- Comunismo
- Proletariado
- Religião
- Economia
- Alienação


 

Jornalismo




          Em 3 de março de 1842 morreu o pai de Jenny. Karl Marx se achava, na época, na melancólica situação de professor desempregado e noivo sem meios para se casar.

          Seus méritos como intelectual já eram reconhecidos, mas apenas no limitado círculo dos seus amigos. Friedrich Koppen; historiador que fazia parte do "Clube dos Doutores" lhe dedicara um livro. Moses Hess, autor de uma História Sagrada da Humanidade tinha escrito ao romancista Berthold Auerbach uma carta em que falava de Marx como "o maior e talvez mesmo o único filósofo atual mente vivo". E acrescentava: "Imagina Rousseau, Voltaire, d'Holbach, Lessing, Heine e Hegel não digo somados porém fundidos em uma só pessoa e terás o Dr. Marx".

          Vendo-se impossibilitado de exprimir as suas idéias através de uma cátedra de professor universitário, o jovem filósofo resolveu expô-las através dos jornais. Enviou, então, seu primeiro artigo para Anais Alemães, publicação dirigida por seu amigo Arnold Ruge.
          Era a primeira intervenção de Marx na vida pública. E era um artigo contra a censura. Infelizmente, Anais Alemães não pôde publicá-lo, porque a publicação foi impedida... pela censura.

          Na impossibilidade de enfrentar a censura em Anais Alemães, Ruge enviou o artigo de Marx para publicação em Anedota, revista de Zurich. E Marx, por sua vez, passou a escrever para a Gazeta Renana, de Colônia, onde voltou a tratar da questão da liberdade de imprensa, para concluir: "A liberdade número um para a imprensa consiste em não ser ela uma indústria".

          Alguns deputados liberais tinham feito oposição ao fortalecimento da censura na região do Reno, mas tinham se recusado a admitir qualquer possibilidade de mudança na estrutura da imprensa como indústria. Ora, para Marx, na medida em que a imprensa se deixasse comercializar, ela perderia a sua capacidade de informar com objetividade e criticar com independência, tornando-se impo tente para combater a censura como instituição. Por isso, Marx escreveu que aqueles deputados liberais, que haviam defendido a liberdade de imprensa como "uma liberdade comercial qualquer", tinham acabado por de fender" a liberdade de imprensa tal como a corda "defende" o pescoço do enforcado.

A colaboração de Marx na Gazeta Renana teve tanto sucesso que, em 11 de outubro de 1842, ele se mudou para Colônia e assumiu a direção do jornal. Sob a direção de Marx, a Gazeta Renana aumentou rapidamente sua circulação. Mas a alegria durou pouco. Após um violento artigo contra o absolutismo russo, publicado em janeiro de 1843, o czar Nicolau 1 pressionou o governo prussiano e este fechou o jornal.


Comunismo
          Quando Marx dirigia a Gazeta Renana, um jornal de Augsburgo acusou a publicação de tender para uma orientação comunista. Replicando à acusação, o diretor da Gazeta confessou conhecer mal o comunismo e prometeu estudá-lo em profundidade.

          Naquela ocasião, Marx já ouvira falar em Saint Simon. O barão Ludwig von Westphalen e o professor Gans lhe tinham falado com simpatia a respeito deste socialista utópico, que via no desenvolvimento da indústria o meio de promover automaticamente a felicidade dos operários. Marx sabia, também, da existência de outros socialistas utópicos, ingênuos e generosos: Fourier, Considerant, etc. Tinha lido, igualmente, alguma coisa de Proudhon e ficara impressionado. E mais: em sua terra natal vivera durante algum tempo um advogado chamado Ludwig Gail, filho de camponeses, que pregara o socialismo. Por isso, o assunto não era novidade para ele.

          Agora, porém, as circunstâncias da sua atividade política como diretor de um jornal exigiam que a questão do comunismo e da reestruturação da sociedade fosse melhor examinada.

          Uma das campanhas da Gazeta Renana foi feita em defesa dos camponeses pobres do sul do Reno que eram levados pela miséria a roubar madeira. Marx esforçou-se em vão para mostrar que as autoridades do Estado, mancomunadas com os grandes proprietários, se limitavam às medidas punitivas, sem ir até o fundo do problema e, portanto, sem poder solucioná-lo. A experiência ensinou-lhe que a questão social não podia ser resolvida por meios puramente jurídicos.

