A Tríade

A TRÍADE

CAPÍTULO QUINTO: FESTA, MISTÉRIOS E INTIMIDADE

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Capítulo Sexto

 

  "Srta. Boyomi,

Esse é um convite para que compareça a uma festa que será dada no hotel Éden, com a finalidade de anunciar à população, oficialmente, a criação de um grupo de super-heróis chamado A Tríade.

Dia 15 compareça à festa, é imperativo, já que faz parte de tal grupo.

Conto com sua presença e agradeço desde já sua colaboração,

Johann Mahler

(Presidente da Compannhia Mundial de Estudos Avançados das Ciências Exatas e Biológicas)"

- Você recebeu um convite igual, Titamy? - perguntou Khris. Elas estavam no apartamento que dividiam na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

- Sobre uma festa em homenagem à Tríade!? Claro que recebi!

- Vai?

- Fazer o quê!? Eu sou uma das homenageadas! Seria desfeita se eu não fosse! Leu a observação: "Não precisam comprar nem tampouco mandar fazer roupa de festa, serão-lhes dados uniformes de combate, com os quais se apresentarão à sociedade mundial." Melhor pra mim!

- Sabe? É estranho... eu saí de uma civilização completamente diferente e já sou taxada de super-heroína por outra...

- Você devia ser considerada como tal em Agaabá - tribo de Khrista -, não é?

- Eu era considerada um kitô, um anjo mandado por Obwagan, nosso deus.

- Um dia você ainda vai me contar sobre sua religião...

***

- Sheila, ou Sra. Boyomi (como preferir), não há alternativas a mais para a sua situação: ou vem novamente trabalhar em minha empresa ou sua filha saberá que toda a sua vida foi uma farsa. - disse Johann em seu escritório.

- Não, Johann...

- Sr. Mahler, por favor. Já faz tanto tempo que nem sei mais se nos conhecemos ainda...

- Certo, Sr. Mahler, mas não faça isso com minha filha, por favor. Khrista teve uma vida muito mais feliz sendo criada na savana do que se fosse criada aqui.

- Mas havia coisas que ela deveria ter conhecido, sra. Boyomi.

- Eu faço o que quer, desde que deixe a minha filha em paz...

- Pode começar amanhã, Sra. Boyomi.

- Sim, Sr. Mahler.

***

Na "savana" criada dentro do prédio da CECA (ou CMEACEB), estão, em uma cabana, Xila e seu marido. Conversam em agaabano.

- Xila, mais cedo ou mais tarde Khrista saberá.

- É, mas não quero que ela saiba tão cedo. Não quero que soframos tão cedo, querido.

- Khrista já não é mais uma criança, Xila.

- É, mas é minha filha e sempre tentarei protegê-la.

- Khrista um dia saberá a verdade e você talvez sofra mais por ela saber pelos outros do que por você mesma.

***

- Louis, o Sr. Mahler mandou-me dizer-lhe que desenhasse os uniformes de acordo com a personalidade e poderes de cada um de vocês.

- Sim, Diego. Eu já tenho idéias... a de Khrista será baseada nas roupas que ela usava em sua tribo lá da África.

- Sim... Louis, como está Tamysita? - Juan nem ligava mais para o assunto roupas.

- Pensei que tivessem...

- Não. Ela não quer.

- Está bem.

- Está com alguém?

- Não, mas me parece bem.

- Que bom... - disse e, mais baixo: - Es mejor que sea así.

- O quê? Diego?

- No es nada, Louis. Continue seu trabalho.

***

- Boa tarde, dona Xila! - disse Titamy na língua agaabana. Xila havia ido ao apartamento da jovem.

- Pode falar em português, minha filha.

- Já aprendeu português!? Em tão pouco tempo... sua família é demais, dona Xila! - disse Titamy, deixando que Xila entrasse.

- Sempre soube sua língua... mas isso não vem ao caso! Khrista está em casa? Quero levá-la comigo!

- Desculpe, mas ela foi à faculdade. Hoje eu não tenho aula e por isso encontrou alguém em casa.

- Diga à Khrista para vir morar comigo.

- Desculpe-me, mas d. Xila, acho que Khrista pode decidir isso sozinha. Ela já é adulta... e considerada adulta mesmo pela sociedade brasileira... já é responsável por si mesma.

- Eu sei, Titamy. Mas, independente do que Khrista decida, não deixe, e diga para ela: Johann Mahler não pode se aproximar dela!

***

UTecCARJ, prédio da Engenharia.

Sala 10989, classe do primeiro período, eles ainda não escolheram suas especialidades. É nela que Khrista estuda.

