PRÓLOGO

 

EM UM CASTELO DISTANTE, AO NORTE DE LONDRES...

 

Ela atravessou o imenso salão a passos largos, como se valsasse com um parceiro invisível. Os longos cabelos negros adejam pelo ar, a barra do vestido arrastava pelo chão de pedra crua fazendo ruído... Seus pés descalços deslizavam silenciosamente.  Tinha os olhos fechados e os braços abertos. Estava vivendo um raro momento de liberdade e genuína felicidade...

- Mestre! -ela deteve-se imóvel. O vestido se acomodou em torno do corpo, depois de balançar de um lado para outro. A pele pálida contrastava com o rubro intenso do tecido.

- Oh! Meu doce e fiel amigo! O que desejas? Queres dançar comigo? Participar de meu deleite? -dando um meio sorriso, coisa muito rara...

- Mestre... Vim comunicá-la de algo que preocupa seus servos e também a mim... -ela suspirou, girando nos calcanhares, levantando a barra do vestido e encaminhando-se a sua cadeira forrada de veludo.

- Prossiga... Já conseguiste estragar meu prazer... O que te perturba afinal? -sentando-se e tomando a postura austera que lhe era peculiar.

- A Inglaterra não é mais um lugar seguro para nós... -ela suspirou.

- Já não te disse que não tens com que te preocupares? Tenho minhas ligações entre aqueles que nos querem exterminados... Nada farão contra os meus... -ele aproximou-se apressado e ansioso.

- Não falo deles, minha senhora... Há outros... Piores... -ela enrugou a testa.

- De que falas criatura? Quem pode ser pior ameaça em toda esta terra sagrada? -ele jogou algo no chão. O objeto escorreu e foi parar aos pés dela. - Não posso acreditar que estejam aqui... Não creio que... -ele balançou a cabeça. – Impertinentes! O que fizemos para que saíssem de Roma e viessem nos importunar? -ele pôs um joelho no chão e curvou a cabeça.

- Minha senhora! É oferecido um prêmio... Um prêmio àquele que derrotar o que eles chamam de mal maior... -os olhos dela se arregalaram.

- Isso não é possível! Não podem estar desafiando a minha família desse modo... -levantando-se.

- Mas estão... -ressoou um voz, como um trovão, através do ar.

- Grande Mestre! -disse ele pondo-se totalmente de joelhos, com o rosto voltado para o solo.

- E nada farás? Vais me deixar desprotegida? -disse ela encaminhando-se rapidamente até o centro do salão e olhando para cima.

- Desprotegida? -uma gargalhada formidável encheu o lugar. – Não estás desprotegida de forma alguma, tanto é verdade que és tu quem me estás me protegendo... -ela girou, ainda olhando pra cima.

- Tolice! Sabes melhor que ninguém que nada seria sem a tua presença... E não deixarei a Inglaterra se tu não fores comigo... Jamais...

- Bela dama minha... -ela sentiu um toque em seu ombro e quando se voltou viu aquele homem alto e elegante parado atrás dela. – Tua alma já está livre há muito tempo... Por que insiste em agir como se minha criança ainda fosse?

- Por que é assim que eu o vejo... Meu mestre... Meu... -ele sorriu.

- Se entreguei a ti meu poder e meus servos, deves honrar a oferta e seguir com tua missão... -ele acariciou longamente o rosto dela.

- E se aqueles malditos alcançarem o castelo? E se estiverdes em real perigo? -ele sorriu.

- Ficais tranqüila, amada minha... Ficarei contigo... Mas compreendas que o faço por amá-la e não por precisar dar-te proteção ou desejar a tua... Logo deixarei de existir e a sede daqueles que me perseguem recairá sobre o teu sangue... Deveis estar preparada para o momento da batalha... -ela baixou a cabeça e suspirou. - Agora, vá! Teu servo anseia por tua mão... Vá... -ela voltou-se e viu o outro ainda de joelhos.

- Levanta-te... Já te disse  que não necessita recebe-lo com tanta mesura... Ele tem por ti a mesma estima que eu... -ele permaneceu ajoelhado.

