A Tríade

A TRÍADE

CAPÍTULO DÉCIMO QUINTO: A REAL ORIGEM DA TRÍADE

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Capítulo Décimo Sexto

 

O telefone toca. Titamy está em seu computador, com o fone de ouvido. Não escuta o barulho desesperado do aparelho.

Khrista está tomando banho no banheiro. Embora escute o telefone, ela não pode sair correndo para atendê-lo. Grita para a amiga, que ignora. Termina o banho logo e atende o telefone. Era a sua mãe, Xila.

- Oi, mãe!

- Oi, Khris! Eu gostaria de pedir a você uma coisa.

- Pode falar.

- Gostaria muito de que você viesse morar conosco aqui, na casa que eu comprei.

- Mas mãe...

- Pode deixar que a gente não a fará voltar a falar agaabano.

- Tá, mãe... mas a Titamy teve aquele problema...

- Eu sei... mas o seu pai... ele não está bem...

- Posso, então, ficar aí só por uns dias?

- Tudo bem.

- Hoje mesmo eu vou.

***

"Sheila, Sheila, o seu prazo está acabando, querida... fale logo ou se arrependerá. Acho que não esperarei tanto tempo... você costuma demorar muito para fazer essas coisas. Tenho que tomar providências."

***

Khrista vai à casa de seus pais. Não é luxuosa, porém confortável, com um quarto enorme para Khrista e sua irmã Balbua. Não se tratava de uma questão de ingratidão, mas Khrista ficava mais independente morando com Titamy.

Mas, ao respirar o ar de casa, ela logo cedeu e era muito provável que permanecesse ali por algum tempo a mais do que apenas "por uns dias".

Na sala estava Balbua e, embora o rosto fosse o mesmo, havia algo nela que a tornava muito diferente da sua irmãzinha que morou com ela durante tanto tempo na tribo de Agaabá e tentava descobrir o que era. Nesse momento, sua pergunta foi respondida em português:

- Oi, Khrista! - era isso: Balbua já não era mais simplesmente a filha do chefe religioso da tribo! Ela agora estava totalmente inserida na sociedade urbana do Rio de Janeiro, assim como a irmã mais velha.

- Oi, Balbua! - respondeu K em agaabano.

- Papai está deitado no quarto dele, está doente. 

- Vou lá. - ela se encaminha para o quarto dos pais (que Balbua está mostrando o caminho). Quando chega à porta, Xila fala para ela:

- Pode ser que precisemos que seu pai volte para Agaabá.

- E você quer que eu vá também?

- Talvez... se você quiser... mas acho que você irá querer ficar e terminar seus estudos, principalmente por causa de seu namorado.

- É... mas eu ainda tenho que pensar, mãe. - o telefone toca, Xila corre para ele.

- Alô, Sheila. Acho que não irei esperar mais...

- Cale-se e me deixe em paz!

***

- Ainda bem que você veio, Aliocha!

- É... depois você diz que eu não faço as coisas pra você.

- Eu quero descobrir mais sobre Johann... saber o que ele tem a ver com a Tríade...

- Tá... o que você já descobriu, Tamya?

- Descobri de um tal congresso que teve no ano em que nasci e que alguns não acreditavam no que disseram sobre isso... descobri páginas que falavam mal direto!

- Mandou e-mail para alguém que pensasse assim?

- E pros que eram a favor também. Mandei pra Maurizio Teixeira e Roberto Heinferr. Nossa, chegou resposta!

- De quem?

- Maurizio Teixeira... ele era contra.

"Senhorita Kosanova,

Acredito que seja filha de Alexei Kosanov e de Sophia Naime... cientistas envolvidos no congresso.

Pelo que eu vivi naquela época, cri realmente que havia algo de estranho no congresso da CMEACEB, ainda vivíamos um clima de tensão e era provável haver tentativas de manipulação de pessoas inocentes.

