engels; Barmen; estava situada em uma região mais industrializada do que aquela onde ficava Tréves.
Engels era filho de um industrial rico, muito religioso e conservador, que se esforçou bastante por inculcar no herdeiro os seus próprios princípios. Já aos dezenove anos, contudo, Engels se rebelara contra os pontos de vista de seu pai e começava a publicar no jornal Telégrafo para a Alemanha artigos de conteúdo liberal e democrático. (Para evitar um agravamento do conflito dentro de casa, assinava os artigos com o pseudônimo de Friedrich Oswald) -Num desses artigos de juventude, publicado em 1839, Engels chegava mesmo a as sinalar que, a seu ver, havia uma ligação entre os interesses de classe e a religião puritana de seu pai: "É fato que, entre os industriais, são os de religião puritana que tratam pior as operários, diminuindo de todos os mo dos o salário deles, a pretexto de não lhes deixar dinheiro para se embriagarem".
Engels possuía talentos muito diversos e, aos vinte anos, desenvolvia múltiplas atividades: praticava esportes, dedicava-se à música (era entusiasmado por Beethoven) e estudava línguas estrangeiras, entre as quais o inglês, o italiano, o espanhol e até o português. Lia Goethe, traduzia Shelley e compunha numerosos poemas (um pouco menos ruins do que os de Marx). Da mesma forma que Marx, teve o seu período boêmio e também chegou romanticamente a se bater em um duelo.
Entre as leituras que o ajudaram a se libertar dos preconceitos que o pai procurara lhe inculcar, foram importantes para Engels as de David Frederico Strauss (A Vida de Jesus) e de Feuerbach (A Essência do Cristianismo). Mas a influência filosófica que O marcou mais profundamente em sua mocidade; tal como tinha acontecido com Marx; foi a de Hegel.
Quando o governo ultra-reacionário de Frederico Guilherme IV convocou o velho Scheliing para combater a influência de He gel no meio universitário berlinense, o jovem Engels; que, então, se achava em Berlim, como fervoroso adepto do hegelianismo de esquerda; escreveu e publicou dois panfletos contra Schelling.
Em novembro de 1842, após a sua temporada berlinense, Engels se dirigia à Inglaterra e, de passagem, fez uma visita à redação da Gazeta Renana, em Colônia. Ali, ficou conhecendo pessoalmente Karl Marx, que era o diretor da publicação. Marx, porém, não o recebeu com muita cordialidade, pois desconfiava das ligações de Engels com o grupo comunista de Meyen, em Berlim, e não apreciava o referido grupo.
Posteriormente, Engels enviou dois trabalhos de sua autoria para Anais Franco-Alemães e Marx, como redator-chefe da revista, publicou-os no único número dela que chegou a sair.
Só em Paris, nos últimos meses de 1844, é que Marx e Engels voltaram a ter um encontro pessoal. Nessa época, Engels acabara de redigir um estudo sobre A Situação das Classes Trabalhadoras na Inglaterra. Aproveitando a colaboração que era obrigado aprestar a seu pai nos negócios deste, Engels analisara detidamente, na Inglaterra, o funcionamento do sistema capitalista, sua economia, seus resultados. Ao chegar a Paris, trazia consigo experiências e informações que interessaram vivamente a Marx.
A partir de então, estabeleceu-se entre os dois uma amizade que durou enquanto eles viveram e deu origem a numerosos trabalhos realizados em comum.
Em Paris, Marx foi convidado para ingressar em diversas sociedades secretas de comunistas, mas sempre se recusou a fazê-lo, pois acreditava que não era razoável desperdiçar tempo e energia em atividades conspiratórias de pequenas seitas quando o essencial era organizar e mobilizar as amplas massas populares para que elas próprias promovessem a transformação da sociedade.
Marx achava que era necessário procurar unir os revolucionários em torno de posições justas. Mas os círculos revolucionários de Paris estavam divididos em numerosos grupos e facções.
Saint Simon morrera em 1825. Seus discípulos continuavam em atividade. Porém Marx chegou à conclusão de que eles eram "meio apóstolos, meio escroques".
Charles Fourier morrera em 1837. Seus seguidores preocupavam-se menos com a organização das massas trabalhadoras do que com o planejamento de falanstérios onde as cozinhas tivessem abundância de açúcar, onde não existissem correntes de ar e onde os indivíduos reaprendessem a praticar a solidariedade humana.
