Samurai X-Men

Capítulo 18: Novas Ameaças


QG do Tentáculo, por volta das três da tarde do dia 1º de outubro do ano 11 da Era Meiji(1878)

A serviçal se aproximou cautelosamente da porta e reuniu coragem para fazer o que foi lhe ordenado. O gaijin havia deixado ordens expressas no sentido de não ser incomodado durante o resto daquele dia. Mas Sato Harada, o Jonin do Tentáculo exigia a sua presença imediatamente. Coube à pobre moça a tarefa de chamar Victor Creed, vulgo Dentes de Sabre, e levá-lo à presença dele.

Ela respirou fundo, se ajoelhou junto à porta e chamou:

- Senhor Creed. Está acordado?

Durante alguns tensos segundos ela esperou. Assim como todos ali, ela temia o gigante estrangeiro, e evitava o máximo possível ter contato com ele. Mas ordens eram ordens.

- Senhor Creed. - repetiu ela - O Jonin solicita a sua presença.

Uma voz rouca e azeda, num péssimo japonês veio de dentro do quarto.

- Pois eu quero que ele e você vão pro inferno. Sai daqui vadia, me deixa dormir em paz.

A jovem estremeceu. Decididamente ele estava mal humorado. Os boatos eram de que a missão da noite passada foi extremamente complicada. Os que viram o gaijin chegar, pouco antes do meio dia, disseram que nunca o viram tão abatido. Ele conversou rapidamente com Sato Harada, e depois disso se trancou no quarto.

Mais uma vez ela amaldiçoou sua má sorte. As ordens de Sato-sama foram taxativas: Deveria levar Creed ao prédio principal o mais rápido possível, não lhe foi passado nenhum detalhe.

Descumprir estas ordens significava enfrentar um destino talvez pior do que enfrentar a fúria de Harada. Ela poderia, por exemplo, ser designada a servir Dentes-de-Sabre permanentemente.

Engolindo em seco, ela abriu uma fresta na porta de correr.

- Lamento insistir mas... IKKK.

Uma adaga passou voando a poucos centímetros acima da cabeça da serviçal e se cravou na parede atrás dela.

Com o coração na boca, a jovem olhou para dentro do quarto e pode ver Creed meio deitado sobre seu futom, ainda com o braço estendido e encarando ela com um olhar nada amistoso.

- Droga! Errei!

Imediatamente a serviçal encostou a testa no chão e se prostrou, procurando da melhor forma possível controlar o tremor na sua voz.

- Por favor, me perdoe senhor Creed. Não era minha intenção incomodá-lo.

- Mas incomodou. Eu avisei pra todo mundo que não queria ser perturbado até amanhã.

O tom de voz de Creed era frio e perverso, e provocou calafrios na serviçal.

- M-mais uma vez me perdoe. - gaguejou ela, ainda de cara no chão - No entanto, devo insistir. Sato-sama o espera no salão de reuniões.

- A troco de que? - grunhiu o mutante.

- Não me disseram o motivo. A única instrução é de que devo levá-lo lá o mais rápido possível.

Creed grunhiu um resmungo em surdina. Em seguida se virou no acolchoado ficando deitado de costas, entrelaçou os dedos sob a nuca. Harada não era nada leviano, se ele dizia ser algo importante é por que deveria ser mesmo.

O mutante fechou os olhos e praguejou mais uma vez. Creed não se sentia nem um pouco disposto. As poucas horas de descanso foram insuficientes para restaurar completamente suas forças. Além de sentir um mal-estar generalizado, havia ainda uma insistente dor de cabeça, que ameaçava romper-lhe o crânio a qualquer momento. A dor em seus músculos, apesar de ter diminuído bastante, ainda o incomodava. A sensação era de que havia sido passado numa enorme máquina de moer carne.

Tudo conseqüência da missão da noite anterior. Ainda de olhos fechados, Dentes-de-Sabre franziu o cenho e cerrou os dentes ao se lembrar de tudo o que havia acontecido. Especialmente ao visualizar em sua cabeça a figura de Logan, parado em sua frente, garras estendidas e um sorriso sarcástico no rosto.

Porém, apesar de todas as dificuldades que a chegada do X-Man trouxeram e com certeza ainda iriam trazer, Creed não pode deixar de pensar em outra figura. A lembrança veio acompanhada de uma pontada de dor em seu peito. Creed afastou o futon do seu torso nu e tocou uma marca avermelhada que cruzava em diagonal o seu tórax.

- Battousai.

- O que disse senhor? - perguntou a criada, levantando o rosto

Arrancado do devaneio, Dentes-de-Sabre encarou a jovem com um olhar severo.

- Não é da tua conta! Anda, me ajuda da me vestir.

Com cuidado para não tropeçar na montoeira de roupas espalhadas e lixo que juncavam o quarto, a serviçal começou a difícil missão de encontrar uma peça de roupa limpa, o cheiro ali lembrava o de uma jaula de algum animal selvagem. O desleixo do estrangeiro em relação à higiene também era um fato bem conhecido no QG do Tentáculo.

Enquanto isso, Creed soerguia o corpo ficando sentado sobre os acolchoados. Como esperado, o esforço lhe trouxe mais desconforto ainda. No entanto, era melhor mesmo que ele levantasse, precisava comer alguma coisa, de preferência carne. O trabalho extra do fator de cura mutante exigia o consumo de muitas proteínas.

Além do mais estava curioso para saber o que Harada queria com ele. Para o próprio bem do líder do Tentáculo era melhor ser algo realmente importante.

- Anda logo com isso guria.

- Pronto senhor.

A jovem lhe apresentou um conjunto de vestes em tons cinzentos que aparentavam estar razoavelmente limpas. Com mais um esforço o mutante se ergueu, ele não vestia nada além de uma tanga. A serviçal pareceu ficar muito impressionada com as diversas contusões e marcas no corpo do mutante, especialmente aquela em seu tórax.

- Ta olhando o que?

- N-nada.

Mais que depressa, ela ajudou Creed a vestir o kimono e em seguida o hakama. Creed dispensou os tabis e o sobre-tudo. Normalmente, ele não deixaria de aproveitar aquela oportunidade para assediar a jovem, que era muito bonita, mas decididamente não estava com espírito para isso. Depois de amarrar a faixa abdominal, ele se dirigiu para um canto do quarto, onde havia uma tina que fazia as vezes de lavabo. Usando as enormes mãos como concha, Creed pegou uma boa quantidade de água e com ela esfregou o rosto energicamente, como se tentasse com aquilo dispersar o cansaço e a letargia. Quando se virou, a jovem já tinha uma pequena toalha nas mãos.

- Acho bom que seja importante. - disse ele enquanto secava o rosto e em seguida atirava a toalha ao chão.

- Sato-sama parecia estar perturbado.

- A é? Então vamos ver o que está afligindo o poderoso Jonin do Tentáculo.

Sentindo o rosto enrubescer devido a evidente zombaria, a jovem fez uma leve mesura e deu a volta, abrindo a porta para Creed. Em seguida ela teve que se esforçar para se manter logo atrás do estrangeiro que se dirigia a passos largos em direção aos aposentos de Harada.

Saíram do prédio onde se encontravam os aposentos de Creed, e ele recebeu com desagrado um raio de sol diretamente em seu rosto. Apesar da densa cobertura dos pinheiros o sol se filtrava pelos ramos, juncando as sombras frescas com inúmeros pontos de luz.

Naquela hora havia muitos grupos de ninjas ocupados no seu constante treinamento. Ao verem Creed passando, todos paravam o que estavam fazendo e se inclinavam respeitosamente. O mutante, no entanto nem ao menos parecia se dar conta da presença deles.

Depois de passar por um jardim bem cuidado, Creed se encontrava finalmente em frente ao imponente prédio onde Sato Harada o esperava.

- Escuta guria. - disse ele para serviçal, que ainda o seguia poucos passos atrás - Quero que tu providencie uma refeição pra mim. Assim que o Harada te dispensar, vai falar com os cozinheiros.

- Deseja o de sempre senhor? - perguntou a jovem, já quase sem fôlego.

- Não. Diz pro chefe que desta vez vou querer dois veados assados. E mais uma coisa...

O mutante parou de repente e se virou, fazendo com que a serviçal quase colidisse com ele.

- Diz praquele corno que eu quero a carne mal passada. Aquele idiota sempre assa demais.

- S-sim senhor.

Com um resmungo incompreensível, Creed se virou e continuou o seu caminho. Os dois enormes guardas que vigiavam a entrada do prédio o cumprimentaram e abriram caminho imediatamente. Quase esqueceu de tirar as sandálias antes de entrar e com outro resmungo, simplesmente as atirou longe. Uma vez lá dentro recusou os calçados de uso interno que outra serviçal lhe ofereceu, e de pés descalços percorreu um extenso corredor também apinhado de guardas encapuzados.

Quando chegou em frente a um grande painel decorado com gravuras de aves aquáticas parou. A jovem que o acompanhou desde os seus próprios aposentos passou por ele e se ajoelhou junto ao painel.

- O senhor Creed está aqui. - anunciou ela.

- Faça-o entrar. - veio uma voz autoritária lá de dentro.

Ainda ajoelhada, a criada fez o painel correr suavemente e se prostrou encostando a testa no chão.

Creed passou por ela e pisou no chão coberto por tatame, assim que entrou, o mutante fez uma ligeira mesura para em seguida erguer o busto novamente.

O amplo aposento não tinha janelas, apenas os mesmos painéis brancos enfeitados com gravuras em tons suaves. A iluminação vinha principalmente de aberturas gradeadas ao longo das paredes. Ao fundo, sobre uma espécie de estrado ligeiramente mais alto que o piso, se encontravam Sato Harada e Yoshihiro Yamagushi.