Ela senta na segunda carteira da segunda fila perto da porta. Desde que começaram as aulas na faculdade, há uma semana e meia, um menino passa a maior parte de seu dia olhando para a nossa africana preferida. Não é um olhar de reprovação, nem mesmo de análise. É aquele que todos conhecemos, quando nossos olhos parecem os de um peixe morto. Era como se esquecesse o seu olhar exatamente onde Khrista estava sentada.

Ela, por sua vez, passou a sentir que algo em seu interior estava mudando, que um sentimento que lhe trazia tranqüilidade, vontade de continuar, inspiração e... DISTRAÇÃO. Sim, assim como ele, Khrista passava as aulas inteiras a pensar nele, embora não o conhecesse.

Havia algo estranho nele: sempre aparecia com a "mesma" roupa: uma calça jeans, uma blusa preta de botões fechada até o último. Era o mais quieto de todos e parecia não estar onde seu corpo estava, não apenas quando pensava e olhava para Khrista, mas também em todos os outros momentos.

***

- Nossa, Khrista, você está na faculdade já há três semanas! E já faz mais de uma que não fala com ninguém direito, menina! O que está acontecendo? - Titamy foi almoçar com Khrista e sua família na savana artificial.

- Parece que eu estou em outro lugar... já senti algo parecido, mas não com essa intensidade. Sabe do que se trata?

- Como se você não soubesse...

- É... em Agaabá eu tive um namorado. Foi legal, mas eu tive que vir pra cá e a gente não estava tão bem assim pra ficar junto pra sempre, para agüentar a distância.

- O que que está havendo com você?

- Tem um rapaz lá na faculdade. Nem sei seu nome, nunca nos falamos mais do que um "Bom dia" ou coisa parecida... mas ele não pára de olhar para mim, Titamy! Sei lá... acho que estou gostando dele, mas nem sei direito.

- Quando você conhece a pessoa só amadurece o que você já sente ou faz você descobrir todos os defeitos insuportáveis.

- Você e o Diego já... já namoraram, não é?

- É... mas foi há bastante tempo. Conta mais da sua história.

- É assim... ele não sai com ninguém da turma (nem com amigos e nem pra encontros), fica sempre calado e muito na dele. Se veste sempre da mesma forma: calça jeans, blusa preta, ...

- Tente falar com ele...

***

- O...oi! - disse Khrista ao seu admirador.

- Oi, Khrista! Desculpe por eu olhar sempre pra você, mas tem que compreender: não é sempre que se vê uma garota saída de uma tribo por esses dias!

- É, confesso não ser a coisa mais fácil... nós das tribos vemos muito poucos da sua civilização...

- Também tenho de dizer que não é só por isso... , mas não vem ao caso agora...

- Você vai à festa da CECA?

- Eu fui convidado. Todos cujos pais trabalham lá foram convidados, ou os mais inteligentes... como você...

- Há muitos motivos para eu ir...

- Eu não...

- Vai por mim, então... a gente pode conversar...

- Tudo bem, já que foi você quem me convidou, tudo bem... não é que eu não goste de festas, mas eu não tenho tempo para elas... Ih, tenho que ir! Tchau, Khrista!

- Tchau, ... (?) - nem pôde perguntar o nome dele, ele saiu muito rápido.

***

"Enquanto eu não acabar com o que tenho que fazer, não posso pensar nesse tipo de coisas. Não posso deixar que Tamysita seja mais importante que a minha missão, a verdadeira razão para eu estar aqui nesse país... não. Verdadeira razão é mentira: não foi o meu plano incial para essa viagem, essa é a verdade. Também nem quero pensar que não poderei ficar aqui para sempre... Por que a vida tem que ser assim!? Por que tive que optar por algo que não me deixa ter uma vida pessoal de verdade!? Não me orgulho do que fiz, mas não podia deixá-la esperançosa quanto a mim... um dia tudo será esclarecido." - pensava Juan em espanhol enquanto trabalhava.

***

Estava perfeito. Simplesmente demais! Cada vez mais ele se aperfeiçoava e fazia um trabalho de estilista melhor que o outro! "Qualquer dia, estarei em Paris, Nova Iorque!"

A roupa de Khrista estava linda, muitíssimo parecida com a que usava na savana, porém mais urbanizada,  pensava ao admirar sua criação (vide o desenho da Tríade no topo da página). A roupa de Titamy era em cores do fogo: amarelo, cor-de-abóbora, vermelho, a dele era como as roupas da moda para homens, porém branca com detalhes em azul (mesmo recado que o anterior).

