Ano 2090. Rio de Janeiro,
Brasil. À tarde.
Uma jovem de aparência
oriental está jogada em cima de seu sofá bebendo água no gargalo da garrafa e trajada
de maneira muito informal (com um short curto e sem camisa, apenas com sutien)
assistindo a um seriado na TV. Ria escandalosamente das piadas contidas no roteiro, quando
a imagem congelou e, escrito em letras azuis em um belíssimo background,
apareceu na tela: informe ao vivo direto da capital
do Zimbábue.
- Ah, que maravilha! Pago o
maior dinheirão para ter uma TV por assinatura e tenho que ver essa porcaria de informe
ao vivo! Pensei que eu estivesse a salvo disso!!!
- ***, a capital do país
africano Zimbábue foi atacada por pessoas que, surpreendentemente, não são nada
humanas, segundo um morador da região. Eles aterrorizaram milhares de pessoas...
- Pôxa! Coitados! O que será
que houve? - de repente, o telefone toca. - Alô? Sim, é ela.
- Minha filha! Como está? -
disse a pessoa que estava do outro lado. Era uma mulher.
- Oi, mãe! Tô legal.
- Seu pai está afli...
- Me deixa falar com ela! -
ouviu a moça - Titamiuska, como está, querida? Viu o que se passou?
- Mas foi lá na África!
- Eu fico preocupado com você.
Se cuida, hein!?
- Tô me cuidando...
- Vê se compra o aparelho com
imagem, Tamya! Para a gente ver como está.
- Tá bom, quando eu tiver
dinheiro, eu compro. É, eu prometo! Não preciso de ajuda.
- Tchau, querida! Um beijo!
- Beijinhos. Manda um pra mãe.
- Desligou o aparelho. - UFA! - o sossego durou pouco. Novamente, o telefone tocou. - Ai,
Deus! Alô, residência da senhorita Naime Kasanova.
- Oi, muchacha!
- Diego! O que você quer?
- Nossa... Quieres una
missãossinha?
- Depende do pagamento...
- Es bastante dinheiro.
- Aceito.
- Puedes venir aqui?
- Aqui onde?
- Onde trabalho.
- Na cidade? Tudo bem. Pra você
também. Tchau!
***
Já fora tantas vezes àquele prédio, mas ainda
sim se impressionava com tamanha magnificência. Titamy ficou olhando para ele com olhos
cintilantes. Entrou após tanta contemplação. Como de costume, ela apertou o botão do
décimo quinto andar do elevador e subiu para ver o que era.
Chegando lá, encontrou um homem de aparência
latina e um homem de aparência distinta, trajados, todos os dois, de terno.
- Buenas tardes, Tamysita.
- Oi, Diego. Senhor Johann.
- Serei direto, Miss Kosanova: quero
contratá-la para encontrar uma pessoa para mim.
- Encontrar alguém? Quem? Onde?
- Você tem que encontrar uma jovem da sua idade
que vive em uma tribo na savana africana.
- Lá não é tão pequeno assim, Sr. Johann...
- Você receberá instruções mais completas
com o Sr. Morales.
- E a despesa de ida?
- Será totalmente paga por mim, senhorita.
- Então, tudo bem... quando faço as minhas
malas?
- Hoje mesmo. Partirá amanhã cedo, às nove.
- Gosto de pessoas objetivas e diretas. -
Titamy.
- Até a sua volta.
- Bom... mas o que faço quando encontrar essa
jovem?
- Implore para que ela a acompanhe.
- Que língua ela fala?
- Não sei, infelizmente.
- Um desafio!? Tudo bem. Até a volta, Sr.
Johann.
***
Titamy andava pelo aeroporto de uma cidade
africana distraída, tentando gravar o nome da jovem que deveria trazer para o Brasil:
Khrista. As coordenadas estavam gravadas em sua mente, assim seria fácil de achar quem
procurava. O que a preocupava era o fato de não saber se Khrista falava alguma língua
que Tamy conhecia ou se usava um daqueles obscuros dialetos africanos.
Em meio a sua distração, ela esbarra em um
rapaz que vinha cumprimentá-la. Rapidamente pediu desculpas por seu ato patético, até
que olhou o rosto de seu interlocutor:
- Louis... é você!?
- Claro que sou eu... parece que não nos vemos
há um tempão...
- Como está, Tafars?
- Bem. O que faz aqui?
- Uma missão. E vc?
- Vim pesquisar algumas formas de vida que
existem aqui, para um trabalho da faculdade. Qual sua missão?
- Não posso revelar. Tenho que ir.
- Até mais!