Sentados de pernas cruzadas sobre pequenas almofadas, o líder do Tentáculo e misterioso membro do governo encaravam Creed com olhares nada satisfeitos.

- Muito bem Saori. - disse Harada - Pode ir agora.

A jovem correu o painel e os isolou. Por um momento os três homens apenas se olharam, o clima de tensão era evidente.

- Porque me chamou? - perguntou Creed bruscamente - Espero que seja importante.

Incomodado pela atitude desrespeitosa de Creed, Yamagushi estreitou os olhos e se mexeu sobre a almofada.

- Tenha certeza de que é senhor Creed.

O mutante lançou um olhar torvo para o homenzinho de meia idade vestindo roupas ocidentais. Yamagushi pareceu murchar na mesma hora.

- Sente-se senhor Creed. - convidou Harada indicando uma almofada logo a frente deles - Temos muito que conversar.

Creed avançou e se deixou cair displicentemente sobre a pequena almofada, sentando de pernas cruzadas. Ele voltou a encarar Harada novamente. Ele vestia um conjunto de vestes em tons terrosos. Decididamente estava com uma expressão contrariada. O fato de querer entrar diretamente no assunto sem ao menos lhe oferecer um chá era outro mau sinal.

- Pois bem. - disse Creed num tom um pouco mais contido - Qual é o problema afinal?

- Sinceramente senhor Creed, - começou Harada - não sei exatamente qual é o problema, chamei o senhor aqui porque achei que poderia esclarecer este mistério para nós.

Creed franziu o cenho, detestava que fizessem joguinhos de palavras com ele.

- Por outro lado, - continuou o Jonin do tentáculo, e desta vez sua voz soou mais fria do que nunca - Parece óbvio que o senhor falhou mais uma vez na simples tarefa de matar uma mulher.

- Do que está falando? - Creed estava ficando decididamente irritado agora - Eu disse pra ti que não tinha como ela sobreviver àquele tiro.

Harada e Yamagushi sorriram desdenhosamente.

- Já não temos tanta certeza disso não é? - disse Yamagushi.

Cerrando os dentes, Creed fez menção de retrucar violentamente quando Harada ergueu a mão.

- Espere. - disse ele - Será melhor ouvir a história em primeira mão... Shiro, entre.

Um outro painel se deslocou silenciosamente e o ninja chamado Shiro entrou. Imediatamente ele se prostrou ficando de cara no chão. Ele era um dos poucos sobreviventes da operação da noite anterior, que tinha envolvido mais de duzentos homens. Ainda vestia o uniforme ninja todo rasgado e sujo. Creed sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha.

- Shiro, faça novamente seu relatório. - ordenou Harada - Nos mínimos detalhes.

- Hai Jonin. - disse Shiro, em seguida ele ergueu o busto, não usava seu capuz de ninja e todos puderam ver em seu rosto o quanto estava cansado. No entanto ele não ergueu os olhos, não se atrevia a encarar seu líder, e muito menos Creed. Respirando fundo, ele começou a contar novamente tudo o que viu na madrugada e manhã anteriores.

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Hajime Saitou acordou com um estranho som em seus ouvidos, um som ritmado e baixo, que ele nunca ouviu na vida. Quando abriu os olhos descobriu que estava deitado numa cama em estilo ocidental, o quarto em que estava também parecia pertencer a uma casa ocidental com seus papéis de parede em tons pastéis e móveis em estilo vitoriano. As pesadas cortinas estavam cerradas, mas deixavam entrar um pouco de claridade, pois o sol da tarde batia naquele momento em cheio na janela.

Enquanto se dava conta destes detalhes, Saitou ia lentamente escorregando do torpor para consciência. A constatação seguinte foi murmurada por ele num tom casual, mas era de longe a mais relevante de todas.

- Estou... Vivo?!

Ainda como que em dúvida, o policial tentou mexer um braço. O membro se moveu vagarosamente, como se estivesse em câmera lenta. Intrigado com aquela estranha letargia, Saitou resolveu fazer um movimento que o colocaria sentado na cama.

A tentativa provocou um espasmo de dor que comprovou de uma vez por todas que ele estava realmente vivo. Relaxando por um momento, Saitou em seguida afastou o acolchoado que o cobria até o peito. Ele estava nu da cintura para cima, e na altura do estomago havia uma espécie de bandagem, ela era branca e pequena, e parecia ser feita de um material lustroso e leve. Saitou nunca tinha visto um curativo como aquele.

Sentiu uma sensação estranha ao tentar mexer o outro braço e por um momento temeu que lhe estivesse faltando algum pedaço. Ignorando a dor, Saitou terminou de afastar o acolchoado. Estava vestindo calças de um material muito leve e confortável. Para o seu alívio parecia estar tudo no lugar, mas havia algumas coisas estranhas ligadas no seu braço esquerdo.

Uma espécie de tubo de um material transparente corria ao longo de seu braço e se ligava a uma grossa agulha que estava espetada próxima ao pulso, havia também alguns fios de cores vivas ligados ao que Saitou achou serrem ventosas que por sua vez estavam grudadas em seu antebraço e flanco esquerdo.

Intrigado, Saitou virou a cabeça e acompanhou o caminho dos fios e do tubo. O tubo subia junto a uma haste de metal até se ligar a uma bolsa do mesmo material transparente, onde um líquido translúcido pingava lentamente. Os fios passavam por cima da guarda da cama e se ligavam a algo mais estranho ainda.

Atrás e a esquerda da cama havia um estranho engenho colocado acima de um móvel. Parecia ser uma caixa de metal cheia de luzes piscando. Era dali que vinha o som que o tinha acordado.

Cada vez mais confuso com o ambiente totalmente irreal a sua volta, Saitou respirou fundo e procurou se concentrar. A última coisa de que se lembrava era de ter sido empalado com sua própria espada por Dentes-de-Sabre, e depois veio uma escuridão da qual ele imaginava nunca mais acordar. Não tinha a menor idéia de como tinha vindo parar ali.

No entanto ele estava vivo, num lugar totalmente desconhecido, e ligado a aparelhagens das quais nunca ouviu falar. Parecia muito estranho até mesmo para serem apetrechos de tecnologia ocidental. Pelo menos, o fato de ele estar ali indicava que de algum modo a situação se inverteu favoravelmente. Mas era preciso confirmar isso.

Ele estava prestes a fazer mais um esforço para se erguer quando uma voz o deteve.

- Calma cara. Os médicos disseram que você não poderia andar por enquanto.

Saitou reconheceu a voz antes de virar a cabeça e ver o autor da frase.

- Chou!

- E aí chefia. Como se sente?

O espadachim dos cabelos espetados o observava sorridente de uma poltrona num canto mais escuro do quarto, onde estava esparramando pachorrentamente. Havia uma espada embainhada no seu colo. Saitou a reconheceu no ato.

- Minha espada.

- Isso mesmo. Achei que você ia querer de volta.

Dizendo isso, Chou se ergue e depois de soltar um longo bocejo se dirigiu até onde estava Saitou. Ele vestia as mesmas roupas de sempre, mas elas estavam sujas e amarrotadas, havia um curativo no lado esquerdo do seu rosto. No caminho ele parou para abrir totalmente as cortinas. O sol da tarde entrou com tudo no quarto e a claridade repentina provocou uma forte dor de cabeça em Saitou.

- Pronto, - disse Chou - assim ta bem melhor. Já tava de saco cheio de dormir mesmo.

- Obrigado idiota. - resmungou Saitou, ainda com uma mão erguida para proteger os olhos.

- De nada.

O sorriso de Chou ficou maior ainda. Para ele era muito bom ver Saitou naquele estado. O sempre arrogante e temível Hajime Saitou estava naquele momento indefeso como um bebê. Ainda sorrindo ele observou Saitou tentar novamente erguer o busto.

- Ei. Devagar chefia, ou vai abrir essa ferida novamente.

- Pare de ficar só olhando e me ajude cretino.

Chou fez como o outro lhe pediu e o ajudou a erguer o busto e ajeitar os travesseiros. A nova posição trouxe um pouco de vertigem e desconforto, mas Saitou não ligou para isso. Em seguida ele fez um gesto em direção a espada que Chou carregava.

- Me dê isto.

O espadachim loiro deu de ombros e lhe passou o objeto, mas inconscientemente deu um passo atrás, já não sorrindo tanto. Como alguma dificuldade, por causa da fraqueza e da parafernália ligada ao braço esquerdo, Saitou tirou a espada da bainha.

Ela estava quebrada exatamente na metade. Embora já não houvesse vestígios de sangue, Saitou estremeceu ao lembrar com clareza da sensação de ter aquilo enfiado até o cabo em seu estomago. Uma após uma, todas as experiências do dia e noite anteriores passaram por sua mente. Enquanto olhava pensativamente para superfície polida do que sobrou de sua espada, Saitou tentava entender o que tinha se passado, principalmente durante sua luta contra Dentes-de-Sabre.

- É uma pena mesmo. - disse Chou, interpretando erroneamente o que se passava na cabeça do outro - Era uma peça de primeira linha. Eu mesmo perdi todas as minhas espadas e...

- E eu com isso idiota.

- ...

- Em vez disso, - Saitou devolveu a espada à bainha com um estalo seco e encarou seu auxiliar com o olhar de desprezo de sempre - quero que me conte tudo o que aconteceu desde que perdi a consciência.

Já sem nenhuma sombra do sorriso no rosto, o ex membro da Jupongattana puxou uma cadeira que estava próxima e se sentou nela.