          Por outro lado, animados com as posições liberais e progressistas da Gazeta Renana, alguns jovens de Berlim mandavam para o jornal artigos pontilhados de vibrantes tira das comunistas. Marx, porém, considerava os artigos superficiais e demagógicos. Um dia, chamou o líder dos moços berlinenses; certo Meyen; e disse-lhe, com franqueza, que considerava "inadequado, e até mesmo imoral, impingir de passagem, como contrabando, em críticas de teatro, etc., os dogmas comunistas e socialistas, isto é, ideologias novas". Disse-lhe, mais, que, a seu ver, "era preciso tratar do comunismo de outro modo, de maneira mais fundamentada".

          Meyen não gostou e os moços socialistas de Berlim romperam relações com o jovem diretor da Gazeta Renana. Marx, no entanto, ficou com aquela idéia na cabeça: ha via de examinar mais a fundo a doutrina do comunismo.



 
 

Proletariado




          O fechamento da Gazeta Renana não levou Marx a desistir do jornalismo: apenas convenceu-o de que na Alemanha (na Prússia) não existiam condições para ele levar adiante o trabalho que pretendia realizar.

          Marx combinou com seu amigo Arnold Ruge, então, a fundação de uma nova revista a ser editada no exterior. Depois de terem organizado a empresa e firmado contrato, Marx, como redator-chefe da publicação (Anais Franco-Alemães), casou-se; final mente! ; com Jenny von Westphalen, em. junho de 1843.

          Em outubro de 1843, o casal se mudou para Paris, onde iam ser editadas os Anais. E Paris foi o lugar onde Marx conheceu o grande poeta alemão Heinrich Heine, de quem se tornou amigo.

          Nessa época, Marx interessava-se cada vez mais pelos problemas políticos: lia Rousseau, Montesquieu e Maquiavel . Aos poucos, ia sentindo a necessidade de corrigir a dialética idealista de Hegel com o materialismo do filósofo Feuerbach. Mas Feuerbach tinha urna visão contemplativa e não uma visão ativa da questão política. Marx escreveu a Ruge:

          "O único ponto em que divirjo de Feuerbach é que, a meu ver, ele dá importância de mais à natureza e importância de menos à política. Ora, atualmente, a filosofia só pode se realizar aliando-se à política".

          Por outro lado, foi em Paris que Marx teve oportunidade de entrar em contato com o movimento socialista dos operários franceses. E este contato com trabalhadores coletivamente dedicados à luta política pela transformação da sociedade impressionou-o profundamente.

          Enquanto preparava a edição do primeiro número de Anais Franco-Alemães, Marx escreveu uma Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, na qual mostrava que as considerações teóricas de Hegel sobre o direito eram inócuas, porque não indicavam os meios práticos, materiais, sociais, capazes de levar à efetiva superação dos problemas humanos que elas abordavam.

          "O poder material; dizia Marx; só pode ser vencido pelo poder material". E, aos que pudessem perguntar se as idéias por acaso não teriam valor algum, ele respondia antecipadamente: "A teoria também se transforma em uma força material quando se apodera das massas".

          As massas capazes de, no nosso tempo, promoverem a mudança da ordem social, econômica e jurídica; assinalava Marx; são as massas proletárias. A filosofia pôs a nu a desumanidade do mundo presente. Feuer bach mostrou que a religião é uma solução ilusória, uma alienação. No entanto, a filosofia se revelou impotente para, por si mesma, superar a desumanidade e acabar com a alienação. Marx chegou à conclusão de que a filosofia precisava dispor de uma arma material capaz de fazer prevalecer praticamente, socialmente, o ideal do humanismo. E chegou também à conclusão de que essa arma, nas condições da sociedade atual, é o proletariado.



 
 

Religião





          No final de fevereiro de 1844, apareceu em Paris o primeiro e único número de Anais Franco-Alemães, Além da crítica à filosofia do direito de Hegel, a revista continha outro trabalho de Marx: Sobre a Questão Judia.

Bruno Bauer havia escrito um artigo a respeito da questão judia. Marx, por sua origem, não podia ser indiferente a essa questão. Resolveu, então, ao comentar o artigo de seu amigo, dar sua própria opinião sobre o assunto.

          Bruno Bauer achava que as judeus eram egoístas quando se preocupavam exclusiva mente com a luta pela conquista da liberdade religiosa, com o objetivo limitado de poderem praticar livremente a religião tradicional deles. Sendo homens; observava Bauer; os judeus não deviam perder tempo lutando pela libertação religiosa deles em particular: deviam lutar pela libertação política do gênero humano em geral.

          Marx achou interessante a observação de Bruno Bauer, mas assinalou que ele, para ser coerente, devia ser mais radical: "A emancipação política não é, ainda, a emancipação humana". A verdadeira emancipação humana, segundo Marx, exige a transformação não apenas das leis mas do sistema social de produção e distribuição das riquezas. A liberdade política depende, em última análise, da liberdade econômica. O ser humano só será verdadeiramente livre quando todos os homens puderem desenvolver uma atividade criadora que não esteja sujeita às pressões de formadoras da propriedade privada e do dinheiro.

