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Grupo Literário Baluarte da Poesia

OFICINA GRAMATICAL

Obra: IN_VISÍVEL

 

sou quando penso

penso porque sou

tudo... penso

ser...nunca

 no que sou

 

em consciência

alguém pensante

quando penso

não sou

naquele instante

 

não penso,

esqueço-me

quando esqueço

bem mais sou

In_visível

Antes de entrar na análise do texto, vejamos este abaixo, bem conhecido daqueles que se interessam pela correta pontuação:

 

“Maria antes do banho sua mãe diz ela traga a toalha”.

 

Muitos quebrariam cabeça para pontuar o texto corretamente, e não conseguiriam. Vejamo-lo, então, devidamente pontuado:

 

“Maria, ante do banho, sua. Mãe — diz ela — traga a toalha.

 

No que se refere ao entendimento, a composição “IN_VISÍVEL”, que se apresenta quase sem pontuação, traz, na sua construção, dificuldades parecidas com o a do texto acima e que podem ser vistas logo a partir do 2º verso da 1ª estrofe, estendendo-se até o final da mesma. Ei-los:

 

penso porque sou

tudo... penso

ser...nunca

no que sou

 

 

Considerando que, gramaticalmente, não há justificativa para a presença dessas reticências, diríamos que a inserção aconteceu por gosto ou capricho do autor, ou, então, para indicar — e de forma errada — a supressão de algum termo. Como não é possível saber qual a verdadeira causa dessa pontuação, e até para combinar com o restante do texto quase totalmente despontuado, examinemo-lo sem pontuação alguma:

 

penso porque sou

tudo  penso

ser nunca

no que sou

 

Temos aí duas cogitações. Vejamo-las, na pontuação correta, colocando, entre parêteses, os supostos termos que foram suprimidos:

 

Penso, porque sou.

Tudo, penso ser,

(mas) nunca (penso) no que sou (de fato)

 

De dizer que a vírgula após o “tudo” decorre de o termo estar fora da ordem direta, que seria “Penso ser tudo”.

 

Considerando que o verbo de ligação “sou” exige a obrigatória presença do predicativo (do sujeito oculto “eu”), predicativo que, no caso acima, se encontra ausente, diríamos que o “sou” está, na verdade, exercendo função de verbo intransitivo. Ora, o verbo intransitivo que mais se aproxima do sou é o “existo”. Logo, o autor, quando diz “Penso, porque sou”, está, na verdade, dizendo “Penso, porque existo”.

 

Vejamos agora uma segunda hipótese de construção:

 

Penso, porque sou tudo.

Penso ser (isso),

 (mas) nunca (penso) no que sou (de fato).

 

O “tudo” aparece aí como predicativo do sujeito oculto “eu”, não havendo, portanto, necessidade alguma de buscar outra interpretação para o “sou”, que, aí, é mesmo verbo de ligação, trazendo bem visível o seu obrigatório predicativo.

 

Observem que, em ambas as construções, os dois últimos versos têm sentidos idênticos. O que complica é a definição desse “tudo”. Afinal, o autor “pensa, porque é (existe); ou pensa, porque é tudo (algo completo de qualidades)? Trata-se de caso típico de ambigüidade, produzida por mau uso ou ausência da pontuação.

 

Vejamos, mais adiante, outro caso de ambivalência no seguinte trecho:

 

quando penso

não sou

naquele instante

 

não penso

 

Pontuando-o, teremos esta alternativa...

 

quando penso,

não sou

naquele instante.

 

Não penso.

 

... ou esta:

 

quando penso,

não sou.

Naquele instante,

 

não penso.

 

Observem que, no primeiro caso, o autor, em determinado instante em que se vê a pensar, não é (ou não existe), conforme enfatiza no seu suposto “não sou naquele instante”; já, no segundo caso, na mesma circunstância, a ênfase é aplicada, não mais ou muito na sua existência, e sim no fato de não pensar, que vem a ser a causa do seu “não sou”. Ele pensa que está pensando, mas, na verdade, não pensa e, justamente por isso, por não pensar, ele não é (ou não existe). Ufa!!!

 

Que o autor me perdoe a conclusão pitoresca, mas a tentação é inevitável: quem tentar entender um texto, construído desse jeito, há de ficar em situação pior que a da nossa suada Maria, referida no início da análise. Aí, haja toalhas (Rssss).

 

 

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