- Como queira. - disse ele sombriamente - Mas vou avisando desde já que é uma história longa e totalmente maluca.

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Não muito longe dali, Wolverine acabava de sair de um longo e relaxante banho. Vestindo um roupão, o mutante ainda se ocupava de secar seu cabelo rebelde com uma toalha quando ouviu uma batida na porta.

- Ta aberta. Pode entrar Chang.

Chang entrou de cara amarrada no quarto.

- Acho que nunca vou deixar de me impressionar quando você faz isso Logan.

- Eu poderia reconhecer esse teu cheiro azedo mesmo que estive resfriado Chang.

- E alguma vez na vida você já ficou resfriado meu amigo?

- É... - Logan se virou com a toalha em torno do pescoço - Tem razão, tu me pegou nessa.

O homenzinho de meia idade se aproximou de uma cômoda e serviu um pequeno cálice de uma bebida de cor âmbar o oferecendo logo a seguir para Logan, serviu para si mesmo outra generosa dose e ergueu o cálice.

- Não sei quanto a você, mas eu estou precisando de um drinque.

Logan o olhou meio desconfiado, mas ergueu o cálice.

- Kampai!

Os dois viram ao mesmo tempo os cálices e tomaram o conhaque de um gole só. Chang estalou os beiços, já servindo uma segunda dose pare ele e Logan.

- Está um belo dia para tomar um porre não acha?

- Acho que tu tem que falar logo o que veio dizer Chang. Qual o problema?

- E ainda pergunta meu amigo? - disse Chang entre um golinho e outro - vou ter muitos problemas por causa dessa nossa... "pequena operação de resgate". Você não tem idéia da situação difícil em que me colocou perante a agência.

- Arrependido?

Chang olhou fixamente para o outro por alguns segundos, até que permitiu que um sorriso aflorasse por baixo do seu bigodinho ralo.

- De jeito nenhum! Agora é tarde demais para arrependimentos. Pro inferno com tudo isso. Saúde!

- Saúde! - brindou Logan, bebendo em seguida o conteúdo do seu cálice.

Chang não perdeu tempo em servir uma terceira dose.

- Mas devo admitir que o caso da garota foi bem complicado, se você tivesse demorado um minuto a mais...

Pensativamente, Logan acenou com a cabeça concordando, em seguida se dirigiu a ampla janela por onde o sol da tarde entrava. Através dela, ele podia ver um pedaço da baía de Tókio e o intenso movimento da zona portuária. O quarto luxuoso era muito parecido com o que Saitou ocupava naquele momento, estava localizado no segundo andar do imponente prédio da sede da Landau Luckman & Lake. O mutante ergueu o cálice contra a luz do sol e observou o conhaque assumir um brilho e coloração quase de ouro líquido. Realmente foi por muito pouco, Kaoru chegou quase morta à mesa de operações. Se não fosse pela extrema competência do médico que a atendeu, aliada à tecnologia de ponta disponível no subsolo daquele complexo, com certeza ela teria morrido. Mesmo assim os procedimentos duraram horas a fio e exigiram muito de todos.

A não ser por Chou e Yahiko, que praticamente desmaiaram de cansaço, todos ficaram na vigília, especialmente Kenshin, que não arredou pé da porta da sala de cirurgia nem um segundo sequer.

Já o caso de Saitou foi bem menos complicado, uma cirurgia simples e uma boa transfusão de sangue foram suficientes.

Chang se aproximou ficando lado a lado com Logan, e como ele começou a olhar pela janela.

- Como ela está agora? - perguntou Logan.

- Nenhuma novidade, continua descansando. Fique tranqüilo, você ouviu o doutor Tanaka, ela está totalmente fora de perigo agora, e vai com certeza se recuperar totalmente em pouquíssimo tempo.

- E os amigos dela?

- Deram um pouco de trabalho, mas todos foram devidamente atendidos, fique sossegado.

- Estão descansando?

- Sim. Eles estavam totalmente esgotados, o que é totalmente compreensível. Tão logo a amiga deles foi estabilizada, acomodei o Sr. Sagara no mesmo quarto onde já estava o menino e a senhorita Takami no quarto ao lado. Tinha arrumado um quarto também para o senhor Himura, mas ele se recusou terminantemente a deixar a ala hospitalar. Ele insistiu tanto que o médico acabou deixando ele entrar no CTI para ver a garota.

Ainda olhando pela janela, Chang terminou o seu conhaque. Mais uma vez ele se perguntou como as coisas chegaram aquele ponto. Estavam agora literalmente num beco sem saída. Dentes-de-Sabre ainda estava a solta naquela era, e Chang estava numa situação difícil tanto com Logan quanto com a LL&L. Quando aquilo começou, ele esperava que tudo se resolvesse da maneira mais rápida e discreta possível.

Com certeza sua avaliação não poderia ter sido mais equivocada. A influência e força do Tentáculo foram subestimadas por ele. O envolvimento de Kaoru Kamyia e seus amigos, apesar de ter sido acidental, foi outro fator decisivo. Chang sabia que agora, qualquer solução para aquele impasse teria que levar em conta estes dois fatores.

Chang olhou para o lado, Logan continuava a olhar pensativamente para seu conhaque. Por enquanto, a única certeza que o agente da LL&L tinha, era que se havia alguém capaz de desfazer aquele nó, esse alguém com certeza era Logan. Mais do que nunca ele era a peça fundamental daquele jogo.

- O que pretende fazer agora? - perguntou ele de chofre.

O X-Man não respondeu de imediato. Seus olhos continuavam fixos no cálice em sua mão. Até que com um movimento repentino, o levou a boca engolindo o conteúdo com verdadeira satisfação.

- Ora essa... E eu que pensei que tu veio aqui pra saber como eu estou.

Chang sabia que Logan também estava exausto, mas era bem provável que Victor Creed e o Tentáculo não demorariam muito para encontrá-los. Não havia tempo a perder.

- Eu conheço você a tempo o suficiente pra saber que não é qualquer coisinha que vai derrubá-lo Logan.

- A é? - Logan soltou um longo bocejo e fechou as cortinas, se encaminhando a seguir para onde estava uma grande e convidativa cama. No caminho ele deixou o cálice vazio junto a garrafa de conhaque. - Pois fique tu sabendo que eu to pregado. Então, respondendo a tua pergunta, vou dormir até amanhã e espero que ninguém venha me encher o saco.

Chang pareceu não gostar nem um pouco da resposta.

- Desculpe contrariá-lo Logan, mas acho que deveríamos ao menos definir um rumo geral para nossas ações.

Logan parou e se virou para ele.

- Olha Chang, até a garota acordar e finalmente contar o que ela viu não vamos poder planejar nada. Mas se tu quer tanto assim conversar... poderíamos falar sobre os planos da LL&L.

Como Logan esperava, a menção ao assunto deixou Chang numa saia justa mais uma vez. O velho agente olhou para os próprios pés por alguns instantes como que ponderando se era mesmo uma boa idéia continuar aquela conversa. Depois de soltar um suspiro cansado ele se pôs em movimento, deixando também o seu cálice na bandeja.

- Tem razão Logan. Talvez um pouco de descanso nos traga a todos algum discernimento. Se precisar de alguma coisa é só...

Ele já ia passando por Logan quando este o deteve lhe segurando um braço

- Eu sei que o teu rabo ta na reta Chang, agora mais do que nunca. Mas eu ainda não engoli aquela história de ter sido a agência que começou essa bagunça toda. Vou ficar muito decepcionado se descobrir que tu teve algum envolvimento nisso.

Chang já ia dizer alguma coisa quando uma batida a porta se fez ouvir. A voz de Kenshin veio em seguida.

- Senhor Logan, está acordado?

Chang olhou para porta e em seguida novamente para Logan.

- Parece que você tem outra visita meu amigo.

Logan sorriu e largou seu braço.

- A gente ainda vai continuar essa conversa Chang.

- Você sabe que estou sempre a sua disposição Logan.

Em seguida, Chang se dirigiu para porta. Ao abri-la deu com a figura de Kenshin parado pacientemente do outro lado, os dois imediatamente se cumprimentaram a maneira japonesa.

- Como vai senhor Himura?

- Este servo vai bem, obrigado senhor Chang. - em seguida ele olhou por cima do ombro do outro, diretamente para Logan - Senhor Logan, este servo poderia trocar algumas palavras com o senhor?

- Sem dúvida. - respondeu Logan com sorriso e um gesto - Vai entrando xará, não faz cerimônia.

Kenshin entrou, ele e Chang se cumprimentaram mais uma vez, e em seguida o último fechou a porta ao sair deixando Logan e o espadachim sozinhos no quarto.

Logan olhou para ele de cima abaixo. Kenshin carregava na cintura sua inseparável sakabatou e ainda vestia as mesmas roupas do dia anterior. Elas tinham se reduzido a farrapos manchados aqui e ali de sangue seco. O próprio Kenshin não estava com uma aparência melhor, seu rosto estava cinzento, os olhos injetados com profundas olheiras. Logan sabia que por baixo da sua roupa havia um monte de ataduras e curativos. Ele havia se machucado bastante na sua luta contra Dentes-de-Sabre.

- A que devo a honra?

- Este servo tem algo muito importante a lhe dizer senhor Logan.

O mutante suspirou e em seguida jogou a toalha que ainda estava sobre seus ombros sobre uma cadeira. Pela cara séria de Kenshin, Logan imaginou que ele veio tentar obter algumas respostas. Durante as longas horas em que Kaoru permaneceu em perigo sobre a mesa de cirurgia, ninguém se preocupou muito em descobrir que lugar era aquele, como tinham vindo parar ali ou de onde vinha toda a tecnologia que viram no subsolo. Depois de passado o perigo, foi o cansaço que se encarregou de varrer aquelas questões das mentes deles... O que não parecia ser o caso de Kenshin. Logan não deixou de achar engraçada a súbita mudança de papéis: Alguns segundos atrás era ele que tentava arrancar alguma informação de Chang.