- Gostaria de falar com o sr. Mahler.

- Ele esperava pelo senhor, sr. Soulbright. - Juan.

- Bom dia, sr. Mahler! O desenho das roupas estão prontos!

- Deixe-me vê-los, rapaz. - Johann os olhou e, com ar espantado, disse: - Exatamente como eu pensava que seriam! Parece que leu minha mente, rapaz...

- E li! Mas eu as adaptei.

- Sei... muito bom trabalho... deixe-os aqui. Por favor, Sr. Morales e Sr. Soulbright, dêem-me licença, pois tenho um comprimisso.

- Sim senhor. - eles deixaram Johann.

- Louis, por que faz Biogenética? - Juan.

- Porque eu amo o que faço...

- Mas você tem tanto talento para as Artes!

- É... mas o que se valoriza é a ciência, apenas.

- Bom, a vida é sua!

- Eu sei como é a realidade dos artistas... nós não somos mais tão apreciados...

- Desculpe, mas tenho que falar com uma pessoa, é muito importante!

- Até mais, Diego!

- Até mais, Louis!

***

- Estamos falando daqui, bem em frente ao Hotel Éden na Barra da Tijuca, onde será apresentado para a humanidade os seus salvadores: um grupo de super-heróis chamados "A Tríade". Nada sabemos deles, mas dizem tratar-se daqueles que se bateram com aqueles não-humanos em frente ao prédio da Engenharia da UTecCARJ.

- Nossa, quanta gente esperando pela gente! - disse Khrista num dos quartos, arrumando-se ainda, olhando pela fresta da persiana.

- É mesmo, espero que não se decepcionem comigo!

- Nossa, Titamy, que otimismo! - bateram na porta. A voz era de Diego.

- Tamysita! Vão demorar muito?

- Não! Eu já estou pronta, mas a Khrista parece que vai se casar! Se arruma tanto...

- Titamy! - ela fez aquela cara de "você-sabe-de-tudo-e-fica-brincando-comigo-!-?"

- Desculpe-me.

***

Ei, não pensem que eles apareceram direto com os uniformes de batalha e não tiveram tempo de respirar! Louis criou umas roupas de festa para eles irem curtindo a festa antes do anúncio e, por isso, a aflição com a demora de Khrista.

Para Titamy, Khrista podia só se arrumar para a hora em que era imperativo suas presenças, mas Khrista queria encontrar seu amiguinho misterioso. Como eu também não sou lá muito fã de festas, não me alongarei nesse assunto, já que as festas costumam se parecer muito umas com as outras.

Bom, o que aconteceu foi o seguinte: Titamy ficou conversando com Louis no começo, mas uma colega deles da época da escola o chamou para dançar e não o largou mais. Depois, ficou conversando com Diego, que insistia de maneira canastrona para que eles ficassem juntos, ao mesmo tempo que, em pensamento, pedia para que ela recusasse.

Khrista encontrou seu admirador acompanhado dos pais e esperando por ela. Estavam todos com roupas de gala. Conversaram muito e nomes não era o mais importante, o melhor era falar de coisas agradáveis. Até que ficou agradável demais.

- Por que você sempre me olha lá na sala?

- Tem algo em você que, sei lá, me faz pensar em você o tempo todo, que me faz querer fazer parte do seu mundo, querer estar perto de você sempre. E por que você passou a fazer o mesmo?

- Porque eu sinto o mesmo. Quero ficar perto de você, você me faz sentir em paz, me faz querer a sua paz e, ao mesmo tempo, me faz ter vontade de seguir com todos os meus planos.

- Apenas com um olhar?

- É, apenas com o seu olhar. - uau! bom, já não era mais o momento para falarem, já estava naquela hora em que certo contato físico-labial faria um bem danado e era isso o que os dois esperavam, embora ele com receio.

- Khrista, vamos!- gritou, ao longe, Louis.

- Tá! - ela foi trocar de roupa.

***

- Nós tomamos conhecimento desses três jovens com poderes fora do comum e submetendo-os a testes, para aprendermos suas habilidades e para que eles também as aprendam melhor. Apresentamos a esperança da Terra: A TRÍADE! - os três desceram as escadas com seus uniformes. Apresentaram-nos como: Naime, Tafars e Khrista. Não queriam que ficassem totalmente anônimos, mas também que não ficasse na cara quem eles eram.

Titamy e Louis aproveitaram seus minutos de fama, enquanto Khrista procurava desesperada o garoto: mas não o encontrou de jeito nenhum. Havia sumido.