***
Louis Tafars Soulbright é um estudante de
biogenética da Universidade Tecnológica de Ciências Avançadas - campus do Rio de
Janeiro- a ASTU-RJ (Advanced Sciences Technological University) ou simplesmente
UTecCARJ. Conseguiu um estágio com uma de suas professoras na grande Companhia Mundial de
Estudos Avançados das Ciências Exatas e Biológicas, a conhecida CMEACEB.
Em pouco tempo na empresa, ele já é conhecido
e admirado por altos executivos da mesma, inclusive pelo temido e respeitado Senhor
Johann. Esse mandou que ele fosse até a savana africana procurar uma tribo de nativos que
estariam sofrendo de grave doença. Ele deveria trazer uma família inteira para pesquisa
no Brasil.
Embarcou no mesmo vôo de sua amiga de
infância, a nossa já conhecida Titamy, com sua companheira de pesquisas, Jade. Chegando
à África, após a cena já descrita, eles foram para o hotel e prepararam suas mochilas
para ir à savana.
***
Preparou-se psicologicamente para a aventura que
a aguardava. Um belo guia mulato foi o designado para levá-la à região em que deveria
procurar Khrista. Apresentaram-se e saíram em um jipe.
- Meu nome é Julien, serei o seu guia.
- É necessário apenas que me indique a
direção que eu me arranjo... - conversavam em inglês.
- Não será incômodo levá-la até o local que
o senhor Johann indicou.
- Muito obrigada... É melhor mesmo que vá
comigo para que eu não me perca.
Chegando a determinado trecho do caminho, Julien
pede para que eles saltem do carro para que não houvesse o perigo de atropelarem algum
animal selvagem. Viram famílias de animais que Titamy julgava nunca poder encontrar um
dia na vida.
- Além do mais, não estamos muito longe da
tribo. - Titamy vê um barranco à sua esquerda e decide subir para ver se consegue
enxergar alguma sombra da tribo que procuravam. Nada encontrou, mas Julien apontou para a
esquerda, falando que deveriam andar para frente, mas mantendo a esquerda para que se
encontrasse a tribo de Khrista.
***
Quem olhasse para Louis veria que ele não
estava muito acostumado em andar por matas virgens (mesmo que não fossem fechadas). Não
que ele estivesse escorregando e tropeçando em tudo, mas andava de maneira muito
cautelosa. Jade já ia mais despreocupada, pisando com o pé mais firme no solo.
Andando devagar, eles conseguiam se orientar
pela bússola e iam em frente, com um guia junto deles. Seguindo com vontade e gana, eles
continuaram seu caminho sem queixas, até que Louis avistou Titamy em cima do barranco.
Como não era tolo, sabendo que sua amiga trabalha com excursões onde tinha de enfrentar
desafios parecidos, Louis decidiu segui-la e dispensar seu guia.
***
Ainda com Julien, ela continuou o caminho
indicado por ele, até que sentiu que estava sendo seguida por alguém. Ela logo comunicou
ao seu companheiro e ficava pensando quem poderia ser. "Na certa, algum inimigo do
senhor Johann". Ela se movimentou rapidamente...
***
Acompanhava Titamy com os olhos e com passos que
julgava imperceptíveis, até porque sempre soubera que a amiga não tem uma boa
audição, mas, de repente, ela não estava mais a sua frente. Onde estaria? De repente,
sente alguém cutucando suas costas e vira-se.
- Oi, Tafars!
- Na... Naime!?
- É, sou eu... o que quer?
- Como fez isso?
- Fazendo. O que quer aqui?
- Estou indo fazer minha pesquisa.
- E por que me segue?
- Porque vc tem maior conhecimento em
expedições...
- E vc é um rapazinho da cidade que só sabe
atravessar a rua quando o sinal está vermelho? - Ele a olha de maneira raivosa. - Tô
brincando, Tafars!
- Tá, mas como fez isso?
- Não sei como... - de repente, uma forte luz
azul ofuscu-lhes a visão e apareceram uns seres humanóides, mas que, aparentemente,
estavam apodrecidos, como se fossem zumbis. Os seres avançaram para eles. Todos
começaram a atacar as criaturas, porém elas possuíam uma enorme força sobre-humana.
- Quem são vocês? - Tamy.
- O que são vocês? -
perguntou Louis, enfatizando o vocábulo que, mas as criaturas não respondiam, apenas
atacavam. Julien e Jade não conseguiam fazer nada nem mesmo se defender.
Tamy utilizou de sua enorme velocidade para
ataques-surpresas. Quando olhou para seu amigo, ele conseguia acertar os oponentes, porém
eles eram em maior quantidade. Das pontas dos dedos de ambos, saíram rajadas de energia.
Embora estivessem se saindo bem, a quantidade era um agravante a mais.
Tudo parecia estar perdido...
