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Capítulo 03 Sonho real
Ele caminhava calmamente por uma praia deserta. O som do mar enchia todo o lugar, um vento quente soprava suavemente. Usava uma bermuda bege... Teria demorado-se mais tempo pensando onde estava e o que estava fazendo ali, não tivesse percebido que a alguns metros dele havia uma segunda pessoa. Uma garota. Logo aquele perfume que já conhecia tão bem... Apressou seus passos naquela direção. Não queria que ela simplesmente virasse fumaça no ar e desaparecesse. Mas antes que chegasse, deteve-se. Ela estava tão bonita! Parecia um anjo, ali sentada na areia, com os cabelos balançando sob o vento. Sorriu. Seguiu caminhando a passos lentos e sentou-se ao lado dela, em silêncio. - Que bom que veio! – ela disse com aquela voz doce e sonora. - Eu... – iniciou sem saber o que diria. - Eu amo você! – inclinou a cabeça sobre o ombro dele. – Embora não possa estar com você... Amo você! – repetiu abraçando-o. Não era possível descrever o bem estar e a satisfação de estar junto daquela garota. Ela fazia tudo parece bom e tranqüilo. Abraçou com carinho e receio. Não queria ter que separar-se dela jamais. Suspirou e inclinou o rosto para vê-la. Ela, percebendo isso, ergueu o rosto e olhou diretamente nos olhos dele. Em todo aquele tempo, aquela era a primeira que conseguia vê-la claramente. E satisfação fez brotar um sorriso luminoso em seus lábios. Ela tinha os mais lindos e brilhantes olhos castanhos que já vira na vida! Um rosto redondo e meigo. Os cabelos escorregavam da testa, caindo sobre o rosto. Seus lábios eram suaves e delicados. E sorriam para ele! - Eu... – queria falar. Dizer a ela o quanto o encantava, o quanto desejava estar com ela... Mas ela estendeu a mão cobrindo sua boca. - Não diga nada! Espichou-se para alcançar os lábios dele. Sua mão ainda acariciava-lhe o rosto e ao mesmo tempo em que se viu mergulhado na imensidão daqueles olhos doces, sentiu o toque dos lábios dela. O corpo dela encostado ao seu, perfumado, macio... Abraçou-a, na ânsia, quase desesperada, de segurá-la junto dele... Quando acordou, não estava nem assustado, nem ansioso. Depois de mais de um mês sonhando repetidamente com ela não era mais surpresa acordar naquele quarto frio e vazio. Olhou instintivamente para o lado. Estava sozinho. A namorada estava na casa dos pais. Ainda não estavam bem resolvidos desde a última discussão. Mas qual explicação ele daria? Suspirou, saindo da cama. Foi até a sacada e olhou demoradamente para fora. Por que tinha que ser apenas um sonho? Sacudiu a cabeça. O que estava acontecendo com ele afinal? Olhou o mar demoradamente. Estava convencido que ela existia. Em algum lugar... Tinha que existir, ou... Temia enlouquecer. - Vamos à festa a fantasia? – dizia Nick animado às garotas. Sempre que tinha uma oportunidade, ele estava lá, pendurado em algum balcão e rodeado de garotas. Estava solteiro, que mal tinha? E a galeria estava cheia de meninas bonitas e simpáticas. Nick tinha um sorriso grande no rosto naquele dia e uma animação invejável. O motivo era uma festa a fantasia no final de semana... - E vai ser quando? – perguntou Maya se inclinando na direção dele. - Sábado! – respondeu com um sorriso. - Já convidou a Kitty? – perguntou Lisa, ajeitando um arranjo de flores. - Ainda não, mas ela irá... – fazendo uma careta. – Roussel vai... – resmungou. - E Nickito está se roendo de ciúmes... – comentou Maya rindo. - Não é isso... – resmungou o loiro. – Ah! Deixem isso pra lá! – suspirando. - E os meninos? – perguntou Lisa interessada. - Eu convidei... Agora se irão, aí já não é comigo! – disse abrindo os braços. Na veterinária próxima dali, Ange e Joy terminavam de receber um lote de rações. Kitty estava nos fundos, sentada no chão, conversando com um gato que tinha encontrado atrás do seu prédio. Um gato preto, que agora estava limpo e cheirava bem, muito diferente de