Salom�

por Gamila el Hellua:

(...)H� pelo menos cinco anos minha professora de dan�a do ventre distribuiu entre suas alunas c�pias do trecho de um livro. Na �poca, n�o dei aten��o, n�o havia especifica��o do t�tulo ou men��o do autor, atualmente lamento essa falta de refer�ncia para uma pesquisa mais aprofundada. � que como todas as outras alunas eu queria saber de dan�ar, aprender passos, queria agilidade. Considerava leituras e v�deos a embroma��o... Uma l�stima, mas sempre � tempo de evoluir. E hoje aqui estou, faminta de fontes de pesquisa, indo �s bibliotecas, assistindo v�deos, sempre aprendendo.

O texto que transcrevo fala sobre a dan�a dos sete v�us. � baseado na hist�ria de Salom�, que pediu a cabe�a do profeta Jo�o como pr�mio para a dan�a que apresentaria a pedido do rei Herodes, da Jud�ia. Uma jovem bailarina escreveu esse texto, descrevendo emo��es a partir dos quais se originaram seus movimentos, em resposta aos suspiros que, para ela, pareciam emanar dos l�bios do morto. Ela ouviu a cabe�a de Jo�o dizer: "Salom�! Quando vi teus olhos pela primeira vez, enrubesci. N�o por causa de timidez ou vergonha, mas porque recordei o animal que sou. Minha auto-aten��o, h� tanto adormecida, foi despertada."

"Salom�, vejo-te tomar consci�ncia de teu corpo, tuas pernas, teus seios, teus l�bios. Em v�o me d�s as costas. Eu te vejo por todos os lados, � tua volta e dentro de teu sangue. Gostarias de ocultar teu corpo, mas onde o esconderias? N�o suportas enfrentar meu olhar fixo - nem eu tampouco o consegui, quando te vi pela primeira vez. Abaixa os olhos e pare�a t�o desconfiada quanto o desejares, ou ent�o olhe para mim com toda a altivez de uma rainha. Logo mais nossos olhos tornar-se-�o inquietos, como aconteceu com os meus, na primeira vez em que te vi."

"Esconda teu rosto em tua veste. Lan�a teu corpo ao ch�o e esconda tua cabe�a. Eu n�o o fiz. Fiquei de p�, ereto, mas meu cora��o batia ansiosamente. Estava coberto de confus�o; balbuciei e fiz movimentos desajeitados. Agora � a tua vez! Teus olhos brilhantes e tua conduta excitada mostram-me que j� se foi a paz de teu esp�rito. As observa��es cr�ticas e o rid�culo com que tu te dirigiste a mim, quando te vi pela primeira vez, al�m do orgulho e da admira��o para os quais tu mudaste com tanta frivolidade n�o foram t�o tocantes como o � teu atento olhar, agora."

"Tu tremes, gostarias de afastar o meu fitar: em v�o. Do mesmo modo que o teu olhar ficou em meu sangue quando te vi pela primeira vez, est� agora o meu olhar em tuas entranhas. Tira o primeiro v�u da minha cabe�a. Era meu rubor. Ao ouvir tuas palavras bajuladoras e sentir tua aproxima��o, teu toque em meu bra�o, minha timidez se transformou em surpresa, esta em sobressalto, esta em estupefa��o. Minha mente n�o estava mais t�o distante do terror."

"Mas n�o foram teus dedos que me terrificaram: foi minha pr�pria pele. Erga teus bra�os cada vez mais alto, do mesmo modo que eu ergui as sobrancelhas. Abra as acariciantes curvas do teu corpo do jeito que abri meus olhos e boca, tomado pelo pasmo e pelo medo. Beba as novas de minha revela��o em teus l�bios, como eu bebi o perfume letal de teus seios. Fiquei estonteado e aterrorizado comigo mesmo. Estonteada e aterrorizada tu haver�s de ficar com teu medo."

"Balan�a tua cabe�a de l� para c� e bata em teu peito como fiz ao te ver pela primeira vez. Fica im�vel, incapaz de mover um membro sequer, tal como fiquei com meu crescente terror frente � vida. Lan�a fora o v�u de meu rubor e pula; pula bem alto: tu n�o conseguir�s escapar. Eu n�o pulei. Estava algemado por cadeias de ferro. S� meu cora��o pulava em meu peito, cada vez mais alto. E abri meus olhos, cada vez mais aterrorizado. Foi ent�o que consegui enxergar, ver o que � que tanto me amedrontava."