Desculpe-me a maneira como irei dizer, mas sendo apenas você e o seu grupo de super-heróis conhecido como Tríade, acredito que as minhas teorias são verdadeiras, já que, pelo que eu soube a senhorita nasceu no mesmo ano de tal congresso. Desconfio realmente que seja um experimento, mas não tenho provas.

Após o que disse nessa reportagem, minha carreira despencou um pouco, porém agora consegui reavivá-la novamente. Espero que consiga encontrar as respostas e também a pergunta que procura.

Maurizio Teixeira."

- Você não se lembra nada daquela época?

- A única coisa que sei é que quando você era neném, a mãe voltou com você para a Amazônia. Ela tinha vindo pra cá para você nascer.

***

- Foi de repente que ele ficou doente, mãe?

- Pode-se dizer que foi de um dia para o outro, minha filha. - toda a conversa entre ambas foi feita em agaabano.

- Mas aconteceu alguma coisa para ele ficar doente?

- Decisões que foram tomadas de maneira forçada.

- Mãe, o que foi? Você quer falar alguma coisa?

- Não quero.

- Mãe, o que está acontecendo? Alguma coisa entre vocês dois? Foi o fato de terem vindo para cá e não terem ficado na África?

- Confesso que isso contribuiu. - Xila olha para o relógio e vê que tem que correr. - Mais tarde eu falo com você.

***

- Louis... o que foi?

- Titamy ficou doente de novo.

- O que ela tem?

- Muita dor... é a única coisa que ela fala, Jade.

- Por quê?

- Isso aconteceu da outra vez que ela forçou os poderes dela.

- Então... será que ela não está certa em desconfiar? Afinal de contas, a dor pode vir de uma fonte não natural dos poderes...

- Não sei. Johann Mahler deixa nossos registros médicos guardados a sete chaves.

- Ninguém aqui da empresa tem acesso a eles?

- Só o próprio senhor Mahler.

- Nem aquele cara que está sempre com ele... tipo um mão direita?

- Quem... o Diego?

- É! O ex da Titamy!

- Acho que não... se não ele já teria visto.

***

"Vamos, Mahler, você não pode ser invencível... tem que haver um jeito de conseguir descobrir a sua senha... claro que agora eu não vou poder tentar... não sou burro, você está aqui, enfurnado no trabalho! Mesmo conseguindo, como vou poder copiar isso!? Você deve ter algum dispositivo de segurança poderoso, não posso vacilar de maneira alguma com você, velho. Não sei como conseguiu que Tamysita confiasse em você, mas em breve, ela não vai mais e aí ela vai estar livre para tentar a sorte com alguém que a mereça... nem você, tampouco eu." pensava Diego diante de um dos computadores da empresa.

***

- Por que você voltou a ficar desconfiada do Mahler? - Aliocha.

- Porque ele me propôs isso.

- E o que você quer descobrir?

- Se ele tiver feito algo horrível, não gostar mais dele.

- Mas não parece que você gosta muito dele.

- Eu gosto... ou quero gostar. Posso te dizer que eu não estou com ele por dinheiro, nem nada. Aceitaria ele mesmo se fosse pobre e eu que tivesse que sustentar os dois...

- Você conhece ele há tanto tempo e só aconteceu isso agora?

- É a necessidade de não se estar mais sozinha, mas sim com alguém que te dê estabilidade emocional... não sei se quero um Diego-dois na minha vida! Já tenho 22 anos! Quero ter algo mais certo!

- Oh, como está velha! - ele a ironiza. - Mesmo que você gostasse um pouco de Johann, agora você não está mais apaixonada...

- Mentira! 

- Mas você quer ter motivos para detestá-lo, ou então não procurava nada. Você não é assim. 

- É, você tem razão.

- Tenho que ir... - ele olha o relógio. - Já estou ficando atrasado!

***

As horas passam devagar para Khrista ao ver seu pai doente, ela gostaria que aquilo terminasse logo.

- Filha...

- Oi, pai.