- Puxa uma cadeira cara. - disse Logan enquanto se dirigia novamente para a cômoda onde estava o conhaque - Tu ta com cara de quem vai cair desmaiado a qualquer momento.

Enquanto servia duas doses da bebida, o X-Man pensava no que diria a seguir. Ele já tinha decidido de antemão revelar toda a verdade para Kenshin e seus amigos. Depois de pensar muito, Logan chegou a conclusão de que precisava de aliados. Seria impossível capturar sozinho Dentes-de-Sabre enquanto ele tivesse os recursos do Tentáculo a sua disposição. Além do mais, mesmo que tentasse afastá-los para a sua própria segurança, isso resultaria em nada. Como o próprio Kenshin havia lhe dito, eles já estavam comprometidos, "atolados até o pescoço" naquela confusão.

O problema era como contar tudo aquilo. Se quisesse conquistar a confiança deles, principalmente de Kenshin, teria que explicar, na medida do possível, sobre mutantes, viagens no tempo, teleporte... Tudo isso a pessoas que viviam no Japão da Era Meiji, em pleno século XIX! Logan esperava ter algumas horas de descanso para pensar em como faria isso, mas Kenshin estava parado no seu quarto e provavelmente não arredaria pé dali até que Logan soltasse a língua.

Logan terminou de servir os cálices e começou a se virar para Kenshin. Com um pouco de sorte conseguiria fazê-lo beber o suficiente para adiar aquela conversa.

- Que tal um trago? Tu parece estar precisando dis...

Para a surpresa de Logan, Kenshin havia se ajoelhado do chão e agora se inclinava numa profunda mesura, até quase encostar a testa no chão. Com uma cara de absoluto espanto, Logan permaneceu calado por alguns segundos observando a cena, até que exclamou:

- Que merda é essa!?

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O dia já se encaminhava para seu fim quando Shiro terminou seu relatório. Ele estava falando há quase duas horas. Harada parecia disposto a destrinchar cada pormenor nos mínimos detalhes, fazendo perguntas a todo momento.

- Isso é tudo Shiro? - perguntou por fim o líder do Tentáculo.

- Sim senhor, nada tenho a mais para relatar.

- Está dispensado.

O ninja ergueu o rosto pela primeira vez durante toda a entrevista, ele tinha uma expressão confusa na face.

- Senhor... Me perdoe pela impertinência, mas me permita acabar com minha vida.

- Pedido negado.

- Mas...

- Calado!

Sem pensar duas vezes, o ninja voltou a se prostrar abjetamente e se calou. O açoite na língua do mestre tinha um efeito poderoso. Em seguida Harada continuou num tom mais tranqüilo.

- Shiro, ao meu ver, mais uma vez, você foi o único que consegui cumprir com suas obrigações. Por enquanto você tem mais utilidade para mim vivo do que morto. Agora retire-se.

Mais que depressa, Shiro tratou de sair dali, era a segunda vez em um curto intervalo de tempo lhe era negado o pedido para se suicidar. Ele mal podia acreditar que ainda poderia manter a cabeça sobre os ombros depois do fiasco da noite anterior. Antes de fechar o painel ele lançou pela primeira vez um rápido olhar para Dentes-de-Sabre. O mutante olhava para ele com uma expressão nada amigável. Durante todo tempo em que falou, o ninja se sentiu como um camundongo sobre o olhar fixo de uma serpente. Engolindo em seco, ele fechou o painel. De qualquer modo era ótimo sair daquela sala, usando as próprias pernas então... Melhor ainda.

Assim que a porta se fechou, Harada encarou Creed.

- Como eu havia dito anteriormente senhor Creed, nós temos um mistério aqui. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

- Acho que fomos passados pra trás.

- Não me diga. - caçoou Yamagushi - Chegou a essa brilhante conclusão sozinho?

Mais uma vez Creed fechou a cara e teve que fazer força para não pular sobre o homenzinho. Mas mais do que irritado ele estava chocado. O relato de Shiro não deixava dúvidas: Logan não teve escrúpulos em usar os recursos da LL&L para tentar salvar a garota. Ele nunca poderia imaginar que a agência permitiria tal coisa.

- Isso nós já deduzimos senhor Creed. - a voz de Harada parecia cortar como uma lâmina - O que nos interessa saber é como! E mais importante ainda: Para onde eles foram?

Dentes-de-Sabre se mexeu sobre a almofada, ele estava ficando com cãibras nas pernas e seu estomago soltava de vez em quando um ronco agourento. Num esforço de concentração ele tentava pensar no que diria a seguir. Com certeza não estava em seus planos revelar sua verdadeira origem. Harada olhava para ele como se pudesse perfurá-lo com os olhos.

- Quem é esse Logan? - perguntou ele de chofre.

- E o que isso importa! - exclamou Yamaguchi sem conseguir se conter - O que eu mais temia aconteceu. Battousai se colocou no nosso caminho! E muito mais cedo do que esperávamos.

Apesar da súbita explosão de Yamagushi, Harada se dirigiu ao membro do governo com a calma e a frieza de sempre.

- Se era inevitável que nos confrontássemos, talvez tenha sido melhor que isso ocorresse agora senhor Yamagushi.

O outro ia retrucar, mas não conseguiu achar nenhum argumento razoável pra expressar seu descontentamento, se limitando a encarar o interlocutor com uma expressão zangada. Por fim ele suspirou e olhou para o chão, finalmente vencido.

Harada não pode deixar de esboçar um pequeno sorriso antes de voltar novamente sua atenção para Victor Creed.

- Durante a madrugada eu recebi um mensageiro por parte de Shiro, ele me contou sobre a batalha contra Battousai, mas eu não tinha entendido ainda como e por quem o grupo que estava escondido na floresta foi dizimado. Só depois de ouvir Shiro é que liguei os pontos. Foi ele não é?

Creed cerrou os punhos e mais uma vez blasfemou silenciosamente, teria que ter muito cuidado com o que diria a seguir.

- Sim... foi ele.

- Senhor Creed. - continuou Harada - Pode nos fazer o favor explicar como um simples policial estrangeiro conseguiu dizimar em poucos minutos uma tropa de 50 assassinos altamente treinados?

- Ele... - começou Creed de forma titubeante - não é exatamente um policial comum...

- Com certeza que não! - interrompeu Harada - O que queremos saber, além da pergunta que eu já lhe fiz é: De onde veio esse homem? Qual a sua relação com ele? De que recursos ele dispõe? Como ele pode lutar de igual para igual com você? E o mais importante... Quais são os seus objetivos?

- ....

Vendo a relutância do outro em responder, Harada suspirou e se ergueu, passando a caminhar na direção do canto do aposento com as mãos trançadas as costas.

- Senhor Creed... - começou ele sem se voltar - É claro que a possibilidade de ter que enfrentar Battousai Himura me preocupa muito, ele é um inimigo formidável.

Sem mais nem menos, o líder do Tentáculo se volta e dirige a Creed um olhar agudo.

- No entanto... me preocupa muito mais a possibilidade de enfrentar um inimigo poderoso e totalmente desconhecido. Por tanto, para o bem de todos nós, é melhor o senhor começar a revelar tudo o que sabe.

Dentes-de-Sabre sustentou por alguns segundos o olhar de Harada. Nunca o odiou tanto quanto naquele momento. Seria tão fácil matá-lo, matar todos eles... um por um. Mas não... não podia fazer isso porque precisava deles. A constatação desse fato serviu apenas para aumentar o ódio do mutante. De uma forma ou de outra, Creed decidiu que daria fim a Harada e ao maior número possível de ninjas do Tentáculo assim que eles não lhe fossem mais úteis.

- Você não ouviu? - disparou Yamagushi - Comece a falar!

Creed já tinha um palavrão na ponta da língua endereçado para Yamagushi quando uma voz se fez ouvir por trás do painel as suas costas.

- Jonin-sama.

Harada fechou a cara mais ainda. Ele havia deixado instruções muito claras sobre ser interrompido durante aquela reunião. E ele já estava pensando num castigo apropriado para o imbecil atrás da porta quando se lembrou da única condição que ele mesmo impôs para justificar uma interrupção. Imediatamente seu estado de espírito passou da irritação e impaciência para a expectativa.

- O que foi? Diga logo.

O ninja correu o painel e tocou a testa no chão antes de falar.

- Senhor. Eles acabam de chegar.

Ao ouvir aquilo, os olhos de Harada brilharam, e mais uma vez ele se permitiu exibir um sorriso frio e perverso.

- Perfeito! Finalmente uma boa notícia. Vou recebê-los imediatamente. Vá!

- Hai!

Após o ninja fechar mais uma vez o painel, Yamagushi foi o primeiro a se manifestar.

- Harada, o que significa tudo isto?

- Ora caro Yamagushi, já se esqueceu da nossa conversa de ontem?

Quase imediatamente, a expressão confusa do homenzinho foi substituída por um clarão de reconhecimento.

- Então eles já chegaram? - disse ele se erguendo - Isso com certeza é uma ótima notícia. Vamos vê-los imediatamente.

- Ei, esperem aí! - protestou Creed - O que se passa por aqui? Do que estão falando?

- Vai ter que me perdoar senhor Creed. Mas vamos ter que deixar o restante dessa conversa para depois.

