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Antes de entrar na análise do texto, vejamos este
abaixo, bem conhecido daqueles que se interessam pela correta
pontuação:
“Maria antes do banho sua mãe diz ela traga
a toalha”.
Muitos quebrariam cabeça para pontuar o texto corretamente,
e não conseguiriam. Vejamo-lo, então, devidamente pontuado:
“Maria, ante do banho, sua. Mãe — diz
ela — traga a toalha.
No que se refere ao entendimento, a
composição “IN_VISÍVEL”, que se apresenta
quase sem pontuação, traz, na sua construção,
dificuldades parecidas com o a do texto acima e que podem ser vistas logo a
partir do 2º verso da 1ª estrofe, estendendo-se até o final
da mesma. Ei-los:
penso porque sou
tudo... penso
ser...nunca
no que sou
Considerando que, gramaticalmente, não há
justificativa para a presença dessas reticências,
diríamos que a inserção aconteceu por gosto ou capricho
do autor, ou, então, para indicar — e de forma errada — a
supressão de algum termo. Como não é possível
saber qual a verdadeira causa dessa pontuação, e até
para combinar com o restante do texto quase totalmente despontuado,
examinemo-lo sem pontuação alguma:
penso porque sou
tudo penso
ser nunca
no que sou
Temos aí duas cogitações.
Vejamo-las, na pontuação correta, colocando, entre parêteses, os supostos termos que foram suprimidos:
Penso, porque sou.
Tudo, penso
ser,
(mas) nunca (penso) no que sou
(de fato)
De dizer que a vírgula após o
“tudo” decorre de o termo estar fora da ordem direta, que seria
“Penso ser tudo”.
Considerando que o verbo de ligação
“sou” exige a obrigatória
presença do predicativo (do sujeito oculto “eu”), predicativo
que, no caso acima, se encontra ausente, diríamos que o
“sou” está, na verdade, exercendo função de
verbo intransitivo. Ora, o verbo intransitivo que mais se aproxima do sou
é o “existo”. Logo, o autor, quando diz “Penso,
porque sou”, está, na verdade, dizendo “Penso, porque
existo”.
Vejamos agora uma segunda hipótese de
construção:
Penso, porque sou tudo.
Penso ser (isso),
(mas) nunca (penso) no que sou (de fato).
O “tudo” aparece aí como predicativo
do sujeito oculto “eu”, não havendo, portanto, necessidade
alguma de buscar outra interpretação para o “sou”,
que, aí, é mesmo verbo de ligação, trazendo bem
visível o seu obrigatório predicativo.
Observem que, em ambas as construções, os
dois últimos versos têm sentidos idênticos. O que complica
é a definição desse “tudo”. Afinal, o autor
“pensa, porque é (existe); ou pensa, porque é tudo (algo
completo de qualidades)? Trata-se de caso típico de
ambigüidade, produzida por mau uso ou ausência da
pontuação.
Vejamos, mais adiante, outro caso de ambivalência
no seguinte trecho:
quando penso
não sou
naquele instante
não penso
Pontuando-o, teremos esta alternativa...
quando penso,
não sou
naquele instante.
Não penso.
... ou esta:
quando penso,
não sou.
Naquele instante,
não penso.
Observem que, no primeiro caso, o autor, em determinado
instante em que se vê a pensar, não é (ou não
existe), conforme enfatiza no seu suposto “não sou naquele instante”; já, no segundo caso, na
mesma circunstância, a ênfase é aplicada, não mais
ou muito na sua existência, e sim no fato de não pensar, que vem
a ser a causa do seu “não sou”. Ele pensa que está
pensando, mas, na verdade, não pensa e, justamente por isso, por
não pensar, ele não é (ou não existe). Ufa!!!
Que o autor me perdoe a
conclusão pitoresca, mas a tentação é
inevitável: quem tentar entender um texto, construído desse
jeito, há de ficar em situação pior que a da nossa suada
Maria, referida no início da análise. Aí, haja toalhas (Rssss).
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