- Mas é o mestre da minha senhora... Não posso recebê-lo com menor demonstração de  respeito... -ela puxou-o por um braço.

- Ponha-te em pé criatura... Vamos partir... Para longe da Inglaterra e longe da Ordem de Purificação do Vaticano! -abraçou-o e suspirou.

Quando Brian desceu as escadas na direção de sua cela, sentiu o coração comprimir-se. Deixar a Inglaterra, mesmo em companhia de sua senhora, era algo que jamais havia cogitado. Seu espírito estava agitado. Quando entrou no salão menor, uma agitação tomou conta do lugar. Percebeu então que não estariam partindo apenas, mas deixando todos para trás...

- O que houve lá em cima Brian? Por que ela está tão agitada? -ele suspirou.

- Não tens respeito por tua senhora? -a garota de cabelos ruivos suspirou e fez um trejeito longo.

- Perdoe-me... O que pode ter deixado nossa senhora assim tão fora de si? -Brian suspirou. Eram todos uns trastes.

- A presença da Ordem de Purificação do Vaticano! -os olhos verdes da garota se arregalaram.

- O quê? Mas Shannya não entrou em acordo com a Seção 13? -Brian sorriu.

- Deves recordar que a Seção 13 era, e ainda é comandada pelos descendentes da família Hellsing...  Uma organização protestante Arsha... Nada têm a ver com o Vaticano e sua Ordem de Purificação... -Arsha baixou os olhos.

 

LONDRES... CENTRO

 

Entrou na sala em completa fúria. Não era possível que ainda não tivessem localizado nada. As criaturas avançavam pelos quatro cantos do mundo e se alguém tinha as respostas para aquele amontoado de dúvidas e questões que se acumulavam sobre sua mesa e em sua mente, esse alguém era Shannya Hellsing... Olhou para fora, pela janela fechada... Sentiu um frio repentino...

- Padre... -quando voltou seu olhar para dentro da sala, avistou um jovem, vestindo um longo sobretudo negro, chapéu e óculos escuros.

- Você? O que está fazendo aqui? Como entrou? -ele sorriu.

- Entrar em sua mansão é tão fácil para mim quanto é para seu olhar cruzar a barreira transparente desse vidro. Mas não temas... Não vim lhe fazer mal... -sentou-se sobre mesa, acendendo um cigarro.

- Então o que veio fazer aqui? - o outro soltou uma nuvem de fumaça no ar e viu um cinzeiro ser empurrado na sua direção.

- Lembrar-lhe que ainda faço parte da Seção 13... Que ainda são os Hellsing que comandam a organização e que aquela a quem você procura ainda é um Hellsing... -seu olhar pareceu perturbado.

- Deveria matá-lo aqui mesmo... -o outro riu.

- Sim? E de que maneira? Oh! É verdade... Esqueci-me que até os puros padres do vaticano se renderam à artifícios nada sagrados para manterem sua terra santa livre das criaturas da noite... -bastou que dissesse isso e voltou-se para a porta. Um jovem vestindo batina entrou a passos lentos.

- Alexander... -ele sorriu.

- Padre?!? Não sabia os nossos recebiam ordenação... -rindo.

- É melhor se retirar... ou prefere iniciar uma batalha?

- Você não seria tolo a esse ponto, Howard... Sabe bem quem eu sou... Não se atreveria... -sacou duas pistolas. – Mesmo assim, previno-me... E para sua informação, a munição é especialmente feita para criaturas como você... -Howard riu.

- Ainda escravo dos Hellsing? Ainda preso a sua outra metade? -Alexander levantou-se da mesa em um salto, quando seu pé tocou o solo novamente, estava em frente a Howard.

- Eu mataria você aqui e agora... Nada sabe sobre mim, sobre ela, sobre os Hellsing... Nada sabe sobre nada... Foi criado preso entre as paredes sagradas do vaticano... Tudo o que lhe ensinaram é mentira! -uma das pistolas estava contra a testa do outro e a outra apoiada em seu peito.

- Parem com isso... Os dois... Não quero ver esse espetáculo! -Alexander abaixou as armas.