A súbita mudança de rumo pegou Creed de surpresa. Ele não deixou de agradecer a sorte por ganhar mais algum tempo antes de ter que prestar esclarecimentos aos seus aliados, mas ao mesmo tempo estava preocupado. Alguma coisa lhe dizia que ele havia sido deixado de fora em alguma decisão muito importante.

Harada se dirigiu a ele com aquele desdenhoso sorriso estampado na cara.

- Acho melhor o senhor ver com seus próprios olhos. Vamos.

Os três então saíram do aposento, Harada ia a frente caminhando a passos largos e atraindo como um imã todos os guardas por que passava, Yamagushi estava logo atrás, se esforçando para conseguir acompanhar o ritmo da comitiva.

Creed ia um pouco mais atrás do grupo, se perguntando a cada passo, no que o líder do Tentáculo estava pensando e o que os aguardava do lado de fora.

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Logan enfrentava um dilema parecido, só que no caso dele o alvo de suas conjecturas era Kenshin Himura.

- Tu pode me explicar o que se passa aqui?

Era a segunda vez que Logan perguntava a Kenshin e não obtinha resposta. O espadachim continuava ajoelhado a sua frente com cara quase encostada no chão.

Na verdade Kenshin estava reunindo coragem. Ele sabia muito bem o que deveria fazer, mas não era uma tarefa das mais fáceis. É irônico como muitas vezes é muito mais fácil lutar pondo a própria vida em risco do que dizer simples palavras. Talvez nestes casos, assim como numa luta, a melhor opção é tomar logo a iniciativa.

Pensando dessa forma, Kenshin ergueu o busto e encarou Logan. Ele veio aquele aposento com um objetivo e não sairia dali até que o cumprisse.

- Senhor Logan... Este servo lhe deve desculpas.

Pego totalmente de surpresa, Logan quase derrubou os dois copos de bebida que tinha nas mãos.

- Como é que é?!

Largando os copos em cima de uma cômoda, o mutante em seguida deu um passo a frente e se abaixou, ficando assim com a cabeça no mesmo nível que Kenshin.

- Eu ouvi direito.... Tu veio aqui me pedir desculpas?

- Sim... é isso mesmo... e também para agradecer.

Logan não podia acreditar no que estava ouvindo.

- Olha Himura... - começou ele enquanto balançava a cabeça negativamente - Eu já disse uma vez que vocês não tem motivo nenhum pra agradecer... muito menos pedir desculpas.

- No entanto este servo está aqui para isso.

Logan ia retrucar novamente, mas Kenshin ergueu a mão e o interrompeu. Ele tinha uma expressão muito séria e compenetrada no rosto.

- Por favor... Este servo pede humildemente que ouça estas palavras.

Assentindo com a cabeça, Logan tratou de sentar sobre os joelhos, na mesma postura formal em que Kenshin estava. Ficou claro para ele agora que aquilo era uma questão muito importante para Kenshin, e não uma simples formalidade.

O espadachim respirou fundo e começou:

- Desde o começo este servo nutriu desconfianças a seu respeito, mesmo tendo o senhor afirmado que tinha boas intenções. Mais tarde, mesmo depois de o senhor ter salvo a vida dos amigos deste servo, ele continuou a desconfiar do senhor e pior ainda... lhe faltou com o respeito... Por tudo isto, este servo pede desculpas.

Mais uma vez Kenshin se inclinou profundamente. Também muito sério, Logan assentiu com a cabeça sem dizer nada, demonstrando assim que aceitava o pedido de desculpas. Kenshin voltou a posição inicial e continuou a falar.

- Talvez não hajam palavras adequadas para agradecer o que o senhor fez pelos amigos deste servo... principalmente pela senhorita Kaoru... Mesmo assim este servo quer que o senhor saiba que ele lhe será eternamente grato... E que de agora em diante, haja o que houver, ele estará do lado do senhor. O mínimo que este servo pode fazer para retribuir é lhe emprestar sua força e sua espada.

Ainda com um semblante muito sério, Logan olhou no fundo dos olhos de Kenshin e mais uma vez assentiu positivamente. Em seguida ele se ergueu e deu mais um passo a frente. Kenshin abaixou os olhos, mirando um ponto logo a sua frente. Ele conseguiu falar o que queria, mas não tinha a mínima idéia de qual seria a reação de Logan.

- Tudo bem Himura... mas tem uma condição.

- E qual seria?

- Para com esse negócio de "senhor".

- Oro?!

Ao erguer os olhos, Kenshin viu que Logan tinha trocado a cara séria por um sorriso de orelha a orelha.

- E trata de levantar logo daí caramba! A gente não ta numa maldita cerimônia do chá!

Ainda um pouco confuso Kenshin se ergueu segurando na mão esquerda sua espada.

- Assim ta bem melhor. - disse Logan num tom descontraído, em seguida ele estendeu sua mão para Kenshin.

- Me chama só de Logan.

Por um momento, Kenshin olhou para a mão grande e nodosa do estrangeiro, lembrando que mais cedo naquele mesmo dia ele havia não só recusado o cumprimento como também acusado Logan de várias coisas. E agora aquela mesma mão lhe era estendida novamente num gesto de amizade.

Kenshin olhou para Logan e sorriu pela primeira vez em muitas horas.

- Só se você me chamar só de Kenshin.

- Fechado!

Os dois então trocaram um forte aperto de mão. O gesto não tinha só o sentido de diluir possíveis rancores e desconfianças. Mas marcava também o início de uma amizade que desafiava as barreiras do tempo de do espaço.

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Quando Creed finalmente saiu da residência de Harada se viu diante de uma cena pouco comum. Praticamente todos os ninjas que residiam no vale estavam presentes no grande terreno que ficava em frente a casa do chefe. Em fileiras simétricas e perfeitamente organizadas eles se postavam em torno de um grupo menor.

Harada se sentou num pequeno banco preparado para ele, enquanto Yamagushi permanecia de pé a seu lado direito e Creed no esquerdo.

A um único comando, toda aquela multidão vestida de preto se ajoelhou no pó e se inclinou profundamente, numa respeitosa saudação ao seu chefe.

Ao chegar mais perto, Creed notou que na verdade eram quatro pequenos grupos que se destacavam no centro do pátio. Todos contendo em torno de dez pessoas trajando roupas civis.

Mas o que chamava realmente a atenção era a presença de quatro homens que se adiantavam, cada um em frente ao seu respectivo grupo. Eles também não usavam uniformes, mas suas roupas e aparência estavam longe de serem comuns.

Dentes-de-Sabre logo de cara sentiu algo diferente no ar. Havia definitivamente uma aura ameaçadora vindo dos quatro. Aquilo aumentava mais ainda sua inquietação quanto aos planos de Harada.

- Sejam bem-vindos. - anunciou em alto e bom som o líder do Tentáculo. - Espero que tenha feito uma boa viagem.

- Atendemos a sua solicitação o mais rápido possível. - anunciou um deles, ainda de cabeça baixa - Nos encontramos na estrada Tokaido, já próximos a Tókio.

- E como sempre chegaram na hora certa. - nesse momento Harada passou a usar um tom de voz mais caloroso e cordial - Como vai Mizu?

O ninja ergueu a cabeça para encarar o Jonin e esboçou um discreto sorriso. Seu rosto estreito e marcado por algumas rugas indicava que ele já estava na casa dos quarenta. Uma grande cicatriz vertical riscava o lado direito do seu rosto da testa até o queixo e seu cabelo cortado curto já estava ficando grisalho nas têmporas. Mesmo assim, sua postura, assim como seu porte alto e esguio sugeriam um corpo ágil. Suas roupas simples e em cores sóbrias indicavam um temperamento comedido e ponderado. Ele trazia preso no cinto as suas costas um pesado kusarigama, com uma corrente anormalmente longa que acabava numa pesada bola de ferro cheia de farpas.

- Não tão bem quanto o senhor com certeza. - respondeu ele com uma voz grave e controlada - Tenho a impressão que estes velhos ossos não vão poder lhe servir por muito mais tempo.

- Há há há! Já esperava que dissesse isso. Há muito tempo você fala assim, e no entanto continua firme como uma rocha... É muito bom tê-lo por perto meu amigo.

- Obrigado senhor.

Em seguida o líder do Tentáculo se dirigiu ao homem ao lado.

- Olá Kaze. - saudou ele num tom descontraído - Pelo que vejo você continua extravagante quanto ao seu jeito de vestir.

O mencionado Kaze ergueu a cabeça e abriu um largo sorriso. Ele usava um conjunto de kimono/hakama em cores vibrantes e uma sobrecasaca com estampa de motivos florais.

- Hehehe. Realmente a discrição não é o meu forte senhor.

Sua voz era clara e quase infantil e junto com seu rosto jovial indicavam uma idade não maior do que vinte anos. Sua tez clara, porte miúdo e esguio, traços delicados e os grandes olhos castanhos lhe conferiam uma aparência andrógena, quase feminina. Seu cabelo preto e muito comprido estava amarrado num elegante rabo de cavalo. Ademais ele trazia na cintura uma katana. Os detalhes na bainha, guarda e empunhadura sugeriam ser aquela arma uma peça rara, de extrema qualidade.

O líder do Tentáculo soltou uma sonora gargalhada, como sempre ele se divertia com o jeito descontraído e bonachão de Kaze. Mas ele mais do que ninguém sabia que aquele garoto com cara de bebê era bem mais do que aparentava. Seu sorriso diminuiu consideravelmente quando encarou o próximo homem.

- Há quanto tempo Yakedo. Como foi a viagem de Ryukiuu até aqui?

- Péssima. - sua voz era rouca e com forte sotaque de Okinawa - Só espero que esse trabalho todo valha alguma coisa.

