"Tudo bem... Cedi, mas isso não quer dizer nada! Por
exemplo: agora eu tenho a obrigação de saber mais sobre a CECA e sobre Johann Mahler. É
isso aí! Eu irei fazer isso agora!"
Titamy não estava convencida com aquela história para boi
dormir que Johann havia contato para ela. Superstição!? Um homem de ciência usaria de
superstição!? Achava meio difícil que fosse verdade. Devia ser uma maneira para
conseguir a adesão dela.
***
Era uma manhã de um dia desses sem
importância. Khrista e Titamy dormem tranqüilas, apenas esperando que o relógio toque e
o dia comece. Por enquanto, o silêncio domina desde a hora em que se recolheram.
Todo o clima é quebrado quando Khrista acorda
de repente, escutando o barulho da fechadura abrindo. Sem tocar o pé no chão, ela vai
até o quarto de Titamy levitando. A dona da casa dorme. Fecha a porta atrás de si.Ora,
quem seria que estava abrindo a porta da frente? Era a dúvida que não a deixou em paz.
Escuta passos agora dentro do apartamento. Assustada, acorda a amiga.
- Titamy, alguém abriu a porta e está andando
aqui dentro...
- Que bom que não arrombaram a porta... se não
ia dar o maior trabalho!
- Você não se preocupa? Não tem medo?
- Claro que não!
- Mas... - o visitante abriu a porta do quarto.
- Oi, Tamysita!
- Oi, Diego!
- Titamy... o que é isso!? - Khrista estava
confusa. Titamy não terminara com Diego há um tempão!?
- Diego continua com a chave daqui... eu sempre
viajo e é importante que alguém em quem confie venha aqui ver como estão as coisas.
- Você não tem um irmão?
- Aliocha, el hermano de Tamysita, es muy
ocupado e no puede venir a cá para ayudar su hermanita... ella tiene confianza em mí e
por eso dió a mi las llaves de su casa.
- Aprendi português, mas espanhol não, Diego!
- Khris, Aliocha é meu irmão, mas é muito
ocupado. O mesmo não acontece com o Diego. Não se lembra do que falei com você!? Somos
amigos ainda. - abaixando a voz: - Como Diego nada tem a fazer...
- Tamysita! Como não tengo nada a
fazer!?
- Brincadeira, seu bobo. - disse Titamy
abraçando Diego e beijando-lhe a face. - Bom dia, Diego!
- Entendi... , mas o que você faz aqui hoje
se a Titamy está no Rio?
- O que às veces faço: vir vê-la. -
Khris achou melhor ir embora, afinal ela não era um candelabro para segurar vela.
- Khris!? Vai me deixar sozinha com esse cara!?
- Ele é seu ex-namorado! Vocês que se
entendam! - disse Khris, deixando o quarto. O despertador de seu quarto tocou: hora de ir.
***
- Você sabia que o Diego tem a chave do
apartamento da Titamy? - Khrista, antes de entrar na faculdade, porém já no portão de
entrada.
- Claro que sei, Khris! Essa amizade é colorida
demais...
- Bom, é só a minha opinião, sabe que não
posso ter absoluta certeza disso, mas acho que eles não estão namorando mesmo...
- É!? Mas deixar a chave com o ex-namorado...
acho que eles querem continuar com algum vínculo.
- Esses dois vão ficar juntos. Com certeza! -
afirmou Khrista convicta.
***
- Preferia quando todo dia de manhã eu acordava
logo ao seu lado, Tamysita... - Titamy deitou novamente, virou para o lado e ligou a
televisão logo depois que Khris saiu. Diego deitou-se do lado da amada, de barriga para
cima, com as mãos atrás da cabeça, que estava encostada à cabeceira da cama.
- Se meus pais soubessem que eu ainda deixo
você vir aqui e ver televisão deitado na minha cama,... eu ia ouvir pela eternidade!
- Eles estão certos...
- Se concorda tanto com eles, pode ir embora!
- Não! Por favor! Minha televisão está ruim!
- Comporte-se, então!
- Posso tirar a camisa?
- Desde que pare por aí... - Titamy fechou os
olhos. Ele fez conforme pediu, tirou sua camisa e a pôs na mesinha de cabeceira.
- Tamy...
- Diego, eu dormia quando você chegou...
deixe-me terminar a minha noite!
- Tá... - disse ele a contra-gosto. Entendamos
o lado de Diego: ele tagarelando conseguia ficar um tempo sem se lembrar dos bons tempos
em que não era um cara disponível... quer dizer, sempre esteve disponível, porém antes
era compromissado. Queria ficar ali, mas sem pensar que antes não ia até ali só para
ver o jornal da manhã, nem ia de manhã, ele já estava
lá.
Ela dormiu e ele olhou-a: "Tem coisas que
não mudam: como o seu rosto enquanto dorme... pare com isso, Diego! Assista à TV!"
***
Louis levou para a faculdade o trabalho que
tinha que fazer para o seu curso e era por isso que seus colegas riam até dizer chega:
carregava uma enorme pasta onde guardava os desenhos das roupas que criava. Gente, não é
porque ele vive no ano 2090 que o preconceito deixou de existir!
Eu disse (e queria deixar bem nítido) que quem
ria eram os colegas, mas não as colegas. Elas tinham
certo interesse: quando existia alguma ocasião muito especial, elas pediam para que o seu
querido coleguinha de faculdade desenhasse o que iriam vestir. Às vezes nem era para algo
importante, mas sim para uma roupinha de ir ao shopping que pediam a ajuda do amigo.
Jade nem ligava muito para o que ele fazia.