quando o achara. - Vamos! Não seja mal agradecido! – dizia esfregando um dedo na grade da gaiola. – Prometo que tiro você daí quando estivermos sozinhos... – sorrindo. O bichano ronronou e esfregou-se de encontro à mão dela que sorriu satisfeita. Tinha conquistado um novo amigo. Gatos não eram animais fáceis de agradar, tinham personalidade e isso só fazia com que ela gostasse ainda mais deles. - Assim é muito melhor! – disse coçando a cabeça do animal. – Mas você precisa de um nome... – torcendo os lábios, pensativa. Olhou ao redor demoradamente. Estava buscando alguma idéia que pudesse estar pairando por ali, perdida e sozinha. Mas nada lhe ocorreu. Foi o próprio gato que acabou se batizando, quando começou a rasgar o jornal no fundo da gaiola, deixando a mostra uma reportagem antiga. - Olha! É um bom nome! – concluiu, lendo o nome que parecia saltar das folhas esfarrapas. – Se você gosta... Eu também! – enfiando a mão gaiola adentro pra afagar o felino. - Kay? – perguntou Ange entrando nos fundos. Esse era outro dos apelidos dela. Kay! Por causa da inicial do seu nome! - Hum? – respondeu voltando o pescoço. - Está brincando com o gato em hora de trabalho? – resmungou. – Eu não posso com isso! Qualquer dia te nasce um rabo e crescem as orelhas... - Nick tem razão! – ajuntou Joy rindo. – Quando a chama de gatinha! Só faltam mesmo o rabo e os pêlos! - Não digam besteiras! – resmungou Kitty levantando-se. - Quando você vai deixar de ser idiota e perceber que aquele cara está a fim de você? – disse Ange olhando-a limpar a roupa. - Cara? Está falando do Nick? – rindo. – Vocês são loucas! - Não! A Ange pode ter razão! – concordou Joy. - Razão? Por favor! Estamos falando do mesmo Nick Carter que dorme nos pés da minha cama? Acordem! Somos ótimos amigos, só isso! – garantiu saindo. - Ainda tenho minhas suspeitas... – murmurou Ange. Joy concordou balançando a cabeça. No mesmo instante em que Nick entrava na loja, Kitty surgia por detrás da porta, apontando por cima do balcão. Os dois se olharam por um instante, sem sorrir. Logo depois, olharam ao redor e voltaram a se olhar. Desta vez com um sorriso. - Bem? – perguntou Nick. - Bem! E você? – devolveu. - Bem também! – sorrindo. - Você vai à festa? – perguntou esfregando um pedaço de flanela no balcão de vidro. - Vou... – suspirando. - Que bom! – disse Kitty. - Resolveu aquele problema? – perguntou Nick olhando o chão. - Não... – parando de girar o pano sobre o vidro. - Ah! Kay... Sabe o quanto eu gosto de você... Não pode deixar as coisas assim... – enervou-se Nick. - Meu anjo loiro... – disse dando a volta no balcão. – O que você quer que eu faça? – disse abraçando-o afetuosamente. – Eu gostaria muito... Gostaria muito! Os dois se encararam e se aproximaram. Nick estendeu a mão até a nuca dela e puxou-a para perto dele. Naquele instante Joy e Ange surgiram e olharam aquela cena com mais maldade do que o necessário. Nick virou o pescoço e encarou as duas demoradamente. Por um instante, um silêncio profundo se instalou entre eles. - Kay? – uma voz grave se ouviu e chamou a atenção na porta. - Roussel? – disse a garota com um fio de voz. O rapaz ocupava toda a entrada da loja, era alto e corpulento. Assim como o outro que estava ali, ostentava uma cabeleira dourada e bem cuidada. Mas não tinha no rosto a expressão amistosa que acompanhava Nick. Parecia estar sempre preocupado com alguma coisa, com a testa franzida e olhos zangados. - O que está acontecendo aqui? – perguntou o loiro bravo. Joy e Ange recuaram, ficando seguras atrás do balcão, quase à porta dos fundos. Era a primeira vez que viam Roussel e não parecia ser uma pessoa muito amistosa. Olharam rapidamente para Kitty... Não dava pra imaginar aquela garota namorando um cara como aquele! Pudera! Roussel era realmente grande e tinha um aspecto grosseiro. Kitty era miúda, tinha traços suaves. Mesmo debaixo dos óculos enormes, sob o aparelho dentário