- Num ponto esse verme tem razão, Padre Richardson... Vocês não sabem quem ele é... -disse Howard saindo novamente da sala e sumindo na escuridão.

- O que? -quando se voltou buscando pelo outro, viu apenas a sala vazia.

 

LONDRES... MANSÃO HELLSING.

 

Ele estava concentrado nos papeis havia horas. Já não tinham certeza se informar a Brian sobre a chegada da Ordem de Purificação havia sido uma boa idéia. Afinal era ele quem estava à frente da organização agora. Era ele quem devia preservar a paz e a vida dos seres humanos. Suspirou longamente. Não queria ser obrigado a convocar o conselho... Ouviu a porta se abrir...

- Estive com ela... -Brian entrou apressado, ajeitando o seu terno cinza escuro.

- Ela? E o que isso me importa? -Brian suspirou.

- Deveria importar... Afinal ela é... -ele resmungou.

- Ela vendeu sua alma a ele... Mesmo assumindo o sobrenome da minha família... Aquela víbora... Nem sei mais qual é o nome daquela criatura... Ouvi tanto sobre ela e... -levantou-se da cadeira. – Onde está o outro? Deveria estar aqui... Afinal, é situação que requer sua presença, por mais que isso me desagrade...

- Não entendo você... Incomoda-se com ela, com ele... Renega a ligação que sua família tem com o grande mestre... -o outro deu um soco na mesa.

- Se Abraham Van Hellsing se rendeu a ele, isso não significa que devo trair os reais valores de nossa grei e me aliar a esses seres, eu os abomino... Não passam de vermes... Criaturas sem alma... -ouviu palmas e olhou para cima.

- Continue Nicholas! Suas palavras me fascinam... -de ponta cabeça, com os pés presos no lustre, Alexander sorria.

- Está aí então! Creio que não preciso lhe informar o que está havendo... -o outro desceu.

- Brian... -cumprimentou-o com a cabeça. – Nicholas... Deveria estar pensando no castelo... E não na mansão... Quando chegar a hora... Eu e ela seremos suas únicas salvaguardas... A única garantia da sua sobrevivência. -voltou-se para Brian- – Como o Mestre reagiu a isso? -Brian sorriu.

- Ele está pronto a partir, isolar-se e deixar por conta de seus discípulos... -Alexander sorriu.

- Shannya já sabe que terá companhia? -Brian baixou a cabeça.

- Minha senhora continua ignorante de seu passado meu Senhor... Foi uma decisão sua e somente o senhor pode retirá-la, se bem recordas... -Alexander suspirou.

- Eu ou ele, mas não é interesse dele que ela se lembre quem é... -olhou Nicholas. - É sua obrigação trazer Shannya de volta a organização, ela é uma Hellsing legitima... Tal como você... -os olhos de Nicholas se arregalaram.

- Não pode me obrigar a... -Alexander se aproximou, segurando o pescoço de Nicholas com uma só mão.

- Sabe quem sou eu, sabe quem ela é... Por que insiste em nos desafiar, mesmo sabendo que podemos fulminá-lo em um instante? -Nicholas estremeceu.

- E por que não o faz agora? -Alexander torceu os lábios e resmungou soltando Nicholas.

- Por respeito a seus pais e seus ancestrais... Você ainda está engatinhando... Traga logo pra cá a única Hellsing que sabe como essa organização deve agir... -Brian apressou-se.

- Mas meu senhor, ela está convencida agora de que deve partir da Inglaterra...

- Fugir? Jamais! O sangue que corres em nossas veias não a deixara partir sem lutar...  -sorriu, para desaparecer em seguida, através das portas fechadas.

Brian olhou Nicholas por um instante, ofegante e aparentando um pavor incomum.

- Por que ainda está aí me olhando? Traga logo a maldita pra cá... -Brian acenou com a cabeça e saiu apressado. Nicholas jogou-se sobre a cadeira. – Malditos seres... Malditos imortais... Malditos vampiros...

Backstreet Fics ~ 2007 ~> In my dreams ~ #1version

By Luh Moon

Hosted by www.Geocities.ws

1