"Srta. Boyomi,
Esse é um convite para que compareça a uma
festa que será dada no hotel Éden, com a finalidade de anunciar à população,
oficialmente, a criação de um grupo de super-heróis chamado A Tríade.
Dia 15 compareça à festa, é imperativo, já
que faz parte de tal grupo.
Conto com sua presença e agradeço desde já
sua colaboração,
Johann Mahler
(Presidente da Compannhia Mundial de
Estudos Avançados das Ciências Exatas e Biológicas)"
- Você recebeu um convite igual, Titamy? -
perguntou Khris. Elas estavam no apartamento que dividiam na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
- Sobre uma festa em homenagem à Tríade!?
Claro que recebi!
- Vai?
- Fazer o quê!? Eu sou uma das homenageadas!
Seria desfeita se eu não fosse! Leu a observação: "Não precisam comprar nem
tampouco mandar fazer roupa de festa, serão-lhes dados uniformes de combate, com os quais
se apresentarão à sociedade mundial." Melhor pra mim!
- Sabe? É estranho... eu saí de uma
civilização completamente diferente e já sou taxada de super-heroína por outra...
- Você devia ser considerada como tal em
Agaabá - tribo de Khrista -, não é?
- Eu era considerada um kitô, um anjo
mandado por Obwagan, nosso deus.
- Um dia você ainda vai me contar sobre sua
religião...
***
- Sheila, ou Sra. Boyomi (como preferir), não
há alternativas a mais para a sua situação: ou vem novamente trabalhar em minha empresa
ou sua filha saberá que toda a sua vida foi uma farsa. - disse Johann em
seu escritório.
- Não, Johann...
- Sr. Mahler, por favor. Já faz tanto tempo que
nem sei mais se nos conhecemos ainda...
- Certo, Sr. Mahler, mas não faça isso com
minha filha, por favor. Khrista teve uma vida muito mais feliz
sendo criada na savana do que se fosse criada aqui.
- Mas havia coisas que ela deveria
ter conhecido, sra. Boyomi.
- Eu faço o que quer, desde que deixe a minha
filha em paz...
- Pode começar amanhã, Sra. Boyomi.
- Sim, Sr. Mahler.
***
Na "savana" criada dentro do prédio
da CECA (ou CMEACEB), estão, em uma cabana, Xila e seu marido. Conversam em agaabano.
- Xila, mais cedo ou mais tarde Khrista saberá.
- É, mas não quero que ela saiba tão cedo.
Não quero que soframos tão cedo, querido.
- Khrista já não é mais uma criança, Xila.
- É, mas é minha filha e sempre tentarei
protegê-la.
- Khrista um dia saberá a verdade e você
talvez sofra mais por ela saber pelos outros do que por você mesma.
***
- Louis, o Sr. Mahler mandou-me dizer-lhe que
desenhasse os uniformes de acordo com a personalidade e poderes de cada um de vocês.
- Sim, Diego. Eu já tenho idéias... a de
Khrista será baseada nas roupas que ela usava em sua tribo lá da África.
- Sim... Louis, como está Tamysita? - Juan nem
ligava mais para o assunto roupas.
- Pensei que tivessem...
- Não. Ela não quer.
- Está bem.
- Está com alguém?
- Não, mas me parece bem.
- Que bom... - disse e, mais baixo: - Es
mejor que sea así.
- O quê? Diego?
- No es nada, Louis. Continue seu trabalho.
***
- Boa tarde, dona Xila! - disse Titamy na
língua agaabana. Xila havia ido ao apartamento da jovem.
- Pode falar em português, minha filha.
- Já aprendeu português!? Em tão pouco
tempo... sua família é demais, dona Xila! - disse Titamy, deixando que Xila entrasse.
- Sempre soube sua língua... mas isso não vem
ao caso! Khrista está em casa? Quero levá-la comigo!
- Desculpe, mas ela foi à faculdade. Hoje eu
não tenho aula e por isso encontrou alguém em casa.
- Diga à Khrista para vir morar comigo.
- Desculpe-me, mas d. Xila, acho que Khrista
pode decidir isso sozinha. Ela já é adulta... e considerada adulta mesmo pela sociedade
brasileira... já é responsável por si mesma.
- Eu sei, Titamy. Mas, independente do que
Khrista decida, não deixe, e diga para ela: Johann Mahler não pode se aproximar dela!
***
UTecCARJ, prédio da Engenharia.
Sala 10989, classe do primeiro período, eles
ainda não escolheram suas especialidades. É nela que Khrista estuda.