e aquelas roupas engraçadas, podia-se perceber que era uma jovem delicada. Definitivamente, não combinava com aquele sujeito. - Roussel... Esse é o Nick e... – ela iniciou dando uma meia dúzia de passos para trás. - Eu sei quem é esse aí... – atravessou com grosseria. - Vou indo Kitty... Fique bem, ok? – disse Nick acenando enquanto saia. – Até logo meninas! – espichando o olhar para o balcão. – Com licença... – frente a frente com Roussel. - Pode passar... – disse o gigante com ironia. Assim que Nick saiu, Kitty suspirou um pouco mais aliviada. As outras permaneciam tensas, a presença de Roussel parecia dominar todo o ambiente. Ele caminhou loja adentro e era como se deslocasse uma imensa massa de ar a cada passo. - Olá “Kitty”! – disse parando em frente a garota. - Você sabe que ele me chama assim... – resmungou baixando os olhos. - Sei... – olhando ao redor. – Vamos conversar lá fora... – disse puxando-a pela cintura. Joy arregalou os olhos e fitou Ange longamente. Um misto de medo e apreensão percorreu seu sangue. Espero alguns segundos antes de abrir a boca, queria ter certeza que eles tinham se afastado o suficiente. Depois de um longo suspiro, olhou na direção da porta. - Teve a mesma sensação que eu? – perguntou trêmula. - Que ele ia dar uns sopapos nela a qualquer momento? Por que foi isso que eu achei que fosse acontecer... – respondeu espantada. - Esse é o tal namorado? – questionou Joy confusa. - Parece que sim... – suspirou Ange. - Hei! Quem era aquele com a Kitty? – perguntou Beatrice entrando apressada na pet. - O namorado... – responderam as duas ao mesmo tempo. - Sério? – devolveu a outra como se tivesse sido atingida por um punho. - Sim. Por que essa cara de pavor? – perguntou Ange franzindo a testa. - Eu vi os dois saindo e... – olhou para a porta novamente. - E? – questionou Joy ansiosa. - Ele praticamente estava puxando-a pelos cabelos! – declarou suspirando. - Isso não é bom... – resmungou Joy penalizada. - Mas se ela quer assim, o que nós podemos fazer? – perguntou Ange dando ombros. As outras se entreolharam em silêncio. Longe dali, AJ tinha saído de casa. Precisava espairecer... Mais que isso, precisava esvaziar a mente daqueles pensamentos. Queria conversar com alguém. Apanhou o seu telefone inconscientemente e quando se deu conta, estava telefonando para Kevin. Já ouvia o sinal de chamada quando percebeu o que fazia, acho que não seria de todo ruim se tivesse alguém para distrai-lo. - Alô? – respondeu alguém do outro lado da linha. - Kev? É você? – perguntou parando o carro. - Sim... Alex? Aconteceu alguma coisa? – preocupado. - Não... Na verdade não... – suspirando. - E então? – perguntou, percebendo que havia alguma coisa errada. - Onde você está? – olhando em volta. - Na verdade, no mesmo apart hotel de Brian... Por quê? Quer vir até aqui e conversar? Não. Se pudesse evitar não iria ver ninguém. Seu único desejo real era sumir, desaparecer no mundo dos sonhos. Quando percebeu em que estava pensando, assustou-se. Aquilo não podia estar certo. Sacudiu a cabeça tentando dissipar aqueles pensamentos. - Você não tem nenhum outro plano para hoje? – perguntou com receio. - Não! Pode vir... Espero você! – garantiu com um sorriso, mas ainda preocupado. - Certo! Estarei aí em alguns minutos... – disse, desligando em seguida. Estava sentindo-se ridículo. Parecia uma criança perdida em suas próprias ilusões. Era um homem adulto, por que aquilo estava afetando-o tanto afinal? Dirigiu com toda a calma que foi capaz até o apart hotel. Tinha medo que Kevin, assim como os outros, o achasse louco ou, no mínimo, desequilibrado. Sabia que não parecia normal, mas achava um exagero que se preocupassem... Estacionou e desceu do carro sem conseguir afastar o rosto daquela menina do pensamento. Mas precisava... Respirou fundo e entrou no prédio. Seguiu escadas acima lentamente, como se cada passo tivesse grande dificuldade em ser