Louis Blanc liderava Um grupo de socialistas muito preocupados em não se incompatibilizarem definitivamente com a burguesia. Movia-os a convicção de que, através da participação no jogo político "de cúpula", seria possível ir arrancando gradualmente, com habilidade, concessões que levassem as classes dominantes a aceitar uma ordem social mais humana.
Mikhail Bakunin, emigrado russo dota do de grande simpatia pessoal, oscilava entre concepções confusas e variáveis, que o seu ideal anarquista não conseguia sintetizar em um eficiente programa de ação.
Pierre Joseph Proudhon, ex-linotipista, adepto de reformas econômicas "racionais" e pacificas, era hostil à "agitação comunista" e se mantinha retraído em face das atividades políticas. Marx esforçou-se inutilmente por fazê-lo compreender o método dialético de Hegel, que abria caminho para que todas as coisas fossem encaradas como fenômenos históricos e fossem analisadas de acordo com as ligações que mantêm umas com as outras.
Etienne Cabet (autor de um "romance filosófico" intitulado Viagem à Icária) era um ingênuo: aderira ao comunismo sob a influência da leitura da Utopia de Thomas Morus; obra escrita em 1516!
Com nenhum deles Marx conseguia estabelecer uma sólida base de entendimento. O único vulto revolucionário expressivo com e qual lhe foi possível encontrar uma autêntica afinidade de idéias, em Paris, naquele ano de 1844, foi de fato Engels.
Também, com Engels, a concordância de pontos de vista foi tão completa que Marx se entusiasmou: convidou-o para escreverem juntos um trabalho.
Desde há algum tempo, Bruno Bauer; de quem Marx havia sido amigo; tinha formado uma Panelinha" em torno da Gazeta Literária Geral, revista editada em Charlotemburgo, e vinha professando um aristocrático desprezo pelas multidões, ridicularizando os esforços dos revolucionários que procuravam fazer uma política de massas. Marx e Engels redigiram, então, o livro polêmico A Sagrada Família. Com o subtítulo esclarecedor: "Contra Bruno Bauer e consortes".
DialéticaQuando Hegel morreu, em 1831, Marx ainda era urna criança. Por isso, Marx, pessoalmente, nunca teve oportunidade de ouvir as aulas de Hegel na Universidade de Berlim.
O ambiente em que Marx completou a sua formação universitária, contudo, se achava impregnado de hegelianismo. As concepções do autor da Fenomenologia do Espírito estavam presentes nas discussões dos estudantes e influíam fortemente na reflexão dos universitários.
Marx aprendeu com Hegel, através da leitura dos livros deste último, que na lógica for mal a contradição é sempre a manifestação de um defeito. Mas aprendeu, também, que a lógica formal tem seus limites de validade e que nem todos os problemas da existência humana estão sob a jurisdição da lógica for mal.
Na vida, a contradição desempenha um papel muito diferente do que na lógica for mal. Na vida, a contradição não é a mera manifestação de um defeito: é um realidade que não se pode suprimir. Determinadas contradições surgem, outras desaparecem (são superadas), mas há sempre algumas contradições pendentes de solução.
Empregando abusivamente os princípios da lógica formal, alguns filósofos insistiam em estudar as relações entre as coisas como se as coisas, na essência delas, fossem eterna mente paradas. Esses filósofos; que Marx chamou de metafísicos; não reconheciam o movimento dos seres como uma alteração constante da qualidade deles, não reconheciam o movimento como uma mudança tanto da situação como da essência deles.
Para as concepções metafísicas, o movi mento era apenas uma modificação quantitativa, que se realizava na superfície da realidade.
Em oposição à metafísica, Hegel ensinou que as coisas estão sempre mudando, que a vida é essencialmente movimento, que não há movimento sem contradição, que o movimento transformador de todas as coisas faz com que, na história da humanidade, ao contrário do que afirmava o Ecclesiastes, haja sempre alguma coisa de novo sob o sol.
Os filósofos metafísicos procuravam primeiro analisar cada ser e cada coisa separadamente para depois tratarem de levar em conta as relações entre os seres, entre as coisas. Hegel, todavia, com o seu método dialético, ensinou que os seres e as coisas existem em permanente mudança, entrosados uns com os outros, e que só é possível compreendê-los se desde o início forem devidamente consideradas as suas ligações recíprocas.
Marx utilizou à sua maneira o método de Hegel. Modificando-o, substancial- mente, aplicou-o à análise da evolução social da humanidade. E chegou a conclusões alta mente revolucionárias.
