Como foi acertado, Titamy passou a ser a
professora de Khrista. Fez o caminho inverso do qual muita gente faria: ao invés de impor
a sua linguagem, ela foi aprendendo a outra. Era mais fácil explicar na língua daquele
que aprende do que forçar que esse entenda o que está sendo dito. Isso foi um belo
exercício de paciência para ambas.
Ninguém contava com um fator
(in)favorável(?) para Khrista: o seu QI era superior ao de muitos "civilizados"
e sua capacidade de absorver novos conhecimentos era também elevadíssima. Tanto que, em
apenas dois meses, Khrista já era falante da língua.
Após esses dois meses, Titamy
pediu dispensa de seu emprego "Não sou mais necessária. Khrista já é uma
verdadeira brasileira. Serei uma inútil se continuar aqui.". Louis estava aprendendo
a controlar o seu poder e a aumentá-lo a um nível superior ao que estava acostumado.
Khrista começou os estudos em uma técnica de ensino parecido com o curso supletivo.
***
"Srta. Kosanova,
A sua ex-aluna, Khrista, recusa-se a
continuar com seus estudos. O que pensávamos ser uma fácil tarefa a ela revelou-se
árdua e praticamente impossível. Solicito a sua visita aqui na CMEACEB para que ela se
acalme.
Sem mais,
Johann Mahler."
- Isso deve ser uma manobra para que eu vá e
eles tentarem me convencer! Mas como não posso provar que isso é mentira, tenho que me
arriscar! Não posso deixar Khrista à mercê dessas pessoas. - disse Tamy enquanto lia a
mensagem enviada por Johann a seu correio eletrônico.
***
- Que bom que aceitou meu convite!
- Que bom que veio, Naime! Já faz bastante
tempo que não nos vemos... uns três meses eu acho. - disse Louis que estava na sala de
Johann. - Antes que pense besteiras, eu estou indo embora.
- Ora, Tafars, não penso besteira alguma!
Se ficar ou sair, não me é problema! Vim ver o que aconteceu com Khrista.
- Bom, tenho que ir trabalhar. Tchau, Naime!
- Titamy acenou ao amigo.
- Tá legal... o que está acontecendo
agora? - Titamy.
- Senhor Morales, acompanhe a srta. Kosanova
aos aposentos de Khrista. - Johann.
- Sim, senhor. - Juan. - Venga, Tamysita.
- Tá bem, Diego. - eles entraram no
elevador e subiram um andar. - Pensei que a sala de Johann fosse o último andar.
- Não. Habia mais
uno que não era utilizado. Lá fue criado um ambiente parecido ao que a Srta. Khrista
estaba acostumada. Foi inaugurado uma semana depois de su partida, Tamysita.
- O que sabe disso tudo, Diego?
- Disso tudo o quê?
- Não se faça de besta, Diego! Sabe bem do
que falo: dessa história de Tríade!
- Sé o mesmo que vocês. - a
porta do elevador se abriu - É aqui.
- Obrigada. Entre comigo. - ele aceitou.
Abriu a porta para que os dois adentrassem. Titamy se chocou com tudo o que via: toda a
vegetação da savana e aquela girafinha que Khrista possuía em sua terra natal. No alto
de um teto transparente, estava Khrista alçando um de seus vôos. Foi rápido ao encontro
da amiga.
- Titamy! Amiga! - abraçou a amiga. - Pô
que fô emboa?
- Tinha que fazer outras coisas. Por que
fala enrolado? Você já estava bem melhor...
- É que no quero apender cô os otros...
só cô você. Otros no ton legal como Titamy.
- Agradeço a gentileza, mas eu tenho a
minha vida longe daqui... não sei nada de outras coisas que não sejam História e
Linguagem. Você é ótima em matemática, física, ..., você até já sabia conceitos
que nem tinha estudado (e que muita gente daqui estuda, estuda, estuda e nunca sabe...)!
- Ma quero você pô peto...
- É o seguinte: você vai morar comigo e
estuda em uma instituição maior, com bons profissionais... no lugar em que estudei...
- O senhor Johann permitiria? - Diego que
estava impassível encostado à parede agitou-se.
- Perguntarei a ele...
- Quero moar cô Titamy!
- Olha o que fez...
- Diego, você sempre foi menos puxa-saco!
Vou falar com o sr. Mahler.
- Ele saiu um pouco depois de falar contigo.
- Tudo bem. Amanhã não é a Eternidade...
- Amaã!?
- Sim, Khris.
- Já vai? - Khrista.
- Tenho... - disse Titamy
olhando a hora no relógio. - que ir.
***
- Por que quer vir comigo, Diego?
- Como se tu no supiese, Tamysita...
- Já teve sua recaída com o Espanhol?
- Soy mejicano...
- E daí!? Minha mãe é japonesa, mas nunca
falou japonês comigo (na verdade, ela nem me ensinou).
- Tu madre es tu madre. Yo soy
Diego e amo a tí...
- Paremos com isso! Não quero isso...
- O que quieres que yo haza!? Amor
no es algo tan fácil...
- Sua conversa-mole não me convence... sei
que fala isso hoje, mas, se ficarmos juntos, me trairá com todas as mulheres que vir...
- Pero, Tamysita...
- Nada de pero, Diego... Tenho
que ir pra faculdade!
***
Não havia sido mencionado,
porque nada de mais aconteceu devido a isso, mas Titamy usava uma roupa totalmente preta.
Era um casaco e uma calça comprida, além dos sapatos, tudo preto. Na faculdade, todos
lhe perguntavam se alguém havia morrido em sua família: "Não, apenas me deu
vontade de sair toda de preto... Vocês são fogo! Se eu viesse de branco, me chamariam de
macumbeira, se estou de preto, tem algum luto!" De fato não era de praxe
encontrá-la totalmente vestida dessa cor, às vezes adotava uma calça preta e uma blusa
de outra cor (ou vice-versa), por isso, essa preocupação por parte de seus colegas.
***
"Parece que eles estão tratando a
Khris como criança... o jeito como Diego me censurou... "Olha o que fez..." foi
idêntico ao que um adulto fala sobre o que o outro fez com uma criança... E, também,
por que 'mandá-la de volta para onde veio'!? Assim, ela só regride."
Pensando sobre esse novo problema, Titamy
andava a pé pela rua. Não seguia o seu caminho de sempre pegando seu carro e indo para a
Zona Oeste carioca, continuava seu caminho ali mesmo onde ficava sua faculdade: continuava
na Zona Sul.
Era uma noite muito escura e já se passara
a hora do rush, a rua estava vazia e usou de sua
velocidade para mais rápido chegar ao local de destino. Viu umas crianças brincando ali,
àquela hora "Que coisa mais difícil de se ver!". Brincavam de correr e, quando
viram nossa amiga, quiseram alcançá-la. Titamy parou e ficou esperando que viessem.
Uma delas desembestou numa carreira
alucinante, não prestando atenção no que ocorria e muito menos na direção que tomava.
Num de seus impulsos (na verdade esse era um suicida), o belo menininho correu para a
pista da rua, não vendo um caminhão se aproximar. Vendo que o garoto não conseguia
fugir do perigo iminente, ela utliza-se mais uma vez de sua velocidade e salva o garoto a
poucos centésimos de ele ser atropelado.
- O...obrigado, moça. - disse o menino
ainda no colo dela, olhando para o rosto de "sua heroína".
- De nada, menino, mas cuidado. A rua é
um lugar perigoso. - todas aquelas crianças ainda estavam espantadas com o que viram.
Titamy pensava que já era o
quinto salvamento que fazia em menos de uma semana. Se continuasse assim, como conseguiria
guardar o seu segredo? Não queria
que ninguém soubesse dela, de uma pessoa isolada com poderes estranhos. "Será
que é melhor me juntar ao pessoal do Sr. Johann?"
***
Olhou para
o alto: era no vigésimo andar que ele morava. Não era a cobertura do prédio, mas tinha
metade de um andar. Olhou para os lados. Ninguém para testemunhar. Pôs as mãos nas
paredes, depois flexionou seu joelho esquerdo, de modo que a sua canela estivesse em
contato com a superfície da parede do prédio. Pôs a outra canela em contato. Agora, era
só escalar.
Sem equipamentos. Se alguém a visse a chamaria
de maluca. Estava apenas com sua roupa preta e a mochila subindo naquele prédio. Não
caía. Também não conseguia cair: aderia à superfície lateral do prédio. Esse era
outro poder seu.
Estava um pouco cansada quando chegou à
vigésima janela. Bateu nela como se estivesse batendo em uma porta. Um minuto depois, um
homem jovem, com uma barba preta e cabelos rebeldemente compridos abriu a janela.
- Por que você nunca usa o elevador?
- Eu não preciso, Aliocha. - disse ela
entrando. Abraçou-o e beijou-lhe as faces.
- Tamya, o que faz aqui a essa hora?
- Não sabia que existia hora para se visitar o
irmão - disse ela "sentando" no sofá (na verdade, ela se jogou no sofá).
- Se eu chegar na hora que eu quiser no seu
apartamento, você me vai encher a paciência!
- Claro! Você vai reclamar da bagunça!
- Qual a urgência?
- Preciso de sua ajuda. Tenho que tomar uma
decisão.
- Tá... qual a dúvida?
- É o seguinte: você sabe que eu tenho esses
poderes esquisitos desde quando eu nasci.
- É, sou mais velho...
- O Sr. Johann sabe disso há muito tempo. Não
só eu, mas o Tafars e uma menina que eu trouxe da África, temos esses poderes. O Sr.
Johann veio com uma história de profecias e lendas antigas de uma tal Tríade da Luz que
viveu na Europa antigamente. Ele disse que nós somos um tipo de reencarnação desses
três e que temos que nos juntar pra lutar contra essas ameças malucas que estão
aparecendo por aí.
- Que menina africana é essa?
- É a Khrista! O Sr. Johann me contratou pra ir
resgatá-la. Foi legal lá na savana da África... já está aqui há três meses...
- E você diz que eu sei tudo o que acontece com
você!
- Quase tudo. Bom, o fato é
que eu ando, como sempre fiz, ajudando pessoas em perigo. Só que já foram 5 em apenas
uma semana! Assim, todos vão saber...
- E você acha que talvez deva ir se juntar a
eles?
- Sim.
- Mas você desconfia do que está acontecendo?
- Claro...
- Se junte a eles e forme a Tríade.
- Tá e as minhas desconfianças?
- Investigue!
- É... poxa, você podia me ajudar...
- Eu não fico sem fazer nada, né!?!?
- Eu sei... mas eu vou ter que estudar,
continuar à caça de recompensas e trabalhar com a Khrista e com o Tafars...
- Não venha com essa que eu não vou ficar com
pena! A desconfiança é sua, você é que tem que tentar...
- Mui amigo, hein, Aliocha!?
- Tamya, não posso...
- Claro que não, tem que ir à faculdade, sair
até tarde com seus amiguinhos e amiguinhas e fazer sei lá o quê... tem os seus
pacientezinhos ricos! Ah, dá um tempo!
- Vamos começar com essa pendenga! Sempre a
mesma coisa...
- É sempre isso... nunca pode fazer absolutamente
NADA para MIM!!!!!!
- Ah, sua mentirosa...
- Eu, mentindo?
- Nunca fiz nada
pra você?
- Nada é exagero...
- Ah, bom!
- Tudo bem. Eu vou seguir o meu caminho. Te
deixo agora.
- Vai formar a Tríade?
- Claro que não!
***