dado. Quando finalmente alcançou a porta do apartamento de Kevin, não tinha mais certeza se queria conversar. Mesmo com alguma duvida, tocou a campainha. - Hei! – animou-se Kevin assim que abriu a porta. – Entre! Ele entrou. Não tinha o que fazer senão aquilo. Mas aquele quarto alugado não lhe pareceu em nada mais seguro ou aconchegante que o lado de fora. Tinha mesmo vontade de dar meia volta e sair correndo dali, mas quando se voltou deu de cara com o amigo sorridente. Tentou sorrir de volta. - Como você está? – perguntou Kevin, apontando uma poltrona. - Bem... – sentou-se. Ainda estava sentindo um enorme desconforto. – E Kristin? – sem ter o que dizer. - Ainda fora da cidade... – respondeu sorrindo. - Humm... – um suspiro saiu sem que pudesse conter. Era uma espécie de saudade que fazia doer... - O que houve? – perguntou Kevin enrugando a testa. - Na verdade... – passando a mão pela cabeça. Se ele começasse a contestá-lo acabaria se irritando, sentia isso. – Você promete que se eu disser, não vai insinuar que estou com problemas e me mandar ao médico? – perguntou apreensivo. - Que isso cara! Assim você me assusta! Não vou fazer nada disso! – disse ainda mais preocupado. - É sobre uns sonhos estranhos que tenho tido ultimamente... – iniciou com tato. - Verdade? – curioso. – E são sobre o que? – sentando-se em frente a ele. - Uma garota... – respondeu com dificuldade. Outro suspirou lhe escapou. - Hum! – resmungou maliciosamente. – Uma garota hein? – sacudindo as sobrancelhas. – Mas... Conte quem é ela? – perguntou interessado. - Aí está! – disse em meio a um longo e pesado suspiro, que também não fora planejado. - Aí está o que? – questionou o outro bastante intrigado pela quantidade de suspiros que ouvia. - Eu não faço idéia de quem seja a garota... – desta vez suspirou com vontade; de lamentação; de saudade! - Como é? – coçando o queixo. – Acho que não estou entendendo... - É simples! – erguendo o tom de voz. – Há mais de um mês eu tenho sonhado todos os dias, com essa pessoa, essa garota! Nunca a vi, sequer imagino qual seja seu nome ou... – ergueu os olhos e encarou Kevin. - ... se realmente existe... – não pode impedir o ar de escapar mais uma vez por entre os lábios, provocando aquele som dolorido. - Alex! – lembrou-se de súbito do que ele dissera no inicio. Mas ouvindo tudo aquilo, a maneira como ele falava, os suspiros e o tom de voz, não havia como não se preocupar, ou pensar em procurar ajuda especializada. Refletiu por alguns instantes em silêncio. - Já sei... – levantando-se. – Vai dizer que enlouqueci e preciso de psiquiatra! – caminhando em direção da porta. – Obrigada por me ouvir... - Não! Espere! Eu não disse nada! – apressando-se em passar a frente dele. - Mas ia dizer... – devolveu com um sorriso irônico. - Ok! Confesso que é preocupante... – viu o outro revirar os olhos. – Vamos Jay! Olhe pra você! Até se desentendeu com a Hanna e ouvindo você falar já entendi o motivo... – disse seriamente.- Está mesmo querendo trocar a vida real por uma ilusão? – perguntou de forma incisiva. - Mas que inferno Kevin! – bradou zangado. – Não é nada disso! - Mas é o que parece! Está se apaixonando por uma visão, não se dá conta? – aquilo era mais preocupante do que ele imaginara. - Eu... – não tinha argumento para combater o que o amigo dizia. Era a verdade! Sentou-se com as mãos na cabeça. - Acho melhor conversamos sobre isso e... – apanhou o telefone. – Talvez Howie possa nos ajudar e... - Não! – pondo-se em pé imediatamente. – Chega de gente envolvida com isso! – alterado. – Nenhum de vocês entende! – resmungou. - É o que eu estou tentando fazer, se você me deixar... – insistiu, já digitando o numero. - Mas não precisamos de outra pessoa aqui... Para que? Mais um para dizer que eu estou enlouquecendo? – irritado e muito agitado. - Alex, talvez ajude... – alguém atendia. – É o Kevin... Pode vir aqui? - Claro! – respondeu Howie