"Minha testa estava enrugada. Tu me perguntaste por qu�. N�o pude responder. Meus olhos foram olhar coisas long�nquas. Minhas narinas abriram-se junto com minha boca. Precisei de mais f�lego para escapar ao terror que chegava a mim, partindo do calor do teu corpo. O intenso frio em meus bra�os e pernas est� agora invadindo tua carne: podes senti-lo? Meus m�sculos relaxaram mais e mais. Temi desmaiar, cair aos teus p�s. Meu queixo caiu e sufocou-se em minha garganta o inaud�vel grito de alarme."

"Tu sentes meus dedos gelados em volta do teu pesco�o? Chora, grita, urra! Eu n�o pude faz�-lo, quando te vi pela primeira vez. E ergui minhas m�os abertas acima de minha cabe�a e toquei meu pr�prio rosto para cobri-lo, envergonhado de mim mesmo. Ca� de joelhos, tr�mulo - � tua frente - como jamais o houvera feito antes, salvo quando rezava. E orei para que eu parasse de sentir, de ouvir e de ver. Voa, fuja - se puderes - eu estou em toda parte. Tu est�s te sentindo torturada e completamente enroscada: arrasta-te mais e mais perto de minha cabe�a e despeda�a-a completamente. Esse, o segundo v�u � o v�u de meu horror."

"Cresceu dentro de mim o desprezo por mim mesmo. Um nojo tal como se eu tivesse comido carne podre, tivesse cheirado o odor mais f�tido, tocado a mais nauseante massa de cobras putrefatas, visto o rosto hediondo do nada. Engulhos e v�mitos sacudiam minhas entranhas e eu ergui minha cabe�a, curvei-a para tr�s e fechei meus olhos."

"Mostra teu mais profundo desprezo, tua majestosa arrog�ncia, pequena Salom�, e olha para baixo, para onde est� minha cabe�a solit�ria, aqui no ch�o, aos teus p�s. Mas tu n�o conseguir�s estar t�o desdenhosa em rela��o ao meu cr�nio quanto eu o estava de mim mesmo e de meu interc�mbio com tua paix�o, ao ver-te pela primeira vez. Desfa�a-o, empurra-o, amassa-o, acaba com este n� que te entrela�a e prende, tecido por meus bra�os invis�veis ao teu redor. Foi assim que me senti - lembra-te Salom�? - quando tentaste quebrar minha altivez pendurando teus macios bra�os ao redor de meu pesco�o. Salom�, eu n�o senti desprezo por ti, ent�o; desprezei, mas a mim mesmo."

"O desd�m e o desprezo com que te afastei de mim foi a avers�o por minha pr�pria carne. Tu sentes, tu consegues sentir n�usea de teu pr�prio e resplandecente corpo? Tu parecias culpada com aquele teu olhar furtivo. Mas era eu o culpado. Eram monstruosos minha vaidade e orgulho. E pousavam sobre ti essa vaidade e esse orgulho. Encolhi meus ombros ao abaixar a cabe�a, ocultando meu segredo. Meus olhos inquietos n�o conseguiam suportar teu olhar ofendido. E procuraste abrigar-te na ast�cia; voltando a cabe�a para a direita e os olhos para a esquerda, na minha dire��o, tu maquinavas uma maneira de vencer meu orgulho; desconfiavas da minha firmeza. Tu interpretaste o meu encolher de ombros como aquiesc�ncia; Salom�, era submiss�o."

"Mas empertigada e cheia de ti como um pav�o ou peru, tentaste olhar pra mim de cima para baixo, mas eu estava ainda mais no alto que tu, ainda mais altivo. Contraiu-se o meu pesco�o e eu fiquei desamparado. Curvei-me para tr�s como um c�o, pacientemente aguardando os golpes de seu amo. Tu me deste as costas, abandonando-me ao meu desprezo e ao nojo que sentia de mim. Erga, Salom�, o terceiro v�u, o v�u de meu orgulho quebrado."

"Meu desd�m e �dio voltaram-se contra ti. A inj�ria sofrida por meu orgulho fazia meu pulso palpitar. Novamente corei. Meu peito al�ou-se e minhas narinas tremeram. Como � que te rebelas contra ti mesma? � por n�o teres compreendido minha submiss�o? Tu odeias a tua pr�pria e est�pida arrog�ncia, tua falta de paci�ncia? Vejo teus dentes cerrados. Sinto a vingan�a do insulto que me fizeste na tens�o dos teus m�sculos. A rigidez que antecede ao ataque. Ataca tu mesma, erga teus bra�os, fecha os punhos, d� socos em ti mesma, apunhala-te. Joga-te ao solo e esmurra a terra. Amea�a os c�us e rasga em mil peda�os, com gestos fren�ticos e despropositados, tudo o que estiver ao teu alcance."