Ela senta na segunda carteira da segunda fila
perto da porta. Desde que começaram as aulas na faculdade, há uma semana e meia, um
menino passa a maior parte de seu dia olhando para a nossa africana preferida. Não é um
olhar de reprovação, nem mesmo de análise. É aquele que todos conhecemos, quando
nossos olhos parecem os de um peixe morto. Era como se esquecesse o seu olhar exatamente
onde Khrista estava sentada.
Ela, por sua vez, passou a sentir que algo em
seu interior estava mudando, que um sentimento que lhe trazia tranqüilidade, vontade de
continuar, inspiração e... DISTRAÇÃO. Sim, assim como ele, Khrista passava as aulas
inteiras a pensar nele, embora não o conhecesse.
Havia algo estranho nele: sempre aparecia com a
"mesma" roupa: uma calça jeans, uma blusa preta de botões fechada
até o último. Era o mais quieto de todos e parecia não estar onde seu corpo estava,
não apenas quando pensava e olhava para Khrista, mas também em todos os outros momentos.
***
- Nossa, Khrista, você está na faculdade já
há três semanas! E já faz mais de uma que não fala com ninguém direito, menina! O que
está acontecendo? - Titamy foi almoçar com Khrista e sua família na savana artificial.
- Parece que eu estou em outro lugar... já
senti algo parecido, mas não com essa intensidade. Sabe do que se trata?
- Como se você não soubesse...
- É... em Agaabá eu tive um namorado. Foi
legal, mas eu tive que vir pra cá e a gente não estava tão bem assim pra ficar junto
pra sempre, para agüentar a distância.
- O que que está havendo com você?
- Tem um rapaz lá na faculdade. Nem sei seu
nome, nunca nos falamos mais do que um "Bom dia" ou coisa parecida... mas ele
não pára de olhar para mim, Titamy! Sei lá... acho que estou gostando dele, mas nem sei
direito.
- Quando você conhece a pessoa só amadurece o
que você já sente ou faz você descobrir todos os defeitos insuportáveis.
- Você e o Diego já... já namoraram, não é?
- É... mas foi há bastante tempo. Conta mais
da sua história.
- É assim... ele não sai com ninguém da turma
(nem com amigos e nem pra encontros), fica sempre calado e muito na dele. Se veste sempre
da mesma forma: calça jeans, blusa preta, ...
- Tente falar com ele...
***
- O...oi! - disse Khrista ao seu admirador.
- Oi, Khrista! Desculpe por eu olhar sempre pra
você, mas tem que compreender: não é sempre que se vê uma garota saída de uma tribo
por esses dias!
- É, confesso não ser a coisa mais fácil...
nós das tribos vemos muito poucos da sua civilização...
- Também tenho de dizer que não é só por
isso... , mas não vem ao caso agora...
- Você vai à festa da CECA?
- Eu fui convidado. Todos cujos pais trabalham
lá foram convidados, ou os mais inteligentes... como você...
- Há muitos motivos para eu ir...
- Eu não...
- Vai por mim, então... a gente pode
conversar...
- Tudo bem, já que foi você
quem me convidou, tudo bem... não é que eu não goste de festas, mas eu não tenho tempo
para elas... Ih, tenho que ir! Tchau, Khrista!
- Tchau, ... (?) - nem pôde perguntar o nome
dele, ele saiu muito rápido.
***
"Enquanto eu não acabar com o que tenho
que fazer, não posso pensar nesse tipo de coisas. Não posso deixar que Tamysita seja mais
importante que a minha missão, a verdadeira razão para eu estar aqui nesse
país... não. Verdadeira razão é mentira: não foi o meu plano incial para essa viagem,
essa é a verdade. Também nem quero pensar que não poderei ficar aqui para sempre... Por
que a vida tem que ser assim!? Por que tive que optar por algo que não me deixa ter uma vida
pessoal de verdade!? Não me orgulho do que fiz, mas não podia deixá-la
esperançosa quanto a mim... um dia tudo será esclarecido." - pensava Juan em
espanhol enquanto trabalhava.
***
Estava perfeito. Simplesmente demais! Cada vez
mais ele se aperfeiçoava e fazia um trabalho de estilista melhor que o outro!
"Qualquer dia, estarei em Paris, Nova Iorque!"
A roupa de Khrista estava linda, muitíssimo
parecida com a que usava na savana, porém mais urbanizada, pensava ao admirar sua
criação (vide o desenho da Tríade no topo da página). A roupa de Titamy era
em cores do fogo: amarelo, cor-de-abóbora, vermelho, a dele era como as roupas da moda
para homens, porém branca com detalhes em azul (mesmo recado que o anterior).
- Gostaria de falar com o sr. Mahler.