prontamente. Desligaram. - Ah! Que ótimo! – levantando-se novamente. – Eu não devia ter vindo aqui! - Não! Fez muito bem em vir... Você não está bem e... – aproximando-se. - Quem lhe disse isso? – à medida que falava, sua voz ia ganhando mais e mais volume. - Isso é evidente! Por favor, é melhor que se acalme! – angustiado. - Eu não estou nervoso! – quase aos berros. – Você está me deixando assim... – voltando a sentar-se. Kevin estava realmente assustado agora. O que estava acontecendo afinal? Que sonho era aquele afinal, capaz de tirar o sossego de alguém daquele modo? Sua mente cogitou uma série de possibilidade nas quais se negou a deter-se por maior tempo. Precisava encontrar uma solução para tudo aquilo. A campainha se fez ouvir... Kevin partiu na direção da porta. - Vou embora! – disse AJ levantando-se mais uma vez. - Fique! Por favor! – pediu o outro abrindo a porta. - Olá... – Howie entrou sorridente. – Aconteceu alguma coisa? – tendo o sorriso sensivelmente diminuído. - Eu não estou bem certo... – iniciou Kevin. - Ok! O problema é que o pirado problemático aqui... – apontando para si mesmo. – Agora anda sonhando com uma menina misteriosa... E... E... – não conseguiu terminar. Sentou-se uma vez mais, mudo. - Cara! – admirou-se Howie. – O que é isso? - Sonhos Howie! – respondeu AJ impaciente. – Sabe quando você dorme e vê imagens? Pois é isso! Sonhos! – olhou para pos dois e suspirou. – Apenas sonhos... – murmurou. Howie e Kevin se olharam. Aquilo parecia realmente muito sério. Afinal, por que tamanha alteração por causa de uns sonhos? Por um momento os dois ficaram apenas se olhando, como numa discussão sem palavras, como se fossem capazes de se comunicar sem falar. - Vou embora daqui! – AJ voltou a se levantar. - Espera! – interveio Howie. – Conta essa historia dos sonhos... – preocupado e curioso. - Não! Chega! – gritou. – Eu vou embora! Se quiserem chamem um psiquiatra, eu não me importo mais com isso... Não me importo mais com nada... – saiu batendo a porta. - Percebeu? – perguntou Kevin sentando-se. - O que? – rebateu Howie ainda surpreso. - O modo como ele ficou nervoso por nada... – comentou ansioso. - Não me diga que está pensando que... – iniciou sem coragem para continuar. - Não estou pensando em nada... Mas isso tudo é muito estranho... – sacudindo a cabeça. - Com isso eu tenho que concordar... – disse Howie sentando-se. AJ voltou para casa, ainda mais assustado de que quando saíra de lá. Cada vez mais chegava à conclusão que todos tinham razão em se preocupar. Começava a acreditar que realmente estava à beira da loucura. Decidiu tomar um banho e contrariando qualquer lógica, dormir! Precisava descansar. Não tinha feito nada até àquela hora, mas sentia o corpo inteiro dolorido e pesado. Precisava repousar; limpar a mente. Mas até entrar no quarto escuro e deitar-se na cama, a única coisa que ocupava seu pensamento era aquela menina fictícia... Quando abriu os olhos estava em outro lugar. O perfume que sentiu o fez perceber imediatamente o que acontecia. Por instinto, girou a cabeça ao redor. Parecia uma praça... Havia muitas árvores e alguns brinquedos infantis mais adiante. Perto de onde ele estava havia uma fonte com anjos de concreto. Suspirou e começou a andar pelo lugar. - Eu estou fazendo mal a você... – era ela, seu coração disparou. - Não! – apressou-se em dizer antes mesmo de vê-la. - Então por que está tão triste? – perguntou docemente. - Não estou... – procurando-a ansiosamente com os olhos. - Está mentindo... – disse abraçando-o pelas costas. Lá estava ela! E ele sentiu como se estivesse sendo elevado a um estado de enlevo inexplicável. Nenhuma dor ou tristeza podia alcançá-lo. Sentiu um calor crescer em seu peito e espalhar-se por seu corpo. Agora se sentia bem; completo e seguro. Voltou-se e abraçou-a. - Não é você... – disse segurando-a firme entre os braços. - Então qual o motivo dessa confusão? – erguendo os olhos para