Para Marx, a vida, na sociedade capita lista, apresenta numerosas contradições. A principal delas, porém, aquela que afeta de maneira mais constante e socialmente mais decisiva a existência dos indivíduos, é a contradição entre o trabalho e o capital, quer dizer, entre o proletariado e a burguesia. E a direção necessária à superação dessa contradição essencial da sociedade capitalista; segundo Marx; é a da ascensão revolucionária da classe operária, com a criação da sociedade socialista.
O grupo de Bruno Bauer se compunha de pessoas que, tal como Marx, tinham sofrido a influência de Hegel. Mas nem por isso Bruno Bauer e seus companheiros concordaram com as posições de Marx: acabaram acusando Marx de transformar o proletariado em uma classe de deuses, atribuindo-lhe um papel messiânico.
Em A Sagrada Família (que acabou sen do escrita na maior parte por Marx e à qual Engels deu apenas uns poucos capítulos), Marx se defendeu dessa acusação. Escreveu que tinha plena consciência das debilidades atuais dos operários, mas asseverou que a meta e a ação histórica do proletariado lhe eram impostas por sua situação de vida e pelo lugar que lhe cabia no interior da organização capitalista da sociedade. "O proletariado; disse Marx; apenas executa a sentença que a propriedade privada pronunciou contra ela mesma quando o criou".
Marx, aliás, não se limitou a defender-se da acusação de endeusar o proletariado: passou à ofensiva. Acusou Bruno Bauer, Edgar Bauer e Egbert Bauer; "a Sagrada Família"; de se prenderem ao aspecto superado da filosofia de Hegel: o seu sentido puramente especulativo, o seu caráter abstrato, idealista. Sendo filósofos "de gabinete", e pertencendo a uma classe acentuadamente ociosa, os irmãos Bauer perdiam de vista as implicações práticas do método dialético.
Os irmãos Bauer não queriam se com prometer com nenhum movimento prático, político: queriam ser exclusivamente críticos, isto é, "críticos-críticos". Por isso, Marx chamou A Sagrada Família de "crítica da crítica-crítica".
Bruno Bauer, seus irmãos e seus companheiros da Gazeta Literária Geral tinham uma concepção aristocrática da história. Para eles, as massas populares não possuíam movimento próprio e se caracterizavam pela inércia. O movimento da história era deter minado pelas idéias dos indivíduos mais inteligentes, pertencentes à elite intelectual.
Bauer encarava a evolução da humanidade como se Deus tivesse, pronto, dentro da cabeça dele, um esquema racional perfeito, utilizando a história apenas corno pretexto para demonstrá-lo. Por isso Bauer supunha que; sem precisar se envo1ver com as atribuições da política e sem sair da sua posição contemplativa; bastava-lhe deduzir o esquema racional perfeito que se achava pronto na cabeça de Deus e apresentá-lo aos homens da "elite" para que o mundo entrasse nos eixos.
Marx chamou a atenção do seu antigo companheiro do "Clube dos Doutores" para o lato de que as idéias nunca podem, por si mesmas, superar um determinado estado de coisas: podem apenas superar as idéias desse estado de coisas. Idéias superam idéias e não, automaticamente, situações materiais. "As idéias nunca podem realizar nada; assinalou Marx; pois para a realização das idéias é preciso que os homens ponham em ação uma força prática".
Como filósofo "de gabinete", Bauer conhecia mal o trabalho material e imaginava que a única atividade realmente criadora e produtiva dos seres humanos fosse o pensa mento, Para Marx, entretanto, o pensamento está ligado à prática, e é no uso social que ele prova a sua eficácia, a sua qualidade.
Pela dura experiência do trabalho, os operários aprendem que o mundo se muda mesmo é na prática. E aprendem que a história pode promover mudanças tanto mais profundas quanto maior for a participação das amplas massas populares nas ações históricas.
Marx assinalou que os filósofos materialistas do passado estavam no bom caminho quando chamavam a atenção da humanidade para a importância das circunstâncias extenores e para o papel educador Que a vicia prática tem para os indivíduos. Os materialistas; observou Marx; abriam caminho para o socialismo, para a concepção capaz de atender aos verdadeiros interesses das massas populares e capaz de combater a tendência aristocrática do idealismo.
O idealismo propõe a mudança do mundo através da transformação interior dos espíritos "de elite", O materialismo, na filosofia, sempre indicou outra direção: "Se o homem é formado pelas circunstâncias, o que é preciso é formar as circunstâncias humana mente".