Ao contrário dos outros dois, Yakedo não parecia nem um pouco satisfeito por estar ali. Seu rosto moreno e anguloso era típico do povo daquelas ilhas, nele se destacavam olhos incrivelmente verdes de aparência fria e cruel. Parecia estar na casa dos 30 e era bem alto para os padrões japoneses. Vestia um colete de couro preto que deixavam livres seus braços longos e musculosos. Também usava calças pretas e botas em estilo ocidental. Num largo cinturão carregava entre outras coisas, pequenas facas de arremesso, shurikens e vários embornais de tamanhos variados. Carregava ainda numa bandoleira as costas uma grande arma, a primeira vista parecia uma lança, mas na verdade se tratava de uma estranha espada de gume duplo. Para completar sua aparência nada convencional, exibia uma exuberante cabeleira espetada como a de um porco espinho, num discretíssimo tom vermelho alaranjado.

- Não se preocupe Yakedo, - disse Harada - Desta vez tenho um desafio à altura de suas habilidades.

- Assim espero senhor.

Sato Harada estreitou os olhos ante a empáfia do outro. Definitivamente não gostava de Yakedo. Ele era cínico, arrogante e extremamente perverso. Somente aturava seu ego inchado devido à absoluta confiança que tinha em suas habilidades.

Ao concentrar sua atenção no último homem, o Jonin do Tentáculo voltou a sorrir mais calorosamente.

- E por fim temos o valoroso Gan. Como sempre você parece ficar maior a cada vez que o encontro.

O homem chamado Gan ergueu a cabeça e exibiu um sorriso canhestro.

- Isso com certeza deve ser impressão sua senhor.

A voz profunda e cavernosa combinava bem com seu corpo gigantesco. Ele tinha mais de dois metros de altura e seu peso ultrapassava facilmente os 130 kg. Seu rosto tinha uma expressão feroz mesmo quando ele sorria e parecia ter sido esculpido numa pedra. Ele vestia um kimono escuro, simples e sem mangas, calças da mesma cor e sandálias completavam seu visual despojado. Apesar de ter pouco mais de trinta anos, era completamente calvo, não tendo nem os pelos das sobrancelhas. Ao contrário dos outros aparentemente não trazia nenhuma arma.

- Como estão as coisas em Kyoto? - perguntou Harada.

O sorriso imediatamente se apagou do rosto de Gan ao ouvir a pergunta, não esperava ser inquirido sobre o assunto tão cedo.

- Bem senhor... Como bem sabe nossos problemas com a Onimistu Oniwanbashu tem aumentado desde que Shinomori Aoshi voltou ao comando.

Ao ouviu aquele nome, Mizu se empertigou imediatamente, como se tivesse sido picado por um inseto venenoso. A reação não passou despercebida por Harada.

- Sim eu tenho lido os relatórios, mas não falemos mais nisso por enquanto.

Dito isto o Jonin se ergueu.

- Quero mais uma vez dar as boas vindas a vocês e suas respectivas comitivas.

Ele se inclinou respeitosamente, ao que os quatro responderam mais uma vez tocando as testas no chão. Em seguida ele ergueu sua voz trovejante para que todos os ninjas do vale o ouvissem.

- Saibam que em breve nossos mais acalentados sonhos se tornarão realidade. Finalmente nossa hora está chegando, a hora dos shinobi finalmente deixaram de ser meras sombras furtivas para assumirem o controle efetivo deste país!

Como se fossem um só homem, todos os ninjas ali presentes ergueram os punhos cerrados e gritaram.

- HOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!

O velho Yamagushi sorriu, ele tinha que admitir que Sato Harada sabia como ninguém inspirar seus comandados. Já Dentes-de-Sabre, muito pelo contrário, permaneceu de braços cruzados e cara fechada. As intenções de Harada estavam muito claras para ele agora. A sua posição como principal assassino do Tentáculo estava em xeque, e aqueles quatro estavam ali para garantir que nada mais desse errado.

Em seguida o líder do Tentáculo se dirigiu mais uma vez aos seus quatro convidados especiais.

- Senhores... quero que conheçam dois importantes aliados. - fez um gesto na direção de Yamagushi - Este é Yoshihiro Yamagushi, ministro do governo Meiji e nosso principal apoio político.

O ministro se inclinou numa saudação, ao que foi correspondido na mesma medida por Mizu, Kaze, e Gan. Yakedo no entanto, se limitou a fazer um leve aceno de cabeça, olhando para o ministro como se ele fosse um o mais imundo dos vermes.

- E este, - Harada preferiu mais uma vez ignorar a atitude afrontosa de Yakedo - é o senhor Victor Creed, como já devem saber, graças as suas extraordinárias habilidades, ele tem sido de suma importância para a concretização de nossos planos.

Creed sentiu o sangue subir a cabeça. Aqueles quatro o conheciam, por outro lado ele nunca tinha sequer ouvido falar deles. Dentes-de-Sabre olhou nos olhos de cada um: Viu desconfiança e estudada cautela por parte de Mizu; curiosidade e deboche em Kaze; indiferença e asco em Yakedo e clara animosidade por parte de Gan.

Parecia que eles não só o conheciam como já tinham uma opinião formada a respeito dele. Em uma palavra, o que o mutante viu naqueles rostos foi: "Desprezo". Como o sentimento era mútuo, Victor Creed sorriu desdenhosamente e os cumprimentou com um leve aceno, ao que foi correspondido na mesma moeda por todos. Intimamente o mutante imaginava do que aquelas figuras seriam capazes, estava curioso para ver com seus próprios olhos o que motivou Harada a trazê-los de tão longe.

Sato Harada é claro notou imediatamente o teor negativo daquele primeiro contato, mas já esperava por isso. Ao seu ver já estava mais que na hora daquele estrangeiro arrogante conhecer o verdadeiro poder do Tentáculo. Poder perfeitamente representado naqueles quatro: Os últimos representantes dos quase legendários ninjas do vale de Kouga.

- Muito bem. - disse ele - Reúnam os seus homens e sigam-me. Temos que comemorar nosso reencontro.

Os quatro se levantaram e distribuíram ordens aos homens que os acompanhavam. Imediatamente todos os outros ninjas que participavam da recepção também se ergueram e começaram a se dispersar de forma ordeira e silenciosa.

Dentes-de-Sabre já ia deixando o local quando notou que um dos membros da comitiva de Gan o olhava insistentemente. O mutante devolveu o olhar e observou com atenção as reações do sujeito. Se tratava de um rapaz miúdo e muito magro, ele trajava uma longa capa preta e o seu rosto estava meio oculto por um grande chapéu cônico de palha, mas Creed achou ter visto dois grandes olhos azuis o fitando .

Pego de surpresa o rapaz não conseguiu dissimular e muito menos escapar do olhar penetrante de Creed. Picado de desconfiança o mutante já começava a caminhar na direção dele quando ouviu a voz de Harada atrás de si.

- O senhor também está convidado a se unir a nós senhor Creed.

Creed estacou e se voltou para ele.

- Se o senhor me permite eu gostaria de voltar para os meus aposentos e descansar.

- Ora vamos senhor Creed, o banquete já está servido, mandei preparar vários dos seus pratos favoritos.

Só em ouvir a menção à comida, a boca de Dentes-de-Sabre se encheu de saliva e seu estômago protestou num ronco nada discreto.

- Bem... - disse ele tentando se recompor - se o senhor insiste vou participar da reunião.

- Ótimo.

- Só uma coisa... pode me dizer se conhece aquele rapaz?

Creed se virou apontando para o local, mas já não havia ninguém ali.

- Que rapaz?

Olhando de um lado para o outro, Creed tentava localizá-lo, mas não viu nem sinal dele em meio à multidão que ainda se dispersava no pátio. Um novo ronco no seu estômago varreu de vez aquela idéia de sua mente.

- Deixa pra lá, - disse ele sacudindo os ombros - não era nada importante.

A alguns passos dali no entanto, Mizu observava uma dupla sair discretamente do pátio. Um deles era alto e magro e o outro era um baixinho usando capa e chapéu de palha.

Enquanto todos seguiam seus rumos, gradativamente o pátio foi ficando vazio. O sol estava se pondo, e naquele vale sombrio a noite chegava mais cedo. Tochas e fogueiras eram acesas para espantar o frio e a escuridão, um grande banquete estava sendo servido para comemorar a chegada do esquadrão especial do Tentáculo, que atendia também pela alcunha de "Os Quatro Flagelos".

Já era noite fechada, duas figuras no entanto, pareciam preferir o ar úmido e frio da noite ao calor e a mesa farta do banquete. Eles caminhavam pelo meio das árvores de forma silenciosa, fazendo a densa névoa rodopiar insanamente em torno de suas capas.

No entanto, caminho que trilhavam os faria passar obrigatoriamente por um posto de vigília. O posto era guardado por um ninja armado com uma lança. Como era de se esperar, ele estava alerta, e muito compenetrado no seu dever. Porém, a aproximação da dupla foi tão sorrateira e silenciosa que o vigia só se deu conta da presença deles quando estava bem diante do seu nariz.

- Boa noite. - disse um deles.

O vigia pulou para trás com agilidade felina e assestou a sua lança na direção dos estranhos.

- Quem está aí? - o ninja falhou miseravelmente em tentar manter a voz firme.

- Tenha calma amigo, estamos só de passagem.

Ainda com o coração aos pulos o vigia apertou os olhos diante do tom debochado do outro, rapidamente seu estado de espírito passou do susto para a vergonha e finalmente a raiva. Quando voltou a falar sua voz saiu mais firme.

- Quem são vocês e o que pretendem? Falem!