ele. - Oh! Deus! Como explicar isso? – perguntou a si mesmo. - Está com medo? – ela perguntou com um olhar triste. - Como não estar? – replicou. – Temo nunca encontra-la fora daqui... – acariciando os cabelos dela. - Então é melhor eu ir embora... – murmurou. Havia lágrimas em seus olhos. - Oh! Não! Não me deixe sozinho! Não me deixe sozinho de novo! – apertando-a junto de si. Um soluço que começou baixo encheu todo o lugar. A chuva começou em seguida. Ele demorou alguns segundo para entender o que estava acontecendo. Por que de repente tudo tinha ficado escuro e frio. Ela estava chorando! - Por favor... Não chore! – suplicou quase chorando também. - Não posso evitar... Não suporto vê-lo infeliz... – aproximando seu rosto do dele. - Não estou... Não agora... – sorrindo com sinceridade. Assim que o fez, ela mergulhou seus olhos molhados de lágrimas nos dele e sorriu. A chuva se dissipou no mesmo instante. Ela sorriu e aproximou seus lábios dos dele lentamente. - Eu amo você e amarei eternamente! – disse antes de beijá-lo ternamente. - Por favor... – disse ele, sem afastar de todo os lábios dos dela. – Seu nome... Preciso saber seu nome... Logo estava de olhos abertos, fitando o teto do quarto. Esmurrou o colchão com raiva. Tinha clara a imagem dela pronunciando o próprio nome, mas não conseguira ouvir. Apenas uma parte dele ecoava em sua mente: ... ina... Era tudo! Uma partícula... Três letras. Tantos nomes terminavam daquele jeito... Suspirou, levantando-se da cama. Precisava sair... Ir para algum lugar onde não houvesse ninguém, onde nem o sono pudesse fustigá-lo. Desceu as escadas apressado. Quando, porém, alcançou a sala, sentiu o coração parar por meio minuto. Hanna estava parada no meio do cômodo, com um olhar triste. - Eu queria conversar... – disse ela com a voz baixa. Mas ele não deu maior atenção a ela. Passou apressado em direção a porta de saída. Hanna era a ultima pessoa que queria ver naquele momento. A garota ficou atônita, acompanhando a saída dele, parecia não acreditar no que estava vendo. Ele saiu, Ela ficou. Mais uma vez sozinho dentro do carro, pensou em uma sem conta de modos de esquecer aquilo. “...ina” aquilo continuava fazendo eco em seu pensamento. Com a esperança de deixar a lembrança para trás acelerou mais e mais. Uma pesada chuva começou a cair de repente, o que só serviu para avivar ainda mais a lembrança de seu sonho. O pé desceu ainda mais no acelerador. As ruas estavam escuras e o asfalto molhado. Não havia muitos carros transitando. Nem veículos, nem pedestres. Seu carro cruzava as ruas como uma flecha lançada a esmo, na direção do nada. Somente as luzes dos seus faróis lhe davam alguma direção. Ao longe, subitamente, avistou algo que chamou sua atenção. De tal maneira que o fez ergueu o pé do pé que pressionava tão ferozmente. Parou o carro. Abriu a porta e desceu debaixo do aguaceiro. Logo a frente havia um saco pardo. Ele enrugou a testa e aproximou. O saco pareceu se mexer. Rapidamente ele abaixou-se perto do pacote e abriu-o apressado. Um par de orelhas peludas se insinuou pela abertura e logo um focinho gelado encontrou-se com sua mão. Era um filhote de cachorro, que pareceu muito feliz por ser encontrado. - Olá! – disse ele ensaiando um sorriso. O pequeno animal praticamente pulou nos braços dele. Era um cãozinho marrom com o pelo denso e longo; grandes orelhas e uma expressão muito doce nos olhos. AJ segurou-a nas mãos e levantou-o diante do rosto. - Parece mais perdido que eu hein? – sorrindo. O cão inclinou-se e lambeu seu rosto amistosamente. AJ sorriu com satisfação. De algum modo aquele animal acabara de salva-lo. Suspirou com alivio e voltou para o carro, levanto o filhote consigo. - Vamos dar um jeito pra você ficar melhor... – disse acomodando o bicho no banco do carona. – E então? Como quer se chamar? – perguntou antes de dar partida no carro.
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