Nota do narrador: Confesso
que esse não é o meu tipo preferido de capítulo para narrar, mas hão de ficar
registradas as primeiras batalhas da Tríade. Bom, vamos
à história.
- E aí, Khris?
- Tentando levar a vida normal, fingindo não sofrer.
- Se ele não for bobo, um dia desses ele vai te pedir para
ficar com você.
- O que te faz acreditar nisso?
- O fato de eu ser uma pessoa romântica.
- Nem parece! É difícil você falar dessas coisas...
- Diego foi meu primeiro namorado e terminou de uma maneira
um pouco desagradável o nosso relacionamento.
- E aí, algum pretendente?
- Não e isso me dá uma paz...
BEEP! BEEP!, gritou o irritante comunicador que
usavam em forma de um "T". O de Khrista estava em uma pedra de um pingente de um
colar. O de Titamy ficava em um anel.
- Vamos? - perguntou Khrista e saíram para o lugar que lhe
disseram.
***
O ataque dos não-humanos era em uma cidade no
estado do Rio mesmo. Cada qual utilizou sua habilidade de locomoção. Era uma feira de
artesanato, algo um pouco raro no ano 2090, porém bastante apreciado pelos amantes de
artes manuais.
Muitas pessoas divertiam-se na feira, comprando
o máximo que o dinheiro permitia, dentre eles, estrangeiros e turistas brasileiros
mesmos. Estava lotada!
Um grupinho de pessoas começou um quebra-quebra
em uma barraca de artigos de barro. Primeiro, algumas das outras pessoas tentou apaziguar
os ânimos, mas não foi possível, de seus olhos, chispavam raios púrpuras que pareciam
olhares de ódio.
Sabendo que a CECA havia anunciado a criação
de um grupo de super-heróis para que pudessem ajudar as pessoas contra esse tipo de
pessoa, o prefeito da cidade comunicou-se com a empresa, solicitando que os serviços da
Tríade estivessem a disposição de sua cidade. Johann repassou o recado para Louis,
Khrista e Titamy.
***
Quinze minutos depois, os três estavam na tal
cidade, trajados com as roupas que Louis havia desenhado o modelo. Titamy ainda achava que
a sua roupa estava justa demais, que a incomodava um pouco, mas, fazer o quê!?!?
A bagunça já estava generalizada: não se
percebia onde estava calmo e livre dos ataques. Eles, então, decidiram por se separarem e
tentarem descobrir o que estava havendo na verdade.
- Não se preocupem, a Tríade está aqui para
ajudá-los - disse Louis quando chegou perto de uns cidadãos inocentes.
- Mamãe, quem é esse?
- É um cara que pensa que é o bom.
***
Titamy fingiu-se encurralada por um grupo dos
vis inimigos seus. Fazia até mesmo uma cara de terror e dava gritos. "Oh, como se
suas caras feias me dessem medo!" pensava.
Deu um pique e começou a correr em volta de
seus adversários. A cada volta, o atrito com o solo (e também em parte por sua natureza
inflamável) fazia com que um círculo de fogo se formasse em volta deles, fazendo
"churrasco" de não-humanos.
Para alguns que sobravam na platéia, ela
reservou uns chutes e socos bem dados, além de uns jatinhos marotos de fogo.
***
Khrista sobrevoava majestosa o setor da feira
que lhe era cabido.
- O que é aquilo? - perguntou alguém
espantado.
- Acho que é um urubu! - disse alguém.
Também, formou-se uma sombra sobre o corpo de Khrista, ela não passava de um vulto no
céu.
Alguém atacou o tal homem. Ela começou a dar
um vôo rasante com o objetivo de parar a fera. Esticou o braço direito, com a palma
voltada para cima e um monte de terra cresceu por baixo do agressor.
Com vento, ela afastou os outros que vinham.
***
- Quem pensa que é o bom,
minha senhora!? - perguntou Louis após quase afogar um inimigo com um fino jato de água
no meio do nariz. - Eu sou um super-herói.
- Com uma super-modéstia!
- Bom, creio que, então, posso deixá-la se
livrar... uh... - bateu em um que se aproximava - sozinha do que está atacando a senhora.
- Não! Cadê o cavalheirismo!? Sou uma mulher
com uma criança!
"Uma mulher com uma criança que fala
demais!", pensou Louis. Com a mente, mandou um bando para os ares, indo cair em um
pequeno penhasco.
- Muito obrigado, ô da Tríade! - disse o
menino. Só isso bastou para se sentir melhor.
***
Os atacantes que não estavam perto de nenhum
deles os fizeram se aproximar. Pior para eles. Quando juntos, já o sabemos, os poderes
dos três se eleva ao máximo, podendo, até juntar as suas energias em um só ataque
fulminante: uns vinte e três caíram no chão, sem se mover.
A cidade estava a salvo e homenagearam os seus
salvadores.
***
- Estamos em ****, no estado do Rio, onde a
Tríade fez sua estréia oficial. Testemunhas contam que eles possuem poderes acima do
normal.
