O telefone toca. Titamy está em seu
computador, com o fone de ouvido. Não escuta o barulho desesperado do
aparelho.
Khrista está tomando banho no banheiro.
Embora escute o telefone, ela não pode sair correndo para atendê-lo.
Grita para a amiga, que ignora. Termina o banho logo e atende o
telefone. Era a sua mãe, Xila.
- Oi, mãe!
- Oi, Khris! Eu gostaria de pedir a você
uma coisa.
- Pode falar.
- Gostaria muito de que você viesse
morar conosco aqui, na casa que eu comprei.
- Mas mãe...
- Pode deixar que a gente não a fará
voltar a falar agaabano.
- Tá, mãe... mas a Titamy teve aquele
problema...
- Eu sei... mas o seu pai... ele não
está bem...
- Posso, então, ficar aí só por uns
dias?
- Tudo bem.
- Hoje mesmo eu vou.
***
"Sheila, Sheila, o seu
prazo está acabando, querida... fale logo ou se arrependerá. Acho que
não esperarei tanto tempo... você costuma demorar muito para fazer
essas coisas. Tenho que tomar providências."
***
Khrista vai à casa de seus
pais. Não é luxuosa, porém confortável, com um quarto enorme para
Khrista e sua irmã Balbua. Não se tratava de uma questão de
ingratidão, mas Khrista ficava mais independente morando com Titamy.
Mas, ao respirar o ar de
casa, ela logo cedeu e era muito provável que permanecesse ali por
algum tempo a mais do que apenas "por uns dias".
Na sala estava Balbua e,
embora o rosto fosse o mesmo, havia algo nela que a tornava muito
diferente da sua irmãzinha que morou com ela durante tanto tempo na
tribo de Agaabá e tentava descobrir o que era. Nesse momento, sua
pergunta foi respondida em português:
- Oi, Khrista! - era isso:
Balbua já não era mais simplesmente a filha do chefe religioso da
tribo! Ela agora estava totalmente inserida na sociedade urbana do Rio
de Janeiro, assim como a irmã mais velha.
- Oi, Balbua! - respondeu K
em agaabano.
- Papai está deitado no
quarto dele, está doente.
- Vou lá. - ela se
encaminha para o quarto dos pais (que Balbua está mostrando o caminho).
Quando chega à porta, Xila fala para ela:
- Pode ser que precisemos
que seu pai volte para Agaabá.
- E você quer que eu vá
também?
- Talvez... se você
quiser... mas acho que você irá querer ficar e terminar seus estudos,
principalmente por causa de seu namorado.
- É... mas eu ainda tenho
que pensar, mãe. - o telefone toca, Xila corre para ele.
- Alô, Sheila. Acho que
não irei esperar mais...
- Cale-se e me deixe em paz!
***
- Ainda bem que você veio,
Aliocha!
- É... depois você diz que
eu não faço as coisas pra você.
- Eu quero descobrir mais
sobre Johann... saber o que ele tem a ver com a Tríade...
- Tá... o que você já
descobriu, Tamya?
- Descobri de um tal
congresso que teve no ano em que nasci e que alguns não acreditavam no
que disseram sobre isso... descobri páginas que falavam mal direto!
- Mandou e-mail para alguém
que pensasse assim?
- E pros que eram a favor
também. Mandei pra Maurizio Teixeira e Roberto Heinferr. Nossa, chegou
resposta!
- De quem?
- Maurizio Teixeira... ele
era contra.
"Senhorita Kosanova,
Acredito que seja filha de
Alexei Kosanov e de Sophia Naime... cientistas envolvidos no congresso.
Pelo que eu vivi naquela
época, cri realmente que havia algo de estranho no congresso da CMEACEB,
ainda vivíamos um clima de tensão e era provável haver tentativas de
manipulação de pessoas inocentes.
Desculpe-me a maneira como
irei dizer, mas sendo apenas você e o seu grupo de super-heróis
conhecido como Tríade, acredito que as minhas teorias são verdadeiras,
já que, pelo que eu soube a senhorita nasceu no mesmo ano de tal
congresso. Desconfio realmente que seja um experimento, mas não tenho
provas.