A dupla deu mais um passo a frente ficando bem dentro círculo de luz alaranjada, projetado por um grande archote de ferro. Um deles era muito alto, vestia uma capa escura e um grande capuz quase escondia seu rosto completamente. O outro tinha quase a metade do tamanho do primeiro, vestia também uma capa, mas ao invés de um capuz era um chapéu de palha que encobria seu rosto.

- Somos da facção de Kyoto. - pronunciou o mais alto numa voz fria e monocórdia - Mestre Gan nos enviou numa missão.

- Digam quem são! - exigiu o vigia que ainda apontava a lança ameaçadoramente para os dois - E quero que mostrem os seus rostos!

- O que foi? - disse o baixinho numa voz que poderia muito bem pertencer a um menino de 12 anos - Quer ver quem foi que te pegou com as calças na mão?

O ninja quase engasgou de tanta raiva ao apontar a lança para o baixinho e vociferar.

- ANDEM LOGO!

O baixinho parecia prestes a soltar mais uma piadinha, mas o mais alto o deteve com um gesto e logo em seguida puxou o capuz para trás revelando o seu rosto. A luz do archote mostrou um rosto severo e ameaçador, onde se destacavam um grande tapa-olho sobre a vista esquerda e um bigode/cavanhaque negro. Os cabelos, também negros, estavam penteados totalmente para trás.

- Por favor, - disse ele no mesmo tom frio e objetivo de antes - perdoe a impertinência de meu companheiro. Me chamo Shimada Asano, lugar-tenente e responsável pela logística do Tentáculo em Kyoto. Este é o meu ajudante Saomi Kimashima.

Com um suspiro de impaciência, o dito Kimashima tirou o chapéu. Seu rosto assim como sua voz parecia pertencer a um adolescente. Tinha grandes olhos azuis e o cabelo preto e comprido estava amarrado num rabo de cavalo.

- Está satisfeito? - perguntou ele no mesmo tom de zombaria.

Sem mais nem menos Asano lhe aplica um sonoro cascudo na nuca.

- Ui!

- BAKA! - rosnou Asano - Peça desculpas pela sua ousadia.

- Mas...

- VAMOS.

Coçando o local atingido, Kimashima encarou Asano como se fosse protestar, mas recebeu por parte do outro um olhar penetrante que lhe dizia claramente "Nem pense nisso!". Sem outro remédio, o rapaz se virou para o ninja, que a essa altura já tinha abaixado a lança e observava a cena com interesse. Com a boca apertada numa linha reta e os olhos brilhando com lágrimas de pura indignação, Kimashima se inclinou numa mesura rígida e desajeitada.

- Senhor. - disse ele - Peço que me perdoe se o ofendi.

O ninja apoiou o cabo da lança no chão e finalmente relaxou.

- Está bem rapazinho... mas para o seu próprio bem, seja mais cauteloso no futuro.

Apesar de usar uma máscara sobre o rosto, era óbvio que o ninja tinha naquele momento, um amplo sorriso estampado no rosto. Kimashima cerrou os dentes e deu um passo a frente como se fosse agredi-lo, mas foi detido pela mão de Asano em seu ombro.

- Se nos dá licença, - disse ele - gostaríamos de continuar em nosso caminho. Temos a incumbência de trazer parte da bagagem que ficou na última hospedaria.

- Está bem. - respondeu o vigia dando um passo pro lado - podem prosseguir, não devia ter atrapalhado um serviço "tão" importante.

Ignorando a zombaria, Asano se inclinou mais uma vez. Se sentindo completamente vingado o guarda correspondeu de bom grado ao cumprimento

Praticamente empurrando Kimashima a sua frente, Asano passou pelo guarda. Os dois seguiram em passo acelerado pela trilha escura, sem olhar uma única vez para trás.

Os dois continuaram caminhando no mais completo silêncio. Kimashima ia a frente com Asano a poucos passos atrás. De vez em quando o baixinho levava a mão por baixo do chapéu para coçar o cocuruto. Depois de um bom tempo Asano resolveu quebrar o silencio.

- Está doendo muito?

- ....

- Desculpe... Mas foi o jeito que achei para sairmos daquela situação.

- ....

- Por outro lado, você mereceu o castigo.

Ao ouvir aquilo, Kimashima estacou e se virou de chofre obrigando o outro a parar também para não colidirem.

- O que quer dizer com isso? - perguntou o baixinho com uma voz um pouco mais fina do que usara antes.

- Quero dizer que você tem que tomar mais cuidado daqui pra frente... Misao.

Misao Makimachi arrancou o chapéu de palha da cabeça e encarou o outro com os olhos faiscando de raiva. Parecia prestes a explodir, mas aos poucos foi relaxando seu semblante e sua postura, até que com um suspiro de puro cansaço, se afastou e foi se sentar junto às raízes de uma árvore próxima.

- Tem razão Aoshi-sama, eu fui muito estúpida.

Aoshi Shinomori abaixou o capuz e se aproximou, se ajoelhando junto a Misao.

- Se você continuar assim, vai arruinar o nosso disfarce.

A garota soltou outro suspiro, abraçou os joelhos e escondeu o rosto entre eles.

- Eu sei.... Me desculpe.

- É a segunda vez que você se descuida hoje... o que deu em você pra ficar encarando aquele estrangeiro daquele jeito?

- Sei lá. - a ninja estremeceu perceptivelmente ao se lembrar - Havia alguma coisa muito estranha naquele cara... Quando ele olhou nos meus olhos simplesmente não consegui desviar o olhar. Entrei em pânico e não consegui me mexer.

O líder da Onimitsu Oniwambashu concordou com a cabeça sem dizer nada. Ele também havia ficado muito impressionado com a presença do gigante estrangeiro, os boatos sobre ele que chegavam a Kyoto não eram nada exagerados.

- Misao. - começou ele - Quanto menos atenção chamarmos sobre nós mesmos melhor. Nos infiltramos no Tentáculo com o objetivo de coletar o máximo de informações possíveis.

- Eu sei, eu sei. - resmungou Misao enquanto recostava as costas no tronco da árvore e trançava as mãos na nuca. - É que esse negócio já está me enchendo.

- Eu avisei que seria difícil. Mas mesmo assim você insistiu em vir comigo.

Misao que estava com os olhos fechados, abriu um olho para encarar Aoshi.

- Não vamos começar essa discussão de novo né?

Foi a vez de Aoshi soltar um longo suspiro e ser erguer.

- Não... Agora mais do que nunca seria uma completa perda de tempo.

Ele se virou e começou a observar os arredores. Sua escolha inicial para lhe fazer companhia naquela missão havia sido Shiro, mas Misao exigiu impetuosamente fazer parte da operação, alegando estar ela mais do que preparada para a arriscada tarefa. Apesar das fortes opiniões em contrário, especialmente de Aoshi e Okina, não houve argumentos que demovessem a garota. E depois de dois meses de um trabalho árduo os dois estavam ali. Aoshi não podia deixar de reconhecer que Misao havia amadurecido muito e que tinha um talento nato para a espionagem. Mas mesmo assim, ela tinha aquela perigosa propensão a agir sem medir as conseqüências às vezes. Por mais de uma vez, ela quase comprometeu o disfarce deles por causa disso. Em todos estes momentos de perigo, o que mais afligia Aoshi era a segurança pessoal daquela garota, que ele ajudou a criar como se fosse uma filha.

Da parte de Misao, sua motivação em acompanhar o Okashira era bem conhecida por todos. Menos é claro pelo próprio Aoshi.

Desde o encerramento do caso de Makoto Shishio, Aoshi Shinomori havia retornado a Onimitsu Oniwambashu. Mas as feridas psicológicas e emocionais causadas em seu período de "loucura" eram muito profundas. E o Okashira lidou com aquilo da única maneira que conhecia: Se fechando cada vez mais e buscando dentro de si as forças para se reerguer. Deste modo Aoshi se tornou um homem muito mais frio do que era antes, preferindo sempre a solidão da contemplação meditativa a companhia e convivência com os amigos. Misao, que nutria por ele sentimentos muito mais profundos do que os outros, era quem mais estava sofrendo com isso.

A agitação causada pelo Tentáculo obrigou Aoshi a voltar a ativa bem antes do que ele esperava. Mesmo ainda não tendo encontrado um bom termo para se ajustar a sua nova condição, o Okashira não teve outra saída senão reassumir o seu antigo posto e enfrentar a ameaça.

Apesar dos riscos, Misao viu ali uma oportunidade de tentar se aproximar um pouco mais daquele homem que tanto admirava. A natureza daquela missão obrigava Aoshi a tratá-la com uma frieza quase glacial na maior parte do tempo. Mas nos raros momentos em que podiam ser eles mesmos, Misao sentia que ele aos poucos ia derretendo aquela muralha de gelo que construiu ao redor de si e voltava a ser o homem gentil e atencioso de que ela se lembrava. Eram momentos breves, traduzidos em gestos ou palavras quase imperceptíveis, mas que para Misao significavam muito, e faziam valer cada segundo em que estavam juntos.

Aoshi olhou para cima observando as estrelas por entre as copas das árvores, avaliando assim o período da noite em que estavam e quanto tempo tinha passado desde que saíram do esconderijo do Tentáculo. Em seguida ele se voltou para Misao que continuava recostada tranquilamente contra o tronco da árvore.

- Se já descansou o bastante vamos andando. Se demorarmos demais, vamos levantar suspeitas.

- Ta legal senhor "Asano". - disse Misao se erguendo e espanando o pó das roupas - Mas uma das coisas que me enerva é esse nosso papel de subalternos. É humilhação demais pro meu gosto. Até quando vamos ter que agüentar isso?