(Lembram-se dela?) Aquela que foi à África com ele... é, eles estudam juntos na
faculdade de Biogenética. Dizem que existe um algo a mais, porém nada com comprovação.
Na dúvida, duvide dos boatos. Mas dizem tanta coisa de Louis Tafars Soulbright...
- Eu fui à festa de Johann Mahler, na qual ele
anunciou a Tríade. Eu sei que você faz parte dela e percebi também que foi você o
estilista do grupo.
- Nossa, Jade! Que observadora! - disse mais
baixo: - Mas não conte para mais ninguém, ouviu!?
- Ouvi... E como vai a sua ida para aquela loja?
- A confecção, você quer dizer... eu ia, mas
não vou poder conciliar tudo... e também não posso sair da empresa. Sabe, eu fui
contratado lá três vezes: como estagiário, como assistente e como membro da... você
sabe.
- É muita coisa ao mesmo tempo!
- É... o bom é que meu horário é flexível.
Se eu estivesse no colégio em que estudei, não poderia dar-me o luxo de sair nos
intervalos... mas na faculdade e no curso de moda... não há problema!
- E também, é melhor assegurar logo um lugar
na CECA do que viver na incerteza do mundo da moda.
- É isso aí... todos me criticam quando falo,
mas eu conheço a realidade: o mundo de hoje não apóia e nem precisa muito de um
artista, mas sim precisa (e muito!) de um cientista!
***
- Você não acha muito esquisito o seu patrão,
Diego? - perguntou Titamy. Já fazia uns vinte minutos que acordou (após dormir meia
hora). Ela ainda estava deitada, vendo um desenho animado. Ele estava na cozinha.
- Você podia fazer café! Cadê o pó?
- Ninguém toma aqui em casa. Me responde! - ela
se levantou e foi caminhando para a cozinha para ajudá-lo, mas não com muita boa
vontade.
- É o jeitão do sr. Mahler! - ela já estava
lá. Abaixou-se, abriu o armário debaixo da pia e tirou um pote no qual se lia: CAFÉ. - Obrigado!
- Até parece que nunca morou
aqui!
- Esse pó não é daquela
época, né?
- Se tiver cheio de bichinhos
aí dentro, a resposta é positiva. - ele o abriu todo cheio de cuidados. Do jeito que ela
era meio doida, era bem capaz de o café ser de um ano atrás. A cara que ele fazia era de
se rolar de rir. Ela se divertia com a cena. O pó de café estava com aquele cheirinho
gostoso e sem nenhuma marca de ser antigo.
- Você fica rindo! Se você
tivesse que conviver com você...
- E não convivo!? Sou a pessoa
que passa mais tempo comigo! Desde que eu nasci eu tenho essa mania! - ela deu um sorriso
para ele. - Precisa ainda dos meus serviços de babá ou pode se virar sozinho para fazer
essa maldita bebida?
- Pode deixar comigo! - mesmo
assim ela não saiu.
- Eu vou investigar a CECA e o
dono dela.
- Ele não é o dono dela... por
que você não compra um sintetizador de alimentos?
- Nada mais gostoso do que uma
comidinha fresca, caseira e feita pelas minhas mãos.
- Isso é verdade... Como você
vai investigar? Sair perguntando por aí?
- Internet serve para quê!?
Deve ter muita coisa por aí para eu ver que mate a minha curiosidade e dê razão para as
minhas desconfianças.
- Você nem gosta de
Informática!
- E desde quando se precisa
entender de Informática para pesquisar na Internet!?
- Com conhecimento, você pode
fazer uma pesquisa mais completa. - ela se aproxima mais dele. Esticando-se toda entre a
pia e ele, pega o açúcar que está longe de ambos. - Eu poderia ter pegado isso.
- É!? Só queria ajudar...
Desculpe-me! Quase derrubei seu café... - ele olha para baixo (ela é um pouco mais baixa
que ele) e só vê o alto da cabeça dela passando perto de seu pescoço.
- Quer um pouquinho? - perguntou
após colocar um pouco do açúcar que ela havia pegado em sua xícara com café e pegar
um pouco do líquido escuro na colherzinha e quase pôr na boca dela.
- Não, obrigada! Detesto isso!
O que você sabe da empresa em que trabalha?
- O mesmo que todo mundo: é uma
empresa voltada para o conhecimento científico, com a matriz no Brasil (que foi
transferida dos EUA). Faz parte do grupo Mahler-Kellan. O mais alto funcionário é Johann
Mahler, que possui vários diplomas de cientista e de administrador pendurados em seu
escritório. A empresa possui várias filiais e subsidiárias ao redor do mundo, sendo que
o centro de pesquisa científica mais bem equipado é a localizado na Amazônia
Brasileira.
- Eu quero os podres! - disse
Titamy indo para a sala e acionando seu computador com um comando vocal:
"Acorda!".
- Vai me trocar pelo seu
computador?
- Não é isso... eu posso falar
com você enquanto faço algumas coisas nele.
- Tá certo... - ele põe a
xícara vazia em cima da pia e vai até a sala sentar-se ao lado dela, em frente ao
computador.
- Nada sabe sobre a história!?
Festas de inauguração?
- Não... nada. O que sei é a
crise do departamento pessoal de 2080-e-pouco.
- Ó, não quero ser chata, mas
já está na hora do seu expediente.
- É... já estou ficando
atrasado! - ele olha o relógio de pulso. - O tempo passa tão rápido quando estamos com
quem gostamos...
- Deixe a sua canastrice para
outras... Tchau!
- Tchau! - dois beijinhos nas
faces e ele foi embora, trancando a porta.
***