"Foi assim que procedi, v�tima de minha violenta ira, quando tu me deixaste, Salom�. Eu estava rolando no ch�o, berrando, chutando, arranhando e mordendo meus pr�prios bra�os, ao inv�s dos teus, que haviam ido embora. Mas n�o era paix�o por ti, Salom�. Era a paix�o de meu orgulho ferido. Comecei a tremer e meus l�bios petrificados recusavam-se a proferir as impreca��es que eu desejara endere�ar a ti. Meu sorriso for�ado se transformou numa violenta risada de �dio. Minha mente estava obscurecida pelo desejo de matar-te e a mim. A natureza bruta despertada pelo teu toque me sacudia convulsivamente. N�o � tu quem se balan�a para tr�s e para frente, Salom�. � a minha vontade trabalhando em teu corpo fr�gil, meu �dio selvagem de ti e de mim."

"Meus olhos esbugalhados perscrutavam a dist�ncia, esperando alcan�ar-te, absorver-te, assassinar-te com o fulminante olhar de minhas pupilas dilatadas. Mas, nada. Nada. V�cuo. E o lusco-fusco da noite que se aproximava fazia-se vis�vel na solid�o de minha cabana. Puxa-o, o quarto v�u, o v�u de minha ira e de meu �dio, Salom�"

"Recuperei minha compostura e vi-me sentado de sobrolhos abatidos. Senta-te, Salom�, e pensa, pensa, pensa na nossa perdida absor��o um do outro. Pensa no eterno obst�culo entre n�s, pensa em nosso amor-�dio. Tu est�s perplexa, temerosa, perseguida pelos pensamentos que dan�am em tua cabe�a. S�o os mesmos pensamentos que dan�avam em minha cabe�a, quando recuperei a raz�o e comecei a meditar no que havia sucedido. Que � que havia acontecido exatamente? Nada. Uma crian�a que brincava havia acendido fogo; os preju�zos podem ser reparados. O fogo pode ser extinto." "Tu est�s torcendo o nariz, Salom�. Tu n�o acreditas que consigamos extinguir o fogo? Covarde! Tu te abaixas, esse torcer de nariz est� tomando todo o teu corpo. Tu est�s encolhendo, desaparecendo! Salom�, Salom�, fique. Ainda n�o terminou. Terminar� um dia? Pensa, Salom�, pensa. Parece que est�s lutando para discernir algumas coisas distantes. Quais s�o elas? Seriam meus pensamentos que se encontrar�o com teus pensamentos? Busca, Salome', busca."

"Tu fechaste os olhos. Tu n�o queres ver a luz. Mas dentro, Salom�, dentro, onde estou morando, eu, Jo�o, como se fosse um drag�o numa caverna; na tua cabe�a, Salom�, pega-o, segura-o entre tuas m�os, aperta-o, estourar�. Jo�o, o drag�o, estar� livre, correr� para os c�us e te deixar� s�, s� sobre a Terra, s� ma companhia de teu mau-humor, do teu desespero, do teu assassinato. E eu, em meu �dio, desejei te assassinar, Salom�. Meus olhos tornaram-se vazios, ap�ticos. A dor que tu tens a� dentro ergue tuas p�lpebras desca�das. Tu levas a m�o � testa, � boca, � garganta. Tu dobras os bra�os sobre teus seios. Est�s com frio, Salom�? � o sopro gelado de meus suspiros que te faz tremer. Feia, feia � a vida, a morte. Feio � o nascimento, o amor. Mostra o descaso, afasta-te disso. Fora com t�o amargos pensamentos, com id�ias t�o torturantes, fora com esse enxame de moscas"

"O quinto v�u � o v�u da minha alma meditativa. Quando despertei esta manh�, Salom�, soube que te amava. A pequena r�stia de sol que furtiva tocava a parede de meu tug�rio fez-me levantar e esticar os bra�os em dire��o da luz. Meu cora��o estava repleto de contentamento. Erga os bra�os, Salom�! Dan�a! Dan�a e dan�a sem qualquer objetivo e sem pensar no porqu�. Isto � alegria, alegria de viver, a alegria da ternura."