Após o que disse nessa
reportagem, minha carreira despencou um pouco, porém agora consegui
reavivá-la novamente. Espero que consiga encontrar as respostas e
também a pergunta que procura.
Maurizio Teixeira."
- Você não se lembra nada
daquela época?
- A única coisa que sei é
que quando você era neném, a mãe voltou com você para a Amazônia.
Ela tinha vindo pra cá para você nascer.
***
- Foi de repente que ele
ficou doente, mãe?
- Pode-se dizer que foi de
um dia para o outro, minha filha. - toda a conversa entre ambas foi
feita em agaabano.
- Mas aconteceu alguma coisa
para ele ficar doente?
- Decisões que foram
tomadas de maneira forçada.
- Mãe, o que foi? Você
quer falar alguma coisa?
- Não quero.
- Mãe, o que está
acontecendo? Alguma coisa entre vocês dois? Foi o fato de terem vindo
para cá e não terem ficado na África?
- Confesso que isso
contribuiu. - Xila olha para o relógio e vê que tem que correr. - Mais
tarde eu falo com você.
***
- Louis... o que foi?
- Titamy ficou doente de
novo.
- O que ela tem?
- Muita dor... é a única
coisa que ela fala, Jade.
- Por quê?
- Isso aconteceu da outra
vez que ela forçou os poderes dela.
- Então... será que ela
não está certa em desconfiar? Afinal de contas, a dor pode vir de uma
fonte não natural dos poderes...
- Não sei. Johann Mahler
deixa nossos registros médicos guardados a sete chaves.
- Ninguém aqui da empresa
tem acesso a eles?
- Só o próprio senhor
Mahler.
- Nem aquele cara que está
sempre com ele... tipo um mão direita?
- Quem... o Diego?
- É! O ex da Titamy!
- Acho que não... se não
ele já teria visto.
***
"Vamos, Mahler, você
não pode ser invencível... tem que haver um jeito de conseguir
descobrir a sua senha... claro que agora eu não vou poder tentar...
não sou burro, você está aqui, enfurnado no trabalho! Mesmo
conseguindo, como vou poder copiar isso!? Você deve ter algum
dispositivo de segurança poderoso, não posso vacilar de maneira alguma
com você, velho. Não sei como conseguiu que Tamysita confiasse em
você, mas em breve, ela não vai mais e aí ela vai estar livre para
tentar a sorte com alguém que a mereça... nem você, tampouco
eu." pensava Diego diante de um dos computadores da empresa.
***
- Por que você voltou a
ficar desconfiada do Mahler? - Aliocha.
- Porque ele me propôs
isso.
- E o que você quer
descobrir?
- Se ele tiver feito algo
horrível, não gostar mais dele.
- Mas não parece que você
gosta muito dele.
- Eu gosto... ou quero
gostar. Posso te dizer que eu não estou com ele por dinheiro, nem nada.
Aceitaria ele mesmo se fosse pobre e eu que tivesse que sustentar os
dois...
- Você conhece ele há
tanto tempo e só aconteceu isso agora?
- É a necessidade de não
se estar mais sozinha, mas sim com alguém que te dê estabilidade
emocional... não sei se quero um Diego-dois na minha vida! Já tenho 22
anos! Quero ter algo mais certo!
- Oh, como está velha! -
ele a ironiza. - Mesmo que você gostasse um pouco de Johann, agora
você não está mais apaixonada...
- Mentira!
- Mas você quer ter motivos
para detestá-lo, ou então não procurava nada. Você não é
assim.
- É, você tem razão.
- Tenho que ir... - ele olha
o relógio. - Já estou ficando atrasado!
***
As horas passam devagar para
Khrista ao ver seu pai doente, ela gostaria que aquilo terminasse logo.
- Filha...
- Oi, pai.
- Eu sei que não é a
melhor coisa para você me ver caído aqui... mas você está apreensiva
com mais alguma coisa?