Através de seu trabalho no Vorwaerts, Marx ganhava o suficiente para sobreviver, como jornalista pobre, em Paris. No Vorwaerts, ele publicou, aliás, um artigo que precipitou o rompimento de suas relações pessoais com Ruge: era um artigo elogiando a trágica rebelião dos tecelões da Silésia, ocorrida em junho de 1844, e que Ruge havia considerado 'negativa". Ruge enfureceu-se com o artigo de Marx e escreveu, em carta a um amigo, que Marx não passava de "um judeu sujo".
Mas o desentendimento entre Marx e Ruge não afetou a vida do Vorwaerts como havia afetado a de Anais Franco-Alemâes: o Voarwaerts ia de vento em popa. E quem não estava nada satisfeito com isso era o governo prussiano. Frederico Guilherme IV pressionou, então, o governo francês. Guizot; que, na época, era Ministro do Interior da França; acabou por determinar que os principais colaboradores do Vorwaerts (entre os quais Heine, Bakunin e Marx) fossem expulsos do pais.
Em fevereiro de 1845, por conseguinte, Marx foi obrigado a sair de Paris e a se instalar com sua família em Bruxelas, onde veio a permanecer até 1848. A imprensa francesa de orientação liberal protestou contra a expulsão.
Para poder ficar em Bruxelas, por sua vez, Marx teve de assinar um documento em que se comprometia com o governo belga a não publicar lá quaisquer artigos sobre a atualidade política, nacional ou internacional.
Em Bruxelas, Marx refletiu a respeito dos limites do materialismo. Quando se tratava de combater o idealismo especulativo dos hegelianos do tipo de Bruno Bauer, Marx utilizara as doutrinas materialistas e indicara o conteúdo social progressista delas. Agora, porém, aprofundando o seu exame chegava à conclusão de que o materialismo, até em Feuerbach, estava prejudicado por algumas deficiências básicas.
Para precisar suas novas idéias, Marx redigiu, primeiro, suas famosas onze Teses sobre Feuerbach. E, depois, em parceria com Engels, redigiu (de setembro de 1845 a maio de 1846) A Ideologia Alemã.
Segundo Marx, o materialismo descrevia de maneira errada o processo mediante o qual o homem apreende o mundo exterior em sua consciência, quer dizer, descrevia mal o processo do conhecimento. Os materialistas figuravam a consciência humana como uma espécie de registrador de impressões provenientes do mundo exterior. Analisando a reação dos indivíduos humanos como seres biológicos e não como seres sociais, os materialistas tendiam sempre a apresentar o processo de formação da consciência como um processo mecânico, no qual os indivíduos apareciam como meros produtos do meio.
De acordo com Marx, entretanto, o indivíduo não deve ser concebido fora do quadro das suas relações com os outros indivíduos, isto é, fora do quadro da vida social. E a vida social é eminentemente prática. Os homens existem em constante atividade. Dentro dos limites estabelecidos pelas circunstâncias que lhes são impostas, os homens estão sempre produzindo as circunstâncias novas que lhes convém. "As circunstâncias fazem o homem na mesma medida em que este faz as circunstâncias". O ser humano não existe, em geral, numa situação de contemplação: seu moda normal de existir é o de uma contínua intervenção ativa na mundo.
O processo do conhecimento só pode ser devidamente entendido, em sua verdadeira natureza, quando relacionado com esta contínua intervenção ativa dos homens no mundo. Não é verdade que exista de um lado o mundo e de outro a consciência; e não é verdade que o papel da consciência se limite ao recolhimento e à interpretação de elementos provenientes do mundo exterior.
Em última análise, a validade do conhecimento não pode ser medida em um plano puramente teórico, que se abstraia completamente da vida prática. O conhecimento é um momento necessário da transformação do mundo pelo homem e da transformação do homem por ele mesmo. A tarefa de interpretar o mundo faz parte da tarefa maior de modificá-lo.
Por viverem, em geral, numa atitude contemplativa, os filósofos deixaram de lado a modificação (quer dizer, as conseqüências práticas da interpretação) e foram levadas a crer que as teorias filosóficas não tinham nada a ver com a produção econômica e as lutas políticas da história da humanidade. A teoria foi, assim, destacada da atividade prática; foi considerada independente da prática.
Para Marx, os comunistas modernos não podiam aceitar que a reflexão teórica fosse uma atividade sem ligação com a prática e nem podiam fazer como Os antigos materialistas, que não reconheciam nenhuma autonomia ao pensamento, reduzindo a consciência a um mero produto passivo de condições exteriores. Tratava-se, pois, de elaborar para os comunistas modernos uma nova concepção, que Marx chamou de materialista prática.
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