- Um deles tem poder de água e fez com que
os bandidos voassem longe! Eu vi! - afirmou um menino da comunidade.
- Uma delas tem o poder do fogo, a outra, de
terremotos e do vento.
- É, mas a do fogo podia correr rápidão!
Ela fez um círculo de fogo!
- A do fogo é a melhor, é a mais bonita! O
meu telefone é... - Bom, todo o tipo de coisas foi sendo dito. E Khrista, a do vento,
também possui os seus admiradores:
- Que a do fogo o quê, mermão! A do vento
é demais!!!!
- O mais importante é agradecê-los pela
aju... - estavam os três na casa de Louis, comendo um lanchinho gostoso feito pela
d. ****. mãe de Louis. Ele interrompeu:
- Mentirosa! Essa mulher me criticou o tempo
todo!!!!!!!
- O que fez para merecer isso? - perguntou
Titamy.
- Nhé...! - protestou Louis. - Não fiz nada...
- Mas já estava na hora de fazerem alguma coisa
contra esses monstros terríveis! A situação estava começando a ficar insuportável! E
eu tenho orgulho de o meu filho ser um desses heróis! Sempre soube que seria importante!
- É... mas fui eu quem atrasou tudo! - disse
Titamy pondo um pedaço de bolo na boca. - Eu sou contra trabalharmos como empregados
sendo super-heróis! Isso devia vir de cada um de nós... mas também a CECA é a única
que pode nos treinar bem... por isso aceitei!
- Essa é a melhor empresa! Ainda bem que o meu
filho foi trabalhar nela.
"É, pode até ser, mas é a que esconde
mais coisas também... é muito suspeita!", pensou Titamy.
- Pode até ser uma boa empresa, mas não me
arrependo de ter saído de lá... de não morar mais lá... - Khrista em meio a uma
garfada.
- É verdade, como uma empresa científica, ela
é muito boa, mas seus complexos residenciais nem tanto! - mãe de Louis.
- Eu morei no prédio da matriz! No último
andar! - disse Khrista.
- É... não deve ser o melhor lugar para se
morar. - mãe de Louis.
- Ih! Olha o horário! Tenho que correr! Me
chamaram para uma reunião... - Titamy
- A trabalho ou estudos? - Louis.
- Trabalho! - todos tinham que sair: Titamy
recebeu uma proposta de uma empresa de seguros para achar uma jóia perdida. Louis e
Khrista tinham aula.
***
- Conhecendo o seu trabalho por aquela vez que
usamos seu serviço para a recuperação do bracelete de rubis, decidimos que seria
interessante que a senhorita procurasse essa coleção de jóias perdidas. Otto, mostre a
senhorita Kosanova a foto da coleção n° 24523.
- Sim, senhor. - um funcionário baixo, meio
careca e gordinho entregou uma pequena caixa a Titamy. De dentro, saiu um holograma de uma
belíssima coleção de prata e diamantes: colar, brinco, pulseira e anel.
- Receberá uma quantia equivalente à metade do
valor da peça desaparecida caso a encontre, caso apenas consiga pistas, um pagamento de
acordo com o serviço prestado lhe será pago.
- Aceito o trabalho, sr. Araújo. Está tudo de
acordo com as minhas condições de trabalho. - após resolvida a questão, ele
apertou-lhe a mão e pediu para que Otto a acompanhasse até a saída.
- Srta. Titamy, a senhorita é um dos membros da
tal Tríade!?
- Não, Otto, que pergunta mais doida! - claro
que não iria dizer assim na lata a verdade a um funcionário de um empregador seu.
***
Louis estava em uma empolgante aula com o mais
querido de seus professores: FJ. Que cara mais agradável, que explica e cheira bem! Como
a ironia é algo delicioso e cheio de charme! FJ era, na verdade, a fedentina em pessoa,
um esgoto ambulante! E explicava muito mal. Dizem alguns alunos bem antigos (desses que
ficam quinze anos tentando, mas não conseguindo formar-se) que ele sofreu um acidente há
muitos anos atrás em uma experiência. O resultado foi o fato de ele cheirar a podre e
suas capacidades mentais reduzidas: ele não consegue passar a matéria direito, mas
também dizem que Biologia não é o seu forte e que ele tem complexo por não ter se
formado em artes plásticas.
Vá se entender os complexados!
Voltando ao que interessa...
Louis estava quase dormindo quando seu
comunicador (no cinto) toca e ele descobre de mais um atentado à boa vivência dos
humanos. É uma ótima oportunidade de sair... e, também, FJ nem sentiria a sua falta,
afinal de contas ele não era babá de marmanjão e sim "professor"!
***
T**** não mais olhava para Khrista, coisa da
qual ela sentiu falta. Seus olhares eram solitários e isolados para ele. Mas o que
poderia fazer!?
Decidiu, então prestar atenção ao máximo no
que seu professor dizia, anotando, até mesmo, cada espirro dado por seu mestre.
Até que algo que a alienasse completamente do
mundo acontecesse... pensava quando o seu comunicador avisou-a de um ataque.
"É isso aí... trabalhar vai me ajudar um
pouco..."