          Tanto o judaísmo como o cristianismo, explicava Marx, são frutos da sociedade dividida em classes: são ideologias impotentes para combater a exploração do homem pelo homem. As religiões, em geral, são um protesto contra a vida insatisfatória que é dada aos homens. Porém a religião é uma ideologia impotente para orientar, na prática, a luta pela transformação do mundo, a luta pela superação das instituições baseadas na propriedade privada. Por isso, as religiões funcionam como o ópio do povo, pregando o conformismo e a resignação.

          No entanto, o judaísmo e o cristianismo não existem por acaso: essas duas religiões refletem a situação em que se encontra o mundo. Se quisermos libertar o homem de suas ilusões religiosas, precisamos mudar o mundo que tornou necessárias essas ilusões. Não adianta combater o efeito sem modificar a causa. Bruno Bauer achava que a superação das religiões seria atingida quando todos os homens tivessem direitos iguais e a lei garantisse a liberdade política dos cidadãos. Marx entendeu que a mudança precisava ser mais profunda: precisava atingir a estrutura social e econômica da sociedade.


Economia




          Depois de ter estudado a filosofia alemã e de ter entrado em contato com o movimento socialista dos trabalhadores franceses, Marx se pôs a estudar com afinco a economia política inglesa. Leu Adam Smith, David Ricardo, James Mill e outros. A Inglaterra era, então, o país onde o sistema capitalista se achava mais desenvolvido: Marx começou a analisar minuciosamente o seu funcionamento.

          Nessa época, para esclarecer suas idéias, ia anotando em folhas soltas suas reflexões a respeito dos autores que estudava e dos fatos que observava. Essas anotações não eram feitas para publicação e só foram publicadas em 1931, com o título de Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844.

          Quando os Manuscritos estavam sendo redigidos, a situação pessoal de Marx não era das mais animadoras: a revista editada por ele e por Ruge fôra proibida na Alemanha e mais de trezentos exemplares dela haviam sido apreendidos pela política prussiana ao tentarem penetrar no país. Além disso, as sustado com a radicalização que se processava no pensamento de Marx, Ruge desistira de continuar editando Anais Franco-Alemães e acabara até por romper relações com seu companheiro.

          Marx estabeleceu ligação com os diretores de uma outra publicação alemã, que saia regularmente em Paris; o Vorwaerts; e passou a escrever para ela. Enquanto 1550, ia redigindo as notas que mais tarde viriam a ser conhecidas como os Manuscritos econômicos e Filosóficos de 1844 e nas quais desenvolvia a sua teoria da alienação.



 
 

Alienação





          Para Marx, o homem é o primeiro ser que conquistou certa liberdade de movimentos em face da natureza. Através dos instintos e das forças naturais em geral, a natureza dita aos animais o comportamento que eles devem ter para sobreviver. O homem, entre tanto, graças ao seu trabalho, conseguiu do minar, em certa medida, as forças da natureza, colocando-as ao seu serviço.

          Os animais também trabalham e produzem, mas só trabalham para atender a exigências práticas imediatas, só produzem para atender a exigências materiais diretas deles mesmos ou de seus filhotes. Os animais nunca podem ser livres ao trabalharem, pois a atividade deles é determinada unicamente pelo instinto ou pela experiência limitada que podem ter.

          Já com o homem é diferente. Antes de realizar o seu trabalho, o homem é capaz de projetá-lo, quer dizer, é capaz de figurar na sua cabeça diversos caminhos possíveis para alcançar o seu objetivo, escolher livremente o caminho que lhe parecer melhor e procurar segui-lo.

          Justamente porque o trabalho humano pode ser diferente do trabalho dos animais é que o homem modifica a natureza de acordo com a sua vontade e as suas possibilidades. Para aumentar o seu poder sobre a natureza, o homem passa a utilizar instrumentos, acrescenta meios artificiais de ação aos meios naturais de seu organismo. E, com isso, a capacidade do trabalho humano transformar o mundo e transformar o próprio homem se multiplica enormemente.

          O desenvolvimento do trabalho criador aparece, assim, aos olhos de Marx, como uma condição necessária para que o homem seja cada vez mais livre, mais humano, mais dono de si próprio. Marx verifica, contudo, que no mundo atual o trabalho humano assumiu características desumanas: os trabalhadores; os homens que produzem os bens materiais indispensáveis à vida; não se realizam como seres humanos na atividades deles. Pelo contrário, na indústria moderna do capitalismo o trabalho é odiado pelos trabalhadores, que o encaram como uma obrigação imbecilizadora, como uma atividade que lhes é imposta e que os oprime, reduzindo-os a bestas de carga.