- Ele esperava pelo senhor, sr. Soulbright. -
Juan.
- Bom dia, sr. Mahler! O desenho das roupas
estão prontos!
- Deixe-me vê-los, rapaz. - Johann os olhou e,
com ar espantado, disse: - Exatamente como eu pensava que seriam! Parece que leu minha
mente, rapaz...
- E li! Mas eu as adaptei.
- Sei... muito bom trabalho... deixe-os aqui.
Por favor, Sr. Morales e Sr. Soulbright, dêem-me licença, pois tenho um comprimisso.
- Sim senhor. - eles deixaram Johann.
- Louis, por que faz Biogenética? - Juan.
- Porque eu amo o que faço...
- Mas você tem tanto talento para as Artes!
- É... mas o que se valoriza é a ciência,
apenas.
- Bom, a vida é sua!
- Eu sei como é a realidade dos artistas...
nós não somos mais tão apreciados...
- Desculpe, mas tenho que falar com uma pessoa,
é muito importante!
- Até mais, Diego!
- Até mais, Louis!
***
- Estamos falando daqui, bem em frente ao
Hotel Éden na Barra da Tijuca, onde será apresentado para a humanidade os seus
salvadores: um grupo de super-heróis chamados "A Tríade". Nada sabemos deles,
mas dizem tratar-se daqueles que se bateram com aqueles não-humanos em frente ao prédio
da Engenharia da UTecCARJ.
- Nossa, quanta gente esperando pela gente! -
disse Khrista num dos quartos, arrumando-se ainda, olhando pela fresta da persiana.
- É mesmo, espero que não se decepcionem
comigo!
- Nossa, Titamy, que otimismo! - bateram na
porta. A voz era de Diego.
- Tamysita! Vão demorar muito?
- Não! Eu já estou pronta,
mas a Khrista parece que vai se casar! Se arruma tanto...
- Titamy! - ela fez aquela cara de
"você-sabe-de-tudo-e-fica-brincando-comigo-!-?"
- Desculpe-me.
***
Ei, não pensem que eles apareceram direto com
os uniformes de batalha e não tiveram tempo de respirar! Louis criou umas roupas de festa
para eles irem curtindo a festa antes do anúncio e, por isso, a aflição com a demora de
Khrista.
Para Titamy, Khrista podia só se arrumar para a
hora em que era imperativo suas presenças, mas Khrista queria encontrar seu amiguinho
misterioso. Como eu também não sou lá muito fã de festas, não me alongarei nesse
assunto, já que as festas costumam se parecer muito umas com as outras.
Bom, o que aconteceu foi o seguinte: Titamy
ficou conversando com Louis no começo, mas uma colega deles da época da escola o chamou
para dançar e não o largou mais. Depois, ficou conversando com Diego, que insistia de
maneira canastrona para que eles ficassem juntos, ao mesmo tempo que, em pensamento, pedia
para que ela recusasse.
Khrista encontrou seu admirador acompanhado dos
pais e esperando por ela. Estavam todos com roupas de gala. Conversaram muito e nomes não
era o mais importante, o melhor era falar de coisas agradáveis. Até que ficou agradável
demais.
- Por que você sempre me olha lá na sala?
- Tem algo em você que, sei lá, me faz pensar
em você o tempo todo, que me faz querer fazer parte do seu mundo, querer estar perto de
você sempre. E por que você passou a fazer o mesmo?
- Porque eu sinto o mesmo. Quero ficar perto de
você, você me faz sentir em paz, me faz querer a sua paz e, ao mesmo tempo, me faz ter
vontade de seguir com todos os meus planos.
- Apenas com um olhar?
- É, apenas com o seu olhar. -
uau! bom, já não era mais o momento para falarem, já estava naquela hora em que certo
contato físico-labial faria um bem danado e era isso o que os dois esperavam, embora ele
com receio.
- Khrista, vamos!- gritou, ao longe, Louis.
- Tá! - ela foi trocar de roupa.
***
- Nós tomamos conhecimento desses três jovens
com poderes fora do comum e submetendo-os a testes, para aprendermos suas habilidades e
para que eles também as aprendam melhor. Apresentamos a esperança da Terra: A TRÍADE! - os três desceram as escadas com
seus uniformes. Apresentaram-nos como: Naime, Tafars e Khrista. Não queriam que ficassem
totalmente anônimos, mas também que não ficasse na cara quem eles
eram.
Titamy e Louis aproveitaram seus
minutos de fama, enquanto Khrista procurava desesperada o garoto: mas não o encontrou de
jeito nenhum. Havia sumido.
A festa rolou solta como antes,
sem tirar nem pôr, ou melhor, ele foi embora.