- Pai, como a mãe sabe
tanto português? Ela sempre soube... e conseguir emprego assim tão
rápido... o que foi aquilo?
- Você e sua mãe não são
como eu e Balbua.
- O quê!?
- Eu e Balbua não
conseguimos nos adaptar a essa vida... mas você e sua mãe conseguem
muito bem.
- O que você está querendo
dizer?
- Nada... espere sua mãe
chegar...
***
"É uma idéia meio
doida, porém, com esse noivado, eu tenho passe-livre lá CECA. Vou ver
se consigo mais alguma coisa lá... se eu não tentar, como saberei?
Tudo relacionado ao congresso e a Johann está tão escondido que eu
não conseguirei nada apenas pela internet... tenho que tentar a rede
interna da empresa!"
***
Madrugada. A essa hora,
Johann Mahler já havia saído de sua sala e o caminho estava livre para
um espião tentar entrar nos arquivos mais escondidos do todo-poderoso.
"Vamos... sei que não
sou um ás na computação, mas aprendi um pouco disso nesse tempo todo.
Essas instruções do Gutierrez estão me ajudando. Espera aí... tenho
um pressentimento de que eu conseguirei encontrar o que eu
procuro." pensa Diego enquanto está na escuridão do escritório
de seu patrão.
***
Xila abre a porta de casa e
"dá de cara" com Khrista sentada no sofá.
- Boa noite, filha! O que
faz acordada ainda a essa hora?
- Esperava por você.
- Por quê?
- Quero que se esclareça
tudo... como você sempre soube português!? E esse emprego de
cientista!?
- Tudo tem explicação, mas
agora o seu pai precisa de ajuda... não é hora de ficarmos discutindo
isso.
- Ele está dormindo e,
mesmo assim, Balbua está com ele. O que meu pai quis dizer com nós
duas não sermos como ele e minha irmã?
- Porque você persegue
isso?
- Creio que seja importante.
- Tudo bem... vou te contar,
até porque não é a única pessoa a me pressionar esse tempo todo.
Querida, eu não nasci em Agaabá... muito menos na África. Eu nasci
aqui no Brasil e meu nome é Sheila.
"Há uns vinte e poucos
anos eu me formei como Psicóloga na Faculdade de Ciências da Mente de
Stuttgart, na Alemanha. Junto com o curso, eu também me formei em
Ciências Biológicas Avançadas. O meu objetivo era ser uma das
cientistas iniciantes a formar equipe em uma nova companhia científica.
"Lá na Alemanha,
conheci um jovem cientista brilhante, que estava formado em basicamente
todas as modalidades de ciência. Ele não apenas havia estudado lá,
mas em muitos lugares do mundo, seu nome era Johann Mahler.
"A tal companhia nova
seria implantada no Brasil e tinha uma enorme sigla CMEACEB, depois
reduzida para CECA. Johann era o cérebro científico mais importante na
aliança Kellan-Mahler, os responsáveis por essa empresa.
"Arnold Kellan era um
homem idoso e que desejava ajudar a humanidade financiando projetos
científicos, com isso, praticamente adotou o jovem Johann, que sempre
mostrou-se com aptidão para essa área. Com isso, formaram o grupo mais
importante do mundo em pesquisas científicas."
***
"Finalmente, seu velho
safado! Finalmente entrei no seu sistema!"
Diego escuta um barulho de
passos e se precipita para esconder-se o mais rápido possível. Entrou
na sala Titamy e se instalou diante do computador.
- Ué... Johann deixou isso
assim!?
SENHA
CORRETA!
ACESSO
PERMITIDO.
BEM-VINDO,
JOHANN MAHLER!
Titamy
digita "Congresso Científico" e obtém vários arquivos
relacionados ao que aconteceu a 22 anos atrás. A primeira coisa que
abre fala sobre o grupo Kellan-Mahler, contando a história do idoso
Arnold que adotou o jovem Johann de maneira que ele viesse a se tornar
um grande cientista, juntamente com diplomas, artigos científicos e
homenagens ao "Dr. Mahler".