***
"Eu, hein? Que idéia é essa do Otto!?
Claro que eu não responderia à sua pergunta com um sim! Esse elevador podia ser
um pouquinho mais rápido! Putz!"
Ela já não estava mais acompanhada de Otto e
ia no elevador para o térreo, de encontro à liberdade!
...
Foi o que pensou. Mas na hora que pôs o pé
para fora do edifício, escutou seu comunicador e recebeu a mensagem diretamente em seus
cérebro, como ocorrido antes.
"Vamos lá, menina!"
***
Dessa vez, tiveram que contar com uma aeronave,
pois o inimigo estava em Bogotá. Mas com a tecnologia da época, ir com uma
aeronave a Bogotá saindo do Rio era um pulo, durava menos de vinte minutos.
Chegando lá, em uma praça pública, um bando
de não-humanos atacavam os transeuntes e, também, os monumentos da praça, como uma
estátua e um busto, além de destruírem o jardim que rodeava a praça.
Como dessa vez os inimigos estavam concentrados
em uma parte só, a Tríade nem precisou se dispersar. Estavam em uma "formação de
ataque circular". Eles ficavam no meio dos bandidos.
Titamy preferia ataques físicos diretos: socos,
chutes e passadas de pernas em seus adversários. Louis adorava mostrar seus poderes
telecinéticos. Khrista preferia o poder do vento, mas de vez em quando mexia na terra
para dar uma lição nos vilões.
Teve uma hora que toda aquela brincadeira
encheu-lhes a paciência e aproveitaram a proximidade de um para outro para aumentarem
seus poderes ao máximo, mas sem juntá-los. Cada qual deu a rajada que mais lhe convinha
e despacharam os impecilhos.
***
Em todos os jornais, em todos os canais
televisivos, em cada esquina se falava da Tríade. Era um tal de salvadores, protetores e
issos e aquilos que se falavam dos nossos amiguinhos! Nem eles mais agüentavam ouvir de
si próprios. Bem... isso não é verdade, pois o narcisismo fala mais alto de vez em
quando e é sempre bom ouvir elogios.
Já pensaram como deve ser muito legal ouvir
falarem que você está ajudando a curar o mundo de um terrível mal? Eles se sentiam nas
nuvens, embora desligassem o televisor quando começava o telejornal e muito menos liam
jornais através da rede de computadores. Deixavam isso para os fãs e para os seus pais
fazerem.
***
Fazia-se uma semana que estavam nessa vida.
Fazia uma semana que seus rostos eram figuras
carimbadas em tudo o que é lugar.
Fazia uma semana que deixavam de ser ilustres
desconnhecidos para serem pessoas que ninguém jamais esqueceria.
Nossa! Mas em uma semana foram, ao todo, 37
ataques ao redor da América (Norte, Sul e Central)! Como fariam para conciliar a nova
vida com a vida de outrora?
***
Titamy estava com trabalhos atrasados na
faculdade e pediu dispensa de seu estágio. Já não agüentava mais tanta coisa a ser
feita. "Assim, eu vou morrer cedo!" - pensava.
A missão recebida da seguradora estava
conseguindo ser efetivada... mas, com isso, o sono ficava acumulado demais. Quanto tempo
ela conseguia ficar deitada? 4 horas apenas!
À noite, ela começava a fazer as suas
investigações. Descobriu, por exemplo que o dono da loja estava com visitas em sua casa,
onde guardava a coleção que foi roubada. Descobriu que alguns freqüentadores da casa do
homem tinham antecedentes criminais.
"Bom, agora é só conseguir mais
informações... creio que vai ser fácil encontrar as jóias, mas o ladrão... só que o
ladrão não é meu serviço. Isso é com a polícia!"
***
O horário que Khrista encontrava para fazer
seus trabalhos (que contavam alguns com desenhos) era a partir de 10:30 da noite. Até
terminar, eram já três horas da manhã. Dormia mal e ia para a faculdade logo cedo.
Chegou a dormir em uma das aulas mais chatas que tinha.
***
Louis estava em situação parecida: a Tríade
não era um emprego com um certo horário: qualquer hora ele podia ser chamado. O pior de
tudo é que fazia curso à noite e faculdade de manhã e a tarde! Estava pirando "mas
logo me acostumarei!"
***
Reuniram-se no domingo na casa de Titamy. A
expressão no rosto de cada um fazia com que o coração de quem os olhava se condoesse.
Pareciam três zumbis.
- E aí, como vocês estão? - perguntou Louis.
- Com sono! - responderam todos.
- Sabe de uma coisa!? Vamos tirar um soninho
até que o comunicador toque novamente? - Titamy.
- Vamos. - Titamy foi para a sua cama. Khrista
também foi para a sua e Louis deitou no sofá. Mal deitaram as cabeças no travesseiro,
começaram a dormir.
zzz
zzz
zzz
Dez minutos depois, toca o comunicador.
Que desgraça essa vida de heróis!
Eles esperavam que fosse possível se
acostumarem.
Mais uma vez vão defender a sua raça de uma
terrível ameaça.
***