***
Seu sumiço demorou duas
semanas, em tudo o que combinaram na festa (passeios e outras coisas do tipo) ele deu
bolo. Khrista já não conseguia mais convencer seu coração a ficar quieto e nem mais a
suas lágrimas morrerem apenas nos seus olhos.
Era num desses momentos, ela
estava sentada no pátio da Engenharia, segurando o seu sofrimento, quando uma mão toca
seu ombro: era ele.
- Oi Khrista!
- Por quê!? - ela estava
triste.
- Eu tenho muitas coisas para
serem feitas.
- E satisfação? Não podia ter
consideração por mim!?
- Não sei se iria entender...
- Tá, eu não sou do seu
mundo, mas não sou burra!
- Sei disso... eu estou entre
duas coisas que fazem parte da essência de cada um: a vocação e a pessoa de que gosto.
- Como assim!?
- Eu vou ser padre, Khrista,
essa é a minha vocação.
- E o que que tem?
- Você sabe que padres são os
sacerdotes da minha religião, né? Eles não podem namorar nem casar... - durante a
conversa os olhos de ambos encheram-se de lágrimas. - E eu sei que essa é a minha
vocação, é o que o meu Deus quer para mim.
- E eu não sou nada!?
- É... e é mais do que eu
queria que fosse, Khrista. Não há como. Mas queria que fosse diferente...
- E eu também... e como queria!
Mas quem sou eu para ficar na frente de Deus!? Se Obwagan quisesse isso de mim, não
importaria meus sentimentos... nenhum homem pode competir com um deus.
- Antes que eu me esqueça...
meu nome é T****.
- Não queria que terminasse sem
que eu soubesse seu nome, T****.
- Adeus!
- Até mais!
***
Apartamento de Titamy e Khrista.
Khris entra correndo e chorando.
- O que houve?
- Ele gosta de mim...
- E você chora!? - espantou-se
Titamy.
- A vocação... a vocação
dele é ser padre. Nunca poderemos ficar juntos! Ninguém pode tentar ir contra o poder do
Altíssimo, não importando o nome que se dá a ele...
- Não fique triste. Algo me diz
que o sol vai voltar a nascer para vocês dois.
- Como!?
- Acredite: vocês nasceram para
ficar juntos. Pode-se perceber isso e não sei como.
- E você e Diego?
- Tudo bem, Khris, eu vou contar
tudo, eu mesma estou precisando falar um pouco:
"Eu havia viajado para o
México para estudar a cultura de lá. Fiquei hospedada no hotel da CECA e conheci um
funcionário de lá. Seu nome? Juan Diego Morales, mas pediu-me que o chamasse apenas de
Diego. Seu modo de ser, de falar, tudo me fascinou. Ele falava o que eu queria ouvir e,
mesmo sabendo ser canastrice, caí de quatro.
Eu o convenci a vir ao Brasil.
Antes, eu e meu irmão Aliocha dividíamos um apartamento, mas depois que Diego veio,
passamos a morar juntos. Dividir as nossas vidas. Você entende: um casamento
não-oficializado.
Vivemos seis meses em total
harmonia e eu já pensava em tornar aquilo algo mais sério: casar-me de verdade, com
festas e documento, tudo conforme manda o figurino. Mas passei a descobrir que a fama de
conquistador que ele tinha no México fez-se no Brasil também. Os últimos três meses
foram desastrosos, cheio de altos e baixos e, sendo assim, mandei-o embora da minha casa,
mas não de minha vida. Ele ainda era um bom amigo. E assim estamos até hoje, embora ele
insista para que voltemos."
- E o que você quer?
- Tudo tem o seu tempo... pouca
coisa merece a real eternidade, embora tudo fique para sempre em nossa
memória. O que tivemos acabou e acabou junto com as traições dele o que eu sentia de
mais ardente, sobrando apenas o afeto de amigo.
- Você acredita nisso?
- Sim, hoje consigo falar com
ele e meu coração mantém-se calmo! Hoje não sinto vontade de beijá-lo como um
namorado, mas sim como um amigo.
- Você acredita que eu e T****
vamos ficar juntos?
- Para sempre.
- Para sempre!? Ou até que o
padre que vive nele nos separe!
- Torcerei por você. É chato
sofrer. Chorei por muito tempo antes de me encontrar como sou. Não quero isso pra você.
Ai, uma lágrima! - ela coça o olho. - Não gosto de chorar em público! É só ouvir
histórias como a sua para eu me sensiblizar!
- Será... eu e T****!? - elas
se abraçaram. Khrista deicidiu ficar com os pais durante algum tempo.
***