          O trabalho é a mola do progresso, é a grande fonte das riquezas. Mas os trabalhadores vêem que o progresso beneficia a seus patrões (e não a eles) e percebem que a riqueza se concentra sobretudo nas mãos dos que já são ricos.

          No sistema atual assinala Marx, o trabalhador produz bens que não lhe pertencem e cujo destino, depois de prontos, escapa ao seu controle. O trabalhador, assim, não pode se reconhecer no produto do seu trabalho, não pode encarar aquilo que ele criou como fruto da sua livre atividade criadora, pois se trata de uma coisa que para ele não terá utilidade alguma. A criação (o produto), na medida em que não pertence ao criador (ao operário), se apresenta diante dele como um ser estranho, uma coisa hostil, e não como o resultado normal da sua atividade e do seu poder de modificar livremente a natureza.

          Por outro lado, diz Marx, se o produto do trabalho não pertence ao trabalhador e até se defronta com ele como uma força estranha, isso só pode acontecer porque tal produto pertence a outro homem que não O trabalhador. E quem é esse outro homem que se apropria do fruto do trabalho do operário? Responde Marx: é o capitalista.

          O capitalista é o proprietário das fabricas, dos meios materiais necessários à produção, no sistema industrial moderno. O trabalhador nada possui a não ser a sua força de trabalho individual. Deste modo, para poder trabalhar, o trabalhador é forçado a vender a sua força de trabalho ao capitalista; e essa venda se dá em condições vantajosas para o capitalista e desvantajosas para o operário, já que o operário tem mais urgência de vender a sua força de trabalho (para poder comer) do quê o capitalista de comprá-la (para movimentar suas máquinas e obter lucros).

          Marx chamou de alienação do trabalho precisamente este fenômeno pelo qual o trabalhador, desenvolvendo a sua atividade criadora em condições que lhe são impostas pela divisão da sociedade em classes, é sacrificado ao produto do trabalho. Para Marx, os regimes baseados na propriedade privada dos meios sociais de produção; sobretudo o capitalismo; tendem a transformar o homem num mero meio para a produção da riqueza particular (simbolizada pelo dinheiro). Em lugar do produto ser criado livremente pelo produtor, é o produtor que fica subordinado às exigências do produto, às exigências do mercado capitalista onde o produto vai ser vendido.

          Sendo o trabalho, por sua vez, a atividade fundamental da livre criação do homem por si mesmo (isto é, da humanização), segundo o ponto de vista marxista, é natural que a corrupção da atividade criadora, a alie nação do trabalho, acarrete efeitos que atingem a todas as classes em geral. Assim, embora se aproveitem da alienação do trabalho do operário, os capitalistas também sofrem as conseqüências desumanizadoras da divisão social do trabalho, quer dizer, do sistema que engendra o fenômeno. Se o operário se aliena em sua atividade produtiva, a verdade é que o capitalista se aliena em sua atividade improdutiva.

          Na medida em que não tem a experiência cotidiana do trabalho produtivo, o capitalista passa a desconhecer todas as suas potencialidades criadoras como ser humano e deixa de se desenvolver humanamente em sua plenitude. A alienação que afeta o trabalhador na prática afeta os indivíduos da classe dominante em sua maneira de pensar, em seu modo de compreender as coisas. Por isso, tais indivíduos criam instituições, sim bolos, etc., e os impõem a toda a sociedade, alegando que são da conveniência universal (embora sirvam para manter a ordem social que lhes convém): mas, a partir de certo ponto, as instituições e símbolos criados por eles lhes escapam ao controle e parecem ganhar vida própria, tornam-se coisas aparentemente estranhas e hostis, de maneira que, tal como acontece com o produto do trabalho do operário, a criação dos capitalistas também se aliena deles e não permite que eles se reconheçam claramente nela.

          Para ter um exemplo dessa alienação dos capitalistas basta pensar no mercado capita lista. Os capitalistas criaram o mercado para a venda de seus produtos. Como, porém, es tão divididos e competem uns com os outros, os capitalistas jamais conseguem controlar o mercado em conjunto: o mercado fica sujei to a movimentos surpreendentes e desequilibrados, capazes de levar qualquer capitalista individual à falência. Por isso, os capitalistas, individualmente considerados, encaram o mercado criado pela classe deles como uma realidade estranha e temível, em função da qual eles são obrigados a viver.


 
 
 
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