"Bata palmas, bata os p�s, ria! As crian�as sempre riem quando est�o brincando! A risada sem sentido � melhor risada. E foi assim que ri quando soube que te amava! Os sorrisos, os risinhos � toa, de pura felicidade, quando se sente a suprema car�cia da vida, esta � que � o verdadeiro sentido da exist�ncia. Nunca antes eu o soubera, desde minha inf�ncia eu jamais dera uma risada. Que louco eu fui! E, enquanto era crian�a, ficava do lado de fora da brincadeira dos outros, coisa que eu n�o conseguia enxergar. N�o entendia por que eles riam. Mas agora eu sei. Tu me ensinaste a rir. Tu libertaste minhas enrijecidas articula��es. Desejei que ca�ssem as algemas de meus punhos e tornozelos. N�o porque eu desejasse ser livre, mas porque eu queria dan�ar."

"Mas n�o � doloroso o sacudir de teu corpo? Doloroso como o s�o as convuls�es da morte? A vida e a morte sempre est�o lado a lado, Salom�, dois g�meos insepar�veis e tu me enviaste o outro. Mas tudo isso n�o adianta nada, Salom�, pois as solas de teus p�s tocam delicadamente o ch�o sobre o qual jaz im�vel e inerte a minha cabe�a. N�o toque este solo aterrorizante que bebe meu sangue! N�o o toque! Teus delicados p�s poderiam ficar manchados de sangue. Sacuda e enrola os dedos dos teus p�s e cessar� o erguer espasm�dico de teu peito. N�o � medo, Salom�. N�o � o terror da minha morte que contrai teus dedos. � o riso! � o amor!"

"As ilus�es da tua riqueza, da tua posi��o social, da tua grandeza se desmancham em ti como eu desejara que se desmanchassem em mim as minhas algemas. Tuas coxas tremem prenunciando os saltos e v�os a que dar�o surgimento. Teus olhos claros e brilhantes iluminam intensamente teu rosto soerguido. N�o te incomodes com meus olhos fechados! Mas fecha tamb�m os teus, Salom�, para o �ltimo �xtase."

"Tu tens vontade de tocar a minha odiosa cabe�a. Aproxima-te, Salom�. Aproxima-te, terna e suave. Teu ajoelhar humilde, tuas m�os voltadas para cima, e o unir das tuas palmas mostram-me tua devo��o. Chega mais perto, Salom�, mais perto de mim, mais perto ainda, e leva embora meu sexto v�u, o v�u de meu amor."

"Ap�s meu paroxismo de alegria, vi os dois soldados descendo at� minha cabana. Que ser� que trazem? A liberdade que tu me prometeste se eu te beijasse - eu n�o o fiz - e que estou louco para fazer; terias estado a ler meu cora��o? Jamais me defendi. Era muito orgulhoso e a vida me parecia sem valor. Mas agora, quando um dos soldados desembainhou sua espada - eu o compreendi - lutei violentamente, freneticamente, por minha vida."

"Mas meus olhos ficaram emba�ados, ao pensar em ti, em tua juventude insens�vel e repulsiva e meu corpo estirou-se pela �ltima vez, como eu desejara ter-me estirado na luz, fora do meu abrigo, para ver-te, Salom�, uma �ltima vez. Quando tu vieres retirar o �ltimo dos v�us, ver�s o arco inquiridor formado por minhas sobrancelhas. Estar�o te perguntando: 'por qu�?' Elas se congelaram nesta posi��o abarcando a �ltima vis�o do terno arco formado por teus seios. As ondas das rugas que se estendem ao largo de toda a extens�o de minha fronte s�o de ondas congeladas de um oceano de amor."

"Bata uma na outra as tuas m�os semifechadas, ritmicamente, sem te interromperes, interminavelmente, como se para todo o sempre. � a batida do tempo que cessou a jornada atrav�s de meu cora��o. Trabalha, trabalha com teus m�sculos tensos, durante todo o tempo em que viveres. Meus m�sculos tamb�m est�o enrijecidos, mas n�o posso mais trabalhar. N�o me movo mais. Os cantos de tua boca est�o desca�dos, como se padecesse de nojo, ansiedade e desprezo. Curva teu pesco�o. Minha orgulhosa princesa, por que esses golpes selvagens, t�o diferentes da tua dan�a de contentamento, saltitando sobre a terra como as folhas de uma tempestade de outono? Tu sentes meu desespero? N�o o desespero de morrer, mas o desespero de n�o mais te ver..."

"Chora, Salom�, e mistura tuas l�grimas ao meu sangue. Que possa vi�ar em teu cora��o a mais rara das flores da Terra: a verdadeira compaix�o. Salpica o germe desta flor com o fluxo da vida de n�s dois juntos, com tuas l�grimas e com meu sangue. E agora, Salom�, erga o �ltimo v�u, o s�timo, com cautela e suavidade, o v�u de meu desespero, e enterra meus l�bios mortos entre teus seios em bot�o."

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