***
Uma jovem de pele mulata estava acariciando uma
pequena girafa. À sua volta, via-se instalações residenciais longe da sofisticação da
sociedade. Eram abrigos de barro construídos no meio da vegetação, em uma clareira.
Algo parece que a perturba de repente, como se
tivesse lhe dado um insight, uma premonição ou visão. Levanta-se de repente
com decisão.
***
Ainda estavam perdendo, conseguiam livrar-se de
dois ou três, porém cinco se aproximavam. Já estava chegando a um ponto em que tinham
de rezar, quando um forte vento esvoaçou-lhes os cabelos.
No céu, surgiu uma moça vestida de maneira
tribal. Os fios de seus cabelos acompanhavam o vento que soprava a partir de seu corpo.
- Rabwa kilobá! - disse a jovem, ninguém
entendeu o que ela dizia.
Com a chegada dessa moça, Titamy e Louis
sentiram seus poderes especiais aumentaram, sentiram uma força saindo de dentro do peito.
Juntos, os três derrotaram facilmente os inimigos, como se nada fossem. Porém, ao invés
de ficarem caídos e muito feridos ou mortos, eles suniram subitamente.
- Abuabá miribe KHRISTA.
- O que ela disse, Naime?
- Eu não sou intérprete, mas acho que há um
padrão em sua linguagem comparável a uns outros dialetos africanos... acho que ela se
apresentou.
- Pelo que eu conheço da tribo dela, tenho
quase certeza de que ela disse que seu nome é Khrista.
- Ah, tá! Abuabá Miribe TITAMY.
- Abuabá Miribe LOUIS. - Também se
apresentaram Julien e Jade.
- Julien, você fala a língua dela? Pode tentar
convencê-la a vir comigo?
***
Khrista foi à frente para guiá-los até a sua
tribo. Como já foi descrito, era um vilarejo em que as casas eram de barro, longe da
ostentação tecnológica da população urbana. Ela os guiou para o que lhes pareceu ser
a casa de sua família. Do lado de fora da casa, uma pequena girafinha estava amarrada a
uma árvore.
- Puka - disse Khrista, apontando para a girafa.
Dentro da pequena casa de barro, moravam mais 3
pessoas, que lhes pareceram ser os pais e a irmã de Khrista. Balbua, como se apresentou a
mais nova das meninas, era uma pessoa muito alegre, que gostava de brincar com quem lhe
viesse visitar.
***
Observando a casa nativa, Tamy viu uns escritos
em uma espécie rudimentar de papel. Tomou-o em suas mãos e percebeu que era um alfabeto
que misturava símbolos parecidos com letras com ilustrações que indicavam o ocorrido.
Pegou no bolso de seu colete uma pequenina caixa eletrônica, que poderia perceber-se
tratar-se de um reduzido computador. Ela pôs um óculos e um pequeno microfone no rosto e
começou a mandar o computador a fazer algumas pesquisas pela rede mundial de
informações de linguagem, para procurar os padrões que se enquadravam na escrita do
povo de Khrista.
Quando se deu conta, todos estavam olhando para
ela. A família olhou-a com espanto e fascinação. Ela ficou sem graça e pediu
desculpas, que todos entenderam.
No "quintal" da casa, Louis e Tamy se
afastaram do que estavam fazendo.
- Como travaremos relações de comunicação
com eles?
- Estou tentando... mas acho melhor você
continuar seu caminho. Estou próxima de meu destino.
- Não irá me dizer o que faz aqui?
- Desde o momento em que eu trabalho pra
alguém, tenho de respeitar o meu patrão, aquele que me contratou.
- Sim, eu entendo.
***
No período de duas semanas, com ajuda de
Julien, Titamy conseguiu convencer Khrista de que ela era uma pessoa confiável. Também
foi mais fácil quando todos estavam entusiasmados com as novidades que a forasteira
trazia.
Khrista estava muito contente com a sua nova
amiga e, para demonstrar a sua gratidão, mostrou-lhe seus trabalhos científicos. Embora
não tivesse freqüentado escolas nas quais poderia aprender o conhecimento normativo das
ciências, apenas com a observação do ambiente que a circundava, Khrista elaborou
teorias e leis parecidas com aquelas descobertas por grandes nomes da ciência.
Principalmente no campo das exatas.
Com o tempo, perceberam que o povo via-se triste
em ver que sua irmã teria de ir com aquela desconhecida, porém, os pais dela e chefes da
comunidade esclareceram que tudo estava de acordo com as profecias: a deusa em vida
daquele povo tinha de ir, para buscar novos conhecimentos para que aquele povo conseguisse
crescer.
Perante tal profecia e os outros fatores já
apresentados, Khrista sentiu-se na obrigação de despedir-se de seu povo.
***