A festa rolou solta como antes, sem tirar nem pôr, ou melhor, ele foi embora.

***

Seu sumiço demorou duas semanas, em tudo o que combinaram na festa (passeios e outras coisas do tipo) ele deu bolo. Khrista já não conseguia mais convencer seu coração a ficar quieto e nem mais a suas lágrimas morrerem apenas nos seus olhos.

Era num desses momentos, ela estava sentada no pátio da Engenharia, segurando o seu sofrimento, quando uma mão toca seu ombro: era ele.

- Oi Khrista!

- Por quê!? - ela estava triste.

- Eu tenho muitas coisas para serem feitas.

- E satisfação? Não podia ter consideração por mim!?

- Não sei se iria entender...

- Tá, eu não sou do seu mundo, mas não sou burra!

- Sei disso... eu estou entre duas coisas que fazem parte da essência de cada um: a vocação e a pessoa de que gosto.

- Como assim!?

- Eu vou ser padre, Khrista, essa é a minha vocação.

- E o que que tem?

- Você sabe que padres são os sacerdotes da minha religião, né? Eles não podem namorar nem casar... - durante a conversa os olhos de ambos encheram-se de lágrimas.  - E eu sei que essa é a minha vocação, é o que o meu Deus quer para mim.

- E eu não sou nada!?

- É... e é mais do que eu queria que fosse, Khrista. Não há como. Mas queria que fosse diferente...

- E eu também... e como queria! Mas quem sou eu para ficar na frente de Deus!? Se Obwagan quisesse isso de mim, não importaria meus sentimentos... nenhum homem pode competir com um deus.

- Antes que eu me esqueça... meu nome é T****.

- Não queria que terminasse sem que eu soubesse seu nome, T****.

- Adeus!

- Até mais!

***

Apartamento de Titamy e Khrista.

Khris entra correndo e chorando.

- O que houve?

- Ele gosta de mim...

- E você chora!? - espantou-se Titamy.

- A vocação... a vocação dele é ser padre. Nunca poderemos ficar juntos! Ninguém pode tentar ir contra o poder do Altíssimo, não importando o nome que se dá a ele...

- Não fique triste. Algo me diz que o sol vai voltar a nascer para vocês dois.

- Como!?

- Acredite: vocês nasceram para ficar juntos. Pode-se perceber isso e não sei como.

- E você e Diego?

- Tudo bem, Khris, eu vou contar tudo, eu mesma estou precisando falar um pouco:

"Eu havia viajado para o México para estudar a cultura de lá. Fiquei hospedada no hotel da CECA e conheci um funcionário de lá. Seu nome? Juan Diego Morales, mas pediu-me que o chamasse apenas de Diego. Seu modo de ser, de falar, tudo me fascinou. Ele falava o que eu queria ouvir e, mesmo sabendo ser canastrice, caí de quatro.

Eu o convenci a vir ao Brasil. Antes, eu e meu irmão Aliocha dividíamos um apartamento, mas depois que Diego veio, passamos a morar juntos. Dividir as nossas vidas. Você entende: um casamento não-oficializado.

Vivemos seis meses em total harmonia e eu já pensava em tornar aquilo algo mais sério: casar-me de verdade, com festas e documento, tudo conforme manda o figurino. Mas passei a descobrir que a fama de conquistador que ele tinha no México fez-se no Brasil também. Os últimos três meses foram desastrosos, cheio de altos e baixos e, sendo assim, mandei-o embora da minha casa, mas não de minha vida. Ele ainda era um bom amigo. E assim estamos até hoje, embora ele insista para que voltemos."

- E o que você quer?

- Tudo tem o seu tempo... pouca coisa merece a real eternidade, embora tudo fique para sempre em nossa memória. O que tivemos acabou e acabou junto com as traições dele o que eu sentia de mais ardente, sobrando apenas o afeto de amigo.

- Você acredita nisso?

- Sim, hoje consigo falar com ele e meu coração mantém-se calmo! Hoje não sinto vontade de beijá-lo como um namorado, mas sim como um amigo.

- Você acredita que eu e T**** vamos ficar juntos?

- Para sempre.

- Para sempre!? Ou até que o padre que vive nele nos separe!

- Torcerei por você. É chato sofrer. Chorei por muito tempo antes de me encontrar como sou. Não quero isso pra você. Ai, uma lágrima! - ela coça o olho. - Não gosto de chorar em público! É só ouvir histórias como a sua para eu me sensiblizar!

- Será... eu e T****!? - elas se abraçaram. Khrista deicidiu ficar com os pais durante algum tempo.

***


 

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