Após, ela
consegue uma lista das experiências realizadas por Johann Mahler. Ela
se espanta ao ver o nome de seu irmão e o da irmã de Louis, datados de
um ano antes do congresso.
Kosanov,
Alexei N.
Soulbright,
Anna P.
Ela abre os
arquivos e, após uma ficha médica completa de cada um que ela pouco
entendeu, vinha a observação: ERRO.
REJEITADA.
"O que
será isso?"
***
- Eu não
sei bem como, mas me apaixonei por Johann Mahler. Naquela época, ele
não era um homem frio, era uma pessoa bem agradável e um gênio.
Juntos, viemos ao Brasil. Depois de seis meses, nós nos casamos e,
juntamente com Alexei Kosanov e Sophia Naime, nos tornamos o casal mais
conhecido do mundo científico.
"Enquanto
ainda não construíam o centro de estudos da CMEACEB nem ainda a haviam
montado, Johann usava um laboratório daqui da cidade para seus
experimentos, que eram de todos os tipos.
"Ele,
Kosanov e Soulbright iniciaram umas pesquisas e, sem avisá-los (e sem
meu conhecimento), Johann colocou como cobaias os filhos dos dois... o
pequeno Aliocha, irmão de Titamy, e a pequena Anna, irmã de Louis.
"As
experiências fracassaram e, não sei de que maneira, Johann os
convenceu a continuar na equipe."
***
"O que
é isso!? A Lenda da Tríade!? O que pode ser?"
Titamy achou
mais um arquivo, que dizia isso e abriu:
"Há
muito tempo atrás, em um povoado não-conhecido da Europa, para deter
um terrível mal, três jovens foram agraciados com umas pedras que os
trariam extraordinários poderes. Com as pedras, eles podiam controlar
elementos, voar, serem mais fortes, mais ágeis e usar-se de telepatias.
Segundo a
minha pesquisa, Soulbright, Kosanov e Mahler são descendentes desse
povoado e da primeira Tríade, embora os nomes tenham se modificado com
o tempo. O que tenho que fazer para recriar a Tríade é implantar essas
pedras, já encontradas pelo professor Andrade, nos filhos dos meus
colegas e no meu, quando o tiver. Porém, não posso revelar isso."
***
- Depois de
um ano e meio, a empresa inaugurou, logo depois, descobri que estava
grávida de você, Khrista... é isso...
- O quê!? -
K estava confusa.
- Você é
filha de Johann Mahler.
- Como você
foi parar em Agaabá?
- Johann
depois começou novas pesquisas (já no Amazonas) e se animou ao saber
que a esposa de Kosanov estava para ter mais um filho. Sophia tentou
fugir, chegando até a dar a luz aqui no Rio, mas uma doença recaiu
sobre Titamy e, como era muito rara, ela teve de levar o neném de volta
para a cura. Em um raro momento de distração, Johann implantou uma das
pedras da Tríade em Titamy, que, diferente de seu irmão a recebeu bem.
"Depois
ele me revelou que assim como os nossos amigos, ele também era
descendente da primeira Tríade e, assim, ao saber que eu estava
grávida ficou feliz, pois mais um membro da Tríade nasceria. Quando
chegou o momento de você nascer, ele a tomou para si e, só um mês
depois de seu nascimento, ele implantou a terceira pedra.
"Não
sei ao certo como o fez em Louis, pois quando eu descobri isso briguei
com ele e larguei-o junto com a minha vida mais antiga. Fugi com você
para a África e encontrei a tribo afastada de Agaabá que logo me
aceitou. Dois anos depois, o chefe religioso de lá e eu nos
casamos."
- Eu sou
filha de Johann!?!?!?!?!? Por que nunca me disse que as coisas não eram
como eu pensei que fossem!? - K fica transtornada e sai voando pela
cidade.
***
- Eu... eu
não acredito! Sou um experimento científico! Logo eu, que detesto esse
mundo! Como Johann não me falou nada?! - Titamy estava furiosa. Ela
desliga o computador e chora ali, sentada à mesa.