Aoshi recomeçou a caminhar a passos largos, obrigando Misao a quase correr para acompanhá-lo.

- Nosso trabalho já esta quase no fim. Se tudo der certo, amanhã mesmo vamos conseguir as respostas que viemos buscar... E então será o momento de agir.

- Eu mal posso esperar. Você acha que o Himura recebeu as mensagens do pessoal de Kyoto?

- Eu espero que sim. Mas não podemos contar com isso, é bem provável que o Tentáculo tenha conseguido bloquear todas as nossas tentativas de comunicação, já que não obtivemos nenhuma resposta por parte de Battousai enquanto estávamos em Kyoto.

- Nesse caso...

- Sim. Assim que obtivermos a informação, o nosso próximo passo vai ser contatar pessoalmente Battousai e pô-lo a par de tudo. Seus contatos junto ao governo Meiji vão fazer o resto.

- Humpf... Por mim a gente arrebentava essa gangue com as próprias mãos e pronto. Com a ajuda do Himura e daquele amigo crista de galo dele isso ia ser baba.

- ....

- O que foi? Não concorda comigo? Esses caras são patéticos!

- Um shinobi nunca deve subestimar seus oponentes Misao.

Misao começou a rir debochadamente.

- Não exagera. Tome como exemplo aquele idiota lá de trás...

- Eu estava pensando mais especificamente nos Quatro Flagelos.

O riso de Misao desapareceu como que por encanto. Ela abaixou os olhos e passou a coçar o queixo.

- Bom... quanto a esses aí eu não posso dizer muito, a não ser pelo Gan eu nunca vi nenhum dos outros em ação. Mas de um jeito ou de outro, não devem ser melhores do que a Jupongatana do Shishio.

Aoshi parou de repente e se virou. Como estava distraída, Misao bateu com a cara no estomago dele.

- Ai! O que foi? - disse ela se voltando imediatamente na direção em que o outro olhava e começando a perscrutar as sombras - Viu alguma coisa?

- Quieta!

Por um momento Aoshi apenas observou um ponto na escuridão. Vários minutos se passaram enquanto os dois permaneceram totalmente parados, parecendo mais duas estátuas Um ruído nítido de um graveto seco se quebrando chegou aos seus ouvidos. Aoshi levou a mão a uma de suas Kodachis que estava escondida sob o manto e se preparou para agir.

Logo em seguida, um pequeno porco do mato surge detrás de uma moita. O animal parou a poucos metros da dupla e farejou o ar desconfiado. Misao relaxou o corpo soltando um grande suspiro, provocando a fuga em disparada do pequeno visitante.

- Ufa... Que susto você me deu porquinho.

Aoshi deu mais uma olhada em volta, e então se virou e começou a andar mais uma vez.

- Vamos andando. - disse ele num tom de voz ainda mais baixo - E daqui pra frente nada de conversa.

- Espera. - Misao teve novamente que se esforçar para acompanhar os largos passos do outro - O que foi aquilo?

- Nada, se apresse e fique calado senhor "Kimashima".

- Humpf. Tudo bem, mas primeiro você vai dizer o que o preocupa tanto nesses "Quatro Flagelos".

- Várias coisas.

- Tipo...

- (suspiro) Se eu disser você fica quieta?

- Bem... Vamos dizer que eu posso tentar.

- Não é o bastante.

- Ta bem, ta bem. Eu prometo ficar quieta.

Eles continuaram caminhando por alguns instantes sem que Aoshi falasse nada. Misao já ia protestar quando o Okashira finalmente soltou a língua.

- Um deles já foi membro da Oniwambashu.

- O QU....!

Aoshi se vira novamente e num movimento rápido tapa a boca de Misao.

Mais tarde eu lhe darei mais detalhes. - disse ele ainda tapando a boca da garota - Agora ande, e não esqueça sua promessa.

Sem dizer mais nada, Aoshi Shinomori se vira e torna a andar apressadamente. Paralizada pelo choque da revelação, Misao demora um pouco para se pôr também em movimento. Logo ela alcança seu comandante, mas apesar de ter muitas perguntas a fazer decide não arriscar sua sorte e permanece calada.

Os dois logo desaparecem em meio a escuridão da floresta. No rastro de sua passagem tudo volta a ficar muito quieto e por alguns minutos permanece assim. O pequeno porco sai novamente do mato e depois de vigiar cautelosamente os arredores passa a farejar a trilha em busca de algum inseto. E então, de repente uma figura escura e esguia surge como que do nada, brotando das sombras como se tivesse sido parte delas até aquele momento. O porco do mato não se dá conta da materialização da figura até que literalmente esbarra nela. Mas assim que percebe da presença daquele homem, a pequena criatura se põe a correr desabaladamente mato adentro, soltando guinchos de puro desespero.

O homem olha na direção em que o animal havia corrido com um sorriso perverso no rosto. Em seguida ele volta à atenção para a trilha a sua frente avaliando se valia a pena continuar a segui-los ou não. Ele estava quase chegando perto o suficiente para ouvir a conversa dos dois quando o mais alto sentiu sua presença. Teve então que se afastar e ficar quieto para não ser descoberto.

Depois de alguns instantes, ele resolve desistir por enquanto, e começa a voltar pelo caminho que o levaria de volta ao esconderijo do Tentáculo no fundo do vale. "Os outros devem estar se perguntando onde eu fui a essa altura", pensou ele. "Se me apressar, ainda vou pegar o final do banquete".

Apesar de não ter ouvido nada, Mizu não estava de todo incomodado com sua tentativa frustrada. Só o fato de aquele Shimada Asano ter conseguido sentir sua presença já era algo muito suspeito. Mizu havia sentido algo estranho nele desde o primeiro instante em que o vira, no encontro das comitivas na estrada Tokaido. Desde então passou a vigiar tanto a ele quanto ao seu companheiro baixinho. Gan mais de uma vez lhe garantiu que os dois, apesar de terem ingressado no Tentáculo há pouco tempo eram de confiança, e muito competentes nas suas tarefas.

No entanto nada tirava de Mizu aquela sensação de que conhecia Asano de algum outro lugar e que ele escondia algum segredo. Mais do que nunca, ele decidiu que deveria ficar de olho naqueles dois.


Última revisão 15/09/2006

Comentários

E depois de outro longo hiato, eis que surge mais um capítulo deste fanfic. Este imenso episódio marca uma pequena pausa na "pauleira" que foram os anteriores, mas apesar de não haverem cenas de ação ou luta, muitas coisas acontecem.

A primeira metade do fic é dedicada quase que exclusivamente aos desdobramentos da luta entre Dentes-de-Sabre e Wolverine/Kenshingumi. O grande destaque se dá por conta da conversa entre Kenshin e Logan onde os dois finalmente "acertam os ponteiros".

Muitos leitores estavam estranhando o clima de animosidade e desconfiança entre os dois protagonistas da história, mas como eu já disse antes, achei necessário criar essa tensão primeiro. Minha idéia sempre foi desde o começo fazer com que os dois virassem não só aliados como também amigos, mas para que isso acontecesse tanto Logan quanto Kenshin deveriam superar algumas barreiras.

A relação de Logan com os outros membros do Kenshingumi também vai evoluir aos poucos. A não ser por Saitou e Chou(que vão continuar a detestá-lo), todos os outros vão acabar de um jeito ou de outro sendo "conquistados" pelo mutante canadense, especialmente Yahiko e Sanosuke, que assim como Kenshin, não tinham ido muito com a cara do X-Man.

A segunda metade do fic mostra a chegada de quatro novos personagens, quatro reforços de peso para o Tentáculo. O nome "Quatro Flagelos" ficou meio brega, mas infelizmente não consegui arranjar nada melhor. Dá pra sacar logo de cara que a escolha dos nomes não foi por mero acaso: Mizu = água; Kaze = vento; Yakedo = queimadura/queimado; Gan = pedra.

Cada nome representa um dos quatro elementos, e os personagens também vão representar mais ou menos as características de cada um desses elementos, tanto na aparência quanto na personalidade e habilidades especiais.

Por falar em habilidades especiais, estes quatro personagens vão exibir alguns dons bizarros em maior ou menor grau. Para justificar a existência destes "super ninjas", propus a idéia de eles serem os últimos remanescentes de um clã secreto que habitava o vale de Kouga Manji nos arredores de Ize. A inspiração para isso veio principalmente do anime: Basilisk, Kouga Nipou Chou. Quem assistiu sabe do que estou falando.

Por fim temos a introdução da Onimitsu Oniwanbashu na história, representados pelo seu Okashira e sua mascote com cara de guaxinim (hehehehe). Era óbvio que uma organização tão importante como essa não poderia ficar de fora destes acontecimentos. Com certeza nem Aoshi e nem Okina poderiam ficar de braços cruzados enquanto o Tentáculo tenciona levar o país a um novo período de caos. Os nomes dos disfarces de Aoshi e Misao foram escolhidos usando as iniciais do primeiro e misturando as letras do segundo. Resolvi não exagerar muito na aparência dos disfarces para não sobrecarregar os personagens com parafernálias como máscaras de borracha ou barrigas falsas ou outras bugigangas. Levei em conta que o disfarce seria muito mais efetivo se fosse simples, e focado muito mais na interpretação do que na aparência em si.

Para encerrar este longo comentário deste longo capítulo, devo dizer que não fiquei completamente satisfeito com ele, mas infelizmente essa "encheção de lingüiça" foi necessária para lançar as bases para o encerramento da história. No próximo capítulo, os novos personagens vão mostrar do que são capazes, e finalmente o vamos saber um pouco mais sobre os planos do Tentáculo

Jaa Neh!

Capítulo 19

Capítulo 17

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