- Eu sei que não é a melhor coisa para você me ver caído aqui... mas você está apreensiva com mais alguma coisa?

- Pai, como a mãe sabe tanto português? Ela sempre soube... e conseguir emprego assim tão rápido... o que foi aquilo?

- Você e sua mãe não são como eu e Balbua.

- O quê!?

- Eu e Balbua não conseguimos nos adaptar a essa vida... mas você e sua mãe conseguem muito bem.

- O que você está querendo dizer?

- Nada... espere sua mãe chegar...

***

"É uma idéia meio doida, porém, com esse noivado, eu tenho passe-livre lá CECA. Vou ver se consigo mais alguma coisa lá... se eu não tentar, como saberei? Tudo relacionado ao congresso e a Johann está tão escondido que eu não conseguirei nada apenas pela internet... tenho que tentar a rede interna da empresa!"

***

Madrugada. A essa hora, Johann Mahler já havia saído de sua sala e o caminho estava livre para um espião tentar entrar nos arquivos mais escondidos do todo-poderoso.

"Vamos... sei que não sou um ás na computação, mas aprendi um pouco disso nesse tempo todo. Essas instruções do Gutierrez estão me ajudando. Espera aí... tenho um pressentimento de que eu conseguirei encontrar o que eu procuro." pensa Diego enquanto está na escuridão do escritório de seu patrão.

***

Xila abre a porta de casa e "dá de cara" com Khrista sentada no sofá.

- Boa noite, filha! O que faz acordada ainda a essa hora?

- Esperava por você.

- Por quê?

- Quero que se esclareça tudo... como você sempre soube português!? E esse emprego de cientista!?

- Tudo tem explicação, mas agora o seu pai precisa de ajuda... não é hora de ficarmos discutindo isso.

- Ele está dormindo e, mesmo assim, Balbua está com ele. O que meu pai quis dizer com nós duas não sermos como ele e minha irmã?

- Porque você persegue isso?

- Creio que seja importante.

- Tudo bem... vou te contar, até porque não é a única pessoa a me pressionar esse tempo todo. Querida, eu não nasci em Agaabá... muito menos na África. Eu nasci aqui no Brasil e meu nome é Sheila.

"Há uns vinte e poucos anos eu me formei como Psicóloga na Faculdade de Ciências da Mente de Stuttgart, na Alemanha. Junto com o curso, eu também me formei em Ciências Biológicas Avançadas. O meu objetivo era ser uma das cientistas iniciantes a formar equipe em uma nova companhia científica.

"Lá na Alemanha, conheci um jovem cientista brilhante, que estava formado em basicamente todas as modalidades de ciência. Ele não apenas havia estudado lá, mas em muitos lugares do mundo, seu nome era Johann Mahler.

"A tal companhia nova seria implantada no Brasil e tinha uma enorme sigla CMEACEB, depois reduzida para CECA. Johann era o cérebro científico mais importante na aliança Kellan-Mahler, os responsáveis por essa empresa.

"Arnold Kellan era um homem idoso e que desejava ajudar a humanidade financiando projetos científicos, com isso, praticamente adotou o jovem Johann, que sempre mostrou-se com aptidão para essa área. Com isso, formaram o grupo mais importante do mundo em pesquisas científicas."

***

"Finalmente, seu velho safado! Finalmente entrei no seu sistema!"

Diego escuta um barulho de passos e se precipita para esconder-se o mais rápido possível. Entrou na sala Titamy e se instalou diante do computador.

- Ué... Johann deixou isso assim!?

SENHA CORRETA!

ACESSO PERMITIDO.

BEM-VINDO, JOHANN MAHLER!

Titamy digita "Congresso Científico" e obtém vários arquivos relacionados ao que aconteceu a 22 anos atrás. A primeira coisa que abre fala sobre o grupo Kellan-Mahler, contando a história do idoso Arnold que adotou o jovem Johann de maneira que ele viesse a se tornar um grande cientista, juntamente com diplomas, artigos científicos e homenagens ao "Dr. Mahler".

Após, ela consegue uma lista das experiências realizadas por Johann Mahler. Ela se espanta ao ver o nome de seu irmão e o da irmã de Louis, datados de um ano antes do congresso.

Kosanov, Alexei N.

Soulbright, Anna P.

Ela abre os arquivos e, após uma ficha médica completa de cada um que ela pouco entendeu, vinha a observação: ERRO. REJEITADA.

"O que será isso?"

***

- Eu não sei bem como, mas me apaixonei por Johann Mahler. Naquela época, ele não era um homem frio, era uma pessoa bem agradável e um gênio. Juntos, viemos ao Brasil. Depois de seis meses, nós nos casamos e, juntamente com Alexei Kosanov e Sophia Naime, nos tornamos o casal mais conhecido do mundo científico.

"Enquanto ainda não construíam o centro de estudos da CMEACEB nem ainda a haviam montado, Johann usava um laboratório daqui da cidade para seus experimentos, que eram de todos os tipos.

"Ele, Kosanov e Soulbright iniciaram umas pesquisas e, sem avisá-los (e sem meu conhecimento), Johann colocou como cobaias os filhos dos dois... o pequeno Aliocha, irmão de Titamy, e a pequena Anna, irmã de Louis.

"As experiências fracassaram e, não sei de que maneira, Johann os convenceu a continuar na equipe."

***

"O que é isso!? A Lenda da Tríade!? O que pode ser?"

Titamy achou mais um arquivo, que dizia isso e abriu:

"Há muito tempo atrás, em um povoado não-conhecido da Europa, para deter um terrível mal, três jovens foram agraciados com umas pedras que os trariam extraordinários poderes. Com as pedras, eles podiam controlar elementos, voar, serem mais fortes, mais ágeis e usar-se de telepatias.

Segundo a minha pesquisa, Soulbright, Kosanov e Mahler são descendentes desse povoado e da primeira Tríade, embora os nomes tenham se modificado com o tempo. O que tenho que fazer para recriar a Tríade é implantar essas pedras, já encontradas pelo professor Andrade, nos filhos dos meus colegas e no meu, quando o tiver. Porém, não posso revelar isso."

***

- Depois de um ano e meio, a empresa inaugurou, logo depois, descobri que estava grávida de você, Khrista... é isso...

- O quê!? - K estava confusa.

- Você é filha de Johann Mahler.

- Como você foi parar em Agaabá?

- Johann depois começou novas pesquisas (já no Amazonas) e se animou ao saber que a esposa de Kosanov estava para ter mais um filho. Sophia tentou fugir, chegando até a dar a luz aqui no Rio, mas uma doença recaiu sobre Titamy e, como era muito rara, ela teve de levar o neném de volta para a cura. Em um raro momento de distração, Johann implantou uma das pedras da Tríade em Titamy, que, diferente de seu irmão a recebeu bem.

"Depois ele me revelou que assim como os nossos amigos, ele também era descendente da primeira Tríade e, assim, ao saber que eu estava grávida ficou feliz, pois mais um membro da Tríade nasceria. Quando chegou o momento de você nascer, ele a tomou para si e, só um mês depois de seu nascimento, ele implantou a terceira pedra.

"Não sei ao certo como o fez em Louis, pois quando eu descobri isso briguei com ele e larguei-o junto com a minha vida mais antiga. Fugi com você para a África e encontrei a tribo afastada de Agaabá que logo me aceitou. Dois anos depois, o chefe religioso de lá e eu nos casamos."

- Eu sou filha de Johann!?!?!?!?!? Por que nunca me disse que as coisas não eram como eu pensei que fossem!? - K fica transtornada e sai voando pela cidade.

***

- Eu... eu não acredito! Sou um experimento científico! Logo eu, que detesto esse mundo! Como Johann não me falou nada?! - Titamy estava furiosa. Ela desliga o computador e